domingo, 30 de junho de 2019

Emoção em dose dupla

Enquanto a MotoGP comemorava o pódio do Grande Prêmio da Holanda, uma das corridas mais esperadas do calendário das duas rodas, a transmissão da F1 começava. Emendar uma corrida de MotoGP com F1 não parecia uma boa ideia. Enquanto a MotoGP vive seu esplendor com corridas de tirar o fôlego, a F1 viveu três semanas turbulentas, talvez a maiores dos últimos tempos. Teve até gente açodada (ou oportunista) apostando na morte da F1. A belíssima corrida de hoje não aplaca a crise que a categoria passa, mas também não deixa de ser uma resposta para os fatalistas de plantão, além de mostrar que só falta um carro consistentemente rápido para Max Verstappen ser campeão de F1.

A corrida de hoje, sem querer ser demagógico ou imediatista, foi uma das melhores dessa década e mostrou uma das grandes exibições individuais da história. O que Max Verstappen fez hoje no Red Bul Ring seria assinado por qualquer gênio dos setenta anos da história da F1. O holandês mostrou garra, personalidade, velocidade e controle para conquistar uma das vitórias mais dramáticas dos últimos tempos, contra todos os prognósticos. Mesmo correndo com um motor Honda que se desenvolve cada vez mais, Verstappen e todo o staff da Red Bull sabiam que a pista cheia de retas da Áustria não favorecia os carros azuis, por mais que estivessem correndo em casa e Verstappen tenha vencido ano passado, mesmo que de forma casual, aproveitando o abandono duplo da Mercedes. Porém, Max deve ter olhado para a torcida, que pareceu deixar de lado o tradicional TT holandês em Assen e coloriu de laranja o circuito da casa de sua equipe. Verstappen parecia que corria em Zandvoort. O holandês teve um final de semana sublime, só vacilando em único momento que pareceu decisivo: a largada. Max saiu muito mal, quase atrapalhou Hamilton e caiu da segunda para a sétima posição. O primeiro stint de Verstappen foi bem usual, ultrapassando a McLaren de Lando Norris e a Alfa Romeo de Kimi Raikkonen para se posicionar em quinto, enquanto Charles Leclerc dominava a corrida, seguido pela dupla da Mercedes e Vettel. Uma corrida bem ordinária, mas que logo ganharia contornos históricos. Num calor quixadaense, Spielberg maltratou bastante os carros e pneus, os polêmicos pneus Pirelli com borracha mais fina para não ter bolhas, mas elas ainda apareceram. Ainda assim praticamente todo o pelotão preferiu parar apenas uma vez, colocando os pneus duros para uma corrida até o final. Foi o começo da grande corrida de Verstappen. 

O holandês foi um dos últimos a parar e se aproveitou de dois eventos nos boxes. Primeiro a Ferrari se atrapalhou toda no pit-stop de Vettel, com os mecânicos ainda chegando com os pneus para montar no carro do alemão, quando Seb já estava parado, fazendo-o perder muito tempo. Depois Hamilton abusou das zebras e precisou trocar a asa dianteira. Com as paradas terminadas, Verstappen estava em quarto, muito próximo de Vettel. E o alemão seria a primeira vítima do holandês. Nesse momento, numa corrida atipicamente muito quente, os quatro primeiros estavam separados por 8s! Assim que ultrapassou Vettel, Max foi para cima de um opaco Bottas, deixando a Mercedes com uma facilidade desconcertante para um piloto que venceu duas vezes nesse ano e sonhava em abrir luta com Hamilton pela título. Sonhava... Até então Charles Leclerc fazia uma corrida dominante, parecida com o que fez no Bahrein, mas acabou traído por um problema técnico da Ferrari. Leclerc e Verstappen foram rivais ferrenhos no kart e agora se encontrariam para uma disputa pela vitória na F1. Nas arquibancadas, os holandeses iam à loucura com a exibição de gala de Verstappen. Mas ainda teria mais? Leclerc reagiria à aproximação de Max? O holandês ainda teria pneus?

A resposta foi dada com uma aproximação surpreendentemente rápida de Max. Faltando quatro voltas para a bandeirada começaram os ataques, com os dois andando lado a lado, antes de Leclerc conseguir se sobressair. Porém, Verstappen estava com mais carro e se arriscou para ultrapassar à fórceps quando faltavam duas voltas rumo a uma vitória épica. Mas qual foi o risco que Verstappen se envolveu? A F1 continua em crise mesmo com a bela corrida de hoje. A polêmica punição à Vettel em Montreal veio à tona na manobra forte que fez Verstappen superar Leclerc, que reclamou um bocado. Veio o aviso da investigação da ultrapassagem, que demorou inusuais três horas para anunciar o veredicto. Muitos falaram que a razão para tanta demora seria o medo dos holandeses quebrarem tudo se a punição de Verstappen acontecesse. Algo que fazia sentido, mas atrás das portas dos comissários, muito deve ter sido debatido com Red Bull e Ferrari. Correndo em casa e já tendo ameaçado abandonar a F1, a Red Bull deve ter colocado muita pressão para que o resultado fosse mantido, enquanto a Ferrari deve ter feito uma pressão danada de uma episódio que muitas vezes resultou em punição num passado recente, além dos italianos terem sido prejudicados na última vez que os comissários estiveram envolvidos. No meio disso tudo, a F1 temia pelo o que aconteceria em sua imagem se uma segunda grande corrida fosse decidida pelos comissários. Pelo bem do esporte, Verstappen teve sua vitória mantida. Tom Kristensen teve o bom senso que faltou ao seu antigo companheiro de equipe na Audi Emanuele Pirro em Montreal.

Foi uma vitória de lavar a alma para todos, principalmente pela Honda. Enquanto teve como principal piloto Fernando Alonso, os japoneses eram constantemente humilhados pelos sarcásticos comentários do espanhol sobre o motor ainda fraco, mas em desenvolvimento. Pela primeira vez na era híbrida e depois de treze anos de jejum, a Honda subiu ao alto do pódio na F1 para desespero de Alonso, enquanto Max mostrava o símbolo da Honda para mostrar que o árduo trabalho dos japoneses parecer finalmente dar certo. Já Verstappen mostrou que sua pilotagem agressiva vai sendo domesticada, enquanto seu talento e velocidade permaneciam intactos. Enquanto isso, Pierre Gasly tomava uma volta do seu companheiro de equipe e não conseguia ultrapassar a McLaren de Norris. Já se fala que Kvyat poderia trocar com Gasly ainda antes do final da temporada. Se serve de consolo para o francês, o próprio russo serve de exemplo de uma carreira que ainda não foi destruída por Marko, apesar de Kvyat nem merecer uma vaga numa equipe grande, em outra prova burocrática do russo.

Leclerc ficou próximo da vitória mais uma vez, mas viu escapar o triunfo novamente no fim. O monegasco vinha fazendo uma prova perfeita até que a melhor gestão de pneus de Verstappen o suplantasse nas voltas finais. A vitória de Leclerc virá, mas essas bolas na trave podem começar a pesar na cabeça do piloto da Ferrari. Vettel foi ultrapassado por Verstappen e tentou uma tática diferente, visitando os boxes novamente. O alemão demorou demais a encontrar Hamilton e só o ultrapassou na penúltima volta. Vettel quase beliscou o pódio quando já tinha Bottas na alça de mira, mas a corrida terminou antes de qualquer ataque. O problema mecânico no treino de ontem, somado à besteira da Ferrari no primeiro pit-stop de Vettel poderiam ter mudado completamente a corrida de Seb e até mesmo o vencedor. A Mercedes teve de longe sua pior corrida do ano, com seus dois pilotos sofrendo com superaquecimento e Hamilton numa jornada irreconhecível, tendo que se conformar com uma opaca quinta colocação, mas nem por isso o hexa não está em questão, já que o vice Bottas também não fez uma corrida para recordar.

Mesmo com uma pontinha de ciúme ao ver a Honda triunfar, a McLaren tem o que comemorar. Com a metade do campeonato chegando, a tradicional equipe vai se firmando como a melhor do segundo pelotão. Lando Norris fez uma corrida estupenda, chegando a brigar com seu compatriota Lewis Hamilton na primeira volta, antes de superar Kimi Raikkonen, que tem o dobro de sua idade. Norris não apenas superou o nórdico, como segurou Gasly, que tinha o mesmo carro do vencedor de hoje. Enquanto o novato Norris fazia uma bela corrida na frente, vindo de trás Carlos Sainz não deixou por menos. O espanhol foi punido por uma troca de motor e largou na última fila, mas numa corrida de recuperação sensacional, Sainz chegou em oitavo, ganhando onze posições com relação aonde largou, fazendo com que a McLaren suplantasse a Renault, que finalizou o final de semana austríaco zerada. A Alfa Romeo conseguiu colocar seus dois carros na zona de pontuação, com Raikkonen sempre brigando pela pontos, enquanto o italiano Giovinazzi conseguindo seu primeiro ponto na F1 e o primeiro da Itália em oito anos. Numa corrida sem abandonos, Racing Point superou Toro Rosso e Haas, com a equipe americana tendo um ritmo de corrida assustador. Num circuito curto, novamente Russell colocou uma volta em Kubica. A volta do polonês começa a ficar bastante desagradável.

Depois de muito tempo, pode-se afirmar que a F1 superou a MotoGP no quesito emoção, muito graças a exibição mitológica de Max Verstappen. Enquanto a Red Bull for se acertando com a Honda, o holandês pode apenas nos dar pequenos lampejos de sua capacidade, mas pelo o que mostrou hoje na corrida caseira de sua equipe, Ferrari e Mercedes, Hamilton, Vettel e Leclerc podem começar a ficar com as barbas de molho. Quando a Red Bull acertar, Max Verstappen mostrou que pode liderar o time. Imaginem se uma corrida como essa acontecer nas vésperas do Grande Prêmio da Holanda do ano que vem? A torcida holandesa gritará muitos gols nas arquibancadas de Zandvoort!

Exemplo de competitividade

Marc Márquez continua líder da MotoGP e mesmo não vencendo, aumentou sua diferença no campeonato e caminha a passos largos para o hexacampeonato de forma dominante. Na verdade, desde que estreou na MotoGP, Márquez tomou posse do posto de melhor piloto da MotoGP com alguma vantagem sobre os demais. Se em 2015 o espanhol perdeu o título pela falta de consistência, nos últimos anos Márquez aprendeu que marcar pontos também é importante, ainda que sem perder seu estilo agressivo. Márquez vai se aproveitando da enorme competitividade atual da MotoGP. Maverick Viñales deu a primeira vitória da Yamaha em 2019, fazendo que a montadora dos diapasões fosse a quarta moto diferente a vencer nessa temporada.

Enquanto na F1 conheceu hoje seu primeiro vencedor diferente de alguém que corre com Mercedes em 2019, a MotoGP dá um exemplo que uma categoria de elite e com altos investimentos consegue ser competitiva, mesmo que com alguém dominando. A hegemonia de Márquez praticamente coincidiu com o domínio da Mercedes e de Hamilton, mas a sensação que a F1 enfrenta uma grande crise, enquanto a MotoGP, mesmo com títulos sendo conquistados com até mais antecedência do que a F1, vive sua terceira fase de ouro. Na catedral de Assen, a corrida não foi tão incrível como a do ano passado, mas esteve longe de ser chata. O fenômeno Fabio Quartararo conseguiu a pole, mas não aproveitou muito a sensação de estar na ponta com a ótima largada da dupla da Suzuki. O duo Rins e Mir ponteavam a corrida e o primeiro, líder da equipe, tinha tudo para vencer quando caiu sozinho, deixando Mir sozinho contra os leões. O coitado do novato espanhol foi engolido por Quartararo, Márquez e Viñales em poucas curvas. E foram os três que brigaram pela vitória. 

Quartararo é um raro caso de piloto que não conseguiu muito sucesso nas categorias de base antes de brilhar na MotoGP, numa trajetória muito parecida com Casey Stoner. O francês era considerado um fenômenos nas categorias espanholas, mas não deixou de decepcionar na Moto3 e na Moto2, onde sequer brigou pelo título e só conseguiu suas primeiras vitórias na Moto2. Guindado à MotoGP de forma surpreendente, Quartararo vem se destacando de forma impressionante em seu ano de estreia. Na corrida de hoje Fabio liderou boa parte da corrida com uma moto assustadoramente desequilibrada, mas quando os pneus da sua Yamaha satélite não aguentaram mais tamanho castigo, o francês ficou em terceiro e subiu ao segundo pódio consecutivo. Márquez e Viñales se isolaram na ponta, com o espanhol da Yamaha com uma moto mais equilibrada. Os dois ibéricos eram rivais nas categorias de base espanholas e a briga entre eles era muito esperada. No entanto, enquanto a talento de Márquez desabrochou rapidamente, Viñales ainda falta melhorar o psicológico para poder brigar ombro a ombro com Márquez, como aconteceu hoje, quando Maverick venceu como quis.

Enquanto um lado da Yamaha de fábrica vibrava, Valentino Rossi não tinha o que comemorar. Após uma classificação decepcionante, a lenda italiana errou nas primeiras voltas em Assen e ainda levou Nakagami junto, na terceira queda de Rossi consecutiva. O Doutor enxerga as outras três Yamahas no top-5, enquanto não consegue passar ao Q2. Uma situação muito ruim para uma lenda viva. Dez anos atrás Rossi conquistava seu sétimo título na MotoGP tendo como rival o atrevido Jorge Lorenzo. O espanhol cresceu, ganhou três títulos e se tornou também uma estrela da MotoGP, mas com apenas 32 anos de idade Lorenzo já está ocaso de sua carreira. Depois do seu infame incidente em Barcelona, Lorenzo machucou as costas nos treinos na Holanda e ficará de molho algumas semanas, bem no meio de uma temporada em que ainda não andou forte com a Honda. Rossi e Lorenzo. Dois nomes gigantes da MotoGP, mas já longe da animada briga pela ponta de 2009.

Mesmo derrotado, Márquez saiu de Assen com motivos para sorrir. A Ducati já foi considerada a melhor moto do pelotão, mas Doviziozo não brigou sequer pelo pódio e quase foi ultrapassado pela Yamaha de Morbidelli. Rins caiu nas primeiras voltas, enquanto Rossi já zerou três vezes seguidas. Quatro motos diferentes na ponta e uma bela competitividade, mas apenas Márquez consegue a consistência necessária rumo ao título. 

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Figura(FRA): Lewis Hamilton

O que poderemos reclamar de Hamilton? Por ser bom demais? O inglês não teve dó, nem piedade dos seus adversários em Paul Ricard. Foi um domínio poucas vezes visto de Hamilton nesse domingo. Lewis liderou todas as voltas ontem e só não ficou com a melhor volta por meros 0.024s. Porém, Hamilton parece não estar satisfeito. O inglês sabe que a monótona temporada de 2019 não faz bem ao esporte e Hamilton precisa de motivação para se manter na F1 nos próximos anos e nos brindar com seu talento fora da curva. Mas até Hamilton está enfadado com a F1 nessa temporada.

Figurão(FRA): Pierre Gasly

Numa corrida que de tão ruim já poderia fazer parte dessa coluna, teve um destaque ainda mais negativo nesse domingo. Correndo em casa Pierre Gasly parece que não se empolgou com a força da torcida francesa e teve mais um final de semana tenebroso nessa sua primeira temporada na Red Bull. Se já não bastasse não conseguir andar no mesmo ritmo de Max Verstappen, Gasly conseguiu a proeza de ficar atrás de alguns carros das equipes ditas da F1-B. Na classificação o francês ficou atrás da dupla da McLaren, mas em ritmo de corrida Gasly foi ainda pior, só conseguindo marcar um mísero ponto por causa da dupla punição de Ricciardo. Gasly não teve um ritmo decente em nenhum momento da corrida, ficando atrás dos pilotos com motores Renault e não conseguindo fazer uma ultrapassagem sequer. Alçado à piloto da Red Bull com a saída repentina de Daniel Ricciardo, Gasly vai se mostrando que não está pronto para estar numa equipe de ponta. Sua corrida caseira é mais uma na coleção de vexames que Gasly vai dando em 2019 e com a conhecida pouca paciência da cúpula da Red Bull com seus pilotos, o francês já deve começar a pensar no que fazer fora da F1 a partir do ano que vem.

domingo, 23 de junho de 2019

Valeu pelo resto

Depois da tenebrosa corrida em Paul Ricard na F1, o que viesse em seguida dificilmente seria pior. A Indy já tinha uma boa vantagem sobre a F1 nesse final de semana: estaria correndo em seu melhor misto, Road America. A corrida foi boa? Sim. Teve briga pela liderança? Nisso, foi até pior do que a F1! Mas da mesma forma que Lewis Hamilton não pode ser criticado pela sua competência, ninguém poderá crucificar Alexander Rossi em meter 28s sobre o segundo colocado numa corrida sem bandeiras amarelas, mas que teve bastante disputas nas demais posições.

O passeio de Rossi começou na segunda curva, quando fez uma corajosa manobra em cima do pole Colton Herta para assumir a ponta da prova e simplesmente desaparecer na frente. O piloto da Andretti não tomou conhecimento dos seus adversários e venceu com uma folga de quase meio minuto, algo bastante raro na Indy, onde a diferença nos carros é apenas de motor e acerto, já que o chassi e os pneus são os mesmos para todos. Isso apenas aumenta o feito de Rossi, que com a segunda vitória em 2019 ficou apenas sete pontos atrás de Newgarden no campeonato. O americano da Penske fez uma corrida discreta para ser terceiro colocado. Após um ataque em cima de Will Power depois da primeira parada, Newgarden se colocou em terceiro e mesmo atacado por Graham Rahal, permaneceu na posição de pódio, com Power confirmando o segundo lugar.

Scott Dixon fez outra corrida daquelas de nota. Tocado por Ryan Hunter-Reay na primeira volta, o neozelandês caiu para último e com um carro que estava longe de estar bem acertado, foi galgando posições até conseguir um impressionante quinto lugar, superando Colton Herta na última volta. O jovem americano tem um grande talento e já merece uma equipe grande para brigar até mesmo pelo título, mas enquanto estiver na pequena Harding, terá que conviver com erros de pit-stop como de hoje e erros de estratégia, que o fez estar com pneus macios no último stint e perder várias posições devido ao desgaste.

Se não houve briga pela liderança, pelo menos a Indy nos mostrou que um bom circuito pode nos trazer corridas interessantes, mesmo que da segunda posição para trás.

Indefensável

A década de 2010 conseguiu produzir algumas temporadas memoráveis, como foi o caso de 2010, 2012, 2014, 2016, 2017 e 2018. Foram disputas de títulos apertadas, mesmo que entre companheiros de equipe, sem contar as boas corridas que tivemos a sorte de acompanhar. O ano de 2019 tem tido o mesmo efeito de 1988 nos inesquecíveis anos 1980, ou 1992 na década de 1990 ou ainda 2002 nos anos 2000. Simplesmente não está acontecendo nada nessa temporada e a corrida de hoje em Paul Ricard foi exemplo enfático que nos foi jogado na cara. O Grande Prêmio da França de 2019 foi de uma falta de fatos assustador. Vou nem falar em emoção, pois isso faltou desde sábado. 2019 está sendo, de longe, a pior temporada dessa década na F1.

Claro que Lewis Hamilton e a Mercedes não tem do que reclamar, mas se estivessem dominando a temporada vindo de boas corridas, estaríamos até satisfeitos, como ocorre na MotoGP e o domínio de Márc Márquez. O problema na F1 é que as corridas não estão muito boas e a prova de hoje foi terrivelmente chata e sem graça. Algumas vezes a transmissão da TV teve que procurar uma briguinha lá pela décima sexta posição para ter algo um pouquinho mais relevante para mostrar, pois lá na frente, Hamilton despachou Bottas desde a primeira volta. Foi uma vitória categórica, onde o inglês não olhou para trás, enquanto caminha para o hexacampeonato sem maiores sustos. Bottas não repetiu seus melhores desempenhos e ainda sofreu um ligeiro ataque de Charles Leclerc na última volta, enquanto viu Hamilton disparar no campeonato. E pelo jeito, Bottas não terá muito o que fazer no campeonato. Apesar do pequeno ataque em Bottas, a corrida de Leclerc foi bastante solitária, o mesmo acontecendo com Verstappen e Vettel, que fez o trivial entre os pilotos de ponta no final da corrida. Colocou pneus macios nas últimas voltas para marcar um pontinho pela melhor volta. O tamanho da diferença da Mercedes para as demais é que com pneus macios novos, Vettel superou Hamilton, com pneus duros usados, por apenas 0.024s na última volta. 

A McLaren confirmou sua ótima fase em Paul Ricard com Carlos Sainz em sexto e só não foi melhor porque Lando Norris teve problemas hidráulicos no fim e despencou para décimo. Entre os dois carros da McLaren, esteve dois carros da Renault, que voltou a pontuar bem em casa e Kimi Raikkonen, que retornou à zona de pontuação com a Alfa Romeo. O primeiro fora da zona de pontuação foi a grande decepção do dia. Pierre Gasly vem fazendo uma temporada medonha na Red Bull. Mesmo correndo em casa, o francês não apenas não conseguiu andar no mesmo ritmo de Verstappen, como foi superado pela dupla da McLaren e da Renault, demonstrando que não apenas estar um ou dois degraus abaixo do companheiro de equipe em ritmo de classificação, como o ritmo de corrida de Gasly é tenebroso. Enquanto isso, Helmut Marko já deve estar pensando quem será o companheiro de equipe de Verstappen em 2020, enquanto Gasly já deve estar pensando no que fazer fora da F1. Foi uma corrida com apenas um abandono, com o também piloto da casa Romain Grosjean encostando no final da prova. A Haas tem um bom rendimento em classificação, mas na corrida perde muito ritmo. Do mesmo jeito da Red Bull, hoje Alfa Romeo e Racing Point sobrevive com apenas um piloto. Lance Stroll é extremamente fraco e talvez falte alguém corajoso para chegar em Lawrence e dizer que seu filho é um caso perdido, que o bilionário canadense está perdendo dinheiro em investir na carreira do pimpolho. Antonio Giovinazzi é uma prova viva que nem sempre ser parte de uma academia de pilotos é garantia de qualidade. Italiano protegido pela Ferrari, Giovinazzi vem fazendo uma temporada abaixo da crítica. Com brigas entre Toro Rosso e Williams, a corrida aconteceu sem maiores sustos e emoções.

Dar opiniões sobre a F1 e o seu futuro vendo uma corrida como a de hoje chega a ser perigoso. Em 2002, em face do domínio ainda mais avassalador da Ferrari, a FIA na figura do seu nefasto presidente Max Mosley colocava em prática seguidos 'pacotões' para tentar salvar a F1 do marasmo. Em curto prazo até funcionava, mas não demorava para vi as críticas de todos os lados, enquanto a Ferrari voltou a dominar em 2004. Ideias malucas eram colocadas na mesa e o pior que algumas passavam. Como todo fã de F1, devemos defender a categoria daqueles que dizem que a categoria acabou. Ela não acabou, mas com uma corrida horrível como a de hoje, fica difícil defender a F1.

sábado, 22 de junho de 2019

Na hora H

Em mais um final de semana dominado pela Mercedes, Valtteri Bottas vinha sempre mais rápido do que Lewis Hamilton, mesmo que as diferenças tenham sido ínfimas. Porém, quando mais importava, Hamilton mostrou a sua diferença para o seu esforçado companheiro de equipe e conseguiu sua 86º pole na carreira no belo circuito de Paul Ricard, num dia em que o recém-casado Sebastian Vettel decepcionou.

Com a Mercedes dominando desde os treinos livres, o destaque era para o resto do pelotão. O Q1 teve os três ocupantes de sempre: a dupla da Williams e Lance Stroll. O jovem canadense já não é lá essas coisas, mas em ritmo de classificação o Stroll consegue ser ainda pior, enquanto a Racing Point vai perdendo rendimento em comparação aos anos anteriores. Mesmo ainda tendo Sergio Pérez, o time está abaixo do que vinha mostrando nos últimos anos, repetindo o efeito que Stroll teve na Williams. Dinheiro traz felicidade, mas não velocidade. Stroll já pode ser considerado um coveiro de equipes, enquanto papa Stroll nem deve querer chegar perto da telemetria e ver o quanto o seu pimpolho leva dos seus companheiros de equipe.

Um dos grandes destaques do final de semana foi a McLaren, com Sainz e Norris não apenas se destacando no pelotão intermediário, como também ficando muito próximo da Red Bull de Verstappen. Com os dias cada vez mais contados dentro da equipe, Gasly foi devidamente superado pela dupla laranja. Correndo em casa a Renault ainda colocou Ricciardo no Q3, mas viu Hulkenberg sucumbir no Q2, numa sessão atípica. Por causa do desgaste dos pneus, a maioria das equipes fugiu dos pneus macios, preferindo usar os médios no Q2, resultando que a grande maioria dos pilotos que foram ao Q3 estavam usando amarelo. Antonio Giovinazzi foi o único a ir para o Q3 de vermelho e não deverá demorar muito a parar.

Tendo seu apelação negada sem nenhuma surpresa pela FIA, Vettel fez um Q3 horroroso, tendo até mesmo reclamado de um suposto problema de câmbio. Após abortar a sua primeira volta rápida, ele ficou apenas em sétimo, atrás de Verstappen e a McLaren, sem contar Leclerc, que fechou o top-3. Bottas vinha sempre superando Hamilton, mas no famoso pega pra capar, o inglês mostrou toda a sua genialidade e quebrou o recorde do circuito de Paul Ricard para conseguir a pole. Com o clima muito quente no sul da França, os pneus serão essenciais amanhã. E a Mercedes está na frente das demais nesse quesito. Outro domínio à vista!