Quando chega o final de uma Copa do Mundo, fico com um certo ar de melancolia. Passaram-se mais quatro anos de minha vida e quando observamos, já se passou mais quatro anos e estamos na expectativa boa de mais uma Copa do Mundo. Como diria o poeta, o tempo não para...
Para 2026 vimos uma Copa cheia de novidades. Para começar, depois de vinte e oito anos tivemos um acréscimo, para mim desnecessário, de dezesseis seleções e pela primeira vez tivemos 48 times. Não estava otimista. Hoje é praticamente impossível haver um 'grupo da morte' e a tabela indicava jogos nada atraentes (Nova Zelândia x Irã, Cabo Verde x Arábia Saudita, Catar x Bósnia...) para nós vermos. E veio a outra novidade.
Num erro crasso de estratégia, a TV Globo perdeu não apenas a exclusividade na transmissão dos jogos, como simplesmente passou apenas metade dos jogos, com a CazéTV ficando com a transmissão de todos os 104 jogos da Copa. Temos que bater palmas para o trabalho do canal de YouTube, mas não há como negar que houve vários problemas. Respeito o gosto de todos, mas não me peçam para gostar da transmissão 'leve' da CazéTV. Foi um show de gritaria, babação e até mesmo uma certa empáfia de Casemiro Miguel, influenciador que deu seu nome ao canal e hoje é praticamente um empregado. Por mais que a CazéTV exagerasse na propaganda das Bet's, Globo e SporTV também faziam propaganda dos mesmos, portanto, essa polêmica foi bem injusta com a CazéTV, no entanto, mesmo contando com narradores como Fernando Nardini e comentaristas como Rafael Oliveira, a qualidade da transmissão, com pouca narração, muita gritaria e muita gente falando e se atropelando me fez assistir alguns jogos exclusivos no mute.
Dentro de campo vi uma Copa que surpreendeu. Com a globalização do futebol, os clubes europeus tem cada vez mais jogadores de todo o mundo e isso enriqueceu o futebol de seleções, pois mesmo seleções como Tunísia ou Haiti tem jogadores que atuam numa Premier League. Isso fez com que a maioria dos jogos, mesmo o de menor apelo, tivesse um nível técnico muito bom e o resultado foi a melhor média de gols desde 1970.

Tudo levava a crer que a França seria campeã. Com um futebol ofensivo e avassalador, os gauleses dominaram as primeiras fases com uma facilidade alarmante. Mbappé fazia gols a rodo, acabando por se tornar o maior artilheiro da história das Copas. Surgiram seleções muito fortes, como a Inglaterra, que goleou a Croácia num dos poucos grandes jogos da primeira fase. A Espanha parou na sensação Vozinha, mas depois emendou vitórias com um volume de jogo em que o adversário pouco fazia, pois mal tocava na bola. A Argentina não fez um ciclo muito entusiasmante, levou seleção envelhecida e incrivelmente ainda contou com Messi, no auge dos seus 39 anos. Jogando sua melhor Copa do Mundo.
Não faltaram decepções e começo com o Uruguai, que tinha um plantel interessante, mas que tinha sérios problemas de relacionamento com o irascível Marcelo Bielsa, resultando em mais uma eliminação na primeira fase e um elenco totalmente desconectado com seu treinador, enquanto Bielsa fracassava em mais uma Copa, aumentando minha sensação de achar que o argentino é um dos treinadores mais superestimados da história do futebol. Portugal tinha uma seleção interessante e ainda contava com Cristiano Ronaldo. Talvez esse tivesse sido o problema. Com 41 anos de idade o lendário atacante não fez uma boa Copa (mais uma) e ficou a sensação de que Portugal ficou abaixo do que podia. E o Brasil...

Quando alguém falava que o Brasil tinha chance de ser campeão eu tinha duas reações: ou a pessoa não entendia bulhufas de futebol ou estava zoando. Levando Neymar para a Copa mesmo o já veterano jogador estando machucado e jogando cada vez menos nos últimos anos, ainda assim toda a atenção se voltou para ele, mesmo Neymar mal treinando. Uma simples corrida no campo era motivo de notícia e reacts. Os primeiros jogos não encantavam e aumentava a decepção com Carlo Ancelotti, trazido para dar jeito a uma geração abaixo das expectativas, mas que poderia evoluir com o vitorioso treinador. O Brasil acabou eliminado pela Noruega do super atacante Haaland ainda nas oitavas de final. Vinte e oito anos sem vencer uma Copa do Mundo, recorde na história, mas há uma luz no final do túnel?

As explicações pós-eliminação me dão poucas esperanças. Há ainda uma sensação de que o futebol brasileiro é o melhor do mundo, quando está claro essa não é a realidade. Enquanto muitos se enganavam pedindo Neymar e Endrick, o que se via em campo eram jogadores esforçados, mas muito longe dos grandes nomes que já vestiram a camisa amarela. O Brasil poderia ter pedido para Marrocos ou Japão, mas ambas seleções respeitaram demais o Brasil e acabaram perdendo a oportunidade. Haaland não perdeu a oportunidade.
O fim da 'Era Neymar', levando consigo Casemiro, Marquinhos, Alisson, Danilo e seus blue caps pode ser benéfica para o Brasil, mas olhando para Vini Jr, que se preocupa mais com seu namoro com a influencer Virgínia (se ela passar na minha frente é fácil eu nem saber quem é...) nos mostra um futuro nada interessante...
Quando criança e aprendi a gostar de futebol, compreendi que as três seleções mais temíveis eram Brasil, Itália e Alemanha. Mais de trinta anos depois, o Brasil segue perdendo para o primeiro europeu no mata-mata, a Itália não vai para a sua terceira Copa seguida e a Alemanha não chega às oitavas desde seu título em 2014. Uma Copa decepcionante dos alemães, que começaram muito bem, mas seu jovem técnico pareceu ter metido os pés pelas mãos e acabou eliminado pelo fraco Paraguai.
Outras novidades foi a pausa para hidratação em todos os jogos, mesmo não precisando, enchendo os bolsos da FIFA e seu execrável presidente Gianni Infantino, que foi submisso de forma vergonhosa ao não menos execrável presidente americano Donald Trump, que fez com que a FIFA perdoasse um cartão vermelho do atacante ianque Balogun. No final a seleção americana acabou goleada pela Bélgica, que contou com a torcida do resto do mundo.
A Copa afunilava e os jogos melhoravam cada vez mais mais. A França eliminou o Marrocos, mesma seleção que colocara o Brasil na roda com muita facilidade. Portugal derrotou a Croácia nos últimos momentos, definindo a aposentadoria de Modric em Copas, mas na fase seguinte os portugueses acabaram eliminados pela Espanha de forma bem parecida, com um gol no finalzinho. Agora era a vez de CR7 se despedir das Copas. A Inglaterra superava o México num estádio Azteca lotado com um jogador a menos, enquanto o eterno goleiro Ochoa dava se aposentava logo em seguida. A Argentina fazia jogos cardíacos, mostrando um coração enorme de sua seleção ao reverter um 2x0 em cima do Egito e derrotar a Suíça no final da prorrogação.
As semifinais tinham quatro seleções campeãs do mundo. A entusiasmante França encarava a Espanha. Muitos apostavam nos gauleses, mas os últimos resultados mostravam a Espanha superando os franceses em momentos decisivos. E não foi diferente nessa Copa. Num jogo taticamente perfeito, a Espanha escondeu a bola dos franceses e derrotou Mbappe e companhia com uma facilidade embasbacante. Na outra semifinal um clássico dentro e fora dos campos. Ingleses e argentinos se encaravam 44 anos após estarem em guerra e 40 anos depois do mítico jogo no México em exibição de gala de Maradona. E 40 anos depois Messi teve uma exibição de gala no melhor jogo da Argentina, que virou um jogo no final da partida em duas assistências de Messi, ajudado pela atitude covarde de Tuchel, treinador alemão da Inglaterra, que recuou o time de forma desavergonhada.

A Espanha parecia ter mais time, mas não tinha sido bom subestimar Messi. A final em Nova Iorque viu a Espanha dominar a partida a ponto da Argentina ficar 90 minutos sem dar um único chute ao gol. A prorrogação veio com a Espanha com um jogador a mais e uma estatística preocupante: a Espanha normalmente perdia em disputa de pênaltis. Mesmo a Espanha amassando a Argentina, o gol não vinha, mas no início do segundo tempo da prorrogação, Ferran Torres marcou o gol decisivo. Espanha bicampeã mundial.
Antigamente considerada uma seleção de segundo escalão, capaz de produzir bons jogadores, mas sem resultados de relevo, a Espanha apostou num estilo de jogo de muito toque de bola e volume de jogo, algo visto na final dessa Copa, mesmo que sendo incapaz de dar o golpe de misericórdia no adversário. Em menos de vinte anos, a Espanha conquistou três Eurocopas e duas Copas do Mundo, tem uma seleção jovem e com muito potencial.
A Argentina dificilmente terá Messi e boa parte dos campeões de 2022. Uma renovação não é necessária, mas obrigatória. A França demonstrou sua decepção com a derrota para a Inglaterra na decisão do terceiro lugar, mas tem jogadores talentosos para se manter entre as grandes. Bélgica, Portugal, Holanda e Croácia precisam de renovação, a Inglaterra precisa dar o passo que a Espanha deu e o Brasil precisa mudar tanta coisa, que fica difícil encontrar por onde começar.
Foi uma Copa surpreendente. Vimos seleções que cativaram, como Cabo Verde, Congo e Marrocos. Mesmo com algumas surpresas no caminho, as grandes chegaram às finais. Foi uma Copa do Mundo bastante legal e com saldo positivo. Que venha 2030!