domingo, 23 de agosto de 2026

Que despedida!

 


Zandvoort é um palco histórico da F1, estando no calendário da categoria pela primeira vez em 1952, entrando e saindo ao longo dos anos, com algumas variações de traçado. O retumbante sucesso de Max Verstappen trouxe a pista neerlandesa de volta à F1, mesmo com um traçado travado e bastante estreito. De difíceis ultrapassagens, as corridas em Zandvoort em sua passagem pela F1 moderna ficou mais marcada pela enorme festa da torcida nas arquibancadas, principalmente nas vitórias de Verstappen. Porém, a ambição desmedida da Liberty Media fez com que Zandvoort anunciasse a despedida da F1 em 2026, mesmo sendo um sucesso de público. A corrida bem mais ou menos na Sprint Race no sábado diminuiu as expectativas no domingo, mas acabamos por ver uma excelente prova de despedida de Zandvoort, mesmo que a torcida tenha saído chateada com o prematuro abandono de Verstappen. Quem estava vibrando era mesmo Lando Norris, que lutou arduamente contra Andrea Kimi Antonelli para vencer pela segunda vez e colocar um pequena pulga atrás da orelha de Toto Wolff, com a segunda vitória consecutiva do atual campeão do mundo.


A semana do Grande Prêmio dos Países Baixos foi de previsões de clima instável em todo o final de semana em Zandvoort, mas a chuva acabou aparecendo sempre na hora errada. Se no sábado a precipitação aconteceu logo depois da Sprint Race e também nos minutos derradeiros do Q3, nesse domingo a chuva veio com certa força antes da largada, no que poderia ser a primeira sessão da F1 com os carros atuais em pista molhada. No entanto, o sol já brilhava no momento em que o Rei dos Países Baixos acompanhava o belo hino do seu país ser cantado e todos os pilotos largaram com pneus slicks, mesmo com alguns pontos úmidos. E foi justamente num desses pontos que a corrida de Max Verstappen acabou de forma abrupta. A largada viu novamente George Russell sair muito mal a ponto de atrapalhar Oscar Piastri e quem se aproveitou disso foi Antonelli, que pulou para segundo. Mais atrás Max chegou a ficar lado a lado com seu companheiro de equipe Liam Lawson e quando ambos chegaram na última curva, a Arie Luyendyk, Verstappen perdeu o controle do seu carro e bateu com força em ambos os muros. A pancada foi forte, mas felizmente Max emergiu do seu carro sem problemas, o mesmo não podendo dizer a torcida, que novamente lotou as arquibancadas para torcer para Verstappen, mas no início da segunda volta viu Max ir para os boxes. Logo depois as câmeras mostraram uma cena até mesmo mais perigosa. No mesmo ponto de Max, Gabriel Bortoleto perdeu o controle do seu carro e o brasileiro contou com os reflexos em dia de Nico Hulkenberg para não ser acertado em cheio pelo companheiro de equipe. 


A bandeira vermelha consequente fez com que alguns pilotos trocassem seus pneus e de estratégia. A relargada, com os carros parados, viu Norris manter a escrita de sempre perder a pole, fazendo com que Kimi assumisse a ponta e as notícias para o italiano ficariam ainda melhores poucos metros depois, quando Oscar Piastri, que relargou com pneus duros, ultrapassou Russell na briga pelo terceiro lugar. A corrida ganha ritmo com Antonelli e Norris abrindo uma boa diferença para Piastri, que por sua vez segurava Russell e a dupla da Ferrari. Preso atrás de Piastri, Russell tomou a iniciativa de sair do tráfego e fez sua primeira parada ainda na volta 17, abrindo caminho para as duas Ferraris, com Leclerc na frente. Tendo colocado pneus duros e com um ritmo razoável, era esperado que Piastri ficasse na pista, mas a McLaren resolveu proteger a colocação do australiano e chamou seu piloto para trocar pneus novamente, porém, a equipe errou em seu pit-stop e quando retornou à pista, Piastri estava atrás de Russell. E a mentalidade de Piastri, tão elogiada ano passado, desapareceu na mesma medida em que Oscar desapareceu da corrida. Antonelli e Norris fizeram suas primeiras paradas na mesma volta e mesmo a Mercedes dando um ligeiro vacilo, o italiano retornou à frente e ainda teve que ultrapassar Hamilton, que postergou sua parada ao máximo para causar a primeira polêmica da corrida mais tarde.


Porém esse não era o maior obstáculo para Antonelli. Com pneus duros o ritmo de Kimi caiu claramente, ao contrário acontecendo com Norris e se antes da parada a diferença entre os dois era de 2s, Lando baixou essa diferença para menos de 1s e pressionava o italiano, que parecia desconfortável com a situação. Pior era a Ferrari. Hamilton se aproximou de Leclerc, que pressionava Russell e com o passar das voltas entrou no rádio pedindo passagem. Para evitar uma troca de posições na pista, a Ferrari optou por chamar Leclerc para os boxes, já que a segunda janela de pit-stops já havia iniciado com a dupla da Mercedes parando junta na volta 40. Charles percebeu na hora a manobra e desobedeceu a Ferrari por duas voltas antes de realizar a sua parada, para desespero de Hamilton, que esbravejou via rádio. E o motivo ficaria claro mais tarde. 

Ao contrário do esperado, a McLaren não respondeu de imediato à manobra da Mercedes e deixou Norris mais algumas voltas na pista. Quando Lando fez sua segunda parada, ele estava 3,5s atrás de Antonelli, mas num ritmo muito mais rápido do que o de Andrea, chegando a tirar 1,5s numa única volta. O queixume de Hamilton se mostraria nas últimas voltas quando ficou claro que Lewis tentaria completar a corrida com uma única parada. Não demorou para Antonelli encostar em Hamilton e Lando colar nos dois. Numa manobra belíssima, Hamilton se defendeu de Antonelli, enquanto Norris colocou por fora do italiano assumindo a segunda posição. Com pneus em melhores condições, Lando Norris tomou a liderança ainda na mesma volta para não mais perdê-la. Contudo a corrida ainda teria mais lances de emoção e polêmica. 


Logo após Antonelli tomar o segundo lugar de Hamilton, o carro de Esteban Ocon apareceu parado e o Virtual Safety Car deu as caras, no que Antonelli, Hamilton, Leclerc e Piastri aproveitaram o ensejo para irem aos boxes colocar pneus macios para as voltas finais. Norris chegou a questionar a McLaren o motivo de não ter parado, mas quando se aproximava da entrada dos pits, a bandeira verde foi mostrada. Outro que permaneceu na pista foi Russell, que com isso subiu para segundo, mas com pneus duros desgastados, seria facilmente atacado por Antonelli e a dupla da Ferrari. Porém, George não parecia muito disposto a ceder sua posição de forma tranquila, mas a Mercedes impôs uma troca de posições e Russell deixou Antonelli passar e quando estava prestes a perder o pódio para Hamilton, o VSC entrou em cena novamente na antepenúltima volta e George conseguiu segurar a posição, enquanto a dupla da Ferrari quase se encontraram na penúltima volta.


Mais do que a segunda vitória consecutiva de Lando Norris, a forma como o inglês da McLaren venceu em Zandvoort mostrou que o campeonato, que parecia nas mãos da Mercedes, pode estar sofrendo uma ligeira reviravolta. Hoje Norris mostrou um ritmo avassalador, muito superior ao da Mercedes com pneus duros e a bonita ultrapassagem sobre Antonelli mostrou que ele era bem mais rápido do que o italiano. O mesmo não se pode dizer de Piastri, que após o erro de pit-stop da McLaren simplesmente desapareceu da corrida e recebeu a bandeirada numa opaca sexta posição. Oscar precisa de um psicólogo. Outro recado dado foi feito pela Mercedes. Com a McLaren mostrando o mesmo nível de recuperação dos anos anteriores, a Mercedes terá que escolher alguém para lutar pelo título e a troca de posição entre Antonelli e Russell indicou quem Toto Wolff escolheu. Russell poderia ter argumentado mais e ao 'prender' Antonelli, poderia esperar uma ultrapassagem de Hamilton que teria separado a dupla da Mercedes, porém, cedeu a posição para o companheiro de equipe, mais alguns pontos e muito provavelmente a chance de ser campeão em 2026 ou até mesmo em outro ano. Russell foi mais rápido do que Antonelli em praticamente o final de semana inteiro, mas acabou dominado na corrida e viu sua desvantagem aumentar, com Lando Norris, claramente o primeiro piloto da McLaren, se aproximando dele. 


Já no reino de Frederic Vasseur, a reunião pós-corrida da Ferrari tende a ser bem animada. Hamilton poderia ter conquistado um resultado melhor, mas quando Leclerc se recusou a sair de sua frente, perdeu um tempo precioso que lhe custo, no mínimo, um lugar no pódio e ainda viu Russell empatar com ele no campeonato. Cada vez mais à vontade dentro da Ferrari, Lewis Hamilton reclamou bastante da estratégia da Ferrari e, claro, do seu companheiro de equipe. Por sua vez, tido e havido como um piloto criado dentro da Ferrari para ser campeão e com o contrato renovado, Charles Leclerc não quer perder a posição de piloto principal da equipe, mesmo correndo ao lado de um heptacampeão mundial. Política sempre fez parte da gestão de pilotos da Ferrari, fica surpreso quem quer. Com Max Verstappen de fora logo na primeira volta, a Red Bull viu Liam Lawson levar seu carro até o fim sem maiores arroubos no sétimo lugar, ficando o time austríaco como a quarta força isolada em Zandvoort.


O pelotão intermediário teve inúmeras brigas e punições, com Nico Hulkenberg marcando pontos pela segunda corrida consecutiva e mostrando que a Audi tem condições de brigar com a Racing Bulls pelo quinto posto do Mundial de Construtores, mas o grande destaque foi mesmo Fernando Alonso. Com a Honda trazendo um motor praticamente novo para Zandvoort, a dupla da Aston Martin reclamou de problemas de noviciado e seus pilotos ficaram no Q1, mas Alonso parecia satisfeito com o potencial do carro. Mesmo ainda sofrendo com a potência do carro, Alonso arriscou para fazer uma parada a menos e se aproveitando do caos ao redor, levou à Aston Martin ao seu melhor resultado até o momento em 2026 com um honroso nono lugar, ficando à frente de Gasly, com seu Alpine com vários desenvolvimentos. A Racing Bulls viu Lindblad ser punido e Tsunoda fazer uma corrida de reestreia decente, mas fora dos pontos. A rodada na primeira volta depois de outra largada ruim deixou Bortoleto fora dos pontos a corrida inteira, mas sempre com Gabriel mostrando um ritmo forte quando teve pista livre. A Haas abandonou com seus dois carros, a Cadillac viu o novo chefe Marcin Budkowski se orgulhar de que nenhum carro se desfez na pista e a Williams... Bom a Williams viu seus dois pilotos baterem entre si no final da corrida quando ambos brigavam pelas últimas posições. James Vowles terá muito trabalho.


Zandvoort deixa a F1 com sua melhor corrida em seu retorno ao calendário e já deixando saudades. A torcida neerlandesa pode ter saído do autódromo frustrada pelo acidente de Max, mas os fãs da F1 viram uma grande corrida e o que pode ser o início de um novo campeonato, com a ascensão da McLaren. Norris pulou para quarto no campeonato e ainda está mais oitenta pontos atrás de Andrea Kimi Antonelli, mas os últimos campeonatos mostraram que o final de uma temporada pode ser bem diferente do seu início. Toto Wolff mostrou hoje que já abriu o olho para essa situação. Mais confiante com seu título conquistado, Lando Norris está crescendo no momento certo. Antonelli que se cuide! 

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