domingo, 6 de setembro de 2026

Grande Kimi

 


Na semana do Grande Prêmio da Itália foi anunciado que Andrea Kimi Antonelli seria punido por ter excedido o número de peças trocadas em sua unidade de potência. A falta de confiabilidade da Mercedes antigira primeiramente o líder do campeonato e mesmo correndo em casa, a escolha de Monza para Antonelli cumprir sua punição faria sentido pela facilidade em se ultrapassar na mítica pista italiana. O que os engenheiros da Mercedes não poderiam prever era que Andrea Kimi Antonelli escolheria o dia 6 de setembro de 2026 para fazer uma corrida verdadeiramente épica, completando mais de vinte ultrapassagens antes de desmoralizar seu companheiro de equipe e pretenso rival pelo título George Russell para vencer a sua corrida caseira, quebrando um jejum de exatos sessenta anos, além de moralmente poder ter acabado o campeonato.


O calor na Lombardia era tamanho que a FIA emitiu um aviso para os pilotos se protegerem como pudessem das altas temperaturas, que ultrapassara os 30ºC. A expectativa era como Pierre Gasly se comportaria largando nitidamente fora de sua posição natural, no entanto o principal lance dos primeiros movimentos da corrida em Monza ocorreu na curva dois. Hamilton chegou à Monza na quinta-feira com uma bela Ferrari F40 e falando em vencer na casa espiritual da Ferrari. O inglês forçou por dentro em cima de Leclerc na freada da primeira curva e até ali, o monegasco lhe deu espaço. Lewis resolveu permanecer forçando, mas vindo por fora da segunda perna da chicane, talvez esperando que Leclerc lhe deixasse passar por ser seu companheiro de equipe, contudo, Charles Leclerc já provara em outras ocasiões que é um duro competidor. Cria da Ferrari, Charles não queria ser deixado para trás naquela situação e manteve a sua linha, não se importando que ali estava seu vizinho de boxe da Ferrari. Os dois se tocaram levemente e como Hamilton estava na beira da caixa de brita, o inglês acabou se atrasando bastante e, logicamente, reclamando via rádio. Culpa de Leclerc? Ele poderia ter deixado mais espaço para Hamilton, sim, mas provavelmente Leclerc pensou na política interna da Ferrari e tratou Hamilton como se ele fosse de outra equipe. Porém, a corrida de Leclerc não duraria muito e acabaria por afetar a estratégia de quase todo o grid. Na abertura da segunda volta, Charles fechou Piastri na entrada da Parabólica e ao fazer a curva ligeiramente mais aberta, perdeu abruptamente o controle de sua Ferrari, batendo forte no local onde seis anos antes se acidentara. Bandeira vermelha para reconstruir a barreira de pneus e Leclerc saindo do carro com dores no corpo e um problema no olho direito.


Com a bandeira vermelha as equipes puderam trocar os pneus de seus carros, iniciando uma tática agressiva, mas ao mesmo tempo longe de ser impossível: fazer o resto da corrida com o mesmo set de pneus. Monza é das corridas mais rápidas do calendário e não desgasta demais os pneus. Quem saiu para a pista quarenta minutos depois com pneus duro era quase uma certeza de fazer isso, entre eles estavam Russell e Verstappen. A segunda largada veio e... vocês gostam de jogar ioiô? Depois de algumas pistas onde o gerenciamento de energia não seria um fator, Monza mostrou que o novo regulamento técnico ainda tem sérios problemas. 'Ah, foi uma corrida cheia de ultrapassagens', falará o atento leitor, porém, será que foi pelo motivo correto? Por sinal, por esse motivo (o famigerado novo regulamento técnico) que a partir de 2027 as corridas serão diminuídas em torno de 5%. Como se aumentará o protagonismo do motor a combustão interna, haverá maior necessidade de combustível, porém, as equipes teriam que aumentar o tanque, o que faria que o conceito do carro atual fosse jogado fora e os custos aumentassem. De forma unânime, as equipes solicitaram (e será concedido) que as corridas diminuam no ano que vem. 

Russell já havia ultrapassado Gasly antes da bandeira vermelha, mas o inglês deve ter ficado de olhos arregalados quando percebeu que Antonelli pulara de 19º (Albon, Lawson e Alonso também foram punidos e foram para as profundezas do pelotão) para 12º e na segunda volta em bandeira verde já pulara para oitavo. O novo motor Mercedes fazia com que o avanço de Kimi fosse imparável. Para ajudar a vida de Antonelli, Russell não conseguiu abrir uma boa diferença na ponta e quando Verstappen assumiu a segunda posição, ele partiu para cima de George, tomando a primeira posição na volta 12, quando Antonelli tinha acabado de ultrapassar Hamilton e era quarto colocado. Max destruía a corrida de Russell na medida em que Antonelli ultrapassava Piastri e encostava nos dois líderes. Com um terço de prova, Antonelli já lutava pela vitória. Já era uma corrida histórica, mas ainda havia mais nuances. Continuando a troca de quem usava energia aonde, Max, George e Kimi trocavam de posições, quando a Mercedes pediu aos seus pilotos pararem de perder tempo naquela luta e focarem em abrir diferença para Verstappen. 


Quando Max começou a ficar para trás, veio o momento decisivo na metade da corrida. Lance Stroll estacionou seu Aston Martin com problemas hidráulicos na primeira variante, trazendo o Virtual Safety Car. Russell estava com pneus duros, talvez um composto mais adequado para se completar a corrida, enquanto Antonelli estava com pneus médios, sendo que Kimi já tinha vazado a primeira chicane uma vez. A Mercedes resolveu trazer Antonelli para os boxes, colocando pneus médios novos, o mesmo fazendo Verstappen. Quando a bandeira verde reapareceu, faltavam 23 voltas para o fim e 15s separavam os dois pilotos da Mercedes. Antonelli teria que andar muito forte, enfrentar o trânsito (ele voltou em quinto) e rezar para não ter nenhuma situação no resto da prova. Quando George acordou para o tamanho do problema de não ter parado, Kimi já voava na pista, não dando chances ao pessoal que ficara na pista sequer se defender. A pergunta não era se, mas quando Antonelli chegaria em Russell, que forçava o que podia, mas Kimi era de meio segundo a oito décimos mais rápido por volta. Faltando seis voltas Antonelli se aproximou de vez, enquanto Russell falou com a equipe que os pneus estavam acabados. Contudo, correndo em casa, fazendo a corrida de sua vida (até agora), Kimi se afobou e saiu da pista enquanto disputava posição na primeira variante. Toto Wolff teria problemas em segurar seus meninos? Max esfregava as mãos rumo a uma vitória caída no colo? Antonelli não demorou duas voltas para tirar toda a diferença e bem na Variante Ascari, reassumir de vez a ponta para não mais perdê-la.

Mesmo com todos os senões do novo regulamento, que muitas vezes causou uma troca de posições artificial, além do troféu horroroso, ninguém pode falar da grande corrida que Andrea Kimi Antonelli fez nesse domingo. Quando um piloto começa a vencer depois de colocar as mãos no melhor conjunto da temporada, questionamentos surgem, mas a vitória de hoje tirou qualquer contestação sobre o merecimento de Andrea Kimi Antonelli, que pode se tornar aos 20 anos o mais jovem campeão da história. George Russell tinha uma chance gigantesca para conseguir um respiro no campeonato e tirar bons pontos de Antonelli, porém, acabou saindo de Monza com uma derrota doída, viu Antonelli ficar ainda maior do que entrou nesse final de semana e com uma diferença de quase três corridas na moleira. Russell pode começar a pensar no enxoval de seu casamento...


Max Verstappen lutou como pôde contra a potência da Mercedes, mas andando nitidamente mais do que o carro o neerlandês ainda conseguiu um pódio, enquanto Lawson teve problemas diversos e ficou bem longe dos pontos, após um bom início de corrida de recuperação. Piastri e Hamilton passaram boa parte da corrida trocando de posição, talvez esperando por algum problema entre os pilotos da Mercedes para conseguir um pódio. Os dois não pararam durante o VSC e como Russell, foram atropelados por Antonelli, enquanto o australiano deu um ligeiro trabalho à Verstappen. Após o entrevero com Leclerc, Hamilton pareceu relargar com raiva e que até mesmo poderia se meter na briga das Mercedes, mas mesmo com o motor Ferrari recebendo melhorias com o ADUO, o máximo que Lewis fez foi brigar com Piastri e quando os pneus do inglês foram embora, acabou ultrapassado por Norris e teve que se conformar com a sexta posição. No começo da corrida Lando Norris lutou com Gasly e quando deixou o francês para trás, estava a uma boa distância da luta entre Oscar e Lewis, fazendo-o desgastar menos pneus e partir para cima dos dois nas voltas finais. Se contra o compatriota a briga não foi muito forte, Lando teve mais trabalho com Piastri, que chegou a empurrar o companheiro de equipe para fora da pista, gerando reclamações de Norris, mas o inglês acabou tomando o quarto lugar na última volta, porém, freando um pouco a reação de Norris, que vinha de duas vitórias consecutivas.


A carruagem de Pierre Gasly não durou uma volta para voltar a se transformar numa abobora azul, porém, o francês continuou no primeiro pelotão por um terço da corrida e quando finalmente se descolou de Norris, Gasly fez uma corrida solitária, conseguindo um bom sétimo lugar. Colapinto conseguiu pular para quarto antes da bandeira vermelha e brigava com Hamilton quando o argentino se empolgou e saiu da pista nas curvas de Lesmo, o derrubando para o final do pelotão. Colapinto remou bastante até chegar nos pontos novamente, acabando a corrida em nono, que somado ao sétimo lugar de Gasly, a Alpine teve seu melhor final de semana até agora em 2026. Entre os dois carros da Alpine, chegaram a dupla da Racing Bulls, com Lindblad fazendo uma corrida sólida para ser oitavo, enquanto Tsunoda, que chegou a errar seu lugar no grid, pontuou pela primeira vez em 2026 com o décimo lugar. Gabriel Bortoleto largou mal mais uma vez, conseguiu se recuperar no meio do pelotão, passando por Williams e Haas, mas novamente terminou em 11º lugar, saindo zerado. Hulkenberg fez uma prova discreta e abaixo de Bortoleto. Bearman chegou a colocar a Haas na zona de pontuação, mas o jovem inglês não se segurou por muito tempo, enquanto Ocon, ainda com o motor antigo da Ferrari, chegou a tomar volta. A Cadillac mal apareceu, enquanto a Aston Martin sofreu com a falta de potência do novo motor Honda, com a equipe voltando a ocupar as últimas posições.


Por mais que Monza tenha visto o ônus do novo regulamento técnico, a mítica pista italiana vibrou como nunca com um piloto seu, mesmo ainda preferindo a Ferrari. Andrea Kimi Antonelli chorou ainda dentro do carro e Bono fez questão de falar em italiano, sabendo do tamanho do momento (Que narração de Everaldo Marques na última volta!) que seu piloto havia protagonizado. A sétima vitória de Kimi na F1 já se tornou um clássico, mais um em Monza e credencia ainda mais o italiano a se tornar o mais jovem campeão da história da F1. 

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