Sábado, 26 de julho de 2025. Andrea Kimi Antonelli chega para dar entrevista após conseguir uma pálida décima oitava posição no grid para o Grande Prêmio da Bélgica com lágrimas nos olhos. A fase do jovem piloto italiano da Mercedes era muito ruim e as críticas à escolha de Toto Wolff se acumulavam na medida em que Kimi, com 18 anos naquele momento, cometia erros e não confirmava a enorme velocidade esperada dele. Colocar um piloto tão novo numa equipe grande como a Mercedes parecia um erro. Kimi se recuperou no final do ano, voltou a subir ao pódio em Interlagos e mesmo que a mudança de regulamento fosse uma clara oportunidade para a Mercedes voltar aos tempos de glória, ninguém apostava em Antonelli como campeão mundial. Os olhos estavam em George Russell, indo para a sua oitava temporada na F1, sendo a quinta pela equipe Mercedes, líder da equipe no começo de 2026. A primeira corrida do desastroso novo regulamento técnico confirmava a força da Mercedes e Russell venceu a primeira prova em Melbourne. Parecia que seria um passeio do inglês. Com um segundo lugar, Andrea Kimi Antonelli parecia que seria apenas um coadjuvante esperando sua oportunidade, além de aprender com um piloto mais experiente do que ele. Veio Xangai e Russell tem problemas na classificação e Antonelli fica com a pole, se tornando o mais jovem a fazê-lo e no dia seguinte vence na China. Muitos esperavam que aquilo fosse mais um ligeiro percalço. Só que veio Suzuka, Miami, Montreal... Russell não conseguia se reerguer, enquanto a confiança de Antonelli só crescia. Muitos esperavam que a Ferrari ganhasse em Monte Carlo, mas Kimi tirou uma volta de classificação da cartola para ficar com a pole e venceu em Mônaco. Quinta vitória consecutiva. As demais equipes grandes se aproximaram da Mercedes, mas a maturidade de Antonelli o fez perceber que não precisava mais vencer todas as corridas. A matemática estava a seu favor, além de esbanjar confiança, Kimi foi amealhando pontos, sempre se mostrando sólido e exibindo poucos pontos fracos. A disputa interna já estava dominada. Russell nunca se recuperou e ainda viu o crescimento de Ferrari, McLaren e Red Bull mais lhe afetar do que ao próprio companheiro de equipe. Em Monza, muitos esperavam como a torcida italiana se comportaria. Torceria com a mesma intensidade para Antonelli como faz com a Ferrari? Mesmo punido, Kimi deu a resposta com uma inesquecível vitória em casa, terminando um recorde de sessenta anos. O título passou a ser questão de 'quando', não mais de 'se'. Poderia ter vindo em Austin. Kimi fez sua parte ao vencer pela nona vez em 2026, mas a matemática não lhe ajudou no Texas. Na Cidade do México, mesmo chegando doente ao final de semana, Kimi fez um final de semana ponderado. Controlou Russell o tempo inteiro e fez uma corrida cautelosa, da mesma forma como vinha fazendo nos últimos meses, correndo com o regulamento debaixo do braço. Enquanto via a Ferrari se atrapalhar pela enésima vez em 2026, entregando a vitória no colo de Max Verstappen, Andrea Kimi Antonelli administrou uma situação que a nona posição lhe bastava para ser terceiro e conquistar, com quatro (ou três...) corridas de antecedência o seu primeiro título mundial, se tornando com meros 20 anos de idade o mais jovem a conseguir o feito, quebrando mais um recorde, sendo o primeiro italiano campeão da F1 desde 1953, com o mítico Alberto Ascari.
A Itália tinha bons motivos para vibrar na Circuito Hermanos Rodríguez, pois além de Antonelli estar com oito dedos das mãos na taça, a Ferrari vinha forte com seus dois pilotos nas duas primeiras filas após demonstrar um bom ritmo em todos os treinos. Como é de conhecimento de todos, a largada para o Grande Prêmio da Cidade do México é uma das mais delicadas da temporada por causa do longo caminho até a freada, causando muito vácuo entre os carros. No apagar das luzes vermelhas, Hamilton logo se colocou por dentro, com os quatro primeiros colocados juntos e em fila indiana. Antes da freada, aparentemente Russell teve algum problema, pois ficou lento e isso foi a deixa para Antonelli se aproximar ainda mais do título ao ultrapassar o companheiro de equipe. Melhor ainda fez Max Verstappen, ao pular de quinto para terceiro, enquanto Leclerc começava os primeiros ataques em cima de Hamilton. Incrivelmente a apertada primeira chicane não entregou nenhum problemas e todos os carros saíram para a pequena reta antes da curva três incólumes. Foi quando os problemas que Fred Vasseur precisará resolver começaram. Leclerc vinha com mais ação e mergulhou por fora na curva 3. Querendo se defender, Hamilton freou no limite e 'embarrigou' a curva, saindo até mesmo do traçado, empurrando Leclerc para ainda mais longe. Sem espaço, Leclerc saiu pela grama e emergiu no asfalto com boa vantagem para quem vinha atrás. O problema foi que Hamilton perdeu tempo na manobra e acabou ultrapassado por Verstappen, separando as duas Ferraris. A situação claramente indicava que Leclerc teria que devolver a posição para Hamilton, mas isso entregaria a primeira posição para Verstappen.
A polêmica se instalou dentro do seio da Ferrari, com Hamilton reclamando que Leclerc deveria entregar sua posição, mas o monegasco preferiu dobrar a aposta e para não entregar a ponta para um carro da Red Bull, permaneceu em primeiro, com Verstappen também cobrando uma punição da FIA, que veio, mas para tristeza dos envolvidos, Charles tomaria apenas 5s. O fato de Hamilton também ter saído da pista amenizou a pena de Leclerc, que tratou de abrir a diferença para Verstappen, usando seus pneus macios contra a borracha média de Max. Com boa parte do grid largando com pneus macios mantendo um bom desempenho, a tática de uma parada seria padrão para todo o pelotão e bem no momento em que Leclerc se aproximava dos 5s de vantagem para Verstappen, ele foi chamado pela Ferrari na volta 27. Espertamente a Red Bull chamou Max na mesma volta. Com a Ferrari parada por 5s antes realizar a troca de pneus, Max saiu de sua parada confortavelmente na frente de Leclerc, coroando mais uma falta de gestão de pilotos da Ferrari em 2026.
Contudo, Max teria que percorrer 43 voltas com pneus macios e ainda via Andrea Kimi Antonelli tentar dar o pulo do gato. Procurando não se envolver em disputas com outros pilotos que não tinham nada a perder, Kimi esticou ao máximo seu stint e mesmo perdendo tempo frente à Max e a dupla Ferrari, que andavam juntos nesse momento, a Mercedes pensou em deixar Antonelli com pneus médios com uma vantagem nas voltas finais. Kimi fez sua parada na volta 43 e quando o italiano retornou à pista na quarta posição, Valtteri Bottas sofreu um perigoso acidente na curva um. Num lugar onde os carros atingiram os 362 km/h, Bottas viu a suspensão dianteira esquerda se quebrar sozinha e o nórdico virou passageiro dentro do seu Cadillac, batendo forte no muro de proteção. Bottas demorou um pouco a sair do carro e com a barreira tendo que ser consertada, a bandeira vermelha foi dada, estancando qualquer vantagem que alguém pudesse ter. Quando os pilotos saíram dos seus carros durante a interrupção, estava claro que Lewis Hamilton estava furioso ainda pelo lance da primeira volta e com ele largando logo atrás de Leclerc, a tensão estava alta para a segunda largada.
Vindo de largada ruins nas últimas provas, dessa vez Max Verstappen manteve a ponta no apagar das luzes vermelhas e sem surpresas, Hamilton saiu com a faca nos dentes, rapidamente ultrapassando Leclerc, que dessa vez saiu mal. Hamilton chegou a emparelhar com Verstappen e de certa forma provou do próprio remédio, pois ao tentar ultrapassar por fora, viu Max jogar duro ao tangenciar a curva mais larga do que o normal, deixando praticamente nenhum espaço para Lewis. Charles tentou entrar nessa briga, mas ao frear forte, acabou fritando seus pneus e deixando-o com um flat spot no pneu dianteiro esquerdo que se mostrou decisivo. Na volta seguinte Andrea Kimi Antonelli conseguiu ultrapassar o sempre duro Leclerc na curva um e se colocar em terceiro lugar. Hamilton tentou de todas as formas ir para cima de Verstappen, mas o neerlandês usou a potência superior do seu motor Ford para vencer mais uma vez em 2026 e assumir a vice-liderança do campeonato, além de conquistar sua sexta vitória na Cidade do México. Hamilton lamentou bastante perder o que nas palavras dele, seria uma dobradinha para a Ferrari, mas a grande festa não era essa.
Após ultrapassar Leclerc, Antonelli se aproveitou do ritmo ruim do monegasco após ter estragado seus pneus e viu de camarote as tentativas de Hamilton ultrapassar Verstappen. O terceiro lugar era mais do que suficiente para Antonelli se consagrar como o novo Campeão Mundial da Formula 1. E nada mais simbólico do que Antonelli subir ao pódio junto de dois multicampeões e ser erguido por eles no pódio.
Mesmo com o pneu onde podia ver a carcaça, Leclerc segurou os ataques de Lando Norris, que fez uma corrida inofensiva, onde muitas vezes tinha mais ritmo que o carro à frente, mas simplesmente não conseguia fazer a ultrapassagem. Um pálido quinto lugar foi tudo que Lando conseguiu, enquanto Leclerc terá que encarar uma tensa reunião com a cúpula da Ferrari. O sexto lugar de George Russell refletiu a temporada completamente opaca do inglês. Sua largada ruim o colocou atrás de Russell e isso afeta sobremaneira o psicológico de George, que a partir de então fez uma corrida modorrenta, onde não conseguiu acompanhar Antonelli e que foi piorada com uma punição de 10s por fazer Isack Hadjar rodar na primeira volta, estragando a corrida do francês. Mesmo antes da parada para pagar a punição, o ritmo de Russell era tão ruim que acabou tendo que se defender de Lando e mesmo quando se tornou caçador, não fez nada em cima do seu compatriota. Os resultados tímidos de Russell já o tirou da vice-liderança do campeonato, o que torna sua situação dentro da equipe Mercedes ainda mais vexatória. Como explicar que de favorito ao título, Russell tem a real possibilidade de nem ir à Xangai participar da festa da FIA dos melhores do campeonato? Fazendo igualmente um campeonato abaixo da crítica está Oscar Piastri. Após não ir ao Q3 na classificação, o que já é vergonhoso, Piastri acabou na briga com a Racing Bulls de Lindblad, o que acabou resultando num acidente entre os dois que trouxe o segundo Safety Car do dia, além de render uma punição de 10s ao australiano, que lhe tirou da zona de pontos.
Quem agradeceu com isso foi a Alpine, pois com Lindblad de fora, pontuou com seus dois pilotos, sendo que dessa vez foi Colapinto a ficar à frente de Gasly, com Liam Lawson os separando. O neozelandês se envolveu num sórdido incidente com Max Verstappen na sexta-feira, que rendeu a ambos uma punição de dedução de uma posição no grid, mas que Lawson aproveitou para trocar a unidade de potência e sair do pit-lane rumo aos pontos. Mais uma boa corrida para Liam Lawson, mas se envolver num incidente com a estrela do programa da Red Bull não pareceu uma ideia das melhores. No meio do furacão que foi o final de semana da Haas, Oliver Bearman fazia seu melhor final de semana em muito tempo e chegou a andar consistentemente na zona de pontos, mas na relargada após a bandeira vermelha acabou acertado na traseira por Nico Hulkenberg, fazendo o inglês abandonar e Hulkenberg ficar nas últimas posições. Ryo Hirakawa fez uma corrida decente dentro das circunstâncias, usando sua experiência de bicampeão do WEC para terminar a prova no México. Os incidentes de Bearman-Hulkenberg e a punição à Piastri fez com que Gabriel Bortoleto marcasse ponto depois de muito tempo e um final de semana bastante conturbado no México, onde mal conseguiu andar nos treinos livres por problemas de confiabilidade da Audi.
A Williams mal apareceu com seus dois pilotos, mas Albon sentiu um pequeno gosto de vingança após a frase de Alonso, que disse após a corrida em Austin que 'o terço final do pelotão tem um nível muito baixo', após uma briga do espanhol com Albon. No México novamente a Aston Martin teve um final de semana tenebroso e seus dois carros não conseguiram completar dez voltas. A Cadillac se viu envolvido num problema quase amadorístico nesse final de semana, e nem falo do sórdido acidente de Bottas, mais um onde um carro da Cadillac se desfaz sozinho e sem aviso. Cansado do péssimo desempenho de Bottas, a Cadillac irá tentar colocar Colton Herta na equipe em 2027, mesmo o norte-americano não tendo feito nada na F2 para fazer merecer a promoção. Na conta da FIA, Herta só precisava marcar mais um pontinho na super licença que ele seria estaria apto a correr na F1 em 2027 e para isso bastava completar 100 km no treino livre, algo que Colton fez sem maiores problemas na sexta-feira. O problema foi que descobriu-se que Colton Herta não fora sexto colocado em 2025 na Indy, mas sétimo, perdendo nos critérios de desempate para Felix Rosenqvist, com quem terminou aquele campeonato empatado. Um erro de cálculo que fará Herta participar de mais treinos livres para marcar mais um pontinho, enquanto correndo em casa, Pérez chegou a correr em 13º em sua corrida de número 300, mas um pit-stop ruim da Cadillac o colocou na última posição.
O campeonato de 2026 teve seu campeão em Andrea Kimi Antonelli, que em sua segunda temporada na F1 surpreendeu até mesmo a Mercedes, ao derrotar de forma tão fácil George Russell e controlar um campeonato onde, se a Mercedes não dominou, a equipe tedesca se mostrou forte em praticamente todas as corridas. E usando a antiga característica de George Russell, a solidez, mais seu talento, Antonelli administrou o campeonato com a maturidade de experiente piloto de F1 e a magia de um talento geracional. Ainda é difícil quantificar o tamanho do feito de Andrea Kimi Antonelli, mas com tantos recordes quebrados ao longo de 2026, é difícil não dizer que vimos a história ser feito na frente de nossos olhos.
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