domingo, 8 de março de 2026

Só George curtiu


 Ao receber a bandeirada, George Russell exclamou via rádio que 'amava esse carro e esse motor'. Provavelmente e justificadamente o inglês foi o único que curtiu o novo carro da F1. Após muita polêmica e reclamações de praticamente todo o grid, o Grande Prêmio da Austrália aconteceu sem maiores incidentes graves e a esperada dobradinha da Mercedes, mesmo que tendo que se aproveitar de mais um vacilo estratégico da Ferrari em um início de corrida de bastante 'trocação' entre os três primeiros. Russell dominou quando não teve uma Ferrari por perto e lidera o campeonato da F1 pela primeira vez na carreira na abertura do campeonato. Antonelli se recuperou da péssima largada, onde chegou a cair para sétimo e fechou a dobradinha da Mercedes, com Leclerc completando o pódio.


Havia bastante receio para o que aconteceria na largada, já que sem uma das baterias haveria o chamado 'Turbo Lag', lembrando as péssimas largadas dos primeiros Renault Turbo no final da década de 1970. A FIA ainda deu uma colher de chá ao dar tempo para os pilotos encherem os turbos antes da largada, mas o que ninguém poderia imaginar era que o ídolo local Oscar Piastri batesse sua McLaren na volta de instalação, numa cena lamentável e reforçando que os pilotos australianos não dão 'match' com suas corridas caseiras. Mesmo com todo o apoio da FIA, vimos um grid em que boa parte dos carros saíram patinando como se o asfalto estivesse molhado. A Ferrari havia alertado sobre esse problema do Turbo Lag e trabalharam nesse item, resultando numa saída espetacular de Leclerc, pulando de quarto para primeiro, com Hamilton quase tomando o terceiro lugar de Hadjar e Lindblad, que brigavam pela posição, mas logo o veterano inglês se solidificaria no terceiro posto. Quando as posições se assentaram, era esperado que Russell ultrapassasse Leclerc e desaparecesse na ponta, mas o que se viu foi uma surpreendente troca de posições entre os dois, fazendo com que Hamilton se aproximasse e mais tarde, um recuperado Antonelli se juntasse à animada batalha pela primeira posição. Para quem esperava um passeio no parque da Mercedes, as várias trocas de posições era uma agradável surpresa, mesmo que isso tenha acontecido muito pelas novas regras de gestão de energia, com os pilotos ainda tateando um novo terreno onde consolidar uma ultrapassagem requer um cálculo que pode não ser dos mais fáceis nesse início de regulamento. Para os mais atentos, a transmissão da Liberty passou a cortar o gráfico de velocidade quando os carros chegavam na curva 8 e a velocidade despencava vertiginosamente. Não foi coincidência...


O novo motor da Red Bull/Ford estava se comportando maravilhosamente bem nesses primeiros momentos de um projeto totalmente novo, mas as dificuldades de noviciado apareceram e o motor de Isack Hadjar explodiu na décima volta, trazendo na sequência o SC Virtual. A maioria do pelotão, inclusive a dupla da Mercedes, foi aos boxes colocar pneus duros, tirando os médios, enquanto a Ferrari preferiu ficar na pista com seus dois pilotos, para protesto de Hamilton. Cinco voltas depois da relargada o carro de Valtteri Bottas ficou parado na entrada dos pits e a Ferrari teve uma falta de sorte incrível. Primeiro que o SC Virtual apareceu quando os dois carros tinham acabado de passar da entrada dos boxes, enquanto outra parte do pelotão fez sua parada, incluindo aí um Max Verstappen em outra corrida de recuperação forte, vindo da vigésima posição no grid. No entanto, quando a Ferrari se preparava para entrar nos pits, a direção de prova fechou a entrada dos pits para tirar o Cadillac de Bottas, fazendo com que a Ferrari tivesse que trazer seus pilotos em bandeira verde, praticamente os únicos. Mais um vacilo. Quando Hamilton parou ao final da volta 27, muito próximo da metade da corrida, Russell já tinha ultrapassado o compatriota e reassumia a liderança da corrida. Pela parada ainda na volta 12 de 58, era esperado que a dupla da Mercedes visitasse os boxes uma segunda vez, mas o equilíbrio do carro da Mercedes era tal que Russell e um hesitante Antonelli levaram seus carros até a bandeirada sem maiores arroubos. A Mercedes confirmou algo que todos comentavam ainda no ano passado, quando se falava que os alemães teriam a mesma vantagem que obtiveram quando houve a última grande mudança de regulamento, em 2014. Não foi um domínio escandaloso como doze anos atrás, mas observando os demais clientes da Mercedes, a vantagem da equipe de fábrica também passa por um chassi bem nascido, além do melhor motor da F1 atual. Russell controlou bem a corrida, como gosta de fazer quando tem o melhor carro, algo que terá mais vezes em 2026, enquanto Antonelli sofreu com uma largada horrorosa, mas a vantagem do seu carro o colocou rapidamente entre os primeiros colocados e o italiano pôde completar a dobradinha da Mercedes.


A Ferrari pôde colher os frutos de ter parado o desenvolvimento do carro do ano passado ainda em abril, mas Fred Vasseur e seus red caps queriam mais. O forte início da Mercedes deixou a Ferrari como a segunda força da F1 com alguma vantagem. A largada da Ferrari foi espetacular, como fora mostrado na pré-temporada no Bahrein, mas o ritmo de corrida não estava tão abaixo da Mercedes como mostrado na classificação. Leclerc mais uma vez superou Hamilton no final de semana, mesmo com Lewis encostando bastante nas voltas finais. Hamilton parece estar de ânimo renovado e quase conquistou o seu primeiro pódio pela Ferrari. Lando Norris foi um dos poucos a fazer duas paradas, mas isso não diminui a sensação de que a McLaren terá que correr atrás se quiser defender seus dois títulos. Lando ainda teve que lidar com a pressão de Max Verstappen nas voltas finais. O neerlandês fez uma bela corrida de recuperação, mas ao largar com pneus duros, teve que colocar os médios na primeira parada, fazendo-o ir para uma estratégia de duas paradas. Mesmo com pneus mais novos do que Lando, Max não foi capaz de efetuar a ultrapassagem, tendo que se conformar com a sexta posição. Os dois primeiros colocados de 2025 terminaram a corrida inaugural de 2026 mais de 50s atrás dos líderes.


Com os abandonos de Piastri e Hadjar, o meio do pelotão brigou pelo sétimo lugar e quem ficou com essa posição foi Oliver Bearman, após uma briga forte com outro jovem inglês, o promissor Arvid Lindblad, que chegou a ocupar a terceira posição na primeira volta, mas depois foi perdendo muito rendimento. Os dois se digladiaram nas voltas finais com vantagem para o piloto da Haas, mostrando um certo equilíbrio no pelotão intermediário pelos pilotos a seguir. Gabriel Bortoleto fez uma corrida sólida, parando duas vezes nos boxes e terminando em nono, bastante próximo de Lindblad. Primeiros pontos para a Audi logo em sua primeira corrida, mesmo que Nico Hulkenberg tenha tido problemas ainda antes da largada, se tornando o segundo abandono do dia. Pierre Gasly fechou a zona de pontuação com a Alpine após uma luta fratricida com seu compatriota e rival Esteban Ocon. Apenas Williams, Aston Martin e Cadillac saíram da Austrália sem pontos. Com um programa que teve problemas logo na pré-temporada, a Williams não emulou o mesmo bom desempenho do ano passado, ficando longe da luta pelos pontos. A Cadillac sofre com problemas de noviciado, com peças de soltando e um carro mais lento que os demais, mas ao menos Checo Pérez finalizou a corrida. A Aston Martin utilizou a corrida australiana para fazer um grande teste, enquanto seus pilotos conseguiam guiar um carro que vibrava de forma absurda, fazendo tremer a parceria com a Honda.


Numa corrida que iniciou uma nova era na F1, apenas seis carros quebraram, o que foi considerado pouco pelo o que se viu. As brigas por posição foram diferentes do que era visto nos últimos anos, portanto, vimos batalhas onde a gestão de energia fazia enorme diferença entre ganhar ou perder posição. Uma situação nova para todos, mas a excelência da engenharia da F1 irá consertar isso em breve, até porque um piloto ficando muito mais lento que o outro poderá ser perigoso em algumas situações ao longo da temporada. Norris se juntou à Verstappen nas críticas ao novo regulamento, assim como Hamilton, Leclerc e Alonso. Pelo jeito, apenas o vencedor George Russell curtiu. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário