sexta-feira, 11 de maio de 2018

Animando a corrida

O Grande Prêmio da Espanha de 1998 foi uma síntese de como eram as corridas de F1 em Barcelona na virada do milênio. Chatas. Muito chatas. Claro que Mika Hakkinen e a McLaren não acharam isso, com uma vitória dominante do finlandês, retornando às vitórias após duas corridas bem apagadas em Buenos Aires e Ímola, enquanto a McLaren vibrava com a dobradinha e Schumacher ficou todo por ali com o terceiro lugar. Foi uma corrida totalmente sem graça e definida desde que as McLarens começaram a pontear os primeiros treinos livres. Mesmo tendo uma reta enorme, Barcelona nunca foi um lugar fácil de ultrapassar, mesmo após muitas tentativas dos pilotos.

Giancarlo Fisichella lutava com Eddie Irvine pelo quarto lugar. Na verdade, essa era a única briga real por posição de uma corrida-procissão. Após muito perseguir o irlandês, Fisichella se impacientou na volta 28 e  colocou de lado ao final da reta dos boxes. O toque foi inevitável. Irritado, Fisichella foi pra cima de Irvine, que se mostrou frio ao não devolver os dedos em riste do italiano. Mesmo considerado um rebelde, Irvine parece nunca ter sido bom de briga, vide os sopapos levados cinco anos antes por Senna. 

Foi, definitivamente, o melhor momento do Grande Prêmio da Espanha de vinte anos atrás.




quarta-feira, 9 de maio de 2018

História: 25 anos do Grande Prêmio da Espanha de 1993

Quando a temporada 1993 começou, era esperado que a Williams-Renault dominasse como havia feito no ano anterior, principalmente por ter um piloto nitidamente melhor (Prost) em comparação à 1992 (Mansell). Porém, a prática estava bem diferente da teoria, com Ayrton Senna voltando aos seus tempos de Lotus e fazendo bem mais do que o esperado com um carro inferior ao melhor da F1 no momento. Em quatro corridas, Senna tinha duas inesquecíveis vitórias e Prost vencera as outras duas. Haveria outro confronto como o de 1990? As respostas poderiam ser dadas no circuito de Montmeló, que tem um traçado conhecido de todos os pilotos por causa dos testes. Normalmente quem anda bem no circuito nos arredores de Barcelona, anda bem em todo o calendário da F1.

E Prost mostrou quem tinha o melhor conjunto de vinte e cinco anos atrás. O francês nunca foi um ás na classificação, mas Alain conseguiu em Barcelona sua quinta pole consecutiva, mantendo o 100% de aproveitamento em 1993, com a Williams fechando a primeira fila com Damon Hill. Senna era o melhor dos 'mortais', mas quase 2s atrás da pole de Prost, enquanto Schumacher fechava a segunda fila quase 1s atrás de Senna. Para quem gosta de exaustar os tempos antigos, a diferença entre o primeiro e o quarto colocado de 1993 praticamente cobriria o grid atual...

Grid:
1) Prost (Williams) - 1:17.809
2) Hill (Williams) - 1:18.346
3) Senna (McLaren) - 1:19.722
4) Schumacher (Benetton) - 1:20.520
5) Patrese (Benetton) - 1:20.600
6) Wendlinger (Sauber)  - 1:21.203
7) Andretti (McLaren) - 1:21.360
8) Alesi (Ferrari) - 1:21.767
9) Lehto (Sauber) - 1:22.047
10) Herbert (Lotus) - 1:22.470

O dia 9 de maio de 1993 amanheceu nublado em Barcelona e apesar da chuva da sexta-feira, a pista estava seca naquele dia, o que significava que pela primeira vez na temporada a corrida não teria pista molhada, no que era uma ótima notícia para a Williams e Alain Prost em particular. Porém, o francês não larga bem e é ultrapassado imediatamente por Hill. Na corrida até a primeira curva, Senna cola no inglês na tentativa de pegar uma carona e chega a mergulhar por dentro na primeira curva, mas Prost fica por fora e se mantém em segundo. Atrás do trio, vinham Schumacher, Patrese e Michael Andretti, mais à vontade numa pista aonde havia testado antes.

Logo no início da prova, começava-se a perceber que se algo muito extraordinário não acontecesse, a corrida seria bem modorrenta. Hill tinha uma pequena vantagem, mas Prost parecia ter mais carro, só que o francês usava a sua reconhecida paciência de só atacar no momento oportuno. Senna vinha 2s atrás da dupla da Williams, enquanto já abria muito para Schumacher. Prost esperou dez voltas para efetuar o ataque em cima de Hill. Sabendo da superioridade do companheiro de equipe e em sua primeira temporada completa na F1, Damon não forçou nenhuma situação e Prost assumiu tranquilamente a ponta na freada da curva um. Quase que uma ordem de equipe. Prost nunca foi de forçar ultrapassagens em cima de retardatários e quando começou a encontrar os primeiros carros mais lentos, o francês não arriscava nada, permitindo a aproximação de Hill, que inexperiente, não sabia capitalizar a situação. A pessoa que poderia fazer isso estava num distante terceiro lugar...

Porém, a leve ameaça à vitória de Prost em Barcelona terminou na volta 41, quando Hill entrou nos pits com o motor Renault perdendo potência. Os mecânicos da Williams imediatamente empurraram o carro para dentro dos boxes e com isso Prost tinha uma liderança tranquila e passou a imprimir um ritmo mais lento, para evitar ter o mesmo destino de Hill, algo que Alesi teria, abandonando na volta seguinte com o motor Ferrari quebrado. Quando faz sua parada, Senna é atrasado por causa de uma roda traseira esquerda presa e volta à pista apenas 2s na frente de Schumacher, que se anima e marca a volta mais rápida da corrida. Senna também aumenta o ritmo e todos esperavam ver uma repetição da emocionante e polêmica briga vista em Kyalami. Alessandro Zanardi havia acabado de voltar à pista dos boxes na frente de Mark Blundell e na zona de pontuação, mas na volta 62 o italiano tem o motor quebrado bem na saída da última curva do circuito. Senna havia acabado de passar no local, mas Schumacher vinha logo atrás da Lotus, que escorregou no óleo e saiu da pista, fazendo com que Senna conseguisse um respiro definitivo na briga pela segunda posição. Alain Prost conquistava sua 47ª vitória na F1 com extrema facilidade, a terceira na temporada de 1993. Senna terminou em segundo, seguido por Schumacher. Patrese foi quarto em uma corrida anônima, à frente de Michael Andretti, que finalmente marcou seus primeiros pontos na Fórmula 1. Vinte e cinco anos atrás, ninguém poderia imaginar o tamanho da magnitude daquele pódio. Estavam ali, somados, 14 títulos de campeões mundiais, 183 vitórias, 166 pole positions, 340 pódios! Como sempre, Prost e Senna se ignoraram no pódio, mas o francês reassumia a ponta do campeonato. Numa pista normal, numa corrida normal, Prost voltava à normalidade das vitórias.

Chegada:
1) Prost
2) Senna
3) Schumacher
4) Patrese
5) Andretti
6) Berger

domingo, 6 de maio de 2018

Homem de equipe. Só que não...

Quando Jorge Lorenzo foi contratado pela Ducati no final de 2016, muito provavelmente a marca italiana esperava que o tricampeão mundial da MotoGP fosse a ponta de lança para que a Ducati reconquistasse o título que só venceu uma vez com Casey Stoner no já longínquo ano de 2007. Claro que sempre correndo de Yamaha na sua carreira de MotoGP, Lorenzo teria que passar por um período de adaptação, mas para alguém do talento dele, rapidamente Jorge estaria na briga por vitórias. Contudo, as coisas saíram maravilhosamente ao contrário para a Ducati. A moto ainda tinha a cara da Ducati, com muito motor e pouco quadro, mas era competitiva. Só que ao invés de Lorenzo, a Ducati viu o inesperado crescimento de Andrea Doviziozo, que só ficou na equipe por ser um bom acertador de motos e, principalmente, por ter uma personalidade mais serena do que Andrea Iannone. 

Doviziozo brigou pelo título com Marc Márquez até a última corrida de 2017, derrotou o talentoso espanhol em vários momentos, enquanto Lorenzo se via num processo de adaptação mais longo do que o esperado. Isso deve ter doído no espanhol, afinal, Doviziozo foi um antigo rival seu dos tempos das 250cc e com certeza Lorenzo não via no italiano um rival real. A comparação entre os dois já estava pegando mal para Lorenzo. Com personalidade forte e difícil, Lorenzo já havia dificultado as coisas para Doviziozo na decisiva etapa de Valencia no ano passado, quando era claro que o espanhol deveria deixar Dovi passar e ele não o fez. Em meio às presepadas de Márquez na Argentina, Lorenzo deu uma entrevista-bomba para a imprensa espanhola, onde criticou acidamente Doviziozo.

No ano passado, se teve uma corrida onde Lorenzo andou bem foi em Jerez, onde subiu inclusive ao pódio. Novamente numa temporada difícil, Jorge Lorenzo resolveu escolher o pneu macio na frente, enquanto o resto escolhia o pneu duro, por causa do forte calor que fazia em Jerez. Lorenzo largou bem e liderou a corrida, mas até as zebras do circuito Jerez-Angel Nieto sabiam que aquela liderança, sustentada com maestria por Lorenzo, não duraria muito tempo pela força que a Honda tinha mostrado em todo o final de semana. Márquez, que largou apenas em quinto, já vinha em segundo, seguido por Pedrosa e Cruthlow, num trenzinho Honda. Márquez finalmente ultrapassou Lorenzo, Cruthlow caiu e Doviziozo, numa corrida como sempre bem calculada, encostou no pelotão, não demorando a ultrapassar Pedrosa.

Com Doviziozo liderando o campeonato e Márquez tendo um ritmo muito forte na ponta, o lógico era a Ducati mandar Lorenzo deixar Doviziozo passar. Era nítido que Lorenzo não apenas não tinha força para contra-atacar, como estava segurando Doviziozo e Pedrosa. Como dito acima, Lorenzo tem uma personalidade difícil e nunca foi um homem de equipe, vide a conflituosa relação com Valentino Rossi na Yamaha. Lorenzo também está em meio à uma difícil rodada de renovação com a Ducati, que já anunciou que a situação de Lorenzo não é a mesma de quando foi contratado. Para bom entendedor, meia palavra basta... Lorenzo não aliviava para o seu companheiro de equipe, enquanto Márquez disparava na ponta. Conhecido por seu temperamento sereno, Doviziozo perdeu paciência e forçou na Dry Sack, levando o xis como consequência. Lorenzo cortou Dovi, mas não contava com Pedrosa por dentro da curva e o toque foi inevitável, derrubando ambos. Por fora da curva, Doviziozo estava vendido quando foi acertado pela Ducati de Lorenzo. Um strike! E zero ponto para a Ducati!

Marc Márquez não teve nada com isso. Após uma classificação até mesmo decepcionante, Márquez não demorou a escalar o pelotão e já se preparava para assumir a liderança do campeonato, mas ajudado pelo incidente na briga pela segunda posição, a situação do espanhol da Honda melhorou bastante, começando a disparar na frente do certame, com o bônus da principal rival da Honda, a Ducati, ter ficado zerada hoje, sobrando para Zarco assumir a segunda posição. A Yamaha teve um final de semana horrível, onde Rossi só conseguiu o quinto lugar pelos abandonos à sua frente. Viñales chegou a ser décimo terceiro, mas ainda salvou um sétimo lugar. Incensado como futuro rival de Márquez, Viñales começa a demonstrar que peca num item essencial em todo campeão: a força mental. O jovem espanhol da Yamaha não consegue superar as dificuldades como Rossi, que quase beliscou um pódio, conquistado pela segunda corrida seguida pela Suzuki de Iannone.

Lorenzo não teve culpa no acidente que causou a queda tripla que marcou a prova em Jerez, mas sua atitude não ajudou a sua negociação com a Ducati. Um piloto deve lutar pelo o seu melhor, mas também tem que ter a exata noção de que está numa equipe e pensar no melhor para quem lhe paga o seu salário, que está longe de ser baixo. Lorenzo tem muitas virtudes e não é tricampeão à toa, mas suas atitudes o marcam como um grande piloto que será lembrado no rodapé da história. E Marc Márquez agradece. 

sábado, 5 de maio de 2018

História: 15 anos do Grande Prêmio da Espanha de 2003

Depois de muitos testes e algum suspense, quinze anos atrás a nova Ferrari F2003-GA (de Gianni Agnelli, morto no começo de 2003) faria seu debute de forma oficial na F1 em Barcelona. O novo carro deu muito trabalho à Ferrari quanto à confiabilidade, mas o ritmo do F2003-GA era superior ao carro de 2002, que havia dominado a concorrência na temporada anterior e permitiu a Schumacher uma vitória tranquila na corrida anterior em Ímola, mesmo o alemão estando de luto pela morte da mãe. Porém, as equipes rivais, particularmente Williams e McLaren, não ficaram paradas e testaram bastante. A McLaren também fazia muito suspense sobre o novo MP4/18, mas esse carro, muito bonito por sinal, não sairia do papel e o time de Woking correria todo o ano de 2003 com o carro do ano anterior com alguma modificações. Numa sessão de testes em Silverstone, Montoya sofreu um grave acidente e mesmo tendo destruído seu carro, o colombiano saiu ileso e com o melhor tempo. Com a presença de Fernando Alonso, a visibilidade da F1 na Espanha ganhou ares de mania nacional. Era a Alonsomania.

Conforme esperado pelo potencial demonstrado do novo carro, a Ferrari dominou a primeira fila, deixando as equipes com uma péssima sensação de deja-vu, porém, empurrado por sua torcida, Alonso ficou muito próximo na terceira posição, superando as duplas de McLaren e Williams com larga vantagem. As principais rivais da Ferrari em 2003 decepcionaram e ficaram mais para o meio do pelotão. Pior foi Raikkonen. Liderando o campeonato, Kimi teve problemas na classificação e largaria em último, dando à Schumacher a chance de retomar a liderança para si, mas o alemão começaria a conhecer um rival perigoso no domingo.

Grid:
1) M.Schumacher (Ferrari) - 1:17.762
2) Barrichello (Ferrari) - 1:18.020
3) Alonso (Renault) - 1:18.233
4) Trulli (Renault) - 1:18.615
5) Button (BAR) - 1:18.704
6) Panis (Toyota) - 1:18.811
7) R.Schumacher (Williams) - 1:19.006
8) Coulthard (McLaren) - 1:19.128
9) Montoya (Williams) - 1:19.377
10) Frentzen (Sauber) - 1:19.427

O dia 4 de maio de 2003 amanheceu ensolarado em Barcelona, típico clima do sempre morno Grande Prêmio da Espanha, mas havia algo diferente para 'esquentar' naquele dia. O circuito de Barcelona sempre recebeu bons públicos para a sua prova de F1, mas o circuito espanhol localizado em Montmeló somente pulsava nas corridas do Mundial de Motovelocidade, onde a torcida espanhola sempre tinha um compatriota para torcer. Quinze anos atrás seria diferente. Com Alonso começando a se destacar e um bom trabalho da mídia espanhola, o povo começava a se enamorar pelo asturiano. Num público de MotoGP, a F1 viu o recorde de público na Espanha ser batido para ver Alonso e o piloto da Renault não decepcionaria naquele dia. Fernando larga muito bem e se coloca entre as duas Ferraris, mas Barrichello usa sua maior experiência para contornar o carro de Alonso e se manter em segundo, enquanto mais atrás o caos acontecia. Trulli e Coulthard se tocam, causando o abandono do italiano e David teve que ir aos boxes para reparos. Se o dia da McLaren estava ruim ficaria ainda pior, quando Antônio Pizzônia ficou parado no grid e acabou atingido por Raikkonen, destruindo a corrida de ambos naquele momento e trazendo o safety-car para a pista.

O carro de segurança fica na pista até a volta 5 e quando a corrida é reiniciada, os dois carros da Williams começavam uma recuperação e ficavam logo atrás do terceiro colocado Alonso, com Ralf à frente de Montoya, seguidos pela dupla da BAR e Cristiano da Matta, em ótima largada com a Toyota. A cada passagem de Alonso, menos de 2s atrás de Barrichello, a torcida se manifestava nos únicos momentos de emoção de uma corrida modorrenta, onde nada acontecia pela dificuldade de ultrapassagem num circuito de uma reta muito longa, mas que a última curva rápida atrapalhava na aproximação do carro da frente. Quando a primeira rodada de paradas estava para começar, Villeneuve abandona com o motor quebrado e as coisas piorariam para a BAR algumas voltas depois. Após completar sua parada, Button tentou ultrapassar Coulthard e os dois se tocam, fazendo o piloto da McLaren abandonar e Button teve que retornar aos pits na mesma volta para reparos, perdendo a chance de pontuar. Para alegria da torcida espanhola Alonso para três voltas antes de Barrichello e quando o brasileiro voltava à pista, ele acabou atrás de Alonso.

Alonso tenta manter contato com Schumacher, mas não houve uma briga real entre eles. Quando ambos fizeram suas segundas paradas, eles encontraram a lenta Williams de Ralf Schumacher, que os segurou por alguns momentos, até Ralf errar e ser ultrapassado pelos dois. Montoya se aproxima do seu companheiro de equipe e ultrapassa o alemão de forma arrojada na primeira curva. Em Barcelona, percebendo que os pneus estavam se desgastando muito e que não valia a pena ficar tanto tempo na pista com uma borracha assim, as equipes resolveram adotar uma terceira parada, onde praticamente todas as equipes fizeram isso. No momento em que a terceira parada se aproximava, Alonso tentava uma aproximação em cima de Schumacher, mas quando a terceira rodada de paradas aconteceu, as posições permaneceram as mesmas. A corrida se acalma mais uma vez e a única briga que acontecia na pista era pela quinta posição. Tentando marcar seus primeiros pontos na F1, Cristiano da Matta atacava Ralf Schumacher, claramente mais lento do que ele. No Brasil se criticou a falta de agressividade de Kiki, mas Da Matta fez um bom papel e garantiu seus primeiros pontos e muitos elogios da Toyota. Outro que marcava ponto pela primeira (e única) vez na F1 era Ralph Firman, que com o oitavo lugar saía do zero no campeonato. Mesmo com a vitória, Schumacher ainda não assumia a liderança do campeonato, mas pela primeira vez enfrentou Fernando Alonso, que levantou a torcida espanhola em Barcelona.

Chegada:
1) M.Schumacher
2) Alonso
3) Barrichello
4) Montoya
5) R.Schumacher
6) Da Matta
7) Webber
8) Firman

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Figura(AZE): Charles Leclerc

Quando Bruno Senna e Lucas di Grassi estrearam na F1 pelas nanicas Hispania e Virgin respectivamente, para defender os dois novatos quando ambos fechavam o grid, a imprensa sempre dizia que as demais equipes estavam vendo o trabalho deles, mesmo que os resultados não aparecessem. Bruno ainda ficou na F1 por causa dos patrocinadores que o seu sobrenome trazia, enquanto Di Grassi saiu da F1 pelas portas dos fundos e tenta convencer (sem sucesso) que está dando a volta por cima na totalmente sem graça F-E. Ao contrário do que essa parte da imprensa apregoa, a F1 olha muito, sim, o resultado de um piloto novato. As equipes observam principalmente se um piloto novato está fazendo algo acima do potencial que o carro lhe dá. Alexander Wurz, por exemplo, conseguiu um pódio logo em sua terceira corrida na F1 e isso lhe garantiu dez anos na F1 sem muito brilho. Ali, o espigado austríaco fez seu nome na F1. O mesmo fez Alonso quando esteve na Minardi e o saudoso Jules Bianchi na época da Marussia/Manor. Eles fizeram o diferente com um carro ruim. Correram acima das expectativas do que seus carros poderiam lhes dar e por isso, marcaram seus nomes como pilotos diferenciados, mesmo ainda novatos. Em Baku, o monegasco Charles Leclerc fez algo no gênero. Tendo sido campeão da F2 em 2017 com ampla vantagem, Leclerc, protegido pela Ferrari, chegou à F1 com a fama de próxima joia do grid da F1. Porém, Leclerc teria que mostrar isso na Sauber, há dois anos dona do pior carro da F1. As primeiras corridas do novato não foram nada promissoras, ficando atrás até mesmo do seu fraco companheiro de equipe Marcus Ericsson. No entanto, Leclerc mostrou seu cartão de visitas em Baku. Num circuito técnico e difícil, o monegasco mostrou que quando o talento tem que aparecer, ele faz o diferente. Correndo com um carro ruim num circuito complicado, Leclerc superou com alguma margem seu insignificante companheiro de equipe e na corrida, o novato fez ainda mais. Com uma ótima largada, Charles se colocou no top-10 e sem perder posições, foi sobrevivendo às armadilhas de Baku e na última relargada estava num excepcional quinto lugar, sendo ultrapassado nas voltas finais por Carlos Sainz. O sexto lugar da Sauber é o melhor resultado da equipe em três anos e logo na sua quarta corrida de F1, Charles Leclerc mostrou que é mesmo um piloto diferenciado para o futuro.

Figurão(AZE): Red Bull

Ao longo dos anos, muito se criticou a forma como a Ferrari administrou sua dupla de pilotos, onde na maioria das vezes o primeiro e o segundo pilotos eram pré-definidos e a preferência ao escolhido como piloto principal era sempre nítida, principalmente quando as corrida estavam definidas. Casos como Hawthorn e Phil Hill no Marrocos/1958, passando por Michele Alboreto e Stefan Johansson em 1985, Michael Schumacher e Rubens Barrichello até Fernando Alonso e Felipe Massa, entre outros entraram para a história. Foram ordens de equipes polêmicas, onde posições eram mantidas ou invertidas para tristeza dos fãs e revolta dos torcedores mais fervorosos. Apesar das críticas, a Ferrari sempre se beneficiou dessa política e poucas vezes pilotos do time italiano tiveram grandes problemas entre eles dentro das pistas. Já a Red Bull prefere uma política diferente, onde os pilotos podem lutar livremente entre si e se isso faz a alegria dos fãs da F1, também já trouxe enormes prejuízos ao time austríaco, como no exemplo extremo do Grande Prêmio da Turquia de 2010, quando Mark Webber e Sebastian Vettel bateram quando brigavam por posição. Ordens de equipes são medidas impopulares e por isso mesmo as equipes evitam usar essas táticas com seus pilotos, porém, ter pulso forte sobre seus pilotos é importante para evitar perca de pontos importantes. No Azerbaijão, Max Verstappen e Daniel Ricciardo andaram a corrida inteira juntos e brigando por posição de forma dura, onde o holandês evitou com fechadas e contra-ataques as tentativas do seu companheiro de equipe de passar a frente. Ricciardo parecia mais rápido e quando finalmente conseguiu a ultrapassagem, Max surgiu à sua frente novamente quando os dois fizeram suas únicas paradas e como falou o engenheiro do australiano, ele teria que fazer tudo de novo. E Ricciardo foi para cima de novo, mas Max novamente não deixou barato. Não tinha como dar mesmo certo. Faltando poucos voltas para o fim, com pneus mais macios e novos do que os pilotos que vinham à frente, Ricciardo atacou Verstappen no final da reta dos boxes, que fechou a porta de forma enfática, não dando chance para Ricciardo terminar sua tentativa de ultrapassagem, mas deixando pouca margem para que o australiano voltasse. A batida foi inevitável. Os dois saíram da pista e destruíram o final de semana da Red Bull para fúria de Helmut Marko, que criticou bastante a atuação dos seus dois pilotos nesse episódio. Sinalizar que um piloto está mais rápido pode evitar duplo zero para as equipes e a Red Bull não soube fazer isso, garantindo um clima pesado entre seus dois pilotos bem no momento que Daniel Ricciardo, em ótima fase, pensa em mudar de ares a partir da próxima da próxima temporada. Tudo o que uma equipe quer é marcar pontos com seus dois pilotos ao final de uma corrida. A Red Bull saiu de Baku com zero pontos por causa de um toque entre seus dois pilotos onde o bom senso de alguém da cúpula do time poderia ter evitado. 

domingo, 29 de abril de 2018

Herança bendita

Quando a F1 aportou pela primeira vez em Baku em 2016, a corrida no exótico Azerbaijão tinha toda a pinta de ser mais uma herança maldita da gestão Bernie Ecclestone, que com sua enorme sanha por dinheiro, chegou junto em mais um governo ditatorial querendo aparecer no mundo e bastante disposto em gastar o dinheiro necessário com esse intuito. A primeira corrida insossa aumentou a ojeriza à Baku, que teve pouco público e emoção dentro da pista, principalmente com a catarse que havia acontecido minutos antes em Le Mans. Veio 2017 e tivemos uma corrida diferente, com várias zebras e histórias para contar. A verdade é que o circuito de rua à beira do Mar Cáspio começava a criar uma identidade. Algo que poucas pistas tem ou tiveram. No Azerbaijão, o vento forte era um fator importante num circuito de rua em que os carros atingem 330 km/h no final da reta quase infinita dos boxes, mas tem trechos bastante estreitos como na bela subida do castelo. Se em 2017 a corrida já tinha sido animada, a de 2018 foi ainda melhor, reunindo todos os ingredientes para uma corrida que já entrou para a história e terá muitas consequências, principalmente na equipe Red Bull.

A corrida foi imensa de histórias, mas começamos por Ferrari e Mercedes. Com as três equipes da ponta optando pelos pneus supermacios no Q2, ao invés dos mais rápidos ultramacios, teoricamente a corrida teria estratégias iguais para todos, mas não foi o que se viu com Vettel e a dupla da Mercedes num ritmo bem superior ao da Red Bull, enquanto Raikkonen teve um enrosco com Esteban Ocon na primeira volta e caía para as últimas posições. Porém, Vettel tinha a corrida sob controle e não era atacado pela dupla da Mercedes, enquanto Raikkonen recuperava posições, mas ficava atrás da dupla da Red Bull. Hamilton errou uma freada e teve que antecipar sua parada, voltando um pouco à frente de Max Verstappen, o que se mostraria decisivo, pois com pneus frios, Hamilton estava um pouco mais lento do que o holandês. Se a Ferrari ganhou a corrida na Austrália na base da estratégia, vacilou feio quando retardou ao máximo a parada de Vettel para colocar... os pneus macios, os mais duros do final de semana! Talvez nem os estrategistas da Mercedes acreditaram quando viram os pneus amarelos sendo montados no carro de Vettel. Bottas assumiu a liderança e com um bom ritmo, retardava um pouco mais sua parada para colocar os óbvios pneus ultramacios. Nunca saberemos ao certo se a estratégia da Mercedes funcionaria com Bottas, mas era claro que o finlandês tinha tudo para vencer a corrida, pois teria pneus bem mais rápidos do que Vettel e com tempo para ultrapassar e apagar de vez a péssima imagem deixada no Bahrein. 

Quando o longo safety-car pela batida dos carros da Red Bull entrou na pista, assim como ocorreu na China o panorama da corrida mudou e Bottas realmente assumiu a ponta da corrida, mas Vettel, Hamilton e um recuperado Raikkonen estavam com pneus ultramacios para um final de prova eletrizante. E a relargada não deixou devendo essa expectativa. Numa briga de vácuo espetacular, os quatro carros mais rápidos da F1 atual chegaram colados na primeira curva. Talvez empolgado e querendo recuperar logo a liderança da corrida que foi sua a maior parte do tempo, Vettel deixou para frear tarde demais na cuva um e acabou errando a primeira curva, além de detonar seus pneus, o que fez o alemão perder o pódio. Sim, pois na volta seguinte, apesar de toda a limpeza de pista durante o longo período de safety-car, o líder Bottas teve seu pneu traseiro direito furado por causa de um detrito no meio da reta dos boxes e teve que abandonar bem próximo do final. Quem sorriu com seu cabelo ridículo foi Hamilton. Assim como aconteceu na quinzena anterior, Hamilton esteve longe de brilhar e se a Mercedes estava apostando em vitória, ela viria com Bottas. Porém, como todo grande campeão, Lewis aproveitou os erros e os azares alheios para conquistar sua primeira vitória em 2018 e assumir a ponta do campeonato. A cara de Hamilton denunciava um certo incômodo do inglês. Acostumado a vencer sendo o melhor piloto de todo o final de semana, Hamilton sabe que venceu hoje na base da sorte. Bernie falou em falta de motivação por parte do piloto da Mercedes antes da corrida, mas Hamilton pode dar a volta por cima com essa vitória. Por sinal, Kimi deu uma bela volta por cima com uma corrida em que se aproveitou muito bem da pataquada redbulldiana para conseguir um excelente segundo lugar após bater na primeira volta. Vettel tinha a vitória nas mãos, mas acabou se afobando quando se viu na posição de atacar Bottas e por muito pouco o estrago não teria sido pior, pois seu pneu dianteiro esquerdo estava claramente destruído, mas como faltavam apenas três voltas, Seb diminuiu o prejuízo.

Agora, a Red Bull. Para mim, o ciclo de Daniel Ricciardo dentro da Red Bull terminará ao final desta temporada, com o clima ficando insustentável en sua convivência com Max Verstappen. Na minha visão, quem errou foi o próprio australiano, mas a briga com o seu companheiro de equipe havia sido acima do tom a corrida inteira. Foi uma bela briga vista de fora, mas que deve ter deixado os homens da Red Bull de cabelo em pé, culminando com o acidente entre os dois na primeira curva, numa manobra em que Verstappen se defendeu numa manobra dura, mas sem infringir nenhuma lei, mas que Ricciardo, talvez sem paciência com as trocas de posição pela agressividade de Max, não aliviou e encheu a traseira do holandês, numa cena muito parecida com a da Turquia em 2011, com Vettel e Mark Webber. Apesar de todas os incidentes protagonizados por Verstappen, o jovem ainda é o 'darling' da equipe Red Bull, que o vê com bons olhos para o futuro, apesar de que o amadurecimento de Max já esteja demorando demais. Ricciardo sabe disso e mesmo vindo de vitória, ele sabe que a Red Bull enxerga Max, não ele, como o futuro da equipe. E já pensando no seu futuro, Ricciardo já teria um pré-contrato assinado com a Ferrari e depois de tudo o que aconteceu durante a corrida de hoje, ele deverá assinar com a Ferrari ou até mesmo a Mercedes.

A Force India vinha fazendo uma temporada abaixo da crítica para quem vinha de dois quarto lugares no Mundial de Construtores, mas o time róseo aproveitou bem a longa reta de Baku para usar o potencial do motor Mercedes e voltar ao lugar que ocupava até o ano passado. O começo da corrida não foi o melhor para a Force India, com Ocon ultrapassando Raikkonen e quando ia levar o troco, acabou na barreira de pneus e abandonando. Pérez havia levado um toque na primeira curva e o mexicano logo procurou os boxes. Numa corrida bem calculada e se esquivando dos erros alheiros, Pérez foi ganhando posições e se viu em terceiro, subindo ao pódio mais uma vez na carreira e como já havia acontecido em outras oportunidades, quando ninguém esperava. O ritmo inicial da Renault foi surpreendente, com Sainz e Hulkenberg ultrapassando a dupla da Red Bull, mas tudo começou a desandar quando Hulk bateu sozinho e Sainz perdeu muito rendimento, fazendo sua parada logo no começo da corrida. A partir de então, Sainz esteve longe de repetir o ótimo desempenho inicial, mas fazendo uma corrida sobrevivente, chegou ao quinto lugar e vê com bons olhos toda a movimentação que ocorre dentro da Red Bull. Mesmo com Pérez subindo ao pódio e Sainz superando a dupla da Red Bull, o piloto do dia não foram ele e veio do meio do pelotão. Costumo dizer que quando um piloto tem um carro ruim, o pior da categoria, ele não aparecerá levando o carro até o fim. 'As equipes estão vendo o trabalho dele', dizia Galvão sobre os vários pilotos brasileiro que passaram sem deixar saudade na F1. O piloto é notado quando faz o diferente. Sai da caixinha. Faz algo muito superior ao potencial do carro. O inesquecível Jules Bianchi levou seu Manor/Marussia ao nono lugar em Mônaco. Pascal Werhlein pontuou com Manor e Sauber, quando ambas tinham os piores carros do pelotão. Hoje, Charles Leclerc, considerado uma joia ferrarista, conseguiu algo assim. A Sauber melhorou em comparação ao ano passado, mas ainda briga para não ser a última entre as equipes. Leclerc superou com folgas Ericsson, que vinha de boas corridas e pontos no Bahrein, num circuito difícil como Baku. O jovem monegasco fez uma corrida sobrevivente, levando seu carro à posições bem superiores ao potencial da Sauber, chegando a ocupar a quinta posição, mas sendo superado por Sainz nas voltas finais. O sexto lugar de Leclerc foi o melhor resultado da Sauber em três anos e após um início claudicante, Leclerc mostrou o porquê tanto se espera dele.

Alonso se envolveu num incidente na primeira volta onde teve que percorrer o circuito praticamente em duas rodas e sabendo que seu assoalho estava danificado, tudo que o espanhol poderia esperar era uma corrida maluca e cheia de alternativas, algo que o esperto espanhol sempre aproveitou com as duas mãos. O sétimo lugar com um carro danificado e que nunca se encontrou em Baku mostra bem o potencial que Alonso ainda pode mostrar. Vandoorne, numa corrida muito complicada, ainda amealhou mais pontos para a McLaren, a única ao lado da Ferrari a ter dois carros no top-10. Assim como a Force India, a Williams aproveitou a reta e o motor Mercedes para melhorar um pouco sua imagem em 2018, com Lance Stroll mostrando que se dá mesmo muito bem no circuito urbano de Baku, onde conseguiu um inacreditável pódio ano passado e hoje tirou a Williams do zero. Com uma reta tão longa, era claro que motor Honda sofreria bastante, mas com tantos abandonos, a Toro Rosso ainda marcou um ponto com Brendon Hartley, seu primeiro na F1 e apagando a manobra perigosa que ele fez ontem contra seu companheiro de equipe. A Haas sai novamente de um circuito de rua com o gosto amargo na boca. Grosjean chorou de raiva ao ter problemas de câmbio na classificação e por isso largar em último, porém, o francês fazia uma corrida magnífica... até bater quando estava em sexto. Durante o período de safety-car! Uma barbeiragem histórica, que renderá muitos memes e vídeos no Youtube para Grosjean. 

Foi uma corrida marcada por tudo o que os fãs mais querem na F1. Indefinição do vencedor até o final, vários carros na briga pela vitória, muitas ultrapassagens, batidas e uma baita polêmica. Ao invés de ser uma herança maldita, Baku e suas peculiaridades vai se tornando uma herança bendita. Em quatro corridas na temporada 2018, tivemos três pilotos de três equipes diferentes vencendo, com um campeonato bem apertado. Até agora, não se pode reclamar do que estamos vendo em 2018. Da mesma forma que não podemos entrar em depressão como aconteceu em Melbourne, não podemos entrar em euforia com as três últimas corridas. Porém, não se pode negar: que temporada até agora!