domingo, 27 de outubro de 2019

Táticas variadas, resultado igual

O Grande Prêmio do México desse domingo teve como principal característica a variedade tática entre pilotos e equipes, com graus diferentes de sucesso. Porém, quem não mudou foi o vitorioso no final do dia. Lewis Hamilton arriscou uma tática de parar apenas uma vez nos boxes depois de um pit-stop mais cedo do que o recomendado e com pneus duros bem desgastados, segurou a ponta até a bandeirada, enquanto Vettel e Bottas, tendo parados apenas uma vez, mas com uma tática mais equilibrada, completaram o pódio. Quem saiu perdendo nisso tudo foi o pole Leclerc, que fez duas paradas, mas não teve fôlego para alcançar os líderes.

A corrida de hoje foi bastante tensa e extremamente tática. Não houveram grandes ultrapassagens entre os cinco primeiros, mas as posições do top-5 mudaram ao longo da corrida. A largada não foi das mais calmas e Hamilton se envolveu em dois incidentes distintos. Primeiro o inglês largou melhor do que Vettel e quando estava a ponto de colocar ao lado da Ferrari, Vettel não teve nenhum pudor em jogar Lewis para a grama. Com o tempo perdido, Hamilton acabou atacado por Verstappen e os dois se tocaram na primeira chicane e saíram da pista. Quando tudo assentou, Vettel ainda bateu de leve na traseira de Leclerc e a classificação estava toda modificada, com a dupla da Ferrari ainda na frente, mas com Albon pulando para terceiro, Sainz para quarto, Hamilton apenas em quinto, com Verstappen despencando para oitavo, atrás de Norris e Bottas. Nesse momento nada indicava que Hamilton venceria a corrida, mas um piloto genial como o inglês nunca pode se menosprezar, ainda mais tendo o apoio massivo de uma equipe Mercedes que já entrou para a história. Primeiro Hamilton deixou Sainz para trás e encostou no surpreendente Albon, que acompanhava de perto as duas Ferraris na ponta. Quando o tailandês fez sua parada, juntamente com Leclerc, Hamilton foi aos boxes, porém, os dois jovens pilotos indicavam claramente que parariam outra vez, enquanto Lewis não pararia mais. Foi o que bastou para Hamilton reclamar pelo rádio e teoricamente o inglês estava certo. Era cedo demais para fazer uma parada e levar o carro com um ritmo decente até a bandeirada. Ou não? Hamilton algumas vezes dá a impressão que se subestima. O inglês controlou o desgaste dos seus pneus de forma esplêndida sem perder muito ritmo para os demais adversários. Vettel foi chamado logo depois de Hamilton, mas peitou a equipe e resolveu ficar mais tempo na pista, algo que Bottas seguiu. Vettel e Bottas pensavam na lógica: ou Hamilton pararia mais uma vez ou chegaria ao final da prova praticamente sem pneus. Porém, Hamilton reverteu toda a lógica e conseguiu manter Vettel à distância, numa corrida de futuro hexacampeão.

Sim, pois com Bottas chegando em terceiro, Hamilton não garantiu matematicamente o título de 2019 no México, o que seria mais apropriado pelo apoteótico pódio construído pelos mexicanos, um dos mais legais de todos os tempos. Porém, a matemática para Hamilton conquistar o título não precisa de derivadas ou integrais. Lewis só não sairá de Austin hexacampeão semana que acabar abaixo do oitavo lugar, junto a uma vitória de Bottas com direito a melhor volta. Valtteri tentou a mesma tática de Vettel, mas a força do motor Ferrari tornou a ultrapassagem do finlandês algo difícil demais e Bottas teve que se conformar com a terceira colocação. Como todo grande campeão, Hamilton precisou de sorte e numa corrida tão apertada e decidida na estratégia, Lewis viu dois momentos que lhe foram muito favoráveis envolvendo os dois pilotos da Ferrari. Quando estava prestes a entrar nos pits, Vettel se meteu numa animada briga entre Gasly e Sainz, com o segundo tirando tanto o pé para tomar uma volta de Vettel, que o piloto da Ferrari acabou perdendo bastante tempo. Toda a operação para deixar a briga entre os dois retardatários para trás fez Vettel perder em torno de 3s. Bastava a Ferrari ter visto que o bicho estava pegando entre Sainz e Gasly para trazer Vettel antes dele encontrar a dupla. A Ferrari não o fez e Vettel perdeu um tempo precioso e que faria muita diferença no final da corrida, bastando observar a diferença que o separou para Hamilton no fim. Já o pole Leclerc fez sua segunda parada faltando poucas voltas, mas os mecânicos da Ferrari tiveram dificuldades em apertar a roda traseira direita. Olhando a média de paradas dos demais, o monegasco perdeu 4s na operação, que lhe custou caro no final, pois Leclerc não teve fôlego sequer para se aproximar de Bottas no fim. Ou seja, Hamilton fez sua parte na pista com um ritmo surpreendente na pista, mas a sorte lhe foi favorável para conquistar a corrida de hoje. A sorte dos campeões.

Após perder a pole por causa de suas falas na entrevista coletiva de ontem, onde ingenuamente afirmou que não tirou o pé na última curva, onde Bottas estava atravessado após bater, Verstappen novamente se envolveu em um incidente com pilotos da Mercedes. Primeiro ele tocou-se com Hamilton num acidente sem maiores consequências, mas no afã de se recuperar logo, efetuou uma audaciosa ultrapassagem em cima de Bottas no parte do estádio. Lenta e estreita, ninguém espera alguém se jogar por dentro nesse setor, portanto o toque que Bottas deu em Verstappen foi involuntário, mas o suficiente para furar o pneu do holandês, que caiu para último. Assim como Hamilton o holandês surpreendeu com seus pneus, pois sem fazer mais nenhuma parada, escalou o pelotão e chegou em sexto. Ainda falta a Max Verstappen mais malícia dentro e fora da pista para se livrar de tantos problemas em que se mete vez por outra, lhe debitando pontos importante no campeonato. Albon vislumbrou um pódio em alguns momentos, mas ao escolher a mesma estratégia de Leclerc, o tailandês não teve mais chance de brigar pelo pódio. Contudo, enquanto esteve presente na briga entre Vettel e Hamilton, Albon mostrou personalidade e vai cavando cada vez mais sua vaga na Red Bull em 2020.

A boa largada das duas McLarens foi o melhor momento da equipe hoje, que se mostrou nada competitiva em ritmo de corrida e Lando Norris acabou prejudicado por um erro da equipe, que o soltou com uma roda frouxa, destruindo a corrida do inglês. Pérez levantou a torcida com suas ultrapassagens, segurou como pôde Ricciardo melhor 'calçado' no final e garantiu o título de melhor do resto na frente de sua feliz torcida. Ricciardo levou a Renault até a volta 52 com os pneus duros, chegando a ocupar a sexta posição. O australiano foi para cima de Pérez, chegou a sair da pista numa tentativa banzai de ultrapassagem, mas teve que se conformar com a oitava posição. Hulkenberg vinha em nono, mas na última curva foi atropelado por um destrambelhado Kvyat e o russo pode ser punido a qualquer momento, o que ajudaria bastante Gasly e o próprio Hulkenberg, que cruzou a bandeirada sem a asa traseira. Alfa Romeo fez uma corrida fantasma, enquanto a Haas, prestes a correr em casa na semana que vem, já está andando no ritmo da Williams, mostrando a queda acentuada dos americanos.

Não foi das corridas mais emocionantes, mas a variedade tática entre os pilotos trouxe um tempero todo especial à corrida, com muita tensão para saber quem daria o pulo do gato. Apesar da variedade, os vencedores foram praticamente os mesmos: Hamilton e Mercedes. Com uma pilotagem sensacional, sem precisar ser espetacular (quando é necessário, ele o é), Hamilton garantiu mais uma vitória rumo ao esperado hexa.

Fim da Era dos Tiões

Faziam quinze anos que o WRC vinha numa constância de campeões: eram franceses e se chamavam Sebastien. Os nove títulos da lenda Loeb e os seis de Ogier fizeram com que a França se tornasse o país com mais títulos do Mundial de Rali, superando a Finlândia, país considerado berço do rali.

Esse ano a história foi diferente e um tabu de dezesseis anos foi quebrado. Depois 2003 com Petter Solberg, o estoniano Ott Tänak venceu o WRC nesse domingo com o segundo lugar no Rali da Catalunha, superado pelo atual vice-líder do Mundial Thierry Neuville e quebrando a hegemonia dos 'Tiões'. Ogier tentava o hepta, mas um problema na sexta praticamente acabou com as chances do francês da Citroen. Para quem estranha a nacionalidade de Tänak, a Estônia já teve seu grande piloto na década passada, o antigo piloto de Ford e Peugeot Markko Martin, mas que abandonou sua carreira após a morte do seu navegador Michael Park em 2005. Martin é o mentor de Tänak, o colocando em sua equipe no campeonato estoniano e graças aos contatos que Martin tinha na Ford, Tänak pôde estrear no WRC em 2011.

Porém, os resultados do estoniano demoraram a aparecer e ele fez seu primeiro ano competitivo no WRC em 2017, correndo ao lado de Ogier na M-Sport Ford, subindo ao terceiro lugar no Mundial, posição que repetiria no ano seguinte, já contratado pela equipe oficial da Toyota. Vindo de quatro vitórias em 2018, Tänak era um dos favoritos ao título desse ano ao lado de Ogier, que retornou à Citroen, e Thierry Neuville, da Hyundai. Ao lado do navegador Martin Järveoja, Tanak conquistou cinco vitórias em 2019, além de dois pódios, chegando à Espanha com o título nas mãos e o segundo lugar conquistado hoje foi mais do que suficiente para Tanak levantar o título.

Voltando a 2003, quando o WRC vivia um ótimo momento, Solberg era um piloto muito popular, muitos viam que Loeb era um potencial gênio, além da categoria ainda contar com pilotos do calibre de Carlos Sainz, Marcus Gronholm, Colin McRae e Richard Burns. Todos esses pilotos eram muito carismáticos, populares e entraram para a história do esporte a motor. Mesmo com seis títulos no bolso, Sebastien Ogier não tem um décimo da popularidade de um Colin McRae, por exemplo, o mesmo acontecendo com o recém-coroado Tanak. Após uma enorme crise que colocou o seu futuro em risco, o WRC tenta se reconstruir, mas ainda faltam pilotos carismáticos como haviam há dezesseis anos.

Com 32 anos de idade e tirando a Toyota de uma fila de 25 anos, Ott Tänak pode ser um desses pilotos que podem fazer a popularidade do WRC retornar aos bons tempos. Por sinal, Tänak já fez algo fora do comum ao trocar a Toyota pela Hyundai em 2020, para correr ao lado de Neuville. Seria ótimo ter uma rivalidade forte para apimentar as coisas no WRC.  

Novas facetas

No auge de Valentino Rossi, dava pena de Max Biaggi e Sete Gibernau. Por mais que liderassem as corridas, todo mundo sabia que Rossi daria um bote nas voltas finais e o italiano venceria a corrida. Isso aconteceu várias vezes em meados da década passada. Cada vez mais parecido com Rossi, Márquez vai incorporando esse ponto forte de Valentino. Ao invés de atacar de vez, Márquez vai estudando as linhas e os pontos fracos dos adversários antes de dar o bote decisivo sobre o rival. Fabio Quartararo já sofreu dessa nova faceta de Márquez algumas provas atrás e hoje foi a vez de Maverick Viñales. O espanhol da Yamaha liderou todo o final de semana, fez a pole e após uma má largada, se recuperou até reconquistar a ponta.

Porém, para infelicidade de Viñales, Márquez não se desgrudou da Yamaha de Maverick. Márquez não atacava, apenas esperava. Com um motor muito mais forte do que a Yamaha, era nítido que Márquez segurava sua Honda no final da reta dos boxes, mas o espanhol tinha outros pensamentos. No início da última volta Márquez caprichou na última curva e engoliu Viñales na reta dos boxes, não dando chances ao compatriota. Meio que no desespero Viñales tentou uma manobra banzai na curva 10 e acabou no chão, por muito pouco não levando Márquez consigo. Zero ponto para Viñales e um baita golpe psicológico dado por Márquez. Em segundo chegou Cruthlow, um ano depois de ter destruído seu tornozelo direito num treino em Phillip Island. Correndo em casa Jack Miller completou o pódio numa animada briga com vários pilotos. Largando pela 400º, Rossi chegou a liderar as primeiras voltas, mas foi ultrapassado seguidamente e ficou no segundo pelotão, junto das Ducatis, Suzukis e as surpreendentes Aprilias. Mais para trás, Johan Zarco subia pela primeira vez na vida numa Honda e conseguia pontos com a moto, enquanto Jorge Lorenzo era um distante último colocado, com a mesma moto do vencedor Márquez. No momento, é até incompreensível a Repsol Honda manter o já veterano espanhol para 2020.

Márquez venceu pela 11º vez em 2019, se tornou o terceiro piloto com mais vitórias na categoria principal do Mundial de Motovelocidade. Um gênio em formação e com mais facetas sendo mostradas.

sábado, 26 de outubro de 2019

Botada no favoritismo

Pela já conhecida vantagem de potência sobre as rivais, a Ferrari era favorita graças a enorme reta dos boxes do circuito Hermanos Rodríguez e o ar rarefeito da Cidade do México. Porém, a Red Bull conseguiu as duas últimas vitórias no México e ano passado ficou com a dobradinha na primeira fila do grid. As linhas aerodinâmicas da Red Bull fazem um ótimo efeito no intrincado acerto para a corrida no México, mas ainda assim as Ferraris tinham tudo para garantir a primeira fila. Verstappen era o pole na primeira rodada do Q3, mas Vettel tinha tudo para superar o holandês, porém Valtteri Bottas bateu com vontade no muro da antiga Peraltada e praticamente garantiu a pole de Verstappen, mesmo Max tendo melhorado seu tempo, algo que deverá ser anulado mais tarde, pois havia não apenas uma bandeira amarela, como um Mercedes atravessado no meio da última curva.

Os treinos livres foram ligeiramente atrapalhados pela chuva, mas a Ferrari sempre se mostrou mais rápida, enquanto a Mercedes parecia meio perdida. Com a pista sendo lavada diariamente pela chuva, a aderência nunca era a ideal e as equipes sofreram para conseguir um melhor desempenho. Sofrendo com um carro com problemas de downforce, a Haas ficou logo no Q1 e lembrando o péssimo ritmo de corrida dos carros americanos, não seria surpresa vê-los brigando com a Williams amanhã. Correndo em casa Sérgio Pérez fez de tudo para dar mais motivos para a torcida mexicana vibrar, mas o piloto da Racing Point acabou ficando no Q2, junto com a dupla da Renault, que nesse final de semana recebeu a notícia que a nova CEO da montadora irá reavaliar alguns programas da Renault. Abitebul está se mostrando um dirigente abaixo da crítica, mas terá que ter uma lábia muito grande para convencer a Renault a manter sua equipe na F1.

Com as duplas de McLaren e Toro Rosso brigando pelo melhor do resto no Q3, a batalha pela pole foi mesmo entre o trio de ferro da F1 atual. Com a Ferrari dominando no primeiro setor que compreende a reta dos boxes, a Mercedes muito forte no segundo setor, com as curvas rápidas e a Red Bull mais rápida no último setor, com as curvas mais lentas, havia um bom equilíbrio entre os times top-3, mesmo com a Ferrari com uma ligeira vantagem. Na primeira rodada de voltas rápidas, Verstappen conseguiu superar as duas Ferraris, com a Mercedes fora do top-3. Na segunda volta rápida dos pilotos de ponta, Leclerc errou no final da sua volta, mas logo atrás Bottas bateu forte e praticamente acabou com a chance dos pilotos conseguirem tirar a pole de Max. Vettel e Hamilton vinham muito fortes, mas largarão amanhã na segunda fila, com as jovens estrelas Verstappen e Leclerc sem ter ninguém na frente deles.

A longa distância para a primeira curva pode favorecer a Ferrari, desde que ninguém invente um balé imperfeito, como visto na Rússia e causou uma enorme confusão para os italianos. O fato é que a Honda colocou seus quatro carros entre os dez primeiros e Verstappen brigará para conseguir sua terceira vitória seguida no México.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A única de Barrichello

Rubens Barrichello cansava de dizer que foi criado ao lado do circuito de Interlagos e por isso conhecia a pista paulistana com a palma da mão, inclusive o instável clima do local, ajudado pela sua avó. Mesmo correndo sempre muito bem em Interlagos, Rubens teimava em ter resultados decepcionantes em sua pista caseira. Porém, quinze anos atrás Barrichello parecia que tinha tudo para acabar o que já era conhecida como a 'maldição de Interlagos'.

O Grande Prêmio do Brasil de 2004 foi realizado no final do ano para que a F1 escapasse das famosas chuvas de março, que tumultuou a corrida do ano anterior. A Ferrari havia dominado o ano, assim como fizera em 2002, com Michael Schumacher conquistando o heptacampeonato de forma contundente. Porém, o alemão teve um final de semana para esquecer em Interlagos, contando com acidentes e quebras em sua Ferrari. Isso tornou Barrichello o grande favorito a corrida brasileira, onde tinha visto a bandeirada uma única vez dez anos antes. Em 2004 tudo levava a crer que Rubinho não apenas completaria a corrida, como também venceria em Interlagos e a pole conquistada no sábado corroborava com essa sensação.

Contudo, a chuva apareceu no domingo e o início da corrida foi confuso, com os pilotos tentando acertar o pneu correto e a melhor tática de acordo com a situação da pista. Isso fez com que Felipe Massa liderasse pela primeira vez uma corrida de F1, mas quando a pista secou e a corrida se assentou, Rubens Barrichello viu a Ferrari cometer um dos poucos erros daquele ano. O brasileiro não entrou nos boxes para colocar os pneus slicks no momento certo e como resultados, Juan Pablo Montoya e Kimi Raikkonen dispararam na frente do piloto da Ferrari. Montoya e Raikkonen, que seriam companheiros de equipe na McLaren em 2005, disputaram a liderança até a bandeirada, com o colombiano vencendo com apenas 1s de vantagem para Kimi. Barrichello teve como consolo a subida ao pódio em Interlagos, sua pista favorita.

Houveram várias despedidas quinze anos atrás, particularmente das equipes Jaguar e Minardi, compradas pela Red Bull e renomeadas a partir de 2005. Com cinco títulos consecutivos, mesmo chegando apenas em sétimo lugar naquele dia, nada parecia que pararia Michael Schumacher, mas 2004 seria o último título do genial alemão. E aquele seria o único pódio de Rubens Barrichello em Interlagos.

domingo, 20 de outubro de 2019

Temos que falar de Rossi

O Grande Prêmio do Japão em Motegi teve o mesmo marasmo que Marc Márquez transformou a MotoGP em 2019. O espanhol da Repsol Honda largou na pole, brincou um pouquinho com o novato Fabio Quartararo nas primeiras voltas para logo depois abrir uma vantagem administrável até a bandeirada. Novidade? Nenhuma. Márquez é o grande dominador da MotoGP nessa década e não enxerga um adversário à sua altura por enquanto.

No começo dessa semana Andrea Doviziozo, atual bi-vice da MotoGP, deu uma polêmica declaração dizendo que Rossi foi mais talentoso do que Márquez quando estava no auge. Uma afirmação muito subjetiva e difícil de se analisar. Rossi é muito mais carismático do que Márquez e tem como vantagem nessa comparação o fato do italiano ter tido a coragem de trocar o conforto da Honda pela incerteza da Yamaha em meados da década passada, garantindo um tricampeonato seguido que deixou a todos de boca aberta. Porém, a forma como Márquez domina uma MotoGP mais equilibrada do que nos tempos de Rossi e com talentos reconhecidos não pode ser ignorado. O espanhol vem conquistando fãs com um pilotagem agressiva e até mesmo revolucionária, onde consegue ângulos impossíveis nas curvas, além de ser o único a dominar a selvagem moto da Honda nesse momento. Nesse domingo, enquanto Márquez dava outro recital em cima dos seus rivais, Rossi teve outra corrida esquecível em 2019. O italiano largou em décimo, caiu quatro posições e já estava brigando pela posição onde largou antes de cair. No momento da queda de Rossi, o italiano era disparado a pior Yamaha do pelotão.

Valentino Rossi é um verdadeiro monumento do esporte mundial. Talentoso, rápido e carismático, Rossi tem vários recordes tangíveis, além de outros não muito tangíveis. O italiano consegue arrastar multidões para os circuitos da MotoGP e é um grande atração da categoria. Porém, com 40 anos de idade, Rossi está ficando cada dia mais para trás em relação aos seus rivais diretos. Mesmo sendo um feito Rossi ainda ser competitivo contra pilotos que tiraram fotos com ele quando criança, enquanto Vale estava no auge, a triste realidade é que o tempo de Valentino Rossi já passou. A revolta de Rossi pelo título perdido em 2015 se justifica cada vez mais pois o italiano sabia que aquele era a sua última oportunidade de conquistar o décimo título de uma carreira gloriosa.

Rossi é tão competitivo que ele mudará de engenheiro-chefe e até está tentando outros estilos de freada. Tudo para tentar voltar às vitórias, mas o tempo é algumas vezes cruel. Quartararo está pedindo passagem na equipe oficial da Yamaha. O jovem francês, que parece ser um novo Stoner, vem garantindo resultados melhores com sua Yamaha satélite do que os pilotos oficiais da montadora. Conta-se que uma troca entre Rossi e Quartararo foi sondada para 2020, mas o italiano não aceitou. Com uma carreira grandiosa dentro da Yamaha e que transcende a própria MotoGP, ninguém dentro da equipe teve coragem de se impor e colocar Rossi na equipe satélite e fazer o lógico movimento de trazer Quartararo para a equipe oficial. Mesmo fazendo todo o possível para voltar aos bons tempos, Valentino Rossi não vem conseguindo obter êxito.

Com dor no coração, já dá para dizer que Rossi poderia muito bem ceder seu lugar na Yamaha oficial e fazer uma última temporada na equipe Petronas em 2020. Seria melhor para todo mundo, inclusive para a MotoGP, que veria se o francês será mesmo o anti-Márquez. Mas quem terá a coragem para dizer isso a uma lenda viva sem trair a nós mesmos? 

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

História: 25 anos do Grande Prêmio da Europa de 1994

Michael Schumacher retornava de sua questionável suspensão de duas corridas em Jerez. O alemão sabia (e na verdade todos sabiam) que sua dura punição foi mais política do que técnica e Schumacher deixava isso claro em suas fortes declarações na entrevista coletiva de quinta-feira, dizendo que a FIA tinha como objetivo tira-lo de algumas corridas para que o final da temporada de 1994 ficasse emocionante de forma artificial. Voltando suas baterias para o seu rival, Schumacher criticou acidamente Damon Hill, dizendo que o inglês não tinha estofo para ser primeiro piloto da Williams e que preferia ter disputado o título com Ayrton Senna. Fora das pistas a Lotus agonizava e desde o início de setembro a tradicional equipe estava sob administração judicial para liquidar suas dívidas. Outra equipe em sérias dificuldades financeiras era a Larrousse, que contratava à troca de muitos ienes o japonês Hideki Noda. Nigel Mansell se apoderava da Williams número dois pela segunda vez nesta temporada, depois de disputar o Grande Prêmio de França. Mas desta vez a volta do velho Leão não despertava tanto entusiasmo. Mansell acabara de completar uma temporada medíocre na Fórmula Indy, sem nenhuma vitória e a léguas do seu épico título de 1993. Enquanto isso o jovem David Coulthard se revelava um piloto de grande futuro, perfeitamente capaz de apoiar e, quando apropriado, pressionar Damon Hill. A Williams claramente indicava que ficaria com Coulthard para 1995, enquanto Mansell procurava outra equipe, seja na F1 ou na Indy.

Schumacher não estava satisfeito em sua primeira sessão de qualificação na sexta-feira, quando teve um suporte de motor quebrado, tendo que se contentar com a terceira posição. Já no sábado Michael encontrou seu Benetton-Ford sem problemas e bem acertado para ficar com a pole position pela quinta vez em 1994. Autor da pole provisória na sexta, Hill ficou com o segundo lugar no dia seguinte, mas apenas 130 milésimos mais lento que Schumacher. Mansell progredia gradualmente ao longo do fim de semana: quinta na sexta-feira, ele subiria no dia seguinte para um satisfatório terceiro lugar. Muito bom desempenho do jovem Frentzen, quarto ao volante de um Sauber-Mercedes finalmente equilibrado. Por outro lado, De Cesaris saiu da pista no sábado e conseguiu apenas um 18º lugar. Jordan-Hart estava muito bem e poderia ganhar bons pontos no domingo com seus dois pilotos no top-10. Como esperado, a Ferrari não se adaptou num circuito travado. Berger estava mais confortável do que Alesi, que no sábado ficou parado no cascalho e depois não pôde pegar o carro do seu companheiro de equipe, sob o pretexto de que suas configurações estavam muito diferentes. Alesi ficou muito irritado com isso. 

Grid:
1) Schumacher (Benetton) - 1:22.762
2) Hill (Williams) - 1:22.892
3) Mansell (Williams) - 1:23.392
4) Frentzen (Sauber) - 1:23.431
5) Barrichello (Jordan) - 1:23.455
6) Berger (Ferrari) - 1:23.677
7) Herbert (Ligier) - 1:24.040
8) Morbidelli (Footwork) - 1:24.079
9) Hakkinen (McLaren) - 1:24.122
10) Irvine (Jordan) - 1:24.157

O dia 16 de outubro de 1994 amanheceu com sol forte em Jerez de la Frontera, na Espanha. O pequeno circuito na Andaluzia substituía o Grande Prêmio da Argentina, adiado para o ano seguinte, mas mantinha sua característica que o fez sair do calendário em 1990: o pouco público. Apenas 10.000 pessoas foram à Jerez ver uma corrida decisiva de F1. No warm-up, Damon Hill foi o mais rápido com ampla vantagem para Schumacher, que testava opções aerodinâmicas. O forte calor prometia castigar carros e pilotos, que testavam opções táticas para uma corrida que tendia ser dura e sem muitas ultrapassagens. Na luz verde, Damon Hill largou melhor e assumiu a ponta da corrida ainda da primeira curva, enquanto Mansell fazia o contrário, perdendo três posições. Katayama e Noda rodaram, mas retornam à corrida, enquanto Christian Fittipaldi teve que ir aos boxes no final da primeira volta para trocar a asa dianteira.

Hill e Schumacher escapavam facilmente do terceiro colocado Frentzen, enquanto Mansell conseguia ultrapassar Berger ainda na segunda volta, subindo para quinto. Quatro voltas mais tarde o inglês ultrapassa Barrichello no hairpin para ser quarto, mas tamanho era o ritmo dos líderes, que na décima volta Frentzen já tomava incríveis 25s para os líderes, que não se desgrudavam. Enquanto atacava Frentzen, Mansell quase bateu no retardatário Noda e perdeu quarta posição para Barrichello. Na 15º volta Schumacher entrou nos pits para a sua primeira parada e ainda retornava confortavelmente na segunda posição. Mansell tenta um ataque em cima de Barrichello e acaba batendo sua asa dianteira na Jordan. O inglês tem que ir aos boxes trocar a peça quebrada e volta à pista em 20º. A má corrida de Mansell faria que o inglês fosse muito criticado depois da prova. Schumacher faz a volta mais rápida da corrida, enquanto seu companheiro de equipe Verstappen rodava ao desviar de De Cesaris na briga pela 13º posição. Jos ficou arrasado ao lado da pista, enquanto Flavio Briatore balançava a cabeça negativamente nos boxes. Na volta 18 Hill faz sua primeira parada, que é 2s mais lenta que a de Schumacher e o resultado era que o alemão tomava a primeira posição num ritmo avassalador, abrindo imediatamente 5s para Hill. Na volta 33 Schumacher completou sua segunda parada e retornou à pista apenas 4s atrás de Hill. A Williams identificou que um sensor havia falhado e nem todo o combustível planejado havia entrado no tanque do carro de Hill, o que fez o inglês antecipar sua segunda e última parada e ficou 17s atrás de Schumacher. A Williams teve que completar o tanque de Hill para que ele completasse a corrida e com o carro pesado, Damon perdia cada vez mais terreno para Schumacher.

Na volta 52 Schumacher faz sua terceira e última parada. À essa altura o piloto da Benetton tinha 33s de vantagem para o inglês, dando tempo ao alemão voltar a pista tranquilamente em primeiro. Com Schumacher aumentando sua vantagem sobre Hill, a corrida fica morna em seu final. Hakkinen parou duas vezes e assumia o terceiro lugar, mas era pressionado pela dupla da Jordan, mas logo apenas Irvine perseguia Mika, com Barrichello tendo que retornar aos pits para trocar um pneu furado. Em sua volta à F1, Schumacher enfiava 25s goela abaixo de Hill, enquanto Mika Hakkinen subia ao pódio pela quarta vez consecutiva. Irvine conquistou um excelente quarto lugar, com Berger em e a sexta posição ficando com Frentzen, que perdeu rendimento após seu primeiro stint promissor. Com a vitória em Jerez Schumacher abria cinco pontos de vantagem sobre Hill no campeonato, mas ainda haviam duas corridas para o fim. E as polêmicas ainda não haviam terminado...

Chegada:
1) Schumacher
2) Hill
3) Hakkinen
4) Irvine
5) Berger
6) Frentzen