domingo, 5 de julho de 2026

Merecido, apesar dos pesares

 


Decisão da temporada 2021 da F1, Abu Dhabi. Numa das temporadas mais emocionantes desse século, Nicholas Latifi bate seu Williams no muro, o Safety-Car é mandado à pista e o tira-teima entre Lewis Hamilton e Max Verstappen seria decidido nas voltas finais. Lá na direção de prova, Michael Masi era um homem pressionado e numa decisão polêmica e que para sempre será discutida, o australiano deu ordem para relargar, mesmo com alguns retardatários ainda na pista para retomar uma volta, o que na ocasião era proibido. Voltamos para Silverstone/2026. Nessas coincidências da vida, Max e Lewis são protagonistas, mas em papéis diferentes. Verstappen bateu seu carro no final da corrida, Hamilton foi aos boxes colocar pneus moles para atacar Russell (esse, nada influenciou quatro anos e meio atrás) e, quem sabe, fustigar seu companheiro de equipe. Contudo, mesmo a FIA tendo ajustado as regras para permitir relargadas mesmo com os retardatários ainda para retomar suas respectivas voltas e Masi estar escondido em algum recanto australiano, a direção de prova resolveu aparecer novamente, dessa vez não permitindo a relargada. Como em Abu Dhabi, Lewis Hamilton foi o prejudicado, os pilotos ficaram sem entender nada, mas pelo menos Charles Leclerc, que liderou praticamente a corrida inteira, mereceu a vitória em Silverstone.


A onda de calor que assola a Europa nesse começo de verão no hemisfério norte fez com que Silverstone, conhecida por suas corridas entremeadas por chuvas e trovoadas tivesse um cenário diferente, com muito sol e calor na velha base aérea inglesa. A Mercedes tinha sérios problemas na largada no começo dessa temporada, mas a equipe foi consertando isso aos poucos, porém, Andrea Kimi Antonelli parece ainda não estar totalmente à vontade com os procedimentos. Mais uma vez o italiano não largou muito bem, parecendo que seu Mercedes não desenvolveu velocidade como deveria, fazendo de Kimi uma presa fácil para a dupla da Ferrari, liderada por Leclerc. Mais atrás Hadjar tentou atacar Russell, mas o inglês manteve a posição, enquanto mais atrás Albon continuava o final de semana tenebroso da Williams ao se envolver num acidente com Bearman, que estragou a corrida de ambos e rendeu uma punição à Albon. Se na corrida Sprint tivemos a volta das ultrapassagens 'ioiô', nesse domingo os pilotos revisaram suas estratégias de gerenciamento de energia e felizmente não tivemos isso na corrida principal, mas a transmissão da Liberty Media voltou a década de 1980, quando praticamente não tivemos câmeras on-board. Afinal, o super clipping seria flagrado e não pegaria muito bem...


Leclerc surpreendia ao imprimir um ritmo muito mais forte do que o visto na Sprint Race, não dando chances à Hamilton, que logo teria que encarar dois incômodos no seu começo de corrida. O primeiro era uma investigação, que logo se tornaria uma punição de 5s por queima de largada. Mesmo que tenha sido muito sutil, foi claro que Lewis deu um ligeiro salto antes do apagar da última luz vermelha. O segundo e mais perigoso era a aproximação de Andrea Kimi Antonelli. Assim como ocorreu no sábado, o italiano tinha um ritmo mais forte do que o heptacampeão e na volta 10, mais ou menos na mesma altura em que Antonelli assumiu a ponta na Sprint, o italiano fez a manobra de ultrapassagem na antiga reta do boxes para ser segundo colocado. Enquanto Antonelli mostrava um ritmo de campeão, Russell mostrava um ritmo de segundo piloto e não acompanhava os três primeiros colocados. Max Verstappen ultrapassou Isack Hadjar na marra ainda no começo da prova e se aproximava de Russell. O piloto da Red Bull usou seu talento para ultrapassar George, mas na logo em seguida foi aos pits. Mesmo fazendo muito sol e calor em East Midlands, a previsão da Pirelli era de apenas uma parada para todos os pilotos, em condições normais. 

Assim que ultrapassou Hamilton, Antonelli tratou de ir para cima de Leclerc, mas o monegasco respondia aos bons tempos de Antonelli, mantendo uma confortável vantagem de 4s. Quando a corrida se aproximava de sua metade, a maioria dos pilotos foram aos pits realizar suas únicas paradas. Antonelli esticou ao máximo sua parada, esperando um SC salvador, mas mesmo um guarda-chuva tendo trazido um rapidíssimo VSC, o italiano entrou nos boxes em bandeira verde quando faltavam dezessete voltas e voltou à pista em segundo, exatos 7s atrás de Leclerc. Com pneus duros novos e poucas voltas pela frente, Antonelli ia destruindo sua desvantagem para Leclerc, fazendo que sua ultrapassagem rumo à vitória fosse questão de tempo. Então, Kimi ficou lento na entrada da reta Hangar. Não era um problema de bateria, que tanto assombrou a Mercedes, mas fez Antonelli ir aos pits duas vezes, destruindo a corrida do italiano, que mal conseguia fazer curvas e tantas saídas de pista o fizeram ser punido em 5s por causa dos limites de pista.


Isso deixava Leclerc com a corrida nas mãos. O monegasco sustentava uma vantagem de 20s sobre Hamilton, que lutava para manter a dobradinha da Ferrari, pois Verstappen havia parado uma segunda vez durante o VSC causado pelo carro quebrado de Hulkenberg e vinha claramente mais rápido do que Lewis, podendo repetir outra luta fratricida com o inglês. Russell fazia uma corrida ordinária e quando brigava com Lewis e Max pela terceira posição, a Mercedes identificou um furo lento em seu carro, fazendo com que George fizesse uma parada não-programada. Mesmo com pneus médios mais novos, ainda assim Russell não se destacava e era um burocrático quarto colocado quando Verstappen perdeu o controle do seu Red Bull no final da reta Hangar. Faltavam quatro voltas para o fim. Pensando na relargada, praticamente todo o pelotão foi aos boxes colocar o pneu macio. A Mercedes foi a única a não trazer seus carros, fazendo com que Russell se tornasse um alvo fácil, mesmo o inglês tendo subido para segundo. No entanto, causando um anticlímax terrível, a direção de prova preferiu não permitir a largada, terminando a corrida do jeito que estavam, para tremendo alívio de George Russell.


Mesmo com a presepada da FIA e seus blue caps, Charles Leclerc mereceu a vitória ao liderar a maior parte da corrida e mesmo com a sorte do problema de Antonelli, o monegasco deu uma volta por cima após uma má fase recente, onde marcou meros quatro pontos em três corridas, tendo visto Hamilton vencer e começar a tomar as rédeas da Ferrari. A diferença entre Leclerc e Hamilton era tamanha que uma ordem de equipe, pensando que Lewis estava reassumindo a vice-liderança do campeonato, não foi cogitada. No entanto, Lewis foi prejudicado com a manobra da FIA e não pôde completar a dobradinha da Ferrari, perdendo uma posição para Russell e assim, não ultrapassou o compatriota no campeonato. Sua cara de poucos amigos no pódio revelava a frustração disso, mesmo que uma vitória seria complicada vide o ótimo desempenho de Leclerc no domingo. A performance da Ferrari em Silverstone mostra que os italianos estão em ascensão, enquanto a Mercedes coça a cabeça atrás de melhorar a confiabilidade dos seus carros. Antonelli estava com a vitória nas mãos quando ele foi traído pelo seu carro mais uma vez. Mesmo Russell tendo diminuído ainda mais sua desvantagem no campeonato, ficou claro mais uma vez que Antonelli está dando um banho em cima de Russell, que subiu ao pódio pela primeira vez em Silverstone, mas contando com uma sorte absurda.


Verstappen estava prestes a conquistar um resultado acima do potencial do seu carro quando perdeu o controle do seu Red Bull de forma estranha, para desgosto do neerlandês, que não economizou nos palavrões no rádio. Após largar na frente de Max, Hadjar não teve o mesmo ritmo de corrida do companheiro de equipe, mas fez o que dele se espera, que é marcar bons pontos para a equipe, terminando em quinto. Num final de semana onde homenageou a pintura em que estreou na F1, a McLaren colocou John Watson para correr com seu carro de 1981 em Silverstone antes da largada e talvez este tenha sido o melhor momento da equipe. Piastri teve um toque na primeira volta e tendo que trocar a asa dianteira, caiu para os confins do pelotão intermediário e só conseguiu uma 11º posição na bandeirada. Lando Norris não fez muito melhor, executando uma corrida discreta e com os problemas alheios, ainda beliscou uma quarta posição.


A Racing Bulls novamente dominou o pelotão intermediário e seus dois pilotos foram os melhores do resto o tempo inteiro. Com os problemas de Verstappen e Antonelli, Lawson foi sexto, seguido de perto por Lindblad. A novidade em Silverstone foi o forte desempenho de Gabriel Bortoleto. Após uma classificação muito boa, Gabriel conseguiu não perder posições na largada, o que é um feito com a Audi, e rapidamente se colocou na zona de pontuação, andando próximo de Lawson e Lindblad. Fazendo o trivial e se aproveitando dos problemas alheios, Bortoleto fez sua melhor corrida do ano e marcou pontos depois de algum tempo. A Alpine fechou a zona de pontos, com Colapinto superando Gasly em ritmo de corrida, com ambos andando sempre próximos. Sainz fez uma ótima largada, mas seu Williams não lhe permite grandes ilusões e o espanhol terminou apenas em 12º. Mesmo rodando na primeira volta, Bearman ainda chegou na frente de Ocon, a Cadillac dessa vez chegou à bandeirada com seus dois carros inteiros e a Aston Martin teve outro final de semana miserável, com Alonso ficando parado na volta de apresentação, mas o espanhol conseguiu reiniciar tudo para terminar em penúltimo.


O público que lotou Silverstone merecia um final melhor para celebrar e torcer para que pelo menos um dos seus pilotos fizessem valer sua torcida. No final de tudo, a Ferrari comemorou sua vitória de número 250 na F1 com a sensação de que os italianos estão em viés de alta e, principalmente, podem capitalizar os vacilos constantes da Mercedes, que vê seu principal piloto perder pontos por culpa dela, enquanto o segundo piloto (e mais experiente) não conseguir andar no mesmo nível de Antonelli. Mesmo com um regulamento ruim, uma FIA sem critério, ainda temos um campeonato em aberto e que pode surpreender muita gente.  

sábado, 4 de julho de 2026

Fora de casa

 


Vinte dias atrás a Inglaterra comemorou um pódio inteiramente inglês em Barcelona, durante o Grande Prêmio da Catalunha, algo que não acontecia desde 1958 e com a F1 chegando à Silverstone, a torcida inglesa lotou a velha base aérea para ver Hamilton, Russell ou Norris se destacando em Silverstone, porém, o que se viu foi um italiano dominando o sábado na Inglaterra. Andrea Kimi Antonelli dominou o dia com vitória na Sprint e pole horas mais tarde, deixando a turma que enverga a Union Jack para trás.

Mesmo após suas recentes reformas, Silverstone se manteve como uma pista de alta velocidade e com curvas rápidas. O que antes era um grande atrativo, com as famigeradas novas regras de motores híbridos 50/50 se tornou uma bela dor de cabeça. Após as mudanças em Miami a F1 viu o super clipping ser amenizado, porém, muitas das pistas a seguir eram caracterizadas por ter muitas freadas fortes, diminuindo o fenômeno. Havia uma expectativa em Barcelona e sua longa reta dos boxes antecedida por curvas rápidas, mas a F1 havia passado no teste. Já em Silverstone a situação mudou de figura. Os pilotos haviam mostrado preocupação quando andaram nos simuladores das equipes e o que vimos na sexta-feira foi uma triste volta das cenas de Suzuka, com carros perdendo bastante velocidade nas retas, principalmente a Hangar. Do nada, as câmeras on-board foram esquecidas pela transmissão e o pouco que aparecia, não mostrava as velocidades dos carros e os momentos de recarga. 

As primeiras voltas da Sprint foi um show de horrores, com os carros ficando sem bateria e sendo ultrapassados quase que sem querer. Isso ajudou Hamilton e Antonelli se destacarem nas duas primeiras posições e os dois duelarem pela ponta. Com nove vitórias em Silverstone e uma sinergia incrível com a pista, Hamilton foi pole na classificação da Sprint e liderou boa parte da minicorrida, mas Antonelli se manteve por perto e nas voltas finais bateu o veterano, para desgosto da torcida, que viu Norris e Russell chegaram atrás de Hamilton.

Na classificação George Russell deu um susto quando saiu sozinho da pista no Q1 e bateu de leve no muro. O inglês da Mercedes ainda teve condições de tirar o carro da brita e continuar sua classificação, o mesmo não acontecendo com Cadillac e Aston Martin, que ficaram no Q1 e a Aston tomando 1,4s da equipe americana. Gabriel Bortoleto teve uma classificação atribulada, com problemas de câmbio no Q1, mas quase foi ao Q3. Mais impressionante foi o brasileiro colocar seis décimos em cima de Hulkenberg, seu veterano companheiro de equipe.

Antonelli manteve-se sempre na luta pelas primeiras posições, junto com a dupla da Ferrari. Russell não mostrava muita coisa, mas cresceu um pouco no Q3 e na primeira tentativa ficou muito perto de Kimi, enquanto uma situação curiosa mostrava Mercedes, Ferrari, Red Bull, McLaren e Racing Bulls, nessa ordem, com seus pilotos muito próximos. Na segunda tentativa houve uma certa mistura e algumas situações interessantes. Na Red Bull Hadjar superou Verstappen, numa cena rara de ser vista numa equipe dominada pelo neerlandês a tantos anos. Após o terceiro lugar na Sprint, Norris sofreu um choque de realidade ao ficar sete décimos atrás da pole, mas ao menos superou a dupla da Red Bull, com Piastri fazendo outro final de semana burocrático. Na Ferrari, Leclerc mostrou força em sua maior característica, derrotando Hamilton na tentativa final na classificação, mas não à Antonelli.

Mesmo reclamando por ter sido o primeiro a fazer sua segunda volta no Q3, Antonelli baixou muito o próprio tempo e garantiu mais uma pole. Russell decepcionava e além de não melhorar seu tempo, se viu ultrapassado pela dupla da Ferrari, dificultando sua vida no domingo com o P4 no grid, enquanto Antonelli fica cada vez mais forte com essa vitória fora de casa. 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Figura(AUT): Max Verstappen

 A Red Bull chegou à sua corrida caseira correndo atrás de fazer Max Verstappen cumprir seu contrato, trazendo vários updates ao seu carro e sair da incômoda posição de quarta força da F1 atual. Max e seu empresário já declararam que preferem ficar na Red Bull, mas Max precisa estar pelo menos na luta pela vitória. Após treinos livres até mesmo discretos, a força de Max Verstappen, particularmente no Red Bull Ring, que tem uma arquibancada reservada para a torcida de Max, se fez presente a partir da classificação. No Q3 Verstappen conseguiu uma volta incrível em sua primeira tentativa e se não fosse seu acidente na segunda volta rápida, o neerlandês estaria na luta pela pole. Na corrida Max Verstappen fez uma corrida muito forte e como visto nos últimos anos, levando seu carro nas costas para lutar com as fortíssimas Mercedes pela vitória com um carro nitidamente inferior, imprimindo um ritmo acima do potencial do carro. No final, Max chegou apenas 1,6s atrás do vencedor George Russell para conseguir seu melhor resultado em 2026, além de demonstrar que além da Red Bull, o chefe da Mercedes Toto Wolff corre atrás de contar com seus serviços. Max Verstappen faz muita diferença!

Figurão(AUT): Aston Martin

Quando Lawrence Stroll comprou a estrutura da então Force India e logo depois adquiriu a tradicional marca Aston Martin, o magnata canadense iniciou um grande investimento na equipe, transformando a agora equipe Aston Martin em um dos times mais estruturados do paddock da F1. E o potencial da equipe fica claro com a chegada do gênio Adrian Newey e a parceria com a Honda. O genial Fernando Alonso esperava 2026 com a mesma expectativa de muita gente sobre a equipe Aston Martin, mas o que estamos vendo é uma das maiores decepções da história recente da F1. Como normalmente ocorre em sua história com a F1, a Honda nunca escolhe o caminho mais fácil para se desenvolver, mas com o tempo se percebe que o carro concebido por Newey está longe de ser os melhores projetos do engenheiro. Na Áustria, a Aston Martin ficou na última fila do grid, tomando um segundo da equipe Cadillac, que não tem dez corridas de F1 e tem sérios problemas de estrutura, como carros se desfazendo no meio das corridas. Enquanto Stroll abandonou a corrida com problemas de carro, um cada vez mais impaciente Fernando Alonso foi último colocado, três voltas atrás do vencedor e um minuto atrás do penúltimo. Para quem esperava que os novos regulamentos pudesse colocar a Aston Martin nos líderes, usando sua estrutura e recursos, 2026 vem sendo uma verdadeira desilusão e Red Bull Ring mostrou de forma clara. 

domingo, 28 de junho de 2026

Na malandragem

 


A pole conseguida na base da malandragem no sábado foi primordial para George Russell voltar a vencer na F1 em 2026. Com o posicionamento a seu favor, Russell pôde administrar melhor o forte desgaste de pneus no Red Bull Ring e triunfar pela segunda vez no ano. Mais importante foi Russell diminuir ainda mais a distância que tem para seu companheiro de equipe Antonelli no campeonato, com o italiano subindo ao pódio depois do seu abandono em Barcelona, tendo o genial Max Verstappen entre eles. Após seu forte acidente na classificação, Max fez uma excelente corrida na casa de sua equipe e terminou a prova em segundo.


Fez um calor quixadaense nas montanhas da Estíria nesse domingo, fazendo que novamente o desgaste de pneus fosse um fator determinante para o resultado da corrida, como ocorrera na quinzena passada em Barcelona. Com a temperatura novamente passando dos 30ºC em Spielberg num final de semana escaldante na Áustria, gerir os pneus faria bastante diferença, mas Russell tratou de garantir um bom posicionamento na corrida ao fazer uma largada bem diagonal, fechando a linha de Charles Leclerc e confirmar sua pole ao emergir na primeira curva na ponta. Já seu companheiro de equipe Antonelli fez uma primeira volta bem atrapalhada, onde saiu da pista nas curvas um e três, mas sem maiores prejuízos ao italiano. Leclerc começava o seu calvário ainda na primeira volta, quando se viu atacado por Hamilton e o inglês assumiu a segunda posição, enquanto Charles iniciava uma corrida medonha com a outra Ferrari. Hamilton em segundo no começo da prova acendeu uma luz vermelha na Mercedes, pois em Barcelona Lewis fez uma grande corrida e garantiu sua primeira vitória com a Ferrari executando uma agressiva estratégia aliada ao forte calor em Barcelona. Na Áustria Hamilton estava numa situação similar, com o inglês da Ferrari ainda melhor posicionado e isso criou uma expectativa boa para os lados de Maranello.

Um pouco mais atrás o pobre ritmo de Leclerc o fez ser atacado por Antonelli, mas corroborando com o início de corrida atabalhoado do italiano, Kimi ultrapassou Leclerc saindo da pista, o obrigado a devolver a posição. Max Verstappen enxergou nessa manobra uma chance de ouro e enquanto Antonelli cedia sua posição de volta para Leclerc, Max ultrapassou a ambos, assumindo o terceiro lugar. Hamilton estava num ritmo de espera, mas tinha Russell nas suas vistas. Já Max Verstappen, impelido pela sua torcida que lotou uma arquibancada em Red Bull Ring, alcançava o inglês da Ferrari. Desde 2021 os encontros entre Lewis e Max são garantia de entretenimento e Red Bull Ring não foi exceção. Max tentou um ataque na curva 3, mas recebeu o troco logo em seguida. Foi irônico ouvir Max pedir punição por um comportamento em que muitas vezes ele o faz. Tudo isso deixava Russell ainda mais tranquilo, pois se antes da briga o inglês tinha 2s de vantagem sobre Lewis, a disputa fez essa vantagem subir para 5s. Hamilton rapidamente foi aos pits e pela volta (11º), Lewis novamente iria para uma estratégia de três paradas.

Algumas voltas depois George e Max fizeram suas paradas, enquanto Antonelli, que reclamava dos freios e de si mesmo via rádio, ficava mais tempo na pista. E o italiano teria mais do que reclamar quando entrou no pit-lane no exato momento em que Carlos Sainz abandonava seu Williams na reta dos boxes, trazendo o Safety-Car Virtual. Mais uma volta e Kimi ganharia um terreno enorme...


De forma surpreendente a Ferrari trouxe Hamilton aos boxes mais uma vez e colocou pneus macios no carro do inglês, fazendo-o cair para trás de Hadjar e logo à frente de Lando Norris, que tinha acabado de fazer sua parada. Mais importante do que isso foi constatar que Russell, agora com pneus duros, não tinha o mesmo rendimento e Verstappen se aproximava lentamente. Antonelli voltou à pista em quarto após sua parada e teve que ultrapassar Leclerc novamente para ficar em terceiro. A corrida estava nas mãos dos três primeiros e o momento da parada de cada um deles definiria a corrida. Com claras dificuldades com os pneus, Russell foi o primeiro a parar pela segunda vez, com Max parando seis voltas mais tarde e Antonelli esperando mais três voltas para realizar a parada de número dois. Isso criou uma espécie de efeito sanfona nos três primeiros. A parada mais cedo de Russell o deu uma ligeira vantagem nas primeiras voltas, mas com dificuldades com os pneus duros, o inglês perderia rendimento para Max e Kimi. Em menor grau, o mesmo ocorreria com Antonelli em relação à Verstappen. As voltas finais foram tensas, com o terceiro colocado (Antonelli) mais rápido que os dois primeiros, com o líder da corrida (Russell) sendo o mais lento. Porém, se nada demais ocorresse, as posições seriam mantidas, mesmo que os três cruzassem a linha de chegada bem próximos. Kimi conseguiu uma grande aproximação na última volta, mas conhecendo Max Verstappen, ele defenderia sua posição com unhas e dentes, fazendo-o se aproximar bastante de Russell. Na bandeirada, George Russell tinha menos de 2s o separando para o terceiro colocado Antonelli, com Max Verstappen no meio do sanduíche da Mercedes.


Não foi uma vitória brilhante de George Russell, mas que começou com a pole polêmica conseguida no sábado e com o melhor posicionamento, administrou muito bem a corrida, mesmo com Max e Kimi mais rápidos do que ele nas voltas finais. Apesar de Russell continuar sofrendo com os pneus mais duros de cada final de semana e não ter sido o 'melhor homem em campo', essa vitória poderá fazer bem à confiança de Russell, que parecia abalada pelas constante derrotas sofridas para Antonelli nas últimas semanas. O início claudicante de corrida de Antonelli, admitido pelo próprio, fez com que o italiano se atrasasse de forma definitiva e não lutasse pela vitória, mas Kimi não pode renegar os pontos do terceiro lugar, que o colocam ainda com uma liderança confortável no campeonato, enquanto Russell reassumiu a vice-liderança, mesmo ainda quarenta pontos atrás de Antonelli.


No entanto Toto Wolff e seus blue caps tem que abrir o olho para a concorrência, cada vez mais próxima da Mercedes. Se em Barcelona a Ferrari quebrou a invencibilidade prateada em 2026, nesse domingo Max Verstappen levou novamente seu Red Bull nas costas a brigar pela vitória. Ainda mancando pela pancada no sábado, Verstappen usou muito bem os updates da Red Bull para uma segunda posição excelente. As brigas com Hamilton atrasaram Verstappen e pode ter feito muita diferença para o que seria uma surpreendente vitória do neerlandês. Já a Ferrari foi a grande decepção do domingo. Num cenário parecido de Barcelona, dessa vez os italianos não foram tão cuidadosos com os pneus quanto o foram na Catalunha e mesmo repetindo a tática de três paradas, Lewis Hamilton teve que se conformar com uma apática quinta colocação, bem longe dos líderes. Pior foi Leclerc, que esteve sempre com um ritmo abaixo do companheiro de equipe e lento na pista, teve que fazer um pit-stop extra que o fez cair para oitavo, o último dos pilotos das quatro grandes. Os treinos livres indicavam uma McLaren forte em ritmo de corrida, mas na prática isso não foi visto. Piastri largou melhor do que Norris e com isso garantiu as melhores opções para os táticos da McLaren, mas isso só garantiu um quarto lugar ao australiano, enquanto Norris teve que se contentar com a sétima posição, logo atrás de Hadjar, que fez uma prova discreta, mas pelo menos garantindo bons pontos para a Red Bull no Mundial de Construtores. Ou seja, fazendo o que dele, Hadjar, é esperado.


Largando entre os dez primeiros, a dupla da Racing Bulls liderou o pelotão intermediário de ponta a ponta, mesmo Liam Lawson ter reclamado de um pequeno incêndio em seu carro no começo da prova. De alguma forma o fogo se apagou e o neozelandês garantiu a nona posição, à frente de Lindblad. Gabriel Bortoleto fez uma corrida sólida, surpreendeu ao largar com pneus macios, manteve um ritmo superior ao do seu companheiro de equipe Hulkenberg e pela terceira corrida consecutiva, conseguiu a 11º posição, permanecendo com os mesmos pontos conquistados na primeira corrida da temporada. A Audi parece ter um ótimo chassi, mas sofre com o primeiro motor construído pela montadora. Alpine e Haas brigaram pelas posições seguintes, enquanto a Williams continua seu ano horrível e o barulho feito pelo carro de Sainz quando ele abandonou exemplifica bem a temporada da Williams. Mesmo Albon tendo feito uma corrida miserável, Alonso ainda terminou um minuto atrás do anglo tailandês com sua Aston Martin que toma 1s em média de uma equipe como a Cadillac, que abandona com seus dois carros por incêndios ainda nas voltas iniciais. 


A corrida no Red Bull Ring pode marcar o ressurgimento de George Russell no campeonato, mesmo o inglês estar longe de fazer um certame de levantar as sobrancelhas. George soube usar as circunstâncias ao seu favor e uma vitória pode faze-lo a recuperar a confiança perdida. Mesmo em terceiro, a sensação que ficou foi que Antonelli performou mais do que seu companheiro de equipe, mas a Mercedes tem que observar pontos como a falta de confiabilidade (o motor de Sainz foi mais um Mercedes a quebrar) e a chegada dos seus rivais na luta por vitórias.

A vez de Ogura

 


Um fenômeno interessante visto em 2026 foi a forma como Ai Ogura administra suas corridas na MotoGP. O japonês da Trackhouse Aprilia normalmente não consegue boas classificações e faz começos de prova bem discretos. Ogura cuida dos pneus e do equipamento na primeira metade da corrida e então parte para o ataque, conseguindo várias ultrapassagens aliado a um ritmo muito superior aos demais. Em cima da melhor moto da temporada 2026 da MotoGP, a primeira vitória de Ogura veio na Catedral da motovelocidade e foi bem ao seu estilo.

A Aprilia dominou o final de semana inteiro, conseguindo as quatro primeiras posições no grid, mesmo que com o piloto errado. Durante a semana os primeiros dominós começaram a cair na dança de cadeiras para 2027 e a Ducati anunciou a contratação de Pedro Acosta, enquanto Bagnaia anunciou sua ida para a Aprilia, correr ao lado de Bezzecchi. De saída da equipe, Jorge Martín ficou com a pole em Assen, seguido pela dupla da Trackhouse, que se destacou na Sprint Race e completou uma dobradinha, com Raul Fernández na frente de Ogura.

O dia prometia tão bom quanto no domingo para a Aprilia, porém Marco Bezzecchi sofreu uma violenta queda ainda no começo da prova, levando o italiano ao hospital e perder a liderança do campeonato após três corridas consecutivas zerado. Lá na frente, Martín se manteve na ponta, seguido de perto pela dupla da Trackhouse. Numa corrida cheio de abandonos, Bagnaia liderava o segundo pelotão como a melhor Ducati, mas teve um problema mecânico, enquanto Acosta saiu da corrida com um problema no pulso direito que o levará a uma cirurgia nos próximos dias. Marc Márquez era um distante quarto colocado, mas foi atacado por Fabio DiGiannantonio na chicane e os dois saíram da pista. Pior para o italiano, que foi punido, mas Fabio se recuperou, ultrapassou os irmãos Márquez para ser quarto colocado e o melhor do resto.

Lá na frente o pódio e a luta pelo pódio era todinho da Aprilia. Martín liderou a maior parte da corrida, mas Ogura escrevia o mesmo script visto em outros momentos da temporada. O nipônico estudava os rivais e ficava à espreita, enquanto cuidava de sua moto e dos pneus no forte calor em Assen. Quando a corrida se aproximou do seu final, Ogura cresceu como fizera antes, mas estando mais perto da ponta, uma vitória estava ao seu alcance, mesmo dando um susto quando acionou acidentalmente o rebaixamento de suspensão de sua Aprilia. Sem perder muito tempo, Ogura viu Fernández atacar Martín e vulnerável, o piloto da equipe oficial foi superado por Ogura poucos metros depois. O japonês não demorou muito para superar Fernández rumo a uma vitória consagradora.

Depois de 22 anos, um japonês voltava a vencer na MotoGP, mas se o atrapalhado Makoto Tamada não parecia ter condições de lutar pelo título, Ai Ogura, com seu estilo cerebral, está em quarto lugar no campeonato 25 pontos atrás de Martín, o novo líder do campeonato e pode fazer o torcedor japonês sonhar em 2026. O certame da MotoGP permanece muito aberto e a fase de Ogura, agora mais confiante com a primeira vitória na MotoGP, permite apontar o japonês como um dos pilotos a serem observados.

sábado, 27 de junho de 2026

Pole polêmica

 


Quando Max Verstappen perdeu seu carro na curva nove e bateu na proteção de pneus no final do Q3, a classificação para o Grande Prêmio da Áustria parecia definida. A bandeira amarela dupla no último setor da pista impossibilitaria a melhora de qualquer piloto no momento decisivo da classificação. À essa altura a Ferrari comemorava nos boxes a primeira fila da equipe italiana, liderados por um surpreendente Charles Leclerc. Contudo, George Russell baixou o tempo de Leclerc e tinha o tempo mais rápido do Q3. Iniciando uma polêmica com algumas prováveis consequências.

A classificação na escaldante Spielberg não mostrava muitas surpresas. No Q1, as três piores equipes do momento ficaram pelo caminho: Williams, Cadillac e Aston Martin. Nessa ordem. A novata Cadillac já começa a alcançar a veterana Williams, mesmo com a equipe americana vendo seus carros se desmancharem ao longo do ano. Pior é a Aston Martin. Num circuito de 70s, a equipe altamente financiada por Lawrence Stroll perde mais de 1s para um time novato e provavelmente com um dos menores orçamentos da F1. Alonso claramente está mais e mais impaciente.

A Mercedes havia dominado os treinos livres, na tentativa de dar uma resposta à vitória da Ferrari em Barcelona. Mesmo usando uma melhoria no motor, a Ferrari fazia um final de semana até mesmo discreto, com a McLaren aparentando estar mais próxima da Mercedes. Mais discreta estava a Red Bull. Com Max Verstappen estando na mesma vibe de Alonso, a equipe caseira não fizera muito para sair do lugar de quarta força da F1 em 2026. Contudo, Max Verstappen mostrou mais uma vez porque a Red Bull faz tanta força para ficar com ele. O neerlandês conseguiu uma volta espetacular no Q3, surpreendendo a todos e superado apenas por poucos centésimos de segundo pela dupla da Mercedes.

Então a dupla da Ferrari apareceu com força e se Hamilton fora mais rápido no geral, Leclerc veio com tudo no momento decisivo e superou seu companheiro de equipe quando importava. Então Max vinha voando com seu carro, pronto para tirar a pole de Leclerc quando perdeu o controle do seu carro e bateu. Logo atrás vinha a dupla da Mercedes. Antonelli dominava Russell no final de semana e tirou o pé. George não. O inglês completou sua volta e garantiu o tempo mais rápido. A sensação era de que Russell perderia a pole, mas de forma surpreendente, a FIA rapidamente declarou que não haveria investigação e na entrevista pós-treino, Russell declarou que tirara o pé e chegou a perder 0,25s. Se tivesse completado a volta sem tirar o pé, como dissera, Russell e até mesmo Antonelli meteria meio segundo nas Ferrari. Basta saber se a Ferrari engolirá isso...