domingo, 31 de julho de 2022

Facilitador

 


Quando lembrarmos da temporada 2022 da F1, provavelmente olharemos como Max Verstappen se tornou um piloto ainda mais completo depois de sua luta renhida com Hamilton ano passado, onde juntou à sua incrível velocidade, uma maturidade que o faz conseguir resultados muitas vezes fora dos padrões, como hoje, quando largou em décimo, rodou e ainda assim venceu com uma vantagem de 10s. Uma corrida de campeão ou melhor dizendo, de um digno bicampeão. Porém, quando formos dar uma olhada com mais cuidado para 2022, podemos perceber que Verstappen teve uma atenuante que facilitou bastante sua vida. E não foi a Red Bull. É impressionante a quantidade de tiros no pé que a Ferrari deu e continua dando nessa temporada, entregando pontos importantes para um quase imparável Verstappen. Hoje os italianos cometeram um erro estratégico bizarro com Leclerc, que tinha tudo para vencer a corrida e graças aos táticos da Ferrari, acabou numa opaca sexta posição.


O Grande Prêmio da Hungria viveu a expectativa de uma chuva que poderia vir a qualquer momento. Os radares meteorológicos eram mostrados várias vezes na transmissão, onde uma chuva na hora errada poderia ser decisivo na prova. Outro ponto era observar o comportamento de George Russell como poleman. E o jovem inglês da Mercedes se comportou muitíssimo bem nessa situação. O primeiro stint de Russell foi impecável, controlando a dupla da Ferrari sem maiores problemas, enquanto mais atrás ocorriam a recuperação decisiva de dois pilotos que tiveram problemas na classificação. Max Verstappen sofreu com problemas de motor e após uma largada limpa, começou a fazer várias ultrapassagens, deixando para trás a dupla da Alpine e Lando Norris, antes de ficar atrás de Hamilton. O inglês da Mercedes viu seu companheiro de equipe ficar com a pole, mas Hamilton teve problemas no seu DRS que o impossibilitou de largar mais à frente do que sua pálida sétima posição. Lewis fez uma super largada, superando as duas Alpines, mais preocupadas em lutar entre si e acabando por estender o tapete para Hamilton assumir a quinta posição e logo depois Lewis ultrapassou seu compatriota Norris para ser quarto, bem no momento das primeiras paradas. O clima estava frio e com muito vento em Budapeste, fazendo com que o asfalto estivesse gelado e clamando para uma borracha mais aderente. Russell largou com pneus macios e quando teve que trocar para médios, rapidamente foi atacado por Leclerc, que retardou sua parada e 'ultrapassou' nos pits um sorumbático Sainz. Charles imediatamente foi para cima de Russell, efetuando uma bela ultrapassagem sobre o inglês. Bela, mas anos-luz atrás da manobra de Piquet em Senna em 1986...


Ao ultrapassar Russell, Leclerc começou a abrir vantagem no que parecia uma resposta pelo erro que teve semana passada na França. Verstappen já tinha despachado Hamilton e se aproximava de Sainz para brigar pelo segundo lugar, já que o espanhol encostava também em Russell. Enquanto os pingos de chuva ficavam mais intensos, colocando ainda mais dúvidas na cabeça dos engenheiros nos boxes, a Ferrari começou sua operação de auto-sabotagem. Verstappen e Russell fizeram suas paradas de número dois, colocando pneus médios e indicando que iam até o final com essa borracha. A má parada de Russell somada a tática perfeita da Red Bull colocou Max na frente. O que pensou a Ferrari: tenho que responder a parada dos dois. No entanto, por ordem do regulamento, a Ferrari teria que colocar ou pneu duro ou macio no carro de Leclerc. Com muitas voltas a percorrer, a Ferrari açodadamente chamou Charles para colocar pneus duros. Como ficou nítido com a outra Ferrari, bastava deixar Leclerc algumas voltas a mais na pista e colocar os pneus macios e tudo seria mais prático. A Alpine foi uma a optar por uma estratégia de parada única e colocou pneus duros em seus dois carros beligerantes. Foi o caos, com Alonso e Ocon sem nenhuma aderência e sendo ultrapassados por vários carros. Os fatos estavam na cara dos estrategistas italianos, mas eles preferiram evitar um undercut e acabaram fazendo a besteira do final de semana. Completamente sem aderência, Leclerc viu Verstappen o ultrapassar com uma facilidade desconcertante. Talvez querendo dar um pouquinho mais de emoção, Max cometeu um raro erro e deu um 360 na penúltima curva, mas acabou perdendo só a posição para um desalentado Leclerc. A segunda e decisiva ultrapassagem não demoraria a acontecer. Com pneus médios e um ritmo ainda mais seguro, Verstappen partiu impávido para mais uma vitória e colocar gigantescos oitenta pontos no lombo de um sofrido Leclerc, que precisou fazer uma terceira parada para perder ainda mais terreno, trocando uma vitória certa por um horroroso sexto lugar.

Mattia Binotto foi visto indo para os fundos boxes com cara de poucos amigos. Se ele foi emular seus estrategistas no banheiro, não se sabe, mas provavelmente ele foi procurar saber o que cazzo os táticos estavam fazendo! A Ferrari saiu de favorito ao título no começo do ano a entregadora do ano, seja com erros dos seus pilotos, problemas de confiabilidade ou erros táticos inacreditáveis. As tintas dos jornais italianos estarão pesadas amanhã e com razão, enquanto a turma de Christian Horner sorri debaixo do pódio com mais uma vitória de Verstappen. Mesmo com Pérez fazendo uma corrida burocrática, dificilmente os austríacos perderão os dois títulos em contenda e com o anúncio de que a Porsche comprará 50% da equipe nos próximos meses, o futuro da equipe é belo, mesmo com a empresa Red Bull podendo estar de saída para a entrada da gigante montadora alemã. Enquanto isso, a equipe segue dando shows de eficiência tática, entregando às mãos habilidosas de Verstappen sempre a melhor solução para as corridas. Com o triunfo de hoje, Max já tem mais vitórias do que Jackie Stewart e vai colocando seu nome entre os grandes da F1. Nem em seu período de domínio a Red Bull fez dobradinha no Mundial de Pilotos, mas apesar da corrida medíocre de Pérez, o mexicano encostou ainda mais em Leclerc no campeonato. Do jeito que está, o monegasco deverá se conformar em segurar essa posição mesmo. São erros demais, de parte a parte, para uma equipe e piloto quererem ser campeões. Com os erros contínuos da turma de Maranello, fica claro que a Red Bull tem a Mercedes como uma adversária mais forte. Os alemães foram muito bem com seus dois pilotos e se Russell decaiu com os pneus médios, Hamilton cresceu de forma exponencial no fim da corrida. No terceiro stint com pneus médios, os mesmos do primeiro stint, Lewis se tornou o piloto mais rápido do dia, engolindo Sainz e Russell para ser segundo pela segunda corrida consecutiva, se recuperando de um campeonato que já beirava o ridículo no começo, enquanto Russell continua sua temporada sólida, com mais um pódio e ultrapassando Sainz no campeonato.


Na briga pelo resto, melhor para Lando Norris, que teve a péssima experiência de usar os pneus duros, mas ainda se manteve em sétimo, mas um minuto atrás dos líderes. A diferença entre as equipes tops e as demais só vai crescendo. Assim como a diferença entre os dois pilotos da McLaren, com Ricciardo fazendo outra corrida esquecível. Após uma briga forte, a dupla da Alpine marcou pontos com seus dois pilotos, Alonso à frente de Ocon e com algumas reclamações via rádio, lembrando que ser companheiro de equipe de Ocon não é a coisa mais agradável do mundo. Vettel fechou a zona de pontuação após ultrapassar Stroll nas últimas voltas. Numa corrida com apenas um abandono (de Bottas nas voltas finais), não houve margem para surpresas. Gasly largou dos pits para ser décimo segundo, enquanto Haas e Alfa Romeo bem que poderiam ter avisado à Ferrari que usar pneus duros hoje em Hungaroring não era uma boa ideia, pois elas também fizeram isso com seus pilotos e o resultado não foi nada bom. Tsunoda cometeu seu erro usual e as Williams não comprometeram ao tomar voltas.


A F1 entrará para as suas férias de verão com o título se encaminhando à passos largos para Max Verstappen. Mesmo quando erra, Max ainda consegue ficar na pista para marcar a volta mais rápida e ultrapassar na passagem seguinte. Verstappen tem uma equipe experiente e fortíssima lhe apoiando, onde erros são difíceis de acontecer. Mais do que isso, Verstappen e a Red Bull veem a Ferrari mais como uma facilitadora do que uma rival rumo a mais um título. 

sábado, 30 de julho de 2022

Dia das surpresas

 


A previsão para o sábado em Budapeste era de chuva e sabia-se disso desde o começo da semana, com riscos menores no domingo. Porém, não poderia se imaginar um dia marcado com tantas surpresas como hoje. No terceiro treino livre, com pista molhada, praticamente o grid inteiro saiu para marcar tempos com pneus intermediários no finalzinho do tempo regulamentar e o criticado Nicholas Latifi ficou com o melhor tempo, para espanto de toda a F1, começando com o próprio Latifi. Porém, o tempo abriu um pouco e a classificação foi com pista seca e um pouco de sol. Fim das surpresas? Não! A Ferrari já se preparava para iniciar a sua comemoração de mais uma dobradinha em 2022, quando George Russell saiu do nada para superar Sainz no último momento e marcar a primeira pole do jovem inglês.

Se era esperado chuva o dia inteiro em Budapeste, a previsão não se confirmou à tarde e a classificação ocorreu com piso seco, mas com os pilotos tateando numa situação que não tinham testado ainda. E por isso as surpresas começaram cedo. Vettel, grande estrela do final de semana por causa do seu anúncio de aposentadoria na quinta-feira, ficou ainda no Q1 numa rara ocasião onde foi superado por Stroll, enquanto Gasly teve seu melhor tempo anulado pelos famigerados 'track limits' e ficou em penúltimo. A carruagem de Latifi virou abobora quando ele ficou com o seu usual último lugar, mesmo tendo feito o melhor tempo na primeira parcial, mas o canadense já tinha dado o seu recado nesse final de semana. Veio o Q2 e a continuação da má fase de Sergio Pérez, totalmente fora de ritmo em Hungaroring e mesmo tendo sua melhor volta re-estabelecida, o mexicano não foi para o Q3, numa situação chata para quem usa um Red Bull, mas a situação da equipe pioraria mais tarde.

Max Verstappen errou em sua primeira tentativa no Q3 e teve problemas de potência na segunda, o relegando ao décimo posto. Ótimas notícias para a Ferrari, que tinha tudo para completar a primeira fila, mesmo que com Carlos Sainz na ponta. Até então a Mercedes tinha feito um final de semana bem regular, com Russell e Hamilton andando sempre próximos e com a evolução do carro, com ambos figurando nas primeiras posições. Se havia algum candidato a surpresa seria Lando Norris, sempre muito forte com sua McLaren, mas nas tentativas derradeiras, Leclerc e Sainz melhoraram seus tempos de forma que parecia definitiva. O espanhol já deveria se preparar para soltar o Smooth Operator, quando Russell apareceu com parciais muito próximas de Sainz e completou a volta ligeiramente à frente de Carlos, significando a primeira pole da Mercedes em 2022 e a primeira de George, que vibrou bastante pelo rádio. 

Centrado, Russell gritou e comemorou muito, mas rapidamente lembrou que 'os pontos são marcados no domingo'. Hamilton vinha em boa volta, mas acabou abortando e teve que se contentar com uma pálida sétima posição. Mais pálidos estavam os pilotos da Ferrari. Sainz mal podia esconder sua frustração em perder a pole, enquanto Leclerc sabia que uma inversão de posições ficou mais complicado com Russell embolado com eles amanhã. E o monegasco sabe da importância de aproveitar um dia ruim de Verstappen. Completando o rol das surpresas, Norris foi quarto e a Alpine completa a terceira fila. Com uma pista historicamente complicada de se ultrapassar, a corrida de amanhã deverá ser das mais interessantes. Lembrando ainda da instabilidade climática nesse final de semana. Porém, Russell terá o resto do dia para comemorar seu feito.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Das Ende

 


Num movimento pouco usual, Sebastian Vettel entrou de forma relutante nas Redes Sociais, algo que o alemão sempre falou que detestava. O motivo dessa entrada, de uma forma ou de outra, foi descoberta nessa manhã. Num emocionante texto em inglês e alemão, Sebastian Vettel anunciou sua aposentadoria da F1 no final dessa temporada, aos 35 anos.

O que lembraremos de Sebastian Vettel? Do piloto doutrinador do começo dos anos 2010 ou o piloto de certa forma melancólico dos últimos anos? Se a última impressão é a que fica, será uma injustiça com um piloto que parecia imbatível anos atrás. Vettel quebrou alguns recordes que olhando em retrospectiva, o colocam entre os grandes da história da F1, mesmo que devido à algumas condições que convergiram para o seu estilo de pilotagem e de trabalhar, fazendo-o conquistar quatro títulos consecutivos. Dos quatro triunfos, dois foram bem renhidos e os outros dois foram conquistados com imensa tranquilidade. Em 2011 e 2013, Vettel desfilou na F1, conquistando vitórias em cima de vitórias, algumas com uma facilidade desconcertante. Desde novo conhecido como 'Baby Schummy', Vettel parecia fadado a ser ele quem quebraria os recordes do seu compatriota. Ainda mais com suas vitórias em 2010 e 2012, onde derrotou Alonso por muito pouco e de forma dramática. Ninguém vence Alonso duas vezes de forma fortuita. Vettel teve méritos, mesmo que para muitos, principalmente em 2012, o alemão tivesse o melhor carro, fazendo com que Alonso dissesse que o vencedor daqueles anos teria sido Adryan Newey, o mago da aerodinâmica e o homem atrás dos carros da Red Bull.

E essa sensação aumentou com a chegada da Era Híbrida e o começo do domínio da Mercedes. Por mais que Vettel não tivesse muito o que fazer com tamanha vantagem da Mercedes, sua atuação na Red Bull frente ao novato Daniel Ricciardo chamou a atenção dos críticos. Quando esteve ao lado de Mark Webber, Vettel soube dominar o australiano usando seu talento, assim como dominava dentro da Red Bull. Com sangue novo ao seu lado, Vettel não se deu muito bem com um piloto mais novo e muito rápido. Isso desmotivou Vettel dentro da Red Bull e acendeu um antigo sonho de seguir os passos do ídolo Michael Schumacher. Assim como o compatriota, Vettel saiu da sua zona de conforto e foi para a Ferrari, liderar a equipe frente ao domínio da Mercedes. Vettel chegou como piloto número um e por duas temporadas, chegou a enfrentar Hamilton e a Mercedes. Por sinal, por muito tempo era esperado um confronto entre Vettel e Hamilton, dois dos pilotos mais talentosos que surgiram em meados dos anos 2000. Ambos já contando com títulos, mas de estilos bem distintos, seria um encontro épico. Infelizmente, ficou na expectativa. Hamilton usou a experiência da dolorida derrota para Nico Rosberg e toda a potência da Mercedes para derrotar a Ferrari e Vettel sem muita briga.

Para piorar, houve um episódio que pode ser colocado como um turning point para Sebastian Vettel. O alemão vinha de uma vitória em Silverstone, lugar onde Hamilton sempre andou muito bem e após derrotar o inglês, Seb foi para Hockenheim com expectativa de vencer e se consolidar como líder do campeonato de 2018. Correndo em casa, Vettel liderava, enquanto Hamilton fazia uma tremenda corrida de recuperação quando uma chuva fina começou a cair. Vettel, tendo vencido sua primeira corrida de F1 na Toro Rosso num final de semana chuvoso em Monza, parecia que não teria problemas com essa situação, mas Sebastian acabou saindo da pista sozinho no setor do Estádio, na frente de sua torcida. Hamilton venceu rumo ao quinto título, enquanto Vettel entrou numa espiral negativa e de repente se tornou um piloto errático, com várias saídas de pista e atuações decepcionantes. A política sempre efervescente da Ferrari começava a duvidar de Vettel. O alemão tinha ao seu lado Kimi Raikkonen, um piloto que era não apenas amigo de Vettel, como também era uma pessoa mais controlável, como era Webber nos tempos de Red Bull. A Ferrari decidiu substituir Kimi, para insatisfação de Vettel, e trouxe o jovem Charles Leclerc. Assim como Ricciardo em 2014, Leclerc teve um efeito parecido com Vettel. Um jovem piloto protegido pela equipe chegando e querendo mostrar serviço. Vettel foi definhando cada vez mais. Erros e toques com Leclerc foi minando a confiança do alemão.

Enquanto isso, Vettel passou a ter uma visão mais holística da vida, entrando de cabeça em causas sociais e ambientais. Se as vitórias rarearam, Vettel passou a ter tempo de olhar para outras coisas fora das pistas, apoiando Hamilton em sua luta por inclusão e igualdade. Dentro das pistas, Vettel cada vez mais era uma sombra de si e após seis anos de Ferrari, ele se mudou para a Aston Martin, que retornava na F1 após vários anos, mas que na verdade é um projeto de Lawrence Stroll para ver seu filho ser campeão. Algo que nunca deverá acontecer não por falta de dinheiro e empenho, mas por fraqueza de Lance. Após treze anos Vettel voltava a uma equipe média, mesmo que com muito potencial, porém, isso não fez do alemão um piloto mais combativo. Aqui e ali, Seb conseguia mostrar sua antiga magia, mas isso estava virando mais exceção do que regra. Construída em torno de um piloto fraco, a Aston Martin não desabrochou como esperado e Vettel via que correr à sombra de Lance Stroll era demais para ele, mesmo Sebastian sendo obviamente melhor e mais rápido do que o canadense. As fechadas que levou do fedelho na França na última semana deve ter tirado de vez a paciência do alemão. 

Após dizer que tinha tudo para renovar com a Aston Martin, Vettel abriu um Instagram para anunciar sua aposentadoria, iniciando uma queda de dominós no mercado de pilotos. Com uma vaga sobrando, talvez surja a oportunidade de Oscar Piastri, enquanto Alonso poderá ficar mais um ano na F1. 

O anúncio de Vettel fez com que homenagens brotassem de toda a F1. Mesmo tendo dominado a F1, Vettel parece ser uma pessoa do bem e afável, fazendo-o bastante popular no paddock da F1. Além da causas que abraçou nos últimos anos, Vettel tem um grande conhecimento da história da F1, saindo um pouco da alienação de alguns pilotos, que mal sabem da história de onde está. Vettel sempre teve a exata noção de onde esteve e com outra cabeça, focará em outras prioridades. Os números de Vettel entram na verdadeira ciranda da F1 do século 21, com muitas corridas, poucas quebras e domínios. Vettel se aproveitou muito bem dos seus anos de Red Bull e foi imbatível quando teve as condições certas a seu favor, marcando seu nome na história do esporte a motor.

Danke, Sebastian!

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Figura(FRA): Mercedes

 Ainda não está onde eles queriam estar, mas lembrando onde a Mercedes estava metida faz pouco tempo, o duplo pódio em Paul Ricard é um alívio e tanto, além de demonstrar que os alemães estão no caminho certo para, se houver uma boa conjuntura, ainda poderão vencer em 2022. Ainda falta ritmo em comparação à Red Bull e Ferrari, principalmente na classificação, mas no trem de corrida a Mercedes já consegue ficar próximo das duas equipes líderes, principalmente com os dois segundos pilotos. Hamilton ultrapassou Sergio Pérez ainda na largada e segurou o ímpeto do mexicano sem maiores dramas, o mesmo fazendo Russell no final da corrida no inacreditável erro de Pérez na relargada do VSC. Hamilton conquistou seu quarto pódio consecutivo e aos poucos vai retomando sua confiança, que é tão importante para um esportista e Lewis estava devendo em 2022. Já Russell vai fazendo um certame incrivelmente sólido, mantendo uma regularidade impressionante nesse seu primeiro ano na Mercedes. Com o carro evoluindo e dois pilotos fortíssimos, a Mercedes pode não conquistar o título desse ano, mas já passa longe de fazer feio em toda a temporada 2022.

Figurão(FRA): Charles Leclerc

 Como falado ontem no título da crônica da corrida... o que eu vou dizer lá em casa, Leclerc? Parodiando a lenda Sílvio Luiz, foi inacreditável ver um piloto tão forte e capaz como Charles Leclerc sucumbir dessa forma, entregando não apenas vinte e cinco pontos à Max Verstappen, como podendo ter entregue o bicampeonato ao neerlandês da Red Bull. Sua respiração ofegante e os gritos pelo rádio mostram toda a frustração de Charles, vendo o título escorrer pelos dedos de forma tão fácil e por culpa dele. A frase de Leclerc tentando explicar o inexplicável é bem ilustrativa: "Correndo dessa forma, não mereço ser campeão". 

domingo, 24 de julho de 2022

O que eu vou dizer lá em casa, Newgarden?


 Após sua vitória ontem na primeira corrida no oval curtíssimo de Iowa, Josef Newgarden tinha tudo para reestabelecer a verdade no campeonato da Indy nesse domingo. Largando igualmente em segundo, Newgarden esperou o primeiro stint para ultrapassar o companheiro de equipe Will Power e dominar a corrida, do mesmo jeito de ontem. Na entrevista que deu depois do seu triunfo nesse sábado, Newgarden falou que faltava consistência para realmente brigar pelo título. Pois bem, quando a reta final da corrida se aproximava, Josef viu a traseira do seu carro ter algo quebrado e o americano da Penske se estatelou no muro, acabando com seus sonhos de vitória e dificultando sua situação no campeonato. 

Mesmo não tendo sido culpa de Newgarden, o seu abandono foi tão cruel como o visto pela manhã com Charles Leclerc. Assim como o piloto da Ferrari, Newgarden poderia estar, no mínimo, mais próximo do líder do campeonato se não fossem alguns erros tantos deles, como da Penske. No caso de hoje, a culpa recai na equipe, que viu algo quebrar na traseira e destruir um final de semana quase perfeito de Newgarden, que o colocaria merecidamente na ponta da tabela. Quem se aproveitou disso tudo foi Pato O'Ward. Notícias vindas da França indicam a permanência de Daniel Ricciardo na equipe McLaren da F1, mesmo o australiano fazendo sua segunda temporada abaixo da crítica na equipe. Mesmo assim O'Ward não baixou a guarda. Vindo de corridas com resultados abaixo do potencial do seu conjunto, O'Ward teve um bom final de semana em Iowa, onde foi segundo ontem e hoje se aproveitou do azar de Newgarden para uma vitória que o deixa com a mesma pontuação de Josef, mesmo que com uma vitória a menos.

Quem vibrou com tudo isso foi Marcus Ericsson. O piloto da Ganassi fez um final de semana para pontuar em Iowa, conseguindo dois top-10 numa pista em que a Penske dominou, mas Ericsson ainda saiu na frente da tabela, mesmo com Will Power, com dois pódios nesse final de semana, bem próximo. Destaque para a boa corrida de Jimmie Johnson, que ultrapassou Ericsson nas voltas finais para conquistar um quinto lugar, sua melhor posição na Indy, mostrando que a lenda da Nascar só funciona mesmo nos ovais. Já Ericsson, que se viu próximo de levar uma volta duas vezes e em ambas foi salvo por uma bandeira amarela, vai fazendo um campeonato longe de ser brilhante, mas sem sombras de dúvidas, bem eficaz, marcando pontos em meio ao turbilhão que é o ambiente interno da Ganassi. Power tentará salvar a honra da Penske, enquanto Newgarden, que falou em choro na entrevista pós-acidente, tentará juntar os cacos e dar uma arrancada nessa parte final de campeonato.

O que eu vou dizer lá em casa, Leclerc?

 


A comparação é inevitável. Charles Leclerc mantinha uma suada primeira posição, tendo Max Verstappen como seu principal rival e qualquer erro, o neerlandês da Red Bull tomaria a ponta do piloto da Ferrari. Leclerc liderava naquele momento sozinho, pois Verstappen tinha acabado de fazer sua parada. Então, do nada, se viu uma Ferrari espetada no muro. Assim como ocorreu em Hockenheim em 2018. Vettel ainda liderava o campeonato naquela ocasião e sua saída de pista bem na frente do seu público foi um turning point não apenas daquele campeonato, mas também da carreira de Sebastian. A partir daí, Vettel nunca mais foi o mesmo piloto que encantou a F1 no começo da década de 2010. Leclerc já havia perdido vitórias em 2022 e por isso não liderava o certame desse ano, mas no terceiro abandono de Charles, ele não pode culpar a Ferrari. E também não estava chovendo, como ocorrera quatro anos atrás no caso de Vettel. Se em 2018 Hamilton pavimentava seu caminho rumo ao seu quinto título, Verstappen começa a fazer uma conta mental de quantas provas faltam para ele conseguir seu segundo título.


Como esperado, um calor quixadaense se abateu em Le Castellet, com os termômetros marcando 31,5º na reta dos boxes de Paul Ricard, que segundo consta, recebeu sua última corrida na F1. Apesar da França ser um estrado tradicional da F1, sempre faltou um palco que os gauleses pudessem chamar de seu, tanto que vários circuitos receberam o circo da F1. Mesmo com estruturas ainda modernas, as caixas de escapes eternas e coloridas, mais a terrível chicane no meio da Mistral fez de Paul Ricard não entrar no gosto de pilotos e público, mesmo a pista estando bem parecida com a antiga. Com cada vez mais países querendo entrar no calendário da F1 colocando muito dinheiro, os franceses, que batizaram o 'Grand Prix', ficarão novamente sem corrida a partir de 2023, repetindo o que ocorre com a Alemanha, mesmo tendo equipe e pilotos na F1 atual. Porém, pelo o que foi visto em Paul Ricard, a pista não fará tanta falta assim. O forte calor no asfalto fez com que a maioria dos pilotos abrandassem o ritmo, com receio do desgaste de pneus e por isso, as brigas foram pontuais, sendo que a principal, pela vitória, estava bipolarizada entre Charles Leclerc e Max Verstappen. Correndo praticamente em casa, o monegasco largou muito bem e não teve trabalho para se manter na ponta, com Max tendo um pouquinho de labuta para segurar os ataques de Hamilton, que ultrapassou um sorumbático Sergio Pérez no apagar das cinco luzes vermelhas. 


Desde ontem se sabia que Ferrari e Red Bull tinham optado por diferentes acertos em seus carros, com a Ferrari preferindo mais pressão aerodinâmica para cuidar dos pneus, enquanto a Red Bull escolheu correr com menos asa e ser mais rápida nas retas. Quando Max encostou em Charles nas primeiras voltas, era esperado que o representante da Red Bull voasse para cima da Ferrari, mas Leclerc se portou muito bem frente aos ataques de Verstappen, que quando percebeu que seus ataques não teriam maiores êxitos na pista, tratou de fazer o que a maioria estava fazendo: poupar os pneus. À essa altura, a dupla da frente já tinha 6s de vantagem para Hamilton, que foi atacado por Pérez, mas o mexicano emulou a estratégia do companheiro de equipe e ficou na sua, poupando borracha. Quando alguns carros do pelotão de trás começaram a visitar os pits, Verstappen foi para os boxes colocar pneus duros, teoricamente, para não mais troca-los. O motivo era a nova saída de boxe, muito longa e que aumentou mais em alguns segundos todo o procedimento de parada. Por exemplo, derrubando Max para sexto, atrás de Norris. Como os pneus duros não estavam tão eficientes como esperado, a Ferrari resolveu deixar Leclerc na pista, lembrando que Charles tinha pouco mais de 2s de frente quando Max parou. Porém, tudo foi por água abaixo na volta 18. No final da pequena reta após a chicane, Leclerc errou na rápida curva onde o piloto trabalha bastante o pedal, perdeu o controle do carro e foi para o muro de pneus. A forma como Leclerc gritava e arfava no rádio mostrava bem a frustração do piloto. Primeiro se desconfiou do acelerador da Ferrari, algo que já havia trazido problemas para Leclerc na prova passada, em Silverstone, mas quando Leclerc, ainda cuspindo maribondo, foi falar com a imprensa, ele confirmou que ele havia errado e jogado pela janela uma vitória praticamente em casa, além de entregar 25 pontos inteiros para Verstappen, que após a parada de Leclerc, partiu impávido rumo a sétima vitória do ano e consolidando uma vantagem grande o bastante (65 pontos) para começar a fazer aquelas contas de o que será necessário daqui para frente para ser campeão.


Foi um golpe e tanto para a Ferrari. Além do deprimente abandono de Leclerc, o time via um Carlos Sainz muito forte, que largou com pneus duros e já começava a se aproveitar do desgaste dos pilotos que largaram com pneus médios e escalava o pelotão. Com o Safety-Car trazido pelo incidente de Leclerc, a Ferrari trouxe Sainz para os pits mais cedo do que o programado e colocou, por ordem do regulamento, pneus médios. Faltando mais de dois terços de corrida, era lógico que o espanhol não teria pneus para ter um desempenho decente até o final. Então Sainz aproveitou para fazer duas belas ultrapassagens sobre Russell e Pérez antes de fazer uma necessária segunda parada, para desgosto de Carlos, que várias vezes questionou sua equipe pela tática escolhida. Sainz ainda remou como pôde, marcou a melhor volta, teve uma ligeira esperança com Zhou saindo da pista e estacionando sua Alfa ao lado da pista, o que poderia trazer um SC real, mas apenas o virtual veio, garantindo apenas um quinto lugar para Sainz, num bom esforço para o espanhol, mas que acabou longe de ser suficiente para a Ferrari, que viu a Red Bull abrir ainda mais no Mundial de Construtores. Para melhorar a vida de Verstappen, o terceiro colocado no campeonato estava num dia, digamos, letárgico. Pérez não foi bem nos treinos livres, deu um 'oi' na classificação, mas murchou de novo na corrida. Ultrapassado na largada por Hamilton, Pérez pouco trabalho deu ao inglês, mesmo com a Red Bull voando nas retas, mas o pior estava por vir. Tendo forçado seus pneus na luta com Sainz, Pérez acabou alcançado por Russell, começando uma briga ferrenha pelo último lugar do pódio, inclusive com um ligeiro toque entre eles na chicane da Mistral. Russell não gostou, mas seu troco viria mais tarde e de forma humilhante. Durante o SC virtual, Pérez controlou a distância para Russell, mas na bandeira verde, o mexicano deu uma cochilada inacreditável e George passou voando por ele. Um erro estúpido para um piloto tão experiente como Pérez, que passou as últimas três voltas caçando track limits de Russell e tetando manobras desesperadas para reverter a sua presepada. 


No entanto, Russell segurou muito bem a posição e garantiu seu terceiro pódio no ano, o primeiro junto com Hamilton, que fez uma corrida sólida rumo ao melhor resultado do ano do experiente piloto, que completou 300 GP's hoje, mostrando que a Mercedes está no caminho certo para conseguir pelo menos uma vitória em 2022. Se ainda falta um pouco de ritmo, principalmente na classificação, sobra confiabilidade e a Mercedes conta com dois pilotos incrivelmente fortes, com Hamilton conseguindo seu quarto pódio consecutivo e se aproximando de Russell no campeonato, após um início de ano claudicante. Na briga pelo resto, vitória da Alpine. Fernando Alonso conseguiu uma largada estupenda, pulando para quinto, mas ao ser ultrapassado por Russell, o espanhol não deu chances para a McLaren de Norris e garantiu um bom quinto lugar, contando com o abandono de Leclerc. Ocon também fez uma corrida boa, onde superou uma punição por tocar em Tsunoda no começo da prova e foi sétimo colocado. Empatadas no Mundial de Construtores antes da prova, Alpine e McLaren vinham para um tira-teima e em casa, os franceses se sobressaíram, com os carros laranjas ficando entre os bólidos azuis. Novamente Norris andou bem na frente de Ricciardo, que fez outra corrida opaca, mesmo que em 2023 provavelmente fique na McLaren (da F1). Na briga pelo último ponto, melhor para Stroll, que segurou a pressão de Vettel na última volta. Albon fez o que pôde com sua Williams, Gasly decepcionou em casa, enquanto Alfa Romeo e Haas decepcionaram, assim como sua fornecedora.


Psicologicamente, esse Grande Prêmio da França pode ter um significado e tanto para o campeonato, mesmo com praticamente metade das corridas a serem percorridas. Enquanto Verstappen mantém sua velocidade aliada com sua incrível maturidade e apoio da gigante Red Bull, seus rivais vão caindo um a um. Pérez teve uma corrida esquecível e seu vacilo nas últimas voltas lhe trarão um merecido puxão de orelha. Já Leclerc... O que eu vou dizer lá em casa errando desse jeito Charles? Verstappen agradece.