sábado, 30 de novembro de 2024

Carregando nas costas

 


A Sprint Race desse sábado deu alguns recados para a etapa em Lusail. Aparentemente a McLaren tinha o carro mais rápido, vindo de uma dobradinha na corrida mais curta e com Lando Norris se dando o luxo de devolver o favor que Piastri fizera em Interlagos, entregando a vitória na última curva da última volta para o companheiro de equipe, pegando a todos de surpresa, inclusive a própria McLaren. Enquanto isso, Max Verstappen que só conseguira um sexto lugar no grid, largou mal e só conseguiu salvar um oitavo lugar, reclamando muito do comportamento do seu carro. Duas horas depois, Max tirava leite de pedra e conseguia sua nona pole em 2024, desbancando McLaren e a Mercedes de Russell, numa demonstração clara que o tetra não veio por acaso.

A classificação em Lusail foi bem tranquila, mas a saída de Hulkenberg no Q1, após o alemão ter feito uma ótima Sprint, mostrava que as equipes ainda tinham muito espaço de melhorar após apenas um treino livre. Outro ocupante costumaz do Q3 nos últimos tempos, Gasly, perdeu a posição no Q3 por meros doze milésimos, enquanto Alonso retornava ao Q3 depois de muito tempo. Piastri e Norris nem de longe repetiam o controle que tiveram na Sprint. A Mercedes aparecia forte, mas somente com Russell, com um desmotivado Hamilton andando mais para trás. Lutando pelo título de Construtores, a Ferrari fez uma classificação opaca e depois de perder pontos para a McLaren com a dobradinha dos laranjas na Sprint, largará atrás dos dois no domingo.

Verstappen mostrava uma melhorava significativa em comparação à sexta e na Sprint, brigando pelos melhores tempos no Q1 e no Q2. Com a McLaren não aparecendo, quem veio forte foi Russell, com o inglês ficando com o melhor tempo, mas Max tirou o doce da boca de George e ficou com a pole, superando o piloto da Mercedes por meros cinco centésimos, com a dupla da McLaren na segunda fila. A diferença entre Max e Checo, que sempre foi grande, chegou a 1s em Lusail. A Red Bull não tem o melhor carro, mas Verstappen fez toda a diferença. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Na conta da torcida

 


Em 2009 a revista Placar, em seu tradicional Guia do Campeonato Brasileiro, cravou que o Ceará iria brigar para não cair para a série C na Segundona. Resultado? Subimos para a série A! Oito anos depois, o Ceará retornava à série A com uma outra roupagem. Se antes o clube sofria com administrações sofríveis, o Ceará era um clube organizado e se demorou esse tempo todo para subir, pelo menos sempre era respeitado, sempre ficando próximo de subir, com exceção de 2015. Fora um acesso esperado!

Foram cinco anos na série A, onde se pode dizer que apenas dois anos foram considerados bons. A administração exemplar sofria arranhões com Robinson de Castro administrando o clube pensando mais em planilhas do que acontecia no campo. Jogadores de qualidade e índole duvidosa eram contratados e em 2022 fomos rebaixados, enquanto o rival brilhava. Cair fazia parte de um plano de contingência de um clube organizado, mas Robinson não pensou nisso. Deixou o Ceará endividado e algumas situações que pareciam ter ficado num passado distante voltaram com força em 2024, após um 2023 onde o título da Copa do Nordeste foi a única coisa a se comemorar. Jogadores entrando na justiça, dívidas aparecendo a todo momento, Transfer Ban...

Porém, o Ceará tinha a sua torcida ao seu lado. O lema é 'Nunca abandonar'. Mesmo com confusões nos bastidores, uma base forte foi montada para 2024. O criticado presidente João Paulo Silva deixou o futebol com verdadeiros profissionais e competentes. Primeiro veio o inesquecível título cearense desse ano. O Ceará era um dos favoritos a subir nesse ano, mas em 2023 também o era e decepcionou amargamente. O campeonato do Vozão não parecia promissor. Derrotas fora de casa e tropeços eventuais dentro do Castelão deixava o acesso distante. Vagner Mancini saiu, entrando em seu lugar Leo Condé, que levara o Vitória ao título da Série B em 2023. O elenco tinha bons jogadores na frente, com Aylon, Saulo Mineiro e principalmente Erick Pulga transformando o Ceará no melhor ataque do campeonato. Em compensação éramos uma das piores defesas. Condé foi consertando a retaguarda, enquanto a diretoria de futebol blindava o time das notícias ruins nos bastidores. 

Se em 2009 e 2017 o Ceará ficou boa parte do campeonato no G4, nesse ano o Vozão ficou sempre por perto, mas teimava em vacilar quando estava para entrar entre os quatro primeiros. Os vacilos transformavam o acesso em algo difícil, mas não impossível. Era preciso de sete vitórias em dez jogos. Lembram que a torcida prometeu nunca abandonar? Ela não abandonou. Foi ao Castelão mesmo depois de derrotas fora de casa. Recordes eram quebrados. O Ceará foi subindo no momento decisivo, iniciando uma arrancada inesquecível. O último jogo em casa, contra o América, significou o recorde de público da Arena Castelão numa mobilização que parou a cidade. E quem lá esteve diz que tinha muito mais do que os divulgados 63.908 torcedores.

Foi uma última rodada cardíaca, onde o Ceará não fez sua parte, mas Mancini fez. Sim, o antigo técnico do Ceará treinava o Goiás que derrotou o Novorizontino e transformou o empate do Ceará com o lanterna Guarani o suficiente para um inesquecível acesso. O terceiro em quinze anos. Tomara que não precisemos de outro tão cedo. O Ceará é gigante. E sua torcida levou o time para o sonhado acesso!

terça-feira, 26 de novembro de 2024

E teremos GM!

 


O que aconteceu dentro dos luxuosos escritórios da Liberty não será conhecido tão cedo, mas os bastidores para a entrada da GM/Cadillac na F1 merecerá imensos comentários num futuro próximo. Michael Andretti não escondia seu desejo de retornar à F1, agora como chefe de equipe e depois de quase comprar a Sauber, arrumou investidores para se tornar a décima primeira equipe da F1. Porém, Michael não contava com a resistência dos dez atuais donos de equipe da F1. O receio era conhecido. Com a chegada de uma nova equipe, o bolo de premiações terá fatias menores mais na frente e com as equipes solidificadas economicamente, muitos temiam que os times pudessem ter problemas financeiros lá na frente com essa diluição.

Tentando provar que sua equipe agregaria à F1, Andretti conseguiu o importante apoio da GM, com a marca Cadillac, mas nem isso convenceu a Liberty e as equipes permitirem a entrada da equipe. Disse a Liberty que a nova equipe 'não agregaria valor à F1'. O sobrenome Andretti, junto à GM, não agrega valor a uma categoria? A Liberty queria enganar quem?

No entanto, a Andretti continuou trabalhando. Não apenas Michael seguiu contratando pessoas e construindo uma subsede em Silverstone, como Mario foi ter uma conversinha com a Procuradoria do Congresso Americano. Mesmo com a recusa da entrada, com a promessa de uma nova tentativa somente em 2028, seguir trabalhando numa nova equipe parecia estranho. Porém, o mais estranho veio depois, numa sequência de acontecimentos. Primeiro, surgiu a notícia que a investigação do Congresso chegou à conclusão de que os donos de equipe de F1 realizaram um conluio para deter a entrada da Andretti, algo que estouraria em breve. Logo depois, Michael Andretti saiu do lugar de dono da própria equipe e então Greg Maffei, CEO da Liberty, saiu do seu lugar.

Essa sequência toda fez com que a F1 anunciasse que a GM entrará na F1 em 2026 de forma repentina. No anúncio, nada foi falado em Andretti, mas a GM foi logo colocando Mario Andretti como um dos diretores da nova equipe, que se chamará Cadillac.

Uma situação estranha, para dizer o mínimo, mas voltar a ter onze equipes é bastante importante para a F1, além de contar com uma marca gigantesca fazendo parte da categoria.

Figura(LAS): Max Verstappen

 27 anos, tetracampeão mundial. Dizer o que mais de Maximilian Verstappen? Um título conquistado sem ter o melhor equipamento a maior parte do ano e numa corrida controlada. Max já está entre os grandes da F1.

Figurão(LAS): Alpine

 O duplo pódio em Interlagos e a consequente subida no Mundial de Construtores parecia significar um marco importante para a Alpine, mesmo já estando no final da temporada. Os franceses sabiam que o atípico resultado em São Paulo foi muito mais pelo clima instável do que um significativo avanço da Alpine, mas um ótimo resultado como aquele poderia significar o boost necessário para iniciar 2025 de uma maneira totalmente diferente do que foi o errático 2024 da Alpine. E logo na classificação em Las Vegas, um terceiro lugar de Pierre Gasly parecia corroborar com isso. No entanto, a carruagem gaulesa se transformou em abóbora na noite de sábado na fria Las Vegas. Gasly perder rendimento e ser ultrapassado por Mercedes, Ferrari e Verstappen era até esperado, mas ter o motor Renault estourado quando perseguia a Racing Bulls de Yuki Tsunoda foi um pouquinho demais e a possibilidade de pontos voou literalmente pelos ares. Enquanto isso, a corrida de Ocon era estragada por um pit-stop ou a falta dele, quando Esteban entrou nos pits e deu cara com o pit da Alpine vazio, num ruído inacreditável de comunicação. O zero ponto em Nevada complicou a situação da Alpine na luta pelo sexto lugar no Mundial de Construtores, além de reafirmar que o ocorrido em Interlagos foi algo totalmente fora da curva. Flavio Briatore terá bastante trabalho...

domingo, 24 de novembro de 2024

M4x

 


Foi até mais fácil do que o imaginado. Numa F1 cheia de surpresas em 2024, Las Vegas viu o domínio da Mercedes, algo que os próprios pilotos da equipe se surpreenderam e não souberam explicar, mas Max Verstappen fez sua própria corrida rumo ao merecido tetracampeonato, fato praticamente consolidado em Interlagos, quando o neerlandês venceu uma prova onde apenas seu talento explicou o triunfo. E foi assim em boa parte do ano, quando a Red Bull perdeu a primazia de ter o melhor carro do plantel da F1 e a McLaren passou a ocupar esse posto. Talvez desacostumada com a equipe atual a estar nessa posição, a McLaren cansou de pisar no tomate, enquanto Max Verstappen foi amealhando pontos, mesmo que em certas ocasiões, tenha se comportado de uma forma agressiva demais, principalmente frente à Lando Norris, seu rival, mas que parecia uma criança na frente do animal competitivo chamado Max Verstappen. Bastou apenas um quinto lugar em Las Vegas para Max Verstappen conquistar o merecido tetracampeonato. Mesma posição que seu sogro Nelson Piquet precisou para garantir o primeiro título quarenta e três anos atrás. Ambos merecidos.


A corrida em Las Vegas esteve longe de empolgar, como aconteceu no ano passado. No frio que faz em Nevada nessa época do ano no momento da corrida fez com que a Mercedes, que vinha em péssima fase a ponto de Lewis Hamilton ter pensado em abandonar a equipe antes do final da temporada, dominasse o final de semana como nos áureos tempos do início da Era híbrida. George Russell ficou com a pole e Lewis Hamilton só largou em décimo por causa de um erro do veterano inglês no Q3. Era esperado um desempenho superior da Ferrari em ritmo de corrida, enquanto a McLaren, talvez ainda traumatizada pela derrota acachapante em Interlagos, era claramente a quarta força do grid. Leclerc soube capitalizar a fechada que Sainz aplicou no surpreendente terceiro colocado no grid Gasly e subiu de quarto para segundo na largada. O monegasco parecia querer provar a teoria que a Ferrari teria mais ritmo em corrida e começou a atacar Russell pela primeira posição, mas George sabia também que estar bem posicionado faria toda a diferença, se defendendo bem dos ataques de Leclerc. Enquanto isso, Gasly era escalado, mas se Verstappen rapidamente se livrou do francês, Lando Norris demorou um pouco mais para efetuar a ultrapassagem, já tendo Tsunoda, Piastri e Hamilton em seu cangote. Com o clima frio em Vegas, achar a famosa janela de desempenho se tornou um desafio para os pilotos e após o ataque inicial de Leclerc, os pneus de Charles foram embora de tal forma, que ele foi ultrapassado por Sainz e Verstappen com certa facilidade. Alguns pilotos do pelotão intermediário mal esperaram completar a décima volta para visitar os pits e então Leclerc abriu o round para os pilotos da frente. Com uma parada tão antecipada, era nítido que a estratégia padrão seria de duas paradas.


Quando todos pararam, a corrida ficou estática e as emoções diminuíram bastante, favorecendo que Max Verstappen concretizasse seu primeiro match point. Mesmo com o neerlandês sofrendo com uma Red Bull que levou uma asa traseira errada para Nevada e teve que fazer uma gambiarra para salvar um desempenho em reta que debitava até seis décimos de desvantagem aos demais, Verstappen via uma McLaren irreconhecível em Las Vegas. Norris esteve longe de estar na briga até mesmo pelo pódio, enquanto Piastri era punido por colocar seu carro no local errada no colchete do grid. Se bastava marcar Norris para ser campeão, Verstappen o fez com imensa facilidade nesse domingo. Hamilton fazia sua melhor corrida do ano e após a primeira parada, o inglês engoliu a diferença que tinha para as Ferraris, executando as ultrapassagens decisivas ainda antes da segunda parada, onde a Ferrari deu outro show de erro operacional, quando Sainz rogava para ir aos pits via rádio, mas quando o espanhol mergulhou para os pits, a Ferrari estava despreparada e Sainz teve que voltar à pista rapidamente, perdendo ainda mais tempo. Hamilton ultrapassou um cuidadoso Verstappen após a segunda parada e iniciou uma bela sequência de voltas mais rápidas, recortando a desvantagem de Russell de 12s para 5s, mas George tinha a corrida sob controle e ao ser avisado pelo rádio da aproximação do companheiro de equipe, Russell aumentou o ritmo e controlou o resto da corrida até a bandeirada para conquistar sua terceira vitória na carreira, com Hamilton completando a dobradinha da Mercedes. Toto Wolff pedirá mais corridas no inverno...


Enquanto isso, Verstappen fazia uma corrida calculada e quando a dupla da Ferrari se aproximou, Max nem forçou muito nas defesas, já que Lando Norris vinha 13s atrás, o que ficou ainda melhor quando o inglês foi aos pits colocar pneus macios e garantir a volta mais rápida. A McLaren nem olhava mais para o Mundial de Pilotos, mas para o Mundial de Construtores, pois mesmo com Piastri se recuperando de sua punição e terminando logo atrás de Lando, a McLaren perdeu bastante pontos para a Ferrari, com Sainz terminando na frente de Leclerc. De forma sossegada, Max cruzou a linha de chegada em quinto e garantiu matematicamente o quarto título seguido. No começo da temporada, todos esperavam que Max Verstappen conquistasse o título com antecedência, algo que foi confirmado nesse domingo, mas quando formos analisar a fundo o ano de 2024 da F1, perceberemos que Verstappen colocou o seu carro nas costas para garantir o título com duas provas de antecipação. Claro que os pontos conquistados no início de ano esmagador da Red Bull fizeram toda a diferença, mas Max usou seu talento absurdo para conquistar resultados acima do potencial do carro, com a magnífica vitória em São Paulo como o principal desses momentos. Se ano passado Max dominou a F1 de forma poucas vezes vistas, mesmo numa era de domínios, nesse ano Verstappen teve que se reinventar num momento de declínio da Red Bull, mais refletido em Sérgio Pérez, em outro final de semana medonho do mexicano.


Nico Hulkenberg foi novamente o melhor do resto, fazendo com que a Haas ganhasse um pontinho da Racing Bulls, com Tsunoda em nono, enquanto Lawson fez uma corrida errática dessa vez. A Alpine chegou a sonhar com Gasly conseguindo um terceiro lugar no grid, mas um motor quebrado transformou a carruagem francesa em abóbora e os gauleses saíram sem pontos. Alonso foi o único que largou com pneus macios, já pensando numa estratégia de duas paradas e o espanhol ganhou bastante terreno com isso, mas com uma Aston Martin à deriva, Alonso acabou sem pontos, enquanto Stroll entrou nos pits com a sua equipe totalmente despreparada. A coitada da Williams, que mais faz serviço de funilaria do que de mecânica, viu Albon se tornar o segundo abandono do dia quando estava na zona de pontos, enquanto Colapinto, após destruir seu carro pela terceira vez em dois finais de semana, fez uma prova opaca. A Sauber chegou a sonhar com o primeiro ponto do ano com Zhou, mas uma parada deixou o chinês para trás, enquanto o já demitido Bottas foi sempre o último, confirmando o motivo de sua dispensa.


Quando Nelson Piquet foi quinto colocado em Las Vegas em 1981, o brasileiro iniciou um projeto de desenvolvimento do motor BMW turbo e não teve como defender seu campeonato em 1982. Mesmo se mostrando um piloto superior nesse momento, Max Verstappen corre o mesmo risco do sogro. A queda abrupta da Red Bull em 2024 tem várias explicações, como a fratura dentro da cúpula da equipe e a saída de Adrian Newey da equipe. As confusões de bastidores da Red Bull respingaram no desempenho dentro da pista e somente Max Verstappen minimizou o declínio da Red Bull. O gap que Max conquistou no começo do campeonato fez toda a diferença para o título, além de algumas atitudes discutíveis de Lando Norris e da McLaren ao longo do campeonato. Porém, 2025 tudo começará do zero e Max Verstappen não terá o handcap dos pontos. No entanto, ainda estamos em 2024 e Max Verstappen pensará no grande campeonato que fez. A consolidação da McLaren, o crescimento da Ferrari, as estocadas eventuais da Mercedes e a queda da Red Bull ficarão para depois. Max irá comemorar seu merecido tetracampeonato!

domingo, 17 de novembro de 2024

Super Jorge

 


Ano passado Jorge Martin perdeu o título para Pecco Bagnaia, mesmo dando a impressão de ter sido o piloto mais rápido da MotoGP, porém, já contando com um título, Bagnaia se mostrou mais completo. Contando com a experiência de ter disputado um título, Martin evoluiu claramente. É muito mais fácil frear um piloto do que acelera-lo. Martin tem a velocidade e bastou a ele domestica-la. O espanhol da Pramac não teve uma temporada livre de erros e ainda teve o grande dissabor de ser novamente escanteado pela Ducati oficial, levando Jorge assinar com a Aprilia para 2025. Martin usou a consistência que tanto lhe faltou em 2023 para derrotar Bagnaia nessa temporada e quebrar vários recordes. Quinto espanhol a vencer na MotoGP, Jorge Martin foi o primeiro piloto desde Valentino Rossi a vencer com uma equipe independente e o primeiro na Era do MotoGP.

O título de Jorge Martin foi conquistado de forma tranquila numa corrida que pode ser adjetivada como monótona em Barcelona, que substituiu o circuito Ricardo Tormo, por causa da tragédia climática que atingiu Valencia poucas semanas atrás. Com o terceiro lugar na Sprint de sábado, Martin precisava apenas de um nono lugar para se sagrar campeão em 2024. Largando em quarto, Jorge saiu muito bem e rapidamente pulou para segundo, logo atrás do seu rival Bagnaia. Atacado por Marc Márquez ainda na primeira volta, Martin não se animou a brigar com o piloto que lhe tirou a vaga na equipe oficial da Ducati de fábrica e deixou Marc se entender lá na frente com seu futuro companheiro de equipe na Ducati. Sem ter muito o que fazer, Bagnaia atacou desde o início e sempre teve a incômoda presença de Márquez lhe fustigando, mas o espanhol talvez não quisesse uma briga mais forte com Bagnaia, onde somente a vitória lhe interessava, além de ajudar seu compatriota Martin, que ficou confortavelmente em terceiro a corrida inteira. Logicamente que há a tensão de uma decisão de título, onde um erro pode ser fatal, mas nada demais ocorreu na prova barcelonesa.

E Martin pôde comemorar seu título sem maiores arroubos nesse domingo. Foi uma conquista baseado, como dito acima, na consistência, mas principalmente, pelos pontos conquistados por Jorge nas Sprints. Invenção da Dorna, as Sprints se tornaram decisivas na medida em que, mesmo os pilotos marcando a metade dos pontos, Martin soube como ninguém aproveitar os constantes erros de Bagnaia nas mini-corridas durante o ano e foi amealhando pontos, enquanto venceu apenas três vezes no domingo. Bagnaia e Martin fizeram um campeonato à parte, onde estiveram sempre na briga pelas vitórias durante toda a temporada, mas os constantes erros e a falta de carisma de ambos deu a sensação de que o campeonato foi marcado pelo nível baixo, o que não é verdade. Martin foi metódico o campeonato inteiro, mostrando sua velocidade quando necessário, principalmente nos sábados, seja na classificação, seja nas Sprints. E Jorge ainda teve a decepção de ter sido dispensado pela Ducati de fábrica pela terceira vez, fazendo o espanhol se mudar para a Aprilia, no lugar do seu amigo e protetor Aleix Espargaró. Para desespero da Ducati, Martin levará o #1 para a Aprilia em 2025, num ano novamente amplamente dominado pela equipe de Borgo Panigale, que só perdeu uma única corrida e dominou tanto o Mundial de Construtores, como as quatro primeiras posições.

O título de Martin passa também pelos erros de Bagnaia. O italiano da Ducati era o grande favorito ao tricampeonato, mas pecou justamente no seu ponto forte: a consistência. No ano passado Bagnaia derrotou Martin com sua força mental e por estar sempre marcando pontos. Nesse ano, Bagnaia venceu onze vezes, se igualando à lendas como Rossi, Agostini, Doohan e Stoner, mas suas quedas e erros, principalmente nas Sprints, machucou demais o campeonato de Pecco, o deixando com o título fora de suas mãos ainda na perna asiática, quando Martin mais administrou o campeonato. Bagnaia terá que melhorar bastante e tratar de errar menos, para não ficar com a pecha de um multi-campeão menor na MotoGP, além de que em 2025, receberá Marc Márquez na equipe. O espanhol lhe deu uma chance arriscada ao deixar a Honda e ir para a menor equipe das satélites da Ducati. Logo Márquez mostrou seu incrível talento na melhor moto do pelotão, lhe rendendo três vitórias no campeonato e o terceiro lugar no campeonato. Tudo indicava que Marc iria para a Pramac e Martin subiria à equipe oficial, mas a recusa de Márquez em mudar-se para outra equipe satélite pegou a Ducati de surpresa e como resultado, causou todo um rebuliço no mercado de pilotos, fazendo com que Márquez ultrapassasse Martin na luta por uma vaga na Ducati Lenovo, numa manobra bem discutível.

Márquez mostrou que já entrará na Ducati como um dos favoritos. Seu talento ainda está lá, mesmo que após tantos machucados, não esteja como nos velhos tempos. Marc lutará com Bagnaia, com quem já bateu no começo do campeonato, o que pode envenenar o ambiente da Ducati de fábrica. Enea Bastianini não teve a desculpa das contusões para mais um campeonato irregular na equipe oficial da Ducati e sem espaço com os italianos, se mudou para a KTM, juntamente com Maverick Viñales, outro piloto que se mostrou on-off. O espanhol foi o único piloto não-Ducati a vencer em 2024, mas foi capaz também de atuações horrorosas, como a de hoje. Por esse motivo, a Aprilia não o quis como segundo piloto, preferindo trazer Marco Bezzecchi, ao lado de Martin em 2025. A KTM teve um ano decepcionante, mas pelo menos revelou Pedro Acosta, mais um piloto espanhol brilhante, que muitas vezes liderou a KTM, mas perdeu o posto de melhor piloto da equipe austríaca para Brad Binder na última corrida. A KTM se livrou de Jack Miller e terá uma equipe forte para o próximo ano, mas necessita melhorar a moto. O australiano conseguiu abrigo na Pramac, onde já correu. Porém, a Pramac não correrá mais com a Ducati, também decepcionada pela escolha por Márquez e assinou com a Yamaha, que assim como a Honda, tentará uma ressurreição após uma temporada tenebrosa das montadoras japonesas.

A MotoGP finalizou seu campeonato com um campeão digno das belas corridas que nos mostrou ao longo de 2024, porém, ficam algumas dúvidas para o futuro da categoria. A entrada da Liberty Media, que comprou a Dorna, pode dar uma guinada na categoria. A F1 viu sua popularidade crescer bastante com a Liberty, mesmo que desagradando muitos puristas. A MotoGP teve boas corridas, como sempre, mas seus dois protagonistas nem de longe tem o carisma de outros campeões que a categoria já teve. Mesmo em disputa renhida, Bagnaia e Martin trocavam elogios, frustrando quem esperava uma briga franca dentro e fora das pistas. A Liberty já deu o recado que não quererá a 'espanholização' trazida pela Dorna e por Carmelo Ezpeleta, que pode estar de saída. Faltou uma maior exploração das belas corridas e do campeonato apertado que tivemos. Isso é fato. Talvez a Liberty corrija isso, mas tomara também que não mexa em certos valores que a MotoGP tem e terão que ser mantidos. Para o bem de todos.