quinta-feira, 12 de abril de 2018

História: 20 anos do Grande Prêmio da Argentina de 1998

Conta a lenda que Ron Dennis, após outra dobradinha em Interlagos vinte anos atrás chamou alguns amigos mais próximos e fez uma aposta com eles. Dez anos após a imbatível temporada 1988, a McLaren seria ainda mais perfeita e venceria todas as dezesseis corridas de 1998. Era o que apostava um confiante Ron Dennis. Observando as duas corridas anteriores, a arrogante (como sempre) aposta de Dennis fazia sentido. Foram duas dobradinhas dominantes da McLaren com os rivais mais próximos tomando uma volta. Teorias tentavam explicar tamanha diferença de desempenho entre a McLaren e os demais. Falava-se de um revolucionário sistema de freios em que Hakkinen e Coulthard poderiam controlar a frenagem do volante. Outra teoria era que os pneus Bridgestone tinham se adaptado de forma incrível ao carro projetado de Adryan Newey. Enquanto confabulavam teorias, as outras equipes procuravam formas de ganhar desempenho e na Argentina apareceram apetrechos aerodinâmicos nas laterais do carro de gosto muito duvidoso e logo apelidados de 'candelabro'. Essa corrida em Buenos Aires seria bem especial para o novato Esteban Tuero, enquanto os argentinos teriam para quem torcer dentro do Autódromo Oscar Galvéz desde Carlos Reutemann.

Tentando dar uma resposta à Bridgestone, a Goodyear trouxe pneus novos para a Argentina, mas os treinos livres foram bastante atrapalhados pela chuva e pouco se viu de evolução, mas com o clima frio, a Bridgestone não estava tão à vontade como em Melbourne e Interlagos. Até então o líder incontestável da temporada, Hakkinen não consegue um bom acerto do carro e fica de fora da primeira fila do grid pela primeira vez no ano. Coulthard ainda salvou a honra da McLaren, mas Schumacher estava ao lado do escocês, mostrando a evolução da Ferrari, que ainda tinha Irvine completando a segunda fila. O ano de 1998 seria uma disputa particular entre Ferrari e McLaren. No lugar onde havia conquistado seu primeiro pódio no ano anterior, Ralf Schumacher era o melhor do resto, enquanto Tuero era apenas 20º na classificação.

Grid:
1) Coulthard (McLaren) - 1:25.852
2) M.Schumacher (Ferrari) - 1:26.251
3) Hakkinen (McLaren) - 1:26.632
4) Irvine (Ferrari) - 1:26.780
5) R.Schumacher (Jordan) - 1:26.827
6) Frentzen (Williams) - 1:26.876
7) Villeneuve (Williams) - 1:26.941
8) Wurz (Benetton) - 1:27.198
9) Hill (Jordan) - 1:27.483
10) Fisichella (Benetton) - 1:28.836

O dia 12 de abril de 1998 amanheceu com chuva e tempo muito nublado. O warm-up, liderado por Jean Alesi, foi realizado com pista molhada, mas a chuva cessou e a corrida aconteceria com pista seca, mesmo com frio e a perspectiva de uma chuva a qualquer momento. A largada aconteceu sem maiores problemas, apesar dos irmãos Schumacher terem tido problemas, com Michael sendo ultrapassado por Hakkinen quase que imediatamente, enquanto Ralf caía de 5º para 13º.

Temendo uma nova dobradinha dominante da McLaren e sentindo que sua Ferrari não estava tão inferior na Argentina, Schumacher logo empreende um forte ataque em cima de Hakkinen. Após duas tentativas nas duas primeiras freadas da segunda volta, Michael assume a segunda posição na curva Viborita e parte para cima de Coulthard, que aproveitou a briga pelo segundo lugar para abrir 2s. Mais atrás, Irvine se recupera da má largada e pula para quarto ao ultrapassar Frentzen, rapidamente definindo a dominação McLaren-Ferrari vista desde os treinos livres durante a corrida. Claramente andando mais do que o carro, Schumacher tira a diferença para Coulthard e na volta 5, acontece a polêmica da corrida. Na entrada do hairpin Reutemann, Coulthard alarga a curva e Schumacher vê a oportunidade e coloca a sua Ferrari por dentro, porém, Coulthard resiste e o toque é inevitável. O escocês chega a levantar voo antes de rodar, enquanto Schumacher assumia a ponta da corrida. Era mais uma manobra bruta na carreira do alemão...

Hakkinen vinha num ritmo tão mais lento, que ao assumir a segunda posição já vinha 6s atrás de Schumacher, enquanto Coulthard caía para sexto. O escocês ataca Alesi, que era segurado por Villeneuve. Ultrapassar nunca foi fácil na F1... Schumacher era o piloto mais rápido na pista e abria bastante para Hakkinen, que vinha apenas 3s à frente de Irvine. Na volta 20, Schumacher erra a freada da primeira curva e frita os pneus, deixando uma clara marca na borracha. Oito voltas depois Michael faz sua primeira parada e retorna à pista em segundo, logo atrás de Hakkinen. Enquanto isso, Ralf rodava pela segunda vez e abandona pela terceira vez em 1998. Após a parada de Alesi, Coulthard fica empacado atrás de Villeneuve e por isso muda sua estratégia, ficando muito tempo parado nos pits, colocando combustível para terminar a corrida sem mais paradas. Porém, parar azar do escocês, essa era a estratégia de Villeneuve desde o início e isso era o motivo da lentidão do canadense da Williams. Quando Villeneuve fez sua única parada, ele voltou logo à frente de Coulthard, para desespero dos táticos da McLaren. Hakkinen pára na volta 42, indicando que faria uma única parada e isso significava que Schumacher teria que andar muito para se manter em primeiro no fim com uma parada a mais. 

Na volta 47, numa briga inglesa, Damon Hill tenta uma ultrapassagem desajeitada em cima de Johnny Herbert e o resultado são os dois fora da pista e fora da briga por pontos. Schumacher voava na pista e quando o alemão encontrou um grupo de três retardatários rápidos (Villeneuve, Coulthard e Fisichella), Michael resolveu parar pela segunda vez, na volta 52. Hakkinen estava com dificuldades com seus pneus e ainda perdeu tempo quando ia colocar uma volta em Ricardo Rosset. O resultado foi que Schumacher retornou à pista na liderança, com 3s de folga para o finlandês. Mostrando que aquele não era mesmo seu dia, Coulthard perdeu a paciência com Villeneuve e tentou ultrapassar o então campeão na entrada do S do Senna por fora na volta 53. O impacto foi inevitável e ambos saíram da pista, mas se Coulthard ainda pôde continuar na prova, Villeneuve abandonou ali mesmo. Faltando dez voltas para o fim, a temida chuva deu as caras no Autódromo Oscar Gálvez, mas de forma fina. Porém, o suficiente para tumultuar a prova. Schumacher aumentava sua vantagem para Hakkinen, mas mostrando o quão traiçoeira estava a pista, o alemão saiu da pista na volta 66, mas retornou tranquilamente na ponta. A melhor briga era pelo terceiro lugar entre Irvine e Wurz, que marcara a volta mais rápida da corrida. O austríaco chegou a ultrapassar o piloto da Ferrari na volta 64, mas rodou duas voltas depois na curva um, algo que seu companheiro de equipe Fisichella também faria na mesma volta. Ambos os pilotos da Benetton perderam uma posição, mas permaneceram na pista. Mesmo com os tempos despencando em mais de 10s, nenhum piloto trocou de pneus e mesmo com muitas saídas de pista, a corrida terminou com uma brilhante vitória de Michael Schumacher, estragando a aposta de Ron Dennis sobre a temporada 1998. Hakkinen chegou num obscuro segundo lugar e Irvine conseguia seu primeiro pódio do ano. Com um início de ano animador, Wurz terminou em quarto pela segunda corrida consecutiva. Com seu quinto lugar, Jean Alesi consegue seus primeiros pontos com a Sauber e Coulthard ainda salvou um ponto após uma corrida acidentada. Mesmo com Tuero tendo batido nas voltas finais por causa da chuva, a torcida argentina lotou o circuito e fez uma bela festa. Porém, uma grave crise financeira fez com que o Grande Prêmio da Argentina de 1999 fosse cancelado e o apaixonado povo argentino, louco por corridas, nunca mais fizesse parte do calendário da F1.

Chegada:
1) M.Schumacher
2) Hakkinen
3) Irvine
4) Wurz
5) Alesi
6) Coulthard

terça-feira, 10 de abril de 2018

Como nos anos 80

Além das belas corridas, da potência dos motores turbo e dos grandes pilotos, o fascínio que se tem pelos anos 80 na F1 eram também as brigas fora das pistas. Os pilotos tinham personalidade de sobra e as equipes tinham controle de menos sobre o que seus pilotos falavam, principalmente dos seus colegas de profissão. Não faltaram brigas que entraram para a história dentro, mas principalmente fora das pistas, com entrevistas cheias de cutucões e indiretas. Jones x Piquet, Jones x Reutemann, Reutemann x Piquet, Pironi x Villeneuve, Piquet x Mansell, Senna x Piquet, Prost x Senna. Todas essas brigas tiveram grandes lances dentro das pistas, mas a coisa pegava também fora delas.

A MotoGP vai vivendo uma fase dourada, com grandes disputas, ainda que falte um pouco de personalidade aos seus pilotos. A única exceção é mesmo Valentino Rossi, uma estrela que reluz praticamente sozinha sobre os demais pilotos, mesmo que o auge do genial italiano já tenha passado a muitos e muitos anos. Marc Márquez não tem um terço do carisma de Rossi, mas parece ser feito do mesmo material no quesito talento. No Grande Prêmio da Argentina desse domingo, Márquez era o grande favorito, mas uma série de problemas acabaram atrapalhando o piloto da Honda. O espanhol atrapalhou o procedimento de largada e foi punido por isso, acabando no final do pelotão no momento em que Márquez partia para a liderança e provavelmente a vitória em Termas de Rio Hondo.

Talvez frustrado por saber que tinha o melhor conjunto do dia e estar longe da vitória, Márquez partiu para uma corrida de recuperação acima do tom. Foram ultrapassagens arriscadas e toques que seriam perigosos até mesmo na F1, imagine então numa corrida de motos! Márquez parecia ter tamanha auto-suficiência, que ele simplesmente ignorava seus adversários. Foi então que Márquez encontrou pela frente Valentino Rossi, com quem não tem boa relação desde o episódio em Sepang/2015. Márquez não negociou muito (como fez a prova toda) e foi logo colocando por dentro em cima da Yamaha de Rossi, derrubando o italiano numa manobra kamikaze. Justamente, Márquez foi punido depois da corrida e ficou zerado em pontos. Quando chegou aos boxes, tentou pedir desculpas à Rossi, mas acabou expulso do recinto da Yamaha.

Porém, o mais quente estava por vir.

Rossi não poupou críticas às atitudes de dentro da pista Márquez, falando que o piloto da Honda estava destruindo o esporte além de dizer que faltavam huevos para Márquez, pois quando foi ao box da Yamaha, o espanhol chegou acompanhado de seu staff da Honda. Márquez não deixou barato e deu várias cutucadas na réplica.

Resultado? Será bastante esperado o próximo encontro entre Rossi e Márquez dentro da pista e as possíveis consequências, com todo mundo acompanhando de perto as corridas seguintes da MotoGP. Muita gente reclama dessas batalhas entre os dois pilotos, mas Carmelo Ezpeleta, dono da Dorna e promotor da MotoGP, deve estar adorando, pois a audiência não deverá ser pequena com mais essa batalha entre os dois supercampeões da MotoGP. 

Isso, sem contar a cada vez mais quente disputa interna dentro da Ducati, com Lorenzo já começando a se incomodar em não andar no ritmo de Doviziozo...

Como anos 80 na F1, a MotoGP está nos brindando com vários grandes nomes digladiando dentro e fora das pistas! 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Figura(BAH): Honda

Foram três anos normalmente ocupando a parte de baixo dessa coluna. Eram corridas medíocres em cima de um motor que não exibia uma potência digna de um motor de ponta da F1, além de ser frágil como uma lâmpada incandescente de 60W. Foram anos de vexames e desculpas que não convinha para uma marca como a Honda. A promissora parceria com a McLaren foi entrando para a história da F1 como um dos maiores vexames da história da categoria com duas marcas icônicas não se entendendo. Para completar, Fernando Alonso foi contratado para ser o diferencial da parceria, mas o espanhol só fazia jogar gasolina numa fogueira que só ardia mais e mais. A Honda precisou engolir o orgulho de ser dispensada pela McLaren por absoluta falta de resultados, para não dizer competência. Porém, os japoneses gostam de ser desafiados, ainda mais com tanta adversidade. A Honda saiu de uma equipe de ponta para um time filial, que normalmente fecha os grid, a Toro Rosso. Os nipônicos não se abateram e conseguiram finalmente aprender com todos os erros e vexames passados. O motor híbrido da Honda finalmente passou sem maiores problemas da pré-temporada. Praticamente não houve quebras, enquanto nos anos anteriores o que mais se via era a Honda acumulando uma quilometragem ridícula antes de começar a temporada. 2018 não começou de forma promissora. Ainda faltava potência e um dos motores quebrou na Austrália. Parecia que o pesadelo dos últimos três anos continuaria. Sakhir é um circuito onde a potência é muito mais importante do que Melbourne. Potência que tanto falta ao motor japonês, mas as coisas seriam bem diferentes desta vez. Cantera da Red Bull, a Toro Rosso tem o jovem Pierre Gasly como um dos pilotos e o francês andou forte em todo o final de semana. Conseguiu um excelente quinto lugar no grid. Mas e na corrida? Não era a primeira vez que um motor Honda largava numa posição boa e era engolido pelos rivais durante a prova. Gasly lutou com Ricciardo, mas logo passou a ser atacado por Magnussen, que tinha lhe empurrando um potente motor Ferrari. Nos anos anteriores Gasly seria uma presa fácil, mas o piloto da Toro Rosso segurou Magnussen na reta e aos poucos, com o motor Honda, foi abrindo vantagem, se colocando como o melhor do segundo pelotão. Ricciardo e Raikkonen abandonaram. Apesar de ser superado por Hamilton, Pierre Gasly levou seu carro até o final rumo a um quarto lugar consagrador. A Honda conseguia sua melhor posição nessa era dos motores híbridos. E os dois carros chegaram ao final da prova sem abandonos ou serem engolidos pelos rivais mais potentes. Para aumentar o orgulho da Honda, ficaram na frente da McLaren de Alonso. 

Figurão(BAH): Red Bull

A equipe de Christian Horner chegou ao Oriente Médio com esperanças de poder brigar com Ferrari e Mercedes pela vitória no Bahrein e os treinos livres mostravam que isso era bem possível. Sem poder competir pela pole, principalmente contra o poderio do 'modo festa' da Mercedes, a Red Bull mostrava um ótimo ritmo em long runs. A expectativa era ficar com toda a terceira fila e atacar os líderes durante a corrida, mas tudo começou a dar errado quando Max Verstappen bateu durante o Q2 num incidente esquisito, onde o holandês se recusou a assumir a culpa, preferindo apontar o dedo para a vítima preferida da Red Bull para todos os seus problemas: o motor Renault. Ainda havia a perspectiva de ver Daniel Ricciardo largar no pelotão da frente e o australiano vinha logo atrás de Raikkonen nas voltas iniciais. Enquanto isso, Max Verstappen vinha para cima dos rivais com toda a sua fogosidade juvenil até encontrar a experiência de Lewis Hamilton. O já rodado inglês sabe que largar no meio do pelotão expõe um piloto com um carro de ponta a incidentes que pode prejudicar ainda mais sua corrida. Hamilton preferiu esperar a poeira baixar antes de começar a atacar, tática que não foi seguida por Verstappen, que foi passando quem veio pela frente, incluindo o cuidadoso Hamilton. Verstappen fez a ultrapassagem forçando a barra em cima da Mercedes de Lewis e o resultado foi um toque que furou o pneu da Red Bull ainda na primeira curva do longo circuito de Sakhir. Enquanto levava seu carro para os boxes, Verstappen viu o seu companheiro de equipe Ricciardo com o Red Bull parado à beira da pista com problemas elétricos. Verstappen se arrastou aos boxes, trocou de pneus, voltou à pista, mas os danos eram grandes demais para continuar. Eram passadas quatro voltas e a Red Bull já começava a empacotar suas coisas rumo à China, onde o time austríaco espera que seus pilotos sejam mais pacientes e que os projetistas encontrem uma forma para que a confiabilidade volte aos níveis normais, onde os dois carros da Red Bull possam chegar ao final das corridas nas posições do potencial correspondente.

domingo, 8 de abril de 2018

Festa contida

Sebastian Vettel teve que passar por alguns obstáculos para vencer hoje no Bahrein. Primeiro, o alemão precisou largar bem e administrar a vantagem sobre Bottas, que assumiu a segunda posição na largada. Depois o piloto da Ferrari teve que se desviar das táticas da Mercedes, que passando por cima do vacilo na Austrália, deu um show hoje no Oriente Médio e quase venceu quando a foi a Ferrari que dominou durante o final de semana. Por último, Vettel teve que passar por cima da flagrante tristeza ferrarista pelo triste acidente que vitimizou um mecânico durante a parada de Kimi Raikkonen, produzindo uma das imagens mais chocantes dos últimos tempos na F1.

A corrida foi feito numa espécie de tabuleiro gigante de xadrez onde Ferrari e Mercedes moviam suas peças para ser tudo decidido no final. A Ferrari tinha demonstrado mais velocidade em todo o final de semana, deixando a Mercedes na situação de sair da caixinha para tentar superar a rival. Para os alemães a prova até começou bem com a boa largada de Bottas e a rápida recuperação de Hamilton, logo aparecendo em quarto, incluindo uma bela ultrapassagem tripla, demonstrando também o poderio das gigantes da F1 frente ao resto do grid. O primeiro movimento foi da Ferrari, que trouxe Vettel aos boxes primeiro e colocou pneus macios, indicando que pararia duas vezes, principalmente por causa do asfalto áspero de Sakhir. Então a Mercedes deu sua cartada com um movimento pouco usual, ao colocar pneus médios no carro de Bottas. Mesmo com o asfalto extremamente aderente o finlandês pararia uma vez apenas? A corrida foi transcorrendo e o ritmo de Valtteri era bom, enquanto Hamilton postergava sua parada e sem nenhuma surpresa, colocou pneus médios. O inglês não iria para mais. 

Foi então que a Ferrari fez o terceiro movimento da corrida, logo após a parte triste da corrida. Raikkonen vinha bastante próximo de Bottas em terceiro e foi chamado pelos boxes para fazer sua segunda parada. A roda traseira esquerda não se desprendeu e alguém acendeu a luz verde para Kimi, que acelerou como sempre faz. Porém, um dos mecânicos estava bem na frente da roda traseira esquerda e foi atropelado por Raikkonen. A imagem da perna do mecânico virando para frente foi daquela de dar um frio na espinha de todos. Incrível também foi ver a reação de Raikkonen. O finlandês saiu do carro irritado, deu uma olhada na movimentação e saiu de cena, como se nada de grave tivesse acontecido com um membro da SUA equipe. Lamentável...

Talvez pelos mecânicos estarem abalados, talvez por ter percebido que se parasse perderia a corrida, a Ferrari resolveu deixar Vettel na pista, num movimento arriscado, pois o alemão chegaria ao fim da prova totalmente sem pneus. Mesmo com pneus médios, Bottas tinha um bom ritmo e quando a Mercedes percebeu que Vettel não pararia mais, o finlandês partiu para cima de Vettel fazendo as três últimas voltas da corrida serem de tirar o fôlego, mas Vettel segurou a ponta e comemorou muito, certamente sem saber do ocorrido durante o pit-stop de Raikkonen. Contra todos os prognósticos, Vettel lidera o campeonato com 100% de aproveitamento, enquanto a Mercedes terá que correr atrás do prejuízo, que só não é maior do que o da Red Bull. Os austríacos saíram dos treinos livres esperançosos de que tinham um bom ritmo de corrida, a ponto mesmo de atacar Mercedes e Ferrari, porém, tudo se acabou em duas voltas. Max Verstappen tem que aprender que largar no meio do pelotão lhe deixa mais exposto à incidentes e numa disputa com Hamilton (experiente, esperou a poeira baixar para começar a atacar) acabou furando o pneu traseiro, causando-lhe mais um abandono por excesso de vontade. Praticamente ao mesmo tempo, Daniel Ricciardo encostava seu carro com um problema elétrico e os mecânicos da Red Bull começaram a empacotar tudo para a corrida da China semana que vem.

Porém, nem tudo foi lamentação para a Red Bull. Pensando já em 2019, o motor Honda finalmente deu mostras que está mesmo evoluindo e Pierre Gasly teve uma corrida fabulosa para ser quarto colocado e o melhor do resto. O francês chegou a brigar com Ricciardo antes que o australiano abandonasse e segurou bem os ataques de Kevin Magnussen antes de se estabelecer na ponta do segundo pelotão para não mais perde-la. Gasly aproveitou os abandonos para subir de posição, enquanto não era atacado. O motor Honda não foi engolido como nos anos anteriores quando Gasly foi atacado pelo motor Ferrari de Magnussen e seus dois carros chegaram ao fim da corrida, demonstrando alguma confiabilidade, como demonstrado na pré-temporada. Foi o melhor resultado da Honda nessa era dos motores híbridos e uma esperança para a Red Bull para os próximos anos. Magnussen chegou a brigar com o seu apagado companheiro de equipe Grosjean para ser quinto, recuperando um pouco do fiasco em Melbourne. Todas as paradas da Haas foram filmadas de perto e nada aconteceu, mas a cena do carro de Grosjean se despedaçando não pegou muito bem. Hulkenberg fez uma corrida segura para ficar em sétimo e ser o melhor motor Renault na corrida, logo à frente de Alonso. E todos eles atrás da Honda...

A Force India voltou a marcar pontos, mas o time hindu dificilmente terá a capacidade de repetir as temporadas anteriores, enquanto Marcus Ericsson repetiu a mesma estratégia de Hamilton e colheu os frutos com pontos logo na segunda corrida na temporada. Esses pontos podem fazer diferença na luta pelo penúltimo lugar no Mundial de Construtores. Hoje, a única equipe zerada na F1 é a Williams. É triste ver a situação da equipe de sir Frank Williams. Dois pilotos ruins e um carro ruim, sem nenhum desenvolvimento em uma equipe sem direção, acabando a corrida de hoje nas duas últimas posições. Claire preferiu o viés da grana no lugar da competitividade e o resultado pode ser o fim de uma equipe que já foi gloriosa na F1.

Quinze dias atrás havia lamentações pela falta de emoção da prova na Austrália. Hoje, a corrida foi mais tática e isso contribuiu para um final de corrida de tirar o fôlego, apesar de ter faltado à Bottas aquele instinto assassino que sobra nos grandes campeões. Ferrari e Mercedes permanecem equilibradas, mas a festa italiana, com alguns mecânicos com lágrimas nos olhos, foi contida pelo triste incidente no pit de Raikkonen.

sábado, 7 de abril de 2018

O que queremos?

Após o fim de semana australiano, muita gente já definia o triunfo de Vettel como acidental (e não deixou de ser) e que 2018 seria um ano triste, com a Mercedes dominando e sem Nico Rosberg, nem teríamos uma disputa entre companheiros de equipe, com Hamilton monopolizando tudo. Quinze dias depois, num circuito mais apropriado, eis que a Ferrari ressurge como o carro mais rápido e fez a dobradinha hoje na classificação, com Vettel à frente. A Mercedes, com ou sem modo festa, ficou com a segunda fila, mas Hamilton largará apenas em nono, por causa da troca do câmbio. A única Red Bull do Q3 tinha Ricciardo menos de meio segundo atrás de Vettel. Foram quinze dias de prognósticos sombrios. Afinal, o que queremos na F1? 

A classificação em Sakhir mostrou logo no Q1 que a gloriosa Williams está mesmo ladeira abaixo e que nem todo o dinheiro do mundo compra o talento. Lance Stroll, campeão de tudo graças ao dinheiro do papai, ficou em último lugar hoje, levando tempo até mesmo do seu novato companheiro de equipe, o também pagante Sergey Sirotkin. Sem sombra de dúvidas, um bom trabalho do russo, mas ver a Williams ocupando as últimas duas filas do grid mostra bem o tamanho da encrenca em que entrou Claire Williams, que mesmo tendo o melhor motor da F1 atual preferiu o dinheiro fácil de pilotos de procedência duvidosa. Falando em motor, é muito fácil agora apontar o dedo para a cúpula da McLaren, mas ver a Toro Rosso-Honda na frente do duo da McLaren deve deixar muitas pulgas atrás as orelhas de Zak Brown, Eric Boullier e Fernando Alonso. Se o motor Honda ainda não é o melhor da F1, pelo menos evoluiu muito e Gasly fez um trabalho notável ao ir para o Q3 sem maiores problemas, enquanto Brendon Hartley ficou a milésimos de passar de fase. A Force India melhorou nesse final de semana e pelo menos Ocon foi ao Q3, enquanto a Haas continuava seu bom momento com Magnussen no Q3, enquanto Grosjean sofria com problemas e padecia no Q1. A Renault vai se prontificando como a quarta força da F1 com sua forte dupla de pilotos.

No pelotão da frente, destaque negativo para o acidente de Max Verstappen ainda no Q1, fazendo-o largar no pelotão intermediário numa pista onde a Red Bull se mostrou muito forte em ritmo de corrida. Promessa de show do holandês amanhã, mas também pontos perdidos para Max. Enquanto isso, Ricciardo fez o feijão com arroz para conseguir uma boa posição e se confirmar o potencial da Red Bull em corrida, o australiano ficará bem posicionado. E mais uma vez, na frente de Verstappen. Hamilton começou o final de semana sabendo que perderia cinco posições por uma troca de câmbio e o inglês imaginava largar em sexto, mas a Mercedes se manteve próxima da Ferrari, só que o ponto forte dos alemães (a classificação) não foi o suficiente para fazer os carros prateados superaram Vettel e Raikkonen. Como resultado, Hamilton largará amanhã apenas em nono, com Bottas tendo que enfrentar sozinho todo a força da Ferrari. Raikkonen liderou treinos livres e na classificação, mas no Q3 Vettel botou ordem na casa e ficou com a pole, indicando que a Ferrari voltou a carga.

Se a Mercedes dominou na Austrália, a Ferrari parece mais forte no Barein e a Red Bull está muito próxima dos italianos e também da Mercedes, que nunca podem ser descartados. Perder a pole irritou Toto Wolff, pois ele sabe que em ritmo de corrida, o equilíbrio de forças é mais apertado. Se a F1 continuar com alternância de forças e com as equipes principais bem próximas, é essa F1 que eu quero. 

sexta-feira, 6 de abril de 2018

História: 15 anos do Grande Prêmio do Brasil de 2003

Após duas corridas surpreendentes, a F1 esperava que tudo voltasse à normalidade em Interlagos no empolgante campeonato de 2003. A Renault havia negociado com a FIA que testaria bem menos durante a temporada, mas teria duas horas a mais de testes durante o final de semana de Grande Prêmio e a escolha do time de Flavio Briatore vinha se mostrando acertada, com a Renault obtendo informações importantes com o tempo a mais na pista. Apesar de São Paulo não fazer o mesmo calor de Sepang, a Michelin poderia ter uma vantagem em pista quente, enquanto a Williams poderia ter uma vantagem graças à potência do motor BMW. Porém a previsão era de chuva em todo o final de semana paulistano de quinze anos atrás e todas as apostas poderiam ir, literalmente, por água abaixo.

Na sexta-feira, uma chuva forte já tinha atrapalhado bastante a vida dos pilotos na primeira classificação, onde se definia a ordem de quem tentaria sua volta lançada no sábado. Era o prenúncio do que iria acontecer no domingo, porque no sábado o sol apareceu forte em Interlagos e Rubens Barrichello fez a festa da torcida ao ficar com a pole, com uma diferença ínfima para David Coulthard. Como estava virando praxe em 2003, onde as surpresas aconteciam praticamente a cada corrida e desta vez foi Mark Webber que conseguiu a terceira posição, ficando menos de um décimo do tempo da pole. Na verdade, o piloto da Jaguar foi o mais rápido em todas as parciais, mas Webber acabou 'sem' motor na subida dos boxes e perdeu o que seria uma surpreendente pole numa temporada cheia de surpresas. Num grid muito equilibrado, os quinze primeiros estavam separados por 1s, mas tudo indicava que a chuva voltaria na corrida. E com mais força ainda!

Grid:
1) Barrichello (Ferrari) - 1:13.807
2) Coulthard (McLaren) - 1:13.818
3) Webber (Jaguar) - 1:13.851
4) Raikkonen (McLaren) - 1:13.866
5) Trulli (Renault) - 1:13.953
6) R.Schumacher (Williams) - 1:14.124
7) M.Schumacher (Ferrari) - 1:14.130
8) Fisichella (Jordan) - 1:14.191
9) Montoya (Williams) - 1:14.223
10) Alonso (Renault) - 1:14.384

O dia 6 de abril de 2003 estava chuvoso em São Paulo, num clima típico da cidade, mas em determinados momentos, se duvidou sobre a corrida aconteceria no começo da tarde. Horas antes da largada, em alguns locais corriam verdadeiras cachoeiras sobre a pista e um setor preocupava os comissários de pista: a curva do sol. Como esperado, a torcida encheu Interlagos para ver Barrichello finalmente espantar o azar que ele tinha em sua pista caseira, num final de semana onde o piloto da Ferrari andou muito bem e, coisa rara, superava seu companheiro Michael Schumacher. Após uma pequena trégua, a chuva voltou com força minutos antes da largada e houve um atraso de dez minutos. Quando a largada foi dada, os pilotos sairiam atrás do safety-car, enquanto vários pilotos mudavam de estratégia e iam aos boxes encher o tanque. O instável clima de São Paulo sempre trazia surpresa e mesmo com todo aquele toró, poderia parar de chover de repente. 

O safety car ficou na pista até a 7ª volta e logo na largada propriamente dita Coulthard ultrapassou Barrichello na primeira curva. O brasileiro continuou perdendo posições nas voltas seguintes, ultrapassado por Raikkonen, Montoya, Webber e Michael Schumacher. Raikkonen fez uma grande manobra em cima do seu companheiro de equipe uma volta depois e assumiu a liderança, sendo acompanhado por Montoya logo depois. Com a chuva mais fraca, os pneus de chuva forte perdia rendimento e a primeira vítima foi Montoya, ultrapassado por Coulthard na volta 14 e duas voltas depois por Schumacher. Para sorte de Montoya, Ralph Firman sofreu um perigoso acidente na volta 17, quando sua suspensão quebrou sem aviso na reta dos boxes e o piloto da Jordan acabou acertando Panis, que vinha logo à frente dele. Safety-car na pista e todo nos boxes para colocar pneus intermediários. Na volta 24 a corrida reiniciou e Montoya rodou na curva do sol, sendo atingido por Antônio Pizzônia logo em seguida. A direção de prova decidiu não paralisar a prova e um trator entrou na pista para tirar os carros batidos, mas algumas voltas mais tarde Schumacher rodou e bateu poucos metros do trator. Uma cena pitoresca, mas que anos mais tarde acabaria sendo uma tragédia na F1. Safety-car de volta e todos passaram a se preocupar com a situação do asfalto na curva do sol. Mesmo com a pista um pouco mais seca, no local a drenagem era claramente falha e podia-se ver claramente um rio passando no local. 

Quando a corrida reiniciou, Coulthard liderava a corrida seguido por Barrichello e Ralf Schumacher, enquanto Michael voltava aos boxes cabisbaixo com o seu capacete nas mãos. Era o pior início de temporada do alemão em muitos anos! Na pista, seu irmão mais novo chegou a ultrapassar Barrichello, mas o brasileiro deu o troco logo em seguida e passou a perseguir Coulthard, numa briga de tirar o fôlego pela liderança. Os dois se viravam na molhada curva do sol, mas a fatídica curva faria outra vítima quando Button rodou e bateu no local. Um total de seis carros jaziam no local e o safety-car liderava a corrida pela quarta vez. Após perder posições no início da prova, a chuva mais fraca parecia favorecer o acerto de Barrichello e tentando reverter sua sorte na frente de sua torcida, o piloto da Ferrari imediatamente retornou ao ataque em cima de Coulthard. O clima era elétrico em Interlagos, com Rubens atacando David em todos os pontos possíveis e na volta 43 o brasileiro efetuou a ultrapassagem que muitos imaginavam ser da sonhada vitória de Rubens em casa. Próximo de sua parada, Barrichello era o piloto mais rápido da pista, mas na volta 48 sua Ferrari apareceu lenta na pista na entrada do Laranjinha. O autódromo ficou em estado de petrificação. Barrichello saiu do carro sem acreditar, assim como todos ficaram sem acreditar quando a Ferrari anunciou que o problema havia sido pane seca. Como os italianos, tão infalíveis com Schumacher, poderiam errar desse jeito com Rubens?

A corrida continuava com a McLaren fazendo uma dobradinha, mesmo com seus dois pilotos em estratégias distintas. Raikkonen tinha parado na segunda entrada do safety-car, enquanto Coulthard tinha parado na intervenção anterior. O escocês fez seu pit-stop na volta 49, junto com o quarto colocado Ralf Schumacher. Raikkonen assumia a liderança da corrida, mas estava claramente sem pneus e por isso era atacado pela Jordan de Fisichella, que fazia uma corrida acima do que seu carro poderia fazer. Na volta 53 o italiano ultrapassou Raikkonen e era o líder da prova, quando recomeçou o caos. Webber havia sobrevivido a uma rodada na curva do sol, mas na perigosa curva do café o australiano bateu muito forte, deixando muitos detritos na pista. O terceiro colocado Alonso vinha logo depois e sem tirar muito o pé, atingiu um pneu do carro de Webber e bateu mais forte ainda, bloqueando a pista. Bandeira vermelha e festa na equipe Jordan. Ou não? Fisichella chegou aos boxes radiante, enquanto seu carro pegava fogo no parque fechado. Porém, Eddie Jordan parecia preocupado. O acidente havia acontecido na volta 55 e o resultado final da prova, já que 75% da corrida já tinha sido percorrida, seria decidido na volta 53. E o líder na volta 53 era... Raikkonen. Mesmo subindo ao pódio de forma casual, Fisichella estava claramente irritado por perder a corrida por tão pouco. Numa cena surreal, apenas os dois primeiros subiram ao pódio, já que o terceiro colocado Alonso tinha sido levado ao hospital por causa de seu acidente. Porém, a corrida não havia terminado ainda. Dias mais tarde, descobriu-se imagens mostrando Fisichella iniciando a volta 56 na frente e antes da bandeira vermelha ser mostrada, significando que os resultados que valeriam seriam o da volta 54 e quem liderava era... Fisichella! Numa confusão histórica, a corrida teve seu vencedor alterado e quinze dias depois, em Ímola, o italiano receberia seu troféu de vencedor numa das corridas mais caóticas da história da F1.

Chegada:
1) Fisichella
2) Raikkonen
3) Alonso
4) Coulthard
5) Frentzen
6) Villeneuve
7) R.Schumacher
8) Trulli