segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Figura(JAP): Mercedes

Quando a Mercedes comprou a vitoriosa Brawn no ano de 2010 e apostou na volta de Michael Schumacher, a montadora esperava rapidamente estar brigando por vitórias e títulos, mas a realidade foi bem diferente. Mesmo comandada por Ross Brawn, a equipe Mercedes ainda carecia de uma maior estrutura e Michael Schumacher sentiu os anos fora da F1, mas principalmente sentiu falta dos testes que tanto lhe ajudaram nos tempos de Ferrari. Apesar de não ter tido sucesso como dirigente nos tempos da Jaguar, Niki Lauda foi contratado e uma de suas primeiras ações foi contratar Toto Wolff, jovem dirigente que investia na Williams e graças a essa parceria, viu o tradicional time conquistar sua última vitória na F1. Mesmo perdendo Brawn e Norbert Haug, Lauda continuava prospectando pessoas para montar um super time na Mercedes. Trouxe Aldo Costa, após o italiano sair da Ferrari pelas portas dos fundos e depois contratou Geoff Willis. A parte técnica e administrativa parecia promissora, mas Lauda sabia que as corridas são decididas na pista. O austríaco investiu em Lewis Hamilton, um piloto extremamente talentoso, mas não muito à vontade na sisuda McLaren. Ainda assim a McLaren era muito forte em 2012 e Hamilton sair da equipe que lhe deu a chance de estrear na F1 não parecia um passo lógico, mas Lauda convenceu Hamilton a sair de sua zona de conforto e o inglês entrou no projeto Mercedes. Em anos dominados pela Red Bull, a Mercedes esperou uma grande mudança no regulamento para mostrar todo o seu potencial. Já tomando as rédeas da equipe, Wolff colocou as pessoas certas nos lugares certos e em 2014 com o início da era híbrida, iniciou-se uma das grandes dominações da história da F1. Se no início a Mercedes nadava de braçada frente aos rivais, Wolff teve que segurar Hamilton e Nico Rosberg, que de grandes amigos se tornaram ferrenhos rivais. Mesmo com seus pilotos brigando entre si, a Mercedes não perdeu um único título e quando Nico se aposentou repentinamente no final de 2016, Wolff viu o crescimento da Ferrari e Sebastian Vettel. Apesar de não ter a tradição gigantesca da Ferrari, a Mercedes tinha a experiência de títulos dos últimos anos e a equipe parecia crescer ainda mais nas mãos de Wolff e Lauda. Hamilton derrotou Vettel por erros da Ferrari, que iam sendo capitalizadas pela Mercedes. Esse ano a Mercedes sofreu o abalo da morte de Lauda, mas o ritmo da equipe não diminuiu. Um início de campeonato acachapante fez a Mercedes ter alguns luxos, como diminuir o ritmo das atualizações e ver o crescimento da Ferrari na segunda metade do campeonato, mas nada que diminuísse o número de triunfos dos alemães. Em Suzuka, mesmo com a Ferrari dominando a primeira fila, a Mercedes soube usar seu ritmo de corrida superior para conseguir a vitória com Valtteri Bottas, um piloto regular e que garante importantes pontos no Mundial de Construtores, garantido de forma antecipada em Suzuka. Foi o sexto título consecutivo, igualando o recorde da Ferrari no começo do milênio. Quem foi melhor? A Ferrari de Schumacher, Todt, Brawn e Byrne ou a Mercedes de Lauda, Wolff e Hamilton? Talvez o domínio da Ferrari tenha sido mais enfático, mas a Mercedes tem hoje uma equipe mais forte, onde todos os gaps são preenchidos numa equipe afinada com talentos dentro e fora da pista. Quando Lauda começou a formar a Mercedes que conhecemos hoje no começo dessa década, talvez o austero austríaco não imaginava que estava construindo um super time que já entrou para a história da F1. Pena que Niki não viu o que seu trabalho se transformou. 

Figurão(JAP): Charles Leclerc

O jovem piloto da Ferrari já ocupou algumas vezes a parte de cima dessa coluna, mas hoje Leclerc entrou na parte de baixo pelo o que o monegasco fez nas duas primeiras voltas da corrida em Suzuka. Após a péssima largada no Grande Prêmio do Japão, Leclerc caiu de segundo para terceiro lugar, mas Max Verstappen mergulhou por fora para lhe tomar a posição antes da curva dois. Por dentro, Leclerc aparentemente não viu o holandês e após sair de frente, acertou bem no meio da Red Bull de Verstappen, que saiu da pista com grandes avarias na lateral do carro. Com a asa dianteira avariada, Leclerc ficou na pista duas voltas de forma perigosa, pois a peça solta iria cair a qualquer momento, como realmente se soltou, quase atingindo em cheio o carro de Hamilton e espalhando peças por toda a pista. Uma das vítimas acabou sendo Lando Norris, já que parte da asa dianteira de Leclerc entrou nos dutos de resfriamento dos freios dianteiros da McLaren e, entupido, os freios de Norris superaqueceram. Em poucas curvas Leclerc destruiu as corridas de Verstappen, que abandonou poucas voltas depois com graves danos em seu carro, e Norris, que teve que antecipar sua parada para limpar os dutos de freios da McLaren. Os quinze segundos de punição talvez tenha sido pouco demais pelo estrago que Charles Leclerc fez no início do Grande Prêmio do Japão.

domingo, 13 de outubro de 2019

Como um tufão

O tufão Hagibis mexeu com todo o final de semana do Grande Prêmio do Japão, com a classificação ocorrendo domingo de manhã, horário nipônico, e a corrida menos de três horas depois. Se a Ferrari vai confirmando seu ótimo desempenho em uma volta rápida, a Mercedes ainda se mantém com o melhor ritmo de corrida e os tedescos venceram novamente nesse domingo, desta vez com Valtteri Bottas, ajudado por uma estratégia no mínimo peculiar da Mercedes, que tirou de Hamilton não apenas a chance de vencer, mas ainda ficou atrás de Vettel. O inglês demonstrou sua irritação durante e depois da corrida, mas o hexacampeonato da Mercedes garantido em Suzuka deixou tudo isso para trás. Desde 2014 dominando a F1, esse período glorioso dos alemães já entrou para a história da F1 de como a Mercedes passou como um tufão sobre Ferrari e Red Bull.

Suzuka pode ser uma pista espetacular e sendo a preferida de vários pilotos, mas o tradicional circuito japonês muitas vezes não trás junto a emoção de uma boa corrida para os fãs da F1. Pista de curvas de alta e com poucas retas entre elas, ultrapassar em Suzuka é uma tarefa difícil em tempos de carros muito dependentes da aerodinâmica e assim foi mais uma vez. A classificação ocorrida ainda na noite de sábado no Brasil viu a Ferrari dominar a primeira fila de forma até mesmo surpreendente, já que a Mercedes chegou a enfiar 1s nas rivais nos treinos livres. Vettel desta vez superou Leclerc com direito a recorde da pista japonesa, mas a corrida seria decidida na largada e mais uma vez a Ferrari entregou a rapadura. Primeiro Vettel vacilou na largada e só não foi punido por queima por os comissários estarem bonzinhos demais e, afinal, punir a Ferrari repetidamente não faz muito bem ao delicado equilíbrio político da F1. Mesmo assim o alemão foi ultrapassado facilmente por Bottas, que saiu de terceiro para primeiro ainda antes da freada da primeira curva. Um pouco mais atrás Leclerc também não saiu bem e era atacado por Max Verstappen, numa estupenda largada do piloto da Red Bull. O monegasco alargou sua curva de forma inexplicável e bateu no holandês, que rodou e caiu para último com o carro danificado. Hamilton teve o azar de ficar atrás de Leclerc, que teve a asa dianteira danificada e por duas voltas o piloto da Ferrari correu assim, chegando a destruir o retrovisor direito de Hamilton, com a asa da Ferrari se despedaçando. O toque em Verstappen somado as duas voltas com a asa quebrada fez Leclerc ser punido duplamente depois da corrida. Enquanto isso Bottas disparava na frente, seguido por Vettel e Hamilton. A partir desse momento, a corrida se tornou um tabuleiro de estratégias. Vettel foi o primeiro a parar e como colocou pneus macios, dava a deixa que pararia mais uma vez. Bottas parou logo em seguida e mesmo colocando pneus médios, a Mercedes já entregava que o finlandês pararia outra vez. E Hamilton não.

O inglês ficou na pista mais algumas voltas antes de fazer sua parada e com pneus médios, teria que fazer um longo stint até a bandeirada. Ou não? Quando Bottas e Vettel fizeram suas paradas como o esperado, o nórdico não aumentou seu ritmo, pois foi avisado que Hamilton pararia mais uma vez, para surpresa do próprio Bottas. Com 10s de vantagem e pneus aparentemente em ordem, era claro que Hamilton não necessitava de uma segunda parada com poucas voltas para o fim, mas a Mercedes o chamou mesmo assim. Para desespero de Lewis, ele retornou atrás de Vettel e mesmo quebrando o recorde oficial de Suzuka que durava desde 2005, Hamilton não foi capaz de ultrapassar Vettel na complicada pista de Suzuka. Bottas não se importou muito e numa corrida em que tomou as rédeas desde a largada, voltou a vencer depois de seis meses, praticamente garantindo o vice-campeonato desse ano. Mesmo a Mercedes em festa pelo esperado título, Hamilton não parecia muito feliz, mas a sua segunda parada hoje foi mais política do que tática. Em tempos de mudanças constantes de técnicos de futebol no Brasil, ouvi uma frase muito interessante que teria sido dita por Carlo Ancelotti, famoso técnico italiano: Mais do que saber de tática, um técnico hoje é um gestor de pessoas. Pois Toto Wolff é, muito provavelmente, um dos grandes gestores do domínio da Mercedes nos últimos anos. O austríaco foi trazido da Williams em 2012 para substituir Norbert Haug na Mercedes e ao lado do falecido Niki Lauda, trouxe as pessoas certas para transformar a equipe na potência atual. Ao convencer Lewis Hamilton trocar a zona de conforto que tinha na McLaren para o desafio de fazer a Mercedes superar as então dominantes Ferrari e Red Bull, Wolff garantia a reserva de talento. Olhando para o carro, trouxe pessoas do quilate de Aldo Costa e James Alisson, mesmo preterindo Ross Brawn. Estava garantida a reserva técnica. Quando viu a guerra civil que se tornou a Mercedes na luta aberta entre Hamilton e Nico Rosberg, Wolff percebeu que ter dois galos no mesmo galinheiro poderia trazer graves problemas dentro da equipe.

Quando Nico se aposentou de forma abrupta no final de 2016, Wolff aproveitou para deixar Hamilton ainda mais confortável dentro da equipe. Sendo agente de vários pilotos, o austríaco trouxe para o time Valtteri Bottas, um piloto capaz de vencer corridas, mas não encher o saco de Hamilton, que mesmo cada vez mais maduro, demonstra funcionar melhor quando tem a equipe em torno de si. E Bottas vai ajudando a Mercedes a conseguir outro título importante, mesmo que para o público em geral tenha menor importância: o Mundial de Construtores. Com o hexacampeonato garantido hoje, a Mercedes iguala a Ferrari nos primeiros anos do milênio. Fica a pergunta: quem é melhor? A Ferrari de Schumacher, Todt, Brawn e Byrne ou a Mercedes de Hamilton, Wolff e Lauda? Apesar do domínio da Ferrari ter sido mais enfático, a Mercedes hoje tem uma base mais forte e parece cobrir todos os gaps que podem aparecer dentro e fora das pistas. Vendo o que acontece dentro da Ferrari na batalha entre a estrela consolidada Vettel e o novo leão Leclerc, Wolff não hesitou em contrariar a lógica em manter Bottas ao lado de Hamilton em 2020, mesmo que isso signifique perder o talentoso Esteban Ocon para a Renault. A Ferrari está mais forte após as férias de verão? A Mercedes não deixou de derrotar os italianos capitalizando todos os erros da Ferrari e/ou seus pilotos, sem contar que os alemães já estão concentrados no carro de 2020 e até mesmo no modelo de 2021, que terá mais mudanças por causa do novo regulamento. Para manter a harmonia da equipe, Wolff preferiu perder a dobradinha hoje, mas dar a vitória para Bottas. Hamilton vai reclamar? Vai e com razão, mas o inglês já está com o hexa no papo e uma hora dessa estará comemorando bastante com muito Chandon o incrível sexto título da Mercedes.

Vettel teve um final de semana muito produtivo ao conseguir uma excelente pole e saber segurar um Hamilton muito mais rápido do que ele nas voltas finais em Suzuka. Noves fora o erro na largada, o alemão sai de Suzuka fortalecido em outro final de semana forte. Correndo em casa a Honda esperava bem mais de sua equipe principal, mas o toque de Leclerc em Verstappen destruiu qualquer maior pretensão dos japoneses, mas a Red Bull não saiu do Japão de mãos abanando. Albon vem demonstrando ter sido uma escolha acertada, mesmo que desesperada, de Marko. Na classificação o tailandês marcou exatamente o mesmo tempo de Verstappen e na corrida fez outra boa prova, superando a dupla da McLaren de formas diferentes. Norris na pista, numa ultrapassagem agressiva na chicane Causio. E Sainz numa estratégia bem arquitetada pelo time e Albon consegue seu melhor resultado na F1 com o quarto lugar. Sainz foi outro que se destacou e ficou como o melhor do resto, chegando relativamente próximo de Albon e segurando Leclerc, que acabaria punido e perderia a sexta posição para Daniel Ricciardo, que efetuou uma grande corrida de recuperação após ter ficado no Q1 de domingo pela manhã. Conhecidos pela organização e precisão, hoje os japoneses cometeram um erro daqueles na bandeirada. Num erro ainda investigado pela FIA, a bandeirada foi dada uma volta antes do previsto numa falha do sistema. Para quem não sabe, a bandeirada mostrada é apenas simbólica, o que vale é a bandeirada eletrônica, que apareceu uma passagem antes, tanto que ninguém percebeu a presepada imediatamente, mas houve mudanças no meio do pelotão. Na entrada do que seria a última volta, Pérez saiu da pista enquanto brigava com Gasly pela oitava posição. O mexicano ficou espetado no muro de pneus, mas como a corrida tinha 'acabado' antes do incidente, Pérez acabou com os pontos do nono lugar, com Hulkenberg logo atrás. Quem acabou prejudicado com o erro foi justamente o companheiro de equipe de Pérez, Lance Stroll. Desde que saiu da Red Bull Gasly voltou a andar bem, mostrando que realmente existe a história do piloto de equipe grande e pequena. Enquanto isso Kvyat vai ficando na F1 unicamente por falta de opção da Red Bull em quem colocar no lugar do russo. Haas e Alfa Romeo fizeram corridas medíocres, enquanto a Williams fez um ótimo trabalho ao consertar o carro semi-destruído de Kubica após o polonês sair da pista e bater na classificação.

Num pódio camuflado, Bottas comemorou sua quinta vitória na F1, enquanto mais embaixo a Mercedes comemorava seu sexto título. Assim como ocorreu quando Schumacher venceu o campeonato de 2004 com uma Ferrari que parecia imbatível, a pergunta que fica agora é: quem pode segurar a Mercedes? A Ferrari demonstra força nessa metade final. A Honda investirá muito para voltar a vencer títulos na F1 com a Red Bull, enquanto a Renault, agora concentrada unicamente na sua própria equipe, ainda tentará dar o próximo passo rumo ao pelotão da frente. Enquanto isso, Toto Wolff vai gerindo toda a engrenagem de uma equipe que já entrou para a história, não sem antes dedicar esse título ao inesquecível Niki Lauda.

sábado, 12 de outubro de 2019

Que pena...

Na tarde desse sábado foi anunciado a morte do italiano Nanni Galli, piloto de F1 e Endurance no início dos anos 1970. Nascido em Bologna em 2 de outubro de 1940, Galli começou sua carreira nos karts e quando se mudou para os carros, se tornou um piloto muito forte nas corridas de Endurance, chegando em segundo lugar na Targa Florio em 1968 e finalizando em quarto nas 24 Horas de Le Mans do mesmo ano, com uma Alfa Romeo. Correndo paralelamente na F2 pelo Tecno, Galli fez sua estreia na F1 em 1970 na equipe McLaren, em Monza. Em 1971 o italiano assinou com a March, fazendo a temporada completa, mas sem grande destaque. Após correr pela Tecno na F2, Galli faria algumas corridas pela equipe italiana em 1972, ano em que fez uma prova pela Ferrari. Em 1973 Galli fez algumas corridas pela equipe de Frank Williams, onde conseguiu seu melhor resultado na F1, um nono lugar no Grande Prêmio do Brasil. Após abandonar as pistas, Galli se dedicou aos negócios de sua família na região de Prato, se tornando um grande empresário. Ele nos deixou hoje aos 79 anos de idade.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

História: 40 anos do Grande Prêmio EUA-Leste de 1979

Após uma temporada muito competitiva, em que o dono do melhor carro mudou de equipe algumas vezes durante o ano, 1979 terminava com praticamente tudo definido em Watkins Glen, com a Ferrari sorrindo com uma temporada perfeita, com os dois títulos em jogo conquistados e Gilles Villeneuve já definido como vice-campeão, atrás do campeão Jody Scheckter. Com apenas uma semana separando a corrida canadense e a prova em Glen, havia uma clima mais leve entre equipes e pilotos, mas também de algumas definições. Na McLaren Teddy Mayer decidiu substituir Patrick Tambay por Alain Prost, campeão europeu de F3, em 1980, mas Tambay ainda faria uma última corrida pela equipe inglesa. Mesmo sofrendo com dificuldades financeiras e vindo de uma temporada horrorosa, a Copersucar dos irmãos Fittipaldi negociava a compra da Wolf, equipe que começou muito bem sua trajetória na F1, mas em 1979 teve de longe seu pior ano e Walter Wolf colocava sua equipe à venda. Como toda corrida derradeira da temporada, havia também despedidas e a mais sentida era de Jacky Ickx. Reconhecidamente talentoso, o genioso belga não cumpriu o que dele esperava e ele anunciou que estava abandonando definitivamente a F1 para se dedicar as provas de Endurance.

O final de semana na região de Nova Iorque foi marcada pela chuva quarenta anos atrás. Uma das histórias mais conhecidas de Gilles Villeneuve ocorreu na sexta-feira, quando a pista estava completamente alagada e ele colocou vários segundos sobre Scheckter e os demais, deixando todos no autódromo boquiabertos. No sábado a classificação ocorreu com pista seca e Alan Jones conquistou sua terceira pole seguida, colocando mais de um segundo em cima da Brabham-Ford de Nelson Piquet, demonstrando o potencial do novo conjunto que apareceu com força no Canadá. Villeneuve lutou com problemas de equilíbrio da Ferrari e ficou em terceiro à frente de Laffite, muito rápido em Glen, mas sobrecarregado com problemas mecânicos. A terceira fila era ocupada pela Williams de Regazzoni e a Lotus de Reutemann, num bom desempenho do argentino num ano difícil da Lotus. Como em Montreal, a Renault estava na quarta fila, com Arnoux na frente de Jabouille. Em sua segunda aparição na F1, Zunino conseguiu um bom nono lugar, à frente das Tyrrell de Pironi e Jarier. Muito gripado Tambay era apenas 22º e em sua última corrida de F1, Ickx largaria em último com sua Ligier, tendo ao seu lado o contemporâneo Emerson Fittipaldi.

Grid:
1) Jones (Williams) - 1:35.615
2) Piquet (Brabham) - 1:36.914
3) Villeneuve (Ferrari) - 1:36.948
4) Laffite (Ligier) - 1:37.066
5) Regazzoni (Williams) - 1:37.128
6) Reutemann (Lotus) - 1:37.872
7) Arnoux (Renault) - 1:38.195
8) Jabouille (Renault) - 1:38.218
9) Zunino (Brabham) - 1:38.509
10) Pironi (Tyrrell) - 1:38.823

O dia 7 de outubro de 1979 amanheceu chuvoso em Watkins Glen, aumentando a expectativa de pilotos e equipes para a corrida que aconteceria no período da tarde. A chuva não era tão intensa como na sexta-feira e como fazer pit-stops não era a coisa mais rápida do mundo quarenta anos atrás, alguns pilotos arriscaram táticas diferentes. Andretti e Piquet escolheram pneus slicks, enquanto Arnoux optou pelos intermediários. No momento da largada, a pista estava claramente molhada, mas não chovia no momento da luz verde. Jones larga bem, ao contrário de Piquet, sem aderência com os seus pneus slicks. Porém Jones foi surpreendido por Villeneuve, que largou na segunda fila e na primeira freada habilmente tomou a ponta de Jones, enquanto colocava duas rodas na grama. Mas Jones estava logo atrás dele, seguido por Laffite, Reutemann e Regazzoni. Scheckter saiu da pista na primeira curva e caiu para último.

Com a pista bem molhada, a visibilidade não era boa, mas Reutemann ainda conseguiu ultrapassar Laffite para assumir o terceiro lugar. Rapidamente Villeneuve e Jones abrem sobre os demais, mas o canadense tinha uma boa vantagem de 5s sobre o piloto da Williams. Ainda na terceira volta a gloriosa carreira de Ickx termina quando ele bate na última curva do circuito e sai rapidamente do seu Ligier. Numa espetacular corrida de recuperação, Scheckter ultrapassava quem via pela frente e na quarta volta ele já era sétimo, se aproveitando da rodada de Laffite, que fez a Ligier arrumar as malas de volta para casa ainda no início da prova. Na sétima volta um incidente bizarro acabou com a corrida de Reutemann, quando o extintor do seu carro disparou inesperadamente, desconcentrando o argentino, que saiu da pista e bateu. À essa altura Scheckter já alcançava as duas Renaults e após ultrapassar Arnoux e Jabouille, era o quarto colocado, 6s atrás do terceiro colocado Regazzoni, mas o sul-africano tira toda a diferença e na 13º volta já subia para um incrível terceiro lugar! Como a chuva tinha parado desde a largada, a pista começou a secar. Na volta 20 Regazzoni e Scheckter foram aos boxes colocar pneus slicks, enquanto Pironi e Rosberg se tocavam e o finlandês teve que abandonar.

A tática de Scheckter e Regazzoni não dá certo no início e Jody toma uma volta de Villeneuve, que estava disparado na ponta. Na volta 25 o terceiro colocado Jabouille abandona com problemas no distribuidor de seu Renault. Gilles perde tempo ultrapassando retardatários e Jones fica a ameaçadores 2s do canadense. Regazzoni batia no retardatário Piquet e abandonou na metade da prova. Na volta 32 Jones emparelha com Villeneuve na entrada dos Esses, com o canadense deixando apenas o espaço da Williams. Era tudo o que Jones precisava e numa belíssima manobra por fora, o australiano assumia a ponta da corrida. Duas voltas depois Villeneuve foi aos boxes colocar pneus slicks. Na volta 37 é a vez de Jones fazer o seu pit-stop, mas a troca da Williams foi uma verdadeira calamidade, com os mecânicos tendo dificuldades de trocar o pneu traseiro direito. Quando Villeneuve apontou na reta dos boxes, o mecânico chefe sinalizou para Jones voltar a pista, mas não demorou um quilometro antes de Jones sentir que a roda defeituosa não estava corretamente apertada e o australiano encostou seu Williams na grama. Com isso Villeneuve liderava com mais de um minuto de vantagem sobre Scheckter, enquanto Arnoux, que acabara de colocar pneus slicks, atacava a dupla da Tyrrell, que permanecia na pista seca com pneus de chuva.

Faltando dez voltas para o fim, o pneu traseiro esquerdo de Scheckter explodiu e o sul-africano encostou sua Ferrari na grama. Era o primeiro abandono de Scheckter desde a primeira etapa na Argentina, demonstrando o tamanho da regularidade de Jody em 1979. Gilles Villeneuve obteve sua terceira vitória em 1979 e a quarta de sua carreira na F1. Arnoux terminou em segundo depois de ter feito uma corrida soberba. Em sua última corrida pela Tyrrell, Pironi subiu ao pódio com o terceiro lugar. O jovem Elio de Angelis concluiu sua temporada de estreia na F1 com um excepcional quarto lugar com sua modesta Shadow. Negociando com a Lotus, essa exibição na chuva do italiano praticamente convenceu Colin Chapman a contrata-lo. Stuck terminou em quinto sem trocar de pneu e salvou a temporada da ATS com esses dois pontos. Watson termina em sexto e marcou o último ponto daquela corrida. Nelson Piquet marcou sua primeira volta mais rápida na F1 já no finalzinho da corrida, mas o brasileiro sofreria uma quebra no semi-eixo e não completaria a prova. Emerson Fittipaldi finalizou a corrida em sétimo e último lugar, com cinco voltas de desvantagem com o seu carro completamente sem freios. Mesmo Jody Scheckter tendo merecido o título em 1979, outros pilotos mereciam destaque. Alan Jones era o piloto com o maior número de vitórias na temporada e mostrava todo o potencial da Williams para 1980. Mesmo com o vice-campeonato, essa vitória em Watkins Glen apenas confirmava o que muitos diziam na época: Gilles Villeneuve tinha sido o melhor piloto de 1979. O canadense animava cada uma das corridas e seu duelo com René Arnoux em Dijon, sua tentativa de voltar aos boxes com três rodas em Zandvoort, além de sua exibição em Long Beach deixaram os fãs da F1 apaixonados pelo canadense. Scheckter poderia ser o campeão, mas Gilles Villeneuve era o piloto mais querido da F1 e também considerado o melhor.

Chegada:
1) Villeneuve
2) Arnoux
3) Pironi
4) De Angelis
5) Stuck
6) Watson

domingo, 6 de outubro de 2019

Qual seu tamanho na história?

O sexto título da MotoGP de Marc Márquez era apenas uma questão de formalidade e aconteceu nessa madrugada na insossa pista de Chang, na escaldante Tailândia. Foi da forma como o espanhol mais gosta, numa vitória com direito a ultrapassagem na última volta sobre Fabio Quartararo. Contando todas as categorias, são oito títulos na conta do jovem de apenas 26 anos de idade, com incríveis quatro corridas de antecedência numa categoria top e reconhecidamente competitiva como a MotoGP. Que Marc Márquez já está na história do motociclismo, não há nenhuma contestação. Mas qual o tamanho do espanhol de Cervera no esporte a motor?

As comparações possíveis de Márquez são com verdadeiras lendas do esporte de duas rodas. Giacomo Agostini venceu quinze títulos em tempos bem mais perigosos, mas também menos competitivos. O interminável Valentino Rossi tem apenas um título a mais do que Márquez e na corrida de hoje demonstrou que somente um milagre fará o italiano conquistar 'la décima'. O auge do italiano foi parecido com o de Márquez, com direito a troca de montadoras (Honda para a Yamaha) no meio do caminho. Rossi se manteve competitivo por quatorze anos, quase conquistando o título no polêmico ano de 2015, perdido por Lorenzo. Quando conquistou seu sexto título da MotoGP em 2008, Rossi tinha 29 anos de idade e vários pilotos com enorme potencial para destrona-lo, o que acabou acontecendo nos anos seguintes com Lorenzo e Stoner. Já Márquez é três anos mais jovem e não há muitos pilotos capazes de derrota-lo em curto prazo.

O surpreendente Quartararo se mostra muito talentoso e que melhora corrida após corrida, mas na prova de hoje Márquez deu uma nova lição no jovem francês com uma ultrapassagem antológica por fora. Viñales, trazido pela Yamaha para ser o anti-Márquez, até agora mostrou muita velocidade, mas com pouca cabeça para derrotar alguém do tamanho de Márquez. Doviziozo, a ponto de ser vice-campeão pela terceira vez seguida, sofre com as limitações da Ducati e também suas. Andrea é um piloto cerebral e que já derrotou Márquez várias vezes em disputas mano a mano, mas Doviziozo não tem aquele instinto assassino que Marc mostrou ter ao longo dos anos. Sem contar que o italiano já conta com 33 anos nas costas e uma hora isso vai pesar. A idade que já pesa para Rossi, que sequer acompanha as demais Yamahas do pelotão. Jorge Lorenzo só é contado aqui por seus títulos e sua velocidade comprovada, mas tomar 40s novamente do companheiro de equipe demonstra que os tempos do espanhol na MotoGP já passaram. Apesar de jovens como o citado Quartararo, Alex Rins, Joan Mir e Jack Miller demonstrarem algum potencial, ninguém parece ser capaz de segurar Márquez, que ainda conta a potência de uma Repsol Honda por trás, que projeta suas motos ao estilo inigualável de Marc e que os demais pilotos da Honda não conseguem imitar.

Os números de Marc Márquez tendem a ficarem ainda mais impressionantes. Mesmo ainda sofrendo muitos acidentes, Márquez se mostra uma rocha difícil de ser quebrada tanto física, como mentalmente. Seu estilo de pilotagem também já entrou para os livros de história. O espanhol está fazendo uma temporada 2019 impecável e tirou toda a emoção pela luta do título da MotoGP, mesmo a categoria vivendo um ótimo momento. Porém, Carmelo Ezpeleta sabe que não pode pedir para Márquez maneirar para que seu campeonato seja competitivo até o fim. A lenda viva Marc Márquez simplesmente não deixa!

terça-feira, 1 de outubro de 2019

História: 30 anos do Grande Prêmio da Espanha de 1989

Menos de uma semana após toda a controvérsia ocorrida em Estoril, a F1 chegou à Andaluzia falando basicamente sobre duas: a batida entre Senna e Mansell, além da batalha pelo título de 1989. Uma reunião de emergência foi convocada pela FISA e foi decidido suspender Mansell por uma corrida. O inglês foi à Espanha para dar uma tensa entrevista coletiva, ameaçando abandonar a F1 por tudo o que ocorria. A sórdida batida entre Senna e Mansell prejudicou sobremaneira o brasileiro, que tinha poucas chances de revalidar seu título. Senna precisava vencer as três corridas restantes. Bastava uma derrota e Prost já seria campeão. Porém, de saída da McLaren, Prost ficou extremamente irritado quando soube que haveria apenas um carro reserva na McLaren e este era de Senna. 'O clima aqui é insuportável!', resmungou Prost. Todos esses acontecimentos praticamente deixou todas as novidades num segundo escalão. John Barnard foi anunciado pela Benetton a partir de 1990 e a Williams correria em Jerez com o modelo FW12C com Patrese, enquanto o novo FW13 ficaria com Boutsen.

As sessões de treinos são realizadas com clima seco, mas os pilotos foram prejudicados por fortes rajadas de vento. Terceiro colocado no Estoril, Stefan Johansson precisou fazer as malas depois da pré-qualificação, com problemas no motor Cosworth do seu Onyx. Senna consegue facilmente a 40ª pole position de sua carreira, um segundo à frente do terceiro colocado Prost. O paulista, no entanto, foi multado em US$20.000,00 por não parar na bandeira vermelha causada por Foitek durante os treinos. Berger estava particularmente animado graças ao excelente equilíbrio de sua Ferrari e ficou em segundo. Como em Portugal, Martini (quarto) surpreendia com seu Minardi graças aos pneus ultra macios fornecidos pela Pirelli. Alliot cria uma ótima sensação com o quinto tempo mais rápido, o melhor desempenho da Lola-Lamborghini. Enquanto Patrese colocava o velho FW12C em sexto, Boutsen sofria com o FW13 e era apenas 21º no grid. 

Grid:
1) Senna (McLaren) - 1:20.291
2) Berger (Ferrari) - 1:20.565
3) Prost (McLaren) - 1:21.368
4) Martini (Minardi) - 1:21.479
5) Alliot (Lola) - 1:21.708
6) Patrese (Williams) - 1:21.777
7) Piquet (Lotus) - 1:21.922
8) Brundle (Brabham) - 1:22.133
9) Alesi (Tyrrell) - 1:22.363
10) Pirro (Benetton) - 1:22.567

O dia primeiro de outubro de 1989 amanheceu com bom tempo em Jerez de la Frontera, mas nem isso animou os espanhóis acompanharem uma corrida decisiva de F1. Desde sempre a pista andaluz sempre teve poucos expectadores e trinta anos atrás não foi diferente. Prost foi o mais rápido no warm-up quando uma chuva forte surpreendeu a todos na hora do almoço, mas quando os carros foram para o grid, o sol já aparecia forte e a pista estava seca. A largada não teve um único problema e os três primeiros mantiveram suas posições, com Patrese pulando de sexto para quarto. Durante a primeira volta Satoru Nakajima rodou no final do pelotão e foi atingido por Capelli. Apesar da muita poeira que se levantou, os dois foram os únicos a abandonar.

Senna não dispara num primeiro momento da corrida, administrando o seu ritmo, mas sem dar muita chance a Berger, que o acompanhava de perto. Prost vinha isolado em terceiro, apenas observando o que seu rival iria fazer naquelas primeiras voltas. A corrida se mostrava morna e o único momento de maior emoção foi quando Alesi atacou Brundle pela oitava posição. Senna aumenta o seu ritmo, mas Berger acompanha o brasileiro, mas logo Prost fica para trás, ficando 6s atrás de Berger. Quando a hora das paradas se aproximou, Senna aumentou ainda mais seu ritmo e finalmente abriu de Berger. Após as paradas, Senna tinha 2.5s de vantagem para Berger, mas Prost estava definitivamente fora de qualquer briga 13s atrás. Alesi fazia uma ótima corrida, após garantir o campeonato da F3000, e já era quarto após a parada de Patrese. Na entrada dos boxes, a dupla da Arrows batem entre si e ambos foram aos boxes, perdendo muito tempo para consertos. Quando Alesi vai trocar seus pneus, a Tyrrell leva 17s para efetuar a troca e o francês cai para sexto, enquanto Emanuelle Pirro, em sua melhor corrida na F1 até então, assumia o quarto lugar. Tentando despachar Berger de vez, Senna marca a volta mais rápida da corrida, mas dá de cara com o retardatário Alliot, que o bloqueia algumas curvas, deixando o brasileiro indignado dentro do cockpit. 

Uma pequena fumaça azul saía da traseira da Ferrari de Berger, mas o ritmo do austríaco ainda era bom. Senna passou a ter problemas de freios e Prost de câmbio. Eram tempos em que os carros de F1 quebravam... Na volta 60 Pirro termina sua bela corrida por causa de um problema pouco usual. O cockpit da Benetton tinha sido projetado para Johnny Herbert, que é bem mais baixo do que Pirro. Mal alocado dentro do carro, Pirro começa a sentir fortes câimbras e acaba fazendo o italiano errar a freada da penúltima curva, acabando por rodar. Numa corrida totalmente sem graça, Senna consegue sua vigésima vitória na F1 na frente de Berger e Prost. Ao chegar nos pits, a Ferrari percebe que todo o óleo do motor de Berger tinha vazado e uma quebra era iminente. Alesi consegue um excelente quarto lugar, alguns décimos à frente de Patrese, que fez uma segunda parada, mas não teve tempo para ultrapassar Alesi nas voltas finais, enquanto Alliot conseguia o primeiro ponto da Lola-Lamborghini. Foi uma corrida chata, mas Senna ainda tentava salvar suas últimas esperanças de título em 1989.

Chegada:
1) Senna
2) Berger
3) Prost
4) Alesi
5) Patrese
6) Alliot