sexta-feira, 31 de março de 2017

História: 15 anos do Grande Prêmio do Brasil de 2002

Entre as corridas na Malásia e no Brasil, todas as equipes, com exceção de Minardi e Arrows, fizeram testes na Europa. Enquanto tentava melhorar a confiabilidade do novo F2002, Michael Schumacher e Rubens Barrichello superaram Williams e McLaren com larga vantagem, mesmo que o tempo marcado tenha sido pior do que o melhor tempo da pré-temporada, marcado pela McLaren de Wurz. Esse fato passou desapercebido na época. Ainda com receio da confiabilidade do novo carro, mas querendo colocar o F2002 para disputar contra o Williams FW24, a Ferrari decidiu levar apenas um modelo novo para Interlagos e ele seria entregue à Michael Schumacher, causando um enorme burburinho no Brasil, pois Rubens Barrichello, correndo em casa, ficaria com o modelo de 2001, que levou uma surra da Williams na Malásia. O calor malaio tinha ajudado Ralf Schumacher e Juan Pablo Montoya conseguir a dobradinha da Williams e se não chovesse, São Paulo costumava ser bastante quente em março.

Juan Pablo Montoya ficou com a sua primeira pole position de 2002 à frente de Michael Schumacher e seu colega de equipe Ralf Schumacher. David Coulthard conseguiu ser o melhor do resto, superando seu companheiro de equipe Kimi Raikkonen, que lutou com problemas no seu carro, enquanto Jarno Trulli conseguiu colocar a Renault em 6º, apenas 0.016s atrás de Kimi Raikkonen. Jenson Button foi regular e foi o 7º mais rápido. Chateado com a condição que lhe foi imposta pela Ferrari, Rubens Barrichello foi punido por ignorar um sinal vermelho na saída dos boxes e teve que se contentar com a 8º posição. Nick Heidfeld na Sauber ficou um pouco distante de Barrichello em 9º com Mika Salo impressionante mais uma vez ao colocar a Toyota no top-10.

Grid:
1) Montoya (Williams) - 1:13.114
2) M.Schumacher (Ferrari) - 1:13.241
3) R.Schumacher (Williams) - 1:13.328
4) Coulthard (McLaren) - 1:13.565
5) Raikkonen (McLaren) - 1:13.595
6) Trulli (Renault) - 1:13.611
7) Button (Renault) - 1:13.665
8) Barrichello (Ferrari) - 1:13.935
9) Heidfeld (Sauber) - 1:14.233 
10) Salo (Toyota) - 1:14.443

O dia 31 de março de 2002 amanheceu com muito sol e calor em Interlagos, condições que pareciam favoráveis à Michelin e a Williams, mas no warm-up, Schumacher e a Ferrari resolveram blefar, andando com pneus usados, mas ainda marcando o melhor tempo. Porém, o que todos lembram daquele warm-up foi a presepada da organização do Grande Prêmio do Brasil. Enrique Bernoldi bateu forte na Curva do Sol e seu Arrows estava em chamas, mas o brasileiro estava bem. Porém, o carro médico chegou à cena para resgatar Bernoldi, contudo, haviam apenas bandeiras amarelas no local e Nick Heidfeld pensou que não era nada demais. O alemão desviou para dentro, escapando da Arrows, mas deu de cara com a porta aberta da Mercedes do carro médico, destruindo a suspensão dianteira da Sauber e a porta da Mercedes. Enrique Bernoldi colocou as mãos na cabeça e todos pensaram no pior, mas Alex Dias Ribeiro escapou por pouco e tudo passou sendo um enorme susto. Com tudo em ordem, a largada foi dada e Schumacher se vingou do passadão que levou de Montoya no ano anterior e tomou a primeira posição com decisão. Tentando recuperar a posição, o colombiano da Williams acabou tocando a traseira de Michael, quebrando sua asa dianteira. Numa cena dantesca, enquanto voltava aos boxes na primeira volta, Montoya ainda viu uma pipa (com a bandeira da Grã-Bretanha) ficar enganchada na sua asa traseira.

Com toda essa movimentação, Ralf Schumacher subia para segundo, seguido pelos carros da Renault, que pularam à frente das duas McLarens. Quando marcou o melhor tempo no warm-up, Schumacher queria dar a impressão que não tinha carro para enfrentar as Williams e por isso pararia duas vezes. Porém, quem estava com essa estratégia era a outra Ferrari. Numa recuperação impressionante e empolgante, Barrichello pulou de oitavo do grid para segundo em apenas cinco voltas, levantando público presente, mas imediatamente denunciando que pararia duas vezes. Na volta 13, o brasileiro levou o público ao delírio ao assumir a liderança da corrida, com a benção de Schumacher. Quando as duas Ferraris ficaram lado a lado, ficaram nítidas as diferenças entre os dois carros. Assim como as sortes dos seus pilotos. Logo depois de liderar sua corrida caseira, Barrichello abandonou com o velho problema hidráulico, que tanto lhe atrapalhou nos primeiros anos de Ferrari. O brasileiro acenou para a torcida e lentamente voltou aos boxes contando com outro azar em casa. Mais atrás, Fisichella explode o motor espetacularmente, deixando o italiano no zero em 2002.

A diferença entre os dois irmãos Schumacher era de 9s quando chegou o momento dos pilotos que parariam duas vezes visitarem os boxes. Porém... nada de Michael! O alemão da Ferrari estava com a mesma estratégia da Williams, fazendo com que Ralf aumentasse o seu ritmo. Mais atrás, Trulli era terceiro, com Coulthard, que havia ultrapassado Button, logo atrás. O escocês tentou ultrapassar Trulli várias vezes, mas o combativo italiano segurou a McLaren o quanto pôde, mas quando McLaren e Renault fizeram suas paradas, não apenas Coulthard como também Raikkonen emergiram na frente da Renault, enquanto Montoya já aparecia atrás de Button, tentando brigar para marcar pelo menos um ponto. Lá na frente, o blefe da Ferrari estava funcionando a contento. Na volta 39 Michael fez sua única parada, enquanto a Williams postergou ao máximo a parada de Ralf, que fez seu pit-stop seis voltas mais tarde, mas o alemão voltou atrás do seu irmão, mesmo que mais próximo.

Era esperado uma luta entre os dois irmãos pela vitória. Ralf chegou a encostar, mas foi o máximo que o piloto da Williams. Mesmo claramente mais rápido, Ralf estava naqueles dias de 'half' Schumacher, onde era apenas uma parte do que seu irmão podia fazer. Para impaciência de quem assistiu aquela corrida, Michael não teve muito trabalho para derrotar seu irmão, que tentou duas vezes a ultrapassagem de forma tímida, mas preferiu garantir o segundo lugar. Na bandeirada, outro momento pastelão do dia. Pelé iria dar a bandeirada, mas bem no momento em que os irmãos Schumacher apontaram na reta, o Rei se virou e simplesmente não deu a bandeira para o vencedor, sendo piada por muito tempo por aqui.  Demonstrando a falta de ritmo da McLaren em acompanhar os líderes, Coulthard recebeu a bandeirada em terceiro lugar de um minuto atrás. Quando faltavam dez voltas, o motor de Trulli quebrou e logo depois foi a vez de Raikkonen rodar, após uma quebra na suspensão. Quem se aproveitou disso foi Button, que pulou para quarto, mas tendo que se defender de Montoya, que terminou em quinto, após o segundo toque consecutivo no carro de Schumacher. Levando sua Toyota aos pontos mais uma vez, Mika Salo fechava a zona de pontuação. A Ferrari mostrava que seu novo carro funcionava mesmo em condições mais favoráveis às rivais. Porém, o campeonato estava apenas no começo e a F1 se mudava para a Europa, onde as temperaturas era mais amenas. Onde a Ferrari havia colocado muito tempo nas rivais dias antes. Era o começo de um massacre e de uma das temporadas mais enfadonhas e marcantes da história da F1.

Chegada:
1) M.Schumacher
2) R.Schumacher
3) Coulthard
4) Button
5) Montoya
6) Salo 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Figura(AUS): Sebastian Vettel

Sebastian Vettel viveu os extremos que é ser piloto da Ferrari. Em seu primeiro ano com os italianos, as três vitórias lhe garantiram uma temporada de lua de mel com os tifosi. Promessas foram feitas, inclusive de título. Foi o que bastou para que Vettel caísse na vala comum das críticas, com um 2016 apagado e sem vitórias. Vettel permaneceu em silêncio e mesmo a Ferrari se mostrando muito forte na pré-temporada, o alemão preferiu ficar quieto e trabalhando. Seb viu seu companheiro de equipe marcar o melhor tempo de Barcelona, claramente assustando a dominadora Mercedes, mas Vettel preferiu atribuir o favoritismo aos compatriotas, que parecia se confirmar com a pole tranquila de Hamilton na classificação em Melbourne. A diferença foi ver Vettel na primeira fila. O alemão largou bem, manteve a posição na primeira curva, mas se era esperado Hamilton ir embora para mais uma vitória, como havia acontecido nos últimos três anos, se enganou redondamente. Vettel seguiu Hamilton de perto, mesmo o inglês claramente andando no limite. Tão no limite que Lewis parou mais cedo do que o normal, enquanto Vettel permaneceu na pista e com um ritmo forte, teve a sorte de Hamilton ficar empacado atrás de Verstappen e voltou à pista após seu único pit-stop bem à frente da Mercedes. Com pista livre à frente, Vettel não deu chance a qualquer reação de Hamilton. Foi uma vitória genuína de Vettel e da Ferrari. Na pista, não precisando da sorte ou azares da Mercedes. Um bom sinal para Vettel, que poderá brigar ferrenhamente com Hamilton pelo consagrador quinto título esse ano.

Figurão(AUS): Kimi Raikkonen

Durante a pré-temporada, Kimi Raikkonen mostrou que a Ferrari seria uma força a ser reconhecida ao marcar o tempo mais rápido de Barcelona, usando pneus mais duros que os da Mercedes. Com um carro mais à feição de Kimi por causa do novo regulamento, finalmente o finlandês poderia fazer uma oposição mais séria frente ao seu companheiro de equipe Sebastian Vettel. Puro engano. Como nos anos anteriores ao lado de Vettel, Raikkonen ficou na sombra do alemão, sendo sempre mais lento do que Sebastian. Na corrida essa diferença se acentuou. Enquanto Vettel ia para cima de Hamilton e tiraria o inglês da ponta na base da estratégia de parada, Raikkonen sequer atacava o seu compatriota Valtteri Bottas pela terceira posição, na segunda Mercedes. Pior. Quando colocou os pneus macios, Raikkonen viu a aproximação de Max Verstappen na Red Bull, que se mostrou muito atrás de Ferrari e Mercedes nesse início de campeonato. Tomando mais de vinte segundos do vencedor e companheiro de equipe, Raikkonen, que venceu essa prova dez anos atrás, no ano do seu único título, poderá estar logo, logo se conformando com o status de segundo piloto, se confirmar-se a briga entre Ferrari e Mercedes. Muito pouco para um campeão mundial. 

domingo, 26 de março de 2017

Que pena...

Em meio a um final de semana que teve as estreias da F1 e da MotoGP, o automobilismo brasileiro lamentou a morte de Alfredo Guaraná Menezes, aos 64 anos de idade. Um dos melhores pilotos do Brasil na década de 1970, Alfredo chegou a ser rival de Nelson Piquet na F-Super Vê, mas ao contrário do carioca, Menezes preferiu ficar no Brasil, onde correu até meados dos anos 1990, sendo grande apoiador de Helio Castroneves. Porém, o maior feito de Alfredo Guaraná Menezes não foi no Brasil. Com boa experiência em provas de Endurance, Guaraná foi sétimo colocado nas 24 Horas de Le Mans com um Porsche 935 (segundo na sua categoria), ao lado de Paulo Gomes e Marinho Amaral. Uma pena...

Top Gun

Num dos finais de semanas mais conturbados dos últimos tempos, a MotoGP começou 2017 confirmando que Maverick Viñales, cujo nome foi inspirado no personagem Maverick do filme Top Gun, é mesmo um dos favoritos ao título desse ano, apesar de estar apenas estreando na Yamaha esse ano. O espanhol fez uma prova madura e soube superar uma má largada, as condições traiçoeiras da pista de Losail para superar Andrea Doviziozo e vencer em sua primeira corrida numa equipe com boas condições de vitória.

Se há algo que ninguém espera no deserto é chuva. E chuva forte. Mesmo construído com dinheiro a rodo, o circuito de Losail não foi pensado em enfrentar chuva e talvez por causa disso, ninguém pensou em construir um sistema de drenagem mínimo para comportar qualquer chuvinha que seja, mesmo que em Doha chova menos de dez dias por ano. O resultado disso foi o vexame visto nesse final de semana, onde a menor garoa fazia com que a pista ficasse impraticável, cancelando os treinos de sábado e atrasando a largada da MotoGP. Isso fez com que a Sportv passasse um mico, para quem viu, histórico. Logo depois da corrida, em horário normal, iria ter um jogo de vôlei. O atraso fez com que, bem na hora da largada, a corrida fosse interrompida para começar... um documentário sobre o Manchester United. Quando as Redes Sociais passaram a esculachar, alguém com bom senso resolveu trazer a MotoGP de volta e atrasando o vôlei, mesmo que perdêssemos quase metade da corrida.

Voltando a corrida, Viñales não largou bem e chegou a estar em quinto, ainda tateando uma pista escorregadia, que vitimou Johan Zarco. O francês fazia uma estreia de sonho com a Yamaha Tech 3 e liderava com decisão, quando caiu. Maverick ganhou uma posição e partiu para cima do trio que liderava, na ordem, Doviziozo, Iannone e Márquez. Mesmo montado numa moto menos selvagem do que a Ducati, Iannone mostrou o porquê foi preterido pelo o seu xará Doviziozo. Andando rápido, Iannone caiu sozinho, estragando a boa estreia que fazia pela Suzuki. Viñales já tinha passado Márquez e partia para cima de Doviziozo. Numa bela corrida de recuperação, Rossi saía da décima posição do grid para quarto, andando no mesmo ritmo do companheiro de equipe. Maverick partiu para cima de Dovi, que sempre andou bem em Losail e vinha de dois segundos lugares na pista. Viñales foi com tudo para a vitória, mas logo percebeu o motivo do bom desempenho de Doviziozo: o motor Ducati.

Era impressionante como Doviziozo engolia Viñales quando chegava na reta dos boxes, mas no momento em que o piloto da Yamaha conseguiu equilibrar a melhor ciclística da Yamaha no miolo do circuito, o espanhol segurou o rojão de Doviziozo na reta e deixou o italiano em segundo pela terceira vez consecutiva em Losail. Rossi chegou em terceiro e deu uma verdadeira lição nos seus rivais. Márquez este irreconhecível e chegou apenas em quarto, com o não menos opaco Daniel Pedrosa já próximo. O espanhol da Honda correu o risco de ter chegado atrás da Aprilia Aleix Espargaró, uma moto sem potência, mas pilotada com maestria por Espargaró. E Lorenzo? O espanhol da Ducati teve uma estreia terrível, chegando a correr em 13º e terminando duas posições à frente, enquanto seu companheiro de equipe brigava pela vitória. Nem a segunda Ducati Lorenzo conseguiu ser, superado pelo piloto privado Scott Redding. 

Rossi teve uma pré-temporada ruim, largou apenas em décimo e conseguiu uma corrida magnífica, chegando no pódio, enquanto Márquez, Pedrosa e Lorenzo pareceram desistir no menor dos obstáculos. O caso de Lorenzo é ainda mais emblemático. Ninguém pode duvidar do talento de Jorge, mas correndo com uma moto complicada, será muito difícil Lorenzo demonstrar a confiança de outrora. 

Confiança que parece sobrar em Maverick Viñales. O moleque foi soberbo na corrida de hoje, sabendo atacar quando podia, driblando a potência da Ducati e sabendo-se livrar de pilotos fortes, como Márquez. Mavarick começou 2017 demonstrando que as velhas raposas da MotoGP tem novo concorrente faminto por vitórias.   

Mais equilíbrio. Menos emoção

Durante os últimos três anos, a reclamação era grande quanto ao produto que a F1 estava entregando. As corridas não eram tão ruins, porque haviam ultrapassagens, mas com a Mercedes dominando de forma esmagadora, o tédio só não foi maior pela intensa rivalidade entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg. Com a mudança de regulamento, pode-se dizer que o status quo se inverteu. A Ferrari cresceu e derrotou a Mercedes na pista, sem problemas da equipe tedesca, como aconteceu nos últimos anos quando a Mercedes foi derrotada. Porém, a corrida deve ter tido umas três ou quatro ultrapassagens e as emoções foram escassas, com exceção talvez para a Ferrari e Sebastian Vettel, que venceram com méritos a primeira prova de 2017.

Muito se dizia que o vencedor da corrida seria quem contornasse na frente a primeira curva da corrida, mas não foi bem isso o que aconteceu. Após conseguir a pole com certa facilidade, Hamilton superou os fantasmas de suas más largadas e parecia que repetiria os outros anos, vencendo com o pé nas costas. Ledo engano. Ainda na segunda volta ficou claro que a Ferrari tinha mais ritmo e Vettel passou o primeiro stint colado no inglês, claramente esperando a única rodada de paradas para superar Hamilton. O piloto da Mercedes parou relativamente cedo, enquanto Vettel manteve-se na pista por mais tempo, mostrando o equilíbrio da Ferrari e o menor desgaste de pneus. Para completar, Hamilton ficou empacado atrás de Verstappen, que já era difícil de ultrapassar ano passado, com os novos carros, ficou ainda mais. Vettel venceu a corrida quando saiu dos boxes na frente de Verstappen e Hamilton, disparando para uma vitória tranquila, onde apenas esperava a parada de Hamilton para conseguir o triunfo. Não foi das vitórias mais emocionantes da vida de Vettel, mas o alemão tem muito o que comemorar. Com um carro, no mínimo, do nível da Mercedes, Vettel tem ótimas chances de brigar pelo título, ainda mais se Raikkonen repetir a corrida opaca de hoje. Kimi foi o piloto mais rápido da pré-temporada, mas em nenhum momento Raikkonen saiu do quarto lugar, sem atacar os pilotos da Mercedes e ainda teve que  suportar a sempre incômoda presença de Max Verstappen nos seus espelhos retrovisores nas voltas finais. Com o companheiro de equipe controlado, Vettel tem tudo para ser a aposta da Ferrari na difícil luta pelo título que se avizinha com a Mercedes.

Quando dominou amplamente a F1 nos três últimos anos, a Mercedes pode ceder que seus pilotos brigassem pelo título abertamente, culminando com o belo título de Rosberg em 2016. Com a Ferrari tão próxima ou, como os dez segundos de margem que Vettel venceu a corrida de hoje sugerem, até mesmo à frente, Toto Wolff e Niki Lauda deverão ter que escolher um piloto para enfrentar Vettel da Ferrari. A escolha natural seria Hamilton, que andou no limite para segurar a Ferrari enquanto esteve em primeiro, mas nessa primeira corrida em Melbourne, também ficou claro que a diferença entre os pilotos da Mercedes é menor em comparação à Ferrari. Bottas fez uma estreia consistente, onde teve um ótimo ritmo de corrida, principalmente com os pneus macios, sendo mais rápido do que Hamilton e até ensaiando uma aproximação. Após anos dominando a F1, a frustração de perder a corrida na pista, demonstrada pelo soco de Wolff na mesa quando Vettel saiu dos boxes na frente, coloca a Mercedes numa nova situação e será interessante ver como os alemães se sairão. Não restam dúvidas do poderio da Mercedes, mas com certeza Wolff, Lauda, Hamilton e cia saíram de sua zona de conforto em 2017.

A grande decepção do final de semana foi a Red Bull. Como o novo regulamento deu uma maior importância para a aerodinâmica, era esperado que Adryan Newey pudesse projetar outro grande carro. O desempenho discreto na pré-temporada poderia indicar uma velha escondida de jogo, mas o primeiro final de semana de corrida mostrou a Red Bull isolada como terceira força do campeonato. Para piorar, o time ainda tem que melhorar a confiabilidade, que fez o piloto da casa Daniel Ricciardo largar com voltas de atraso e ainda abandonar mais tarde. Max Verstappen se mostrou frustrado o final de semana inteiro, mas o holandês ainda tentou uma aproximação em cima de Raikkonen no fim, contudo Max acabou mesmo em quinto, que é hoje o lugar da Red Bull. Se a Williams pintou como possível surpresa em Barcelona, na primeira corrida para valer o time de Felipe Massa ficou a um abismo das três grandes, tomando mais de um minuto do vencedor de Vettel, se colocando em sexto, lugar que seria de Ricciardo se o australiano não tivesse tantos problemas. Massa fez uma corrida correta e discreta, o mesmo não acontecendo com Stroll. O canadense escapou de um acidente na largada, onde se jogou com tudo na primeira curva, mas Lance fazia uma corrida honesta até ter problemas. Veremos onde o novo 'riquinho' da F1 poderá ir, mas até agora o jovem canadense está bem aquém do seu veterano companheiro de equipe.

A Haas tinha tudo para brigar com a Williams como a melhor do resto na figura de Romain Grosjean, mas o francês foi o primeiro abandono do dia, fazendo Grosjean colocar as mãos na cabeça por causa da oportunidade perdida. Kevin Magnussen se envolveu num acidente por culpa dele na primeira volta com Marcus Ericsson e chegou em último. Muito pouco para o danês, que completa a terceira temporada com a terceira equipe diferente sem se firmar. Atrás de Massa ficou a briga entre Force India e a Toro Rosso. Kvyat foi o último a parar e com pneus ultramacios no fim, pressionou Pérez, mas o mexicano da Force India segurou o ímpeto do russo para ser sétimo. Sainz chegou logo atrás do companheiro de equipe, enquanto Esteban Ocon se aproveitou de um problema de Alonso no fim para pontuar pela primeira vez na carreira. Boa corrida do francês. A Renault decepcionou em sua primeira corrida, com Nico Hulkenberg chegando colado em Ocon, enquanto Palmer teve vários problemas de freios até abandonar. Se serve de consolo, a montadora francesa está no bolo das equipes que ficarão entre sétimo e vigésimo até o fim da temporada e com mais investimento para desenvolver o carro, a Renault terá maiores chances de evoluir.

Quem também tem muito dinheiro para investir, mas parece não sair do lugar é a Honda. Para quem viu a pré-temporada, a corrida da McLaren foi até aceitável pelo desastre visto em Barcelona, mas é muito, muito pouco para o potencial da McLaren, de Fernando Alonso e da Honda. Pela terceira temporada consecutiva, a McLaren sofrerá o pão que o diabo amassou, enquanto Alonso deve estar pensando na vida e na carreira. Dez anos atrás, ele estreava na McLaren com um pódio e um projeto de longo prazo para dominar a F1. Ao seu lado estava o novato Lewis Hamilton. Dez anos se passaram e o inglês, com quem brigou dez anos atrás, já tem três títulos e brigará pelo quarto esse ano, enquanto Alonso, mesmo reconhecido como um dos grandes, tem apenas dois títulos e pontuar será uma luta. A Sauber fez seu papel de pior equipe da F1 e Antonio Giovinazzi estreou bem, vide a forma como o italiano teve que fazer sua primeira corrida na F1, entrando no lugar do machucado Pascal Werhlein de última hora. Os erros vistos na transmissão da classificação se repetiram na corrida, onde muitas vezes ficávamos sem as informações de tempo e posição dos pilotos, além de alguns erros de caracteres. Seria praga de Bernie?

A F1 começou de cara nova. A Ferrari bateu a Mercedes porque foi superior. Simples assim. Vettel não largou melhor do que as Mercedes ou se aproveitou de um algum problema, seja ele mecânico ou humano, da equipe da montadora alemã. O alemão foi lá e venceu a Mercedes. A briga promete ser titânica entre essas duas gigantes do automobilismo, não se esquecendo que a Red Bull tem uma enorme capacidade de desenvolvimento, como vimos ano passado. Não devemos esquecer também que Melbourne é um circuito de rua, portanto, peculiar à grande maioria das pistas que teremos no calendário. O ano de 2017 tende a ser mais competitivo, mas com poucas ultrapassagens e corridas soníferas. 

sábado, 25 de março de 2017

Domínio, mas nem tanto

Há uma lenda que diz, mudando radicalmente o regulamento da F1, a equipe dominadora de antes se perde e não vence mais. Porém, a Mercedes mostrou que esses tabus estão aí para serem quebrados e com organização, investimento e talento, o time das três pontas ainda se mantém na ponta em 2017, mesmo que o domínio mostrado nos últimos tempos não está tão claro assim. A Ferrari de Vettel se meteu entre os dois carros prateados e largará ao lado do pole Hamilton amanhã em Melbourne, enquanto Bottas terá que se conformar com a terceira posição, numa classificação que mostrou muita coisa do que será essa temporada.

Com a saída da Manor, a noção de quem tem o pior carro ficou mais difícil. Na verdade, após as três equipes grandes, há uma briga de foice no escuro envolvendo as demais equipes e nos treinos de hoje, foi comum uma grande diferença entre pilotos da mesma equipe. O péssimo Jolyon Palmer, que bateu durante os treinos livres, foi o último colocado, enquanto Nico Hulkenberg arrancava um ótimo quinto lugar no Q1. O novato Lance Stroll bateu no terceiro treino livre e com o carro ficando pronto às pressas, foi outro que ficou pelo caminho no Q1, bem longe de Felipe Massa. Magnussen foi outro que tomou muito tempo do seu companheiro de equipe, Grosjean. A McLaren não sofreu como o esperado após uma pré-temporada próxima do ridículo, mas Alonso não tem muito o que comemorar o fato do carro não ter quebrado, pois a velocidade não estava lá. E Vandoorne teve problemas no Q1 e ficou pelo caminho.

O Q2 viu a saída surpreendente da Force India e seu carro róseo, mas a diferença entre o sétimo e o décimo quinto foi relativamente pequena. Talvez Sauber e McLaren não tivessem condições de ir ao Q3, mas as demais equipes sim. Do pelotão intermediário, apenas a Toro Rosso levou seus dois carros ao Q3, com Sainz e Kvyat andando relativamente próximos. Hulkenberg e seu belo Renault também ficou pelo caminho. Grosjean, numa belíssima volta, foi o melhor do resto e se havia a expectativa da Williams brigar por pódios, é bom rever alguns conceitos. A diferença as equipes de ponta e o pelotão intermediário foi um verdadeiro abismo!

E até mesmo entre as equipes grandes há diferenças. A Red Bull não conseguiu andar no ritmo dos ponteiros, ficando mais de 1s atrás da Mercedes. Daniel Ricciardo não começou bem o ano ao rodar no Q3 antes de marcar tempo e ter que largar em décimo amanhã, além de trazer a única bandeira vermelha do dia. Raikkonen, dono do tempo mais rápido da pré-temporada, decepcionou ao não acompanhar Vettel e ficou isolado em quarto o tempo inteiro. Bottas sempre era o primeiro a marcar tempos e era superado por Hamilton com alguma facilidade. Tanta, que o finlandês foi também superado por Vettel, que disse que errou aqui e ali, mas que não brigaria pela pole. Normalmente um piloto só tem seu valor reconhecido quando sai de cena. Talvez veremos a falta que Nico Rosberg fará quando Hamilton começar a fazer rotina seus passeios em cima de Bottas, que pareceu incapaz de acompanhar o ritmo do inglês. Porém, a Mercedes não poderá ter uma atitude tão cautelosa como no ano passado, pois Vettel se encontra apenas dois décimos atrás e qualquer cochilo, pode superar a Mercedes.

Havia uma expectativa de chuva e apesar de algumas gotas no Q3, a pista estava seca. A saída da equipe de Bernie Ecclestone das transmissões tornou a cobertura da TV confusa, com vários erros de caracteres e o acompanhamento das voltas até mesmo complicado. Voltando à pista, algumas respostas foram dadas, mesmo que não sejam definitivas, pois Melbourne é um circuito de rua e, portanto, diferente da maioria das pistas do ano. Os carros estão definitivamente mais rápidos e bonitos, mas o domínio da Mercedes continua. Só que a Ferrari está nos calcanhares dos alemães, prontos para aproveitar qualquer vacilo (e Hamilton vacilou muito ano passado) para vencer.