Spa Francorchamps. Essas duas palavrinhas significam velocidade, clima instável e emoção nesses 75 anos de F1. Contudo, se os dois primeiros adjetivos apareceram nesse final de semana belga, a terceira parte ficou em falta. O belíssimo traçado ainda emociona pilotos e público, com curvas históricas e de tirar o fôlego de quem está no carro e assistindo. A esperada chuva deu às caras e atrasou em mais de uma hora a largada, muito pelos problemas técnicos dos carros atuais da F1, que causou até a farsa de 2021. No entanto, a corrida em si ficou longe de empolgar para quem assistiu. Nem mesmo o sensível momento de trocar pneus intermediários para slick ainda no primeiro terço de prova fez com que a corrida tivesse alguma emoção mais forte. E falando em anti-empolgação, Oscar Piastri aprendeu bem a lição de sábado na Sprint e após a bobeada (mais uma) de Lando Norris na largada lançada, o australiano ultrapassou facilmente o companheiro de equipe para administrar a corrida por inteiro e frear a reação de Norris no campeonato, que é colorida pelas cores papaia.
A esperada chuva apareceu em Spa no domingo, após dois dias de piso seco e relativa calmaria. A corrida da F3 foi suspensa e no momento da largada da F1, a pista estava encharcada. Por contrato a volta de apresentação ocorreu na hora marcada e no final dela os carros já estavam de volta aos boxes, com a bandeira vermelha à mostra, enquanto a chuva aumentava. Sim, mais uma vez a F1 mostrou sua alergia à chuva. Atrasos de largada SEMPRE aconteceram na história da F1, mas ao contrário do fato mais simplório de acusar os pilotos atuais de falta de coragem, o que acontece nos atrasos atuais são dois problemas técnicos dos carros. O primeiro é o assoalho soprado, que em asfalto molhado cria uma nuvem de spray que torna a visibilidade praticamente nula para quem vem atrás dos carros, como Lando Norris falou via rádio nesse domingo. Outro ponto é o pneu de chuva forte da Pirelli, que tem a mesma serventia de um fósforo a prova de fogo. Pilotos e equipes usam os pneus intermediários como limite de aderência, pois o famoso pneu 'azul' é mais folgado que colarinho de palhaço e ninguém quer usar. Após oitenta minutos de atraso e já com sol sobre Spa, a largada foi autorizada atrás do Safety-Car. No sábado Piastri largara na pole e fora ultrapassado por Max Verstappen na primeira volta da Sprint, facilmente superado na briga por vácuo na longa reta Kemmel. Apesar de muito jovem, de bobo Piastri não tem nada e mesmo tendo lamentado muito a derrota na classificação no sábado, sabia que poderia usar a mesma tática do neerlandês no domingo. Já está se tornando folclórico os vacilos que Lando Norris dá quando larga na ponta e hoje o inglês repetiu seus 'feitos' ao acelerar cedo demais, permitindo que Piastri o perseguisse muito de perto os primeiros metros valendo do Grande Prêmio da Bélgica. Após fazer a Eau Rouge colado em seu companheiro de equipe e debaixo de muito spray, Piastri colocou de lado na Kemmel e com muita facilidade, tomou a ponta da corrida. Cópia carbono (os mais velhos saberão do que estou falando) do que acontecera no sábado, mas com Piastri sendo o beneficiado.
Para complicar as coisas para Lando Norris, a pista já tinha pontos secos e com o sol do lado de fora, o asfalto secaria rapidamente. Com Piastri na ponta, ele teria a prioridade na hora sempre vulnerável de se colocar pneus slicks com a pista ainda úmida. Um dos pilotos mais rápidos dos que largaram mais atrás, Lewis Hamilton abriu os trabalhos para colocar os slicks, dando o sinal de que havia chegado a hora de fazer a troca. Com a dupla da McLaren separada por menos de 2s, o parada dupla não era possível, portanto, Piastri entrou nos boxes para colocar slicks, com Norris tendo que esperar uma volta para calçar slicks. A diferença que era em torno de 2s subiu para 8s, mas a disputa entre os dois discípulos de Zak Brown não havia terminado totalmente. Com os rivais novamente longe, Norris resolveu arriscar e ao invés de seguir o que todo pelotão fez, que foi colocar pneus médios, saiu dos pits com pneus duros, dando um claro sinal a todos: não pararia mais. Mesmo com uma bela vantagem nas mãos, Piastri precisou administrar seus pneus o resto da prova e o próprio australiano chegou a duvidar se seria possível ir até o fim com os pneus médios. E foi nisso que o nível da corrida caiu demais. Com praticamente todo o pelotão com pneus médios, todos precisaram administrar a borracha, pegando leve se quisesse chegar até o fim. Se alguns pilotos não conseguiram, boa parte de quem largou entre os dez primeiros conseguiu, incluindo Piastri e sua McLaren, que é conhecida por tratar bem a borracha da Pirelli. Sem maiores arroubos, Oscar Piastri venceu pela sexta vez em 2025 e voltou a abrir uma boa vantagem para Lando Norris no campeonato. Depois da corrida, Piastri comemorou como sempre, ou seja, sem esboçar qualquer expressão de alegria, enquanto Norris estava chateado por perder uma corrida que estava em suas mãos e por (mais um) vacilo dele, Lando acabou derrotado. Uma vitória em Spa, a terceira consecutiva, seria decisiva para Norris, mas em mais um momento 'clutch', Lando valeu seu maldoso apelido de 'Dando Mollis'. Enquanto isso, Piasti vibrava e mais ainda a McLaren, que conquistava sua primeira dobradinha em Spa em muitos anos e consolida um bicampeonato no Mundial de Construtores, só faltando a confirmação matemática.
Com a dupla da McLaren lá na frente de forma imponente, Charles Leclerc fez uma prova bem aguerrida, onde se não teve a mínima condição de atacar os pilotos da frente, segurou como pôde um ameaçador Max Verstappen. Com pista molhada, Leclerc fez um enorme favor à McLaren ao segurar Verstappen numa situação onde o piloto da Red Bull poderia fazer a diferença frente a inferioridade técnica que tem no momento, mas Leclerc não se fez de rogado e segurou Max até a única parada deles. Ambos saíram no meio do trânsito de carros mais lentos por estarem calçados com pneus intermediários, fazendo com Charles e Max ficassem colados, além de receberem a pressão de Russell, que ultrapassara Albon ainda quando a pista estava molhada e parara uma volta antes. Os três chegaram a andar colados, mas não houve trocas de posições entre eles. No fim, Russell perdeu contato com Leclerc e Verstappen, ficando isolado na quinta posição. Verstappen chegou a usar o DRS contra Leclerc, que quando avisado pelo engenheiro, encarnou Kimi Raikkonen e soltou 'leave me alone'. Charles fez um bom trabalho e administrando os pneus, segurou Verstappen rumo a mais um pódio. A nova suspensão traseira da Ferrari funcionou bem em sua estreia em situação de corrida e Lewis Hamilton fez uma bela corrida de recuperação, principalmente quando a pista estava molhada, ganhando várias posições no processo. Sendo o primeiro a visitar os pits para colocar pneus slicks, Hamilton ganhou muito tempo e pulou para sétimo, mas empacando atrás de Albon. Mesmo não podendo atacar a Williams de Alex por mais da metade da corrida, as onze posições ganhas de Hamilton lhe garantiu uma das suas melhores corridas na Ferrari até o momento.
Se a dupla da Ferrari conseguiu bons pontos em Spa, o mesmo não se pode falar de Red Bull e Mercedes. Tsunoda largou entre os dez primeiros e tinha boas chances de pontuar, mas ao esperar Verstappen fazer sua parada, perdeu terreno e saiu da zona de pontuação. Empacado num trem de DRS, Tsunoda ainda foi ultrapassado por Bearman e nas voltas finais por Hulkenberg, terminando numa opaca 13º posição. Mais uma atuação ruim do pequeno nipônico, que vê sua situação dentro da Red Bull se complicar cada vez mais. Já Antonelli teve um final de semana de chorar. Literalmente. Após se emocionar após de mais uma péssima classificação, o jovem italiano não impressionou durante a corrida e não esteve perto da zona de pontuação, acabando empacado atrás de Ocon na 16º posição, após ter sido um dos que pararam duas vezes. Outra corrida ruim de Antonelli já faz aumentar a pressão sobre o italiano e questionamentos surgem se Kimi entrou cedo demais numa equipe grande na F1. Albon confirmou sua ótima classificação e se manteve nos pontos o tempo inteiro, só sendo ultrapassado por Russell no começo da prova, mas suportando bem a pressão de Hamilton nas voltas finais. Albon marcou bons pontos para a Williams depois de uma fase menos boa da tradicional equipe, mas assim como outros times, a Williams só pôde contar com um carro, pois Carlos Sainz esteve longe de brilhar e terminou numa horrorosa 18º posição.
A Racing Bulls também seguiu essa toada, só que com o piloto inesperado. Se até o meio do ano Hadjar vinha superando de forma sistemática Liam Lawson, em Spa os dois tiveram destinos diferentes, mesmo tendo largado juntos e antes da parada estivessem muito próximos, mas se Lawson cresceu com pneus slicks, a corrida de Hadjar foi por água abaixo e o francês terminou em último, único a tomar uma volta numa corrida sem abandonos, algo surpreendente com um quarto de prova realizado com pista molhada. Lawson sofreu a pressão de Gabriel Bortoleto, que mostrou bastante personalidade nesse domingo. Sempre entre os dez primeiros, Bortoleto viu Hulkenberg se sobressair inicialmente pela estratégia, quando o alemão parou junto de Hamilton e pulou para nono, logo à frente de Gabriel. Com mais ritmo, Bortoleto exigiu a troca de posições e a Sauber aquiesceu com o pedido, que logo se mostrou coerente. Se Gabriel não conseguiu atacar Lawson, ele abriu grande vantagem sobre Hulkenberg, que precisou fazer uma segunda parada e saiu da zona de pontos, enquanto Bortoleto manteve a ótima sequência da Sauber nos pontos. Com Hulkenberg tendo que fazer uma segunda parada, quem se aproveitou disso foi Pierre Gasly, garantindo mais um pontinho para a Alpine, onde o francês sempre teve alguém lhe fustigando, mas Pierre fez um bom trabalho para segurar o ímpeto de Bearman, Tsunoda e quem mais estivesse lhe atacando. A Haas esteve próxima de pontuar com Bearman, mas o inglês não conseguiu ultrapassar Gasly, enquanto a Aston Martin, que ficou com as últimas posições na classificação, estiveram longe de pontuar.
Não foi das corridas mais emocionantes que Spa já viu, mesmo com a chuva dando as caras como já ocorreu inúmeras vezes em que a tradicional pista belga recebeu a F1, mas como a F1 segue uma estrofe da música 'Súplica cearense' de que se for para pedir para chover, que chova de mansinho, umas gotas a mais transforma qualquer corrida num caos e expõe-se ao ridículo de uma categoria que parece ter medo da chuva. Se Piastri precisava responder à recente boa fase de Norris, num dos poucos momentos de briga na corrida, o australiano superou o companheiro de equipe e voltou a abrir no campeonato, que tende cada vez mais a ser uma disputa particular entre a dupla da McLaren.
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