domingo, 11 de dezembro de 2022

Nova dinastia?

 


Nos últimos vinte anos, a F1 vem se caracterizando por grandes domínios. Isso sempre existiu na categoria e já na primeira temporada a Alfa Romeo venceu todas as corridas em que disputou e seus três pilotos oficiais ficaram nas três primeiras posições (Farina, Fangio e Fagioli). No entanto, o que chama atenção é que os domínios estão cada dia mais comuns e duradouros, principalmente com atitudes da FIA em restringir cada vez seus regulamentos. A Mercedes venceu oito títulos consecutivos no Mundial de Construtores e papou sete títulos de pilotos. A F1 estava nitidamente cansada da doutrinação do time de Toto Wolff e seus blue caps e por isso, impôs uma revolucionária mudança de regulamento técnico, que também serviria para ajudar as ultrapassagens e disputas por posições, nêmesis procurada pela FIA já fazem alguns anos. A Mercedes errou o projeto com sua inovadora lateral 'zero-pod', mas nem por isso não houve domínio. Inclusive de recordes sendo quebrados. O conjunto Red Bull e Max Verstappen se mostraram imbatíveis em 2022. Com a casca ganha pela inesquecível disputa com Lewis Hamilton em 2021, Verstappen se mostrou um piloto ainda melhor em 2022 e simplesmente não deu chances aos adversários, enquanto a Red Bull superou um início claudicante para varrer a concorrência e não apenas vencer o Mundial de Pilotos com Max, como recuperar o Mundial de Construtores após quase dez anos.


O começo do ano foi marcado pelo início da guerra entre Rússia e Ucrânia, que acabou respingando na F1 pela crise financeira que o conflito trouxe para toda a Europa, inclusive no famoso teto orçamentário. A inflação fez com que as equipes tivessem que refazer os cálculos e muito time simplesmente não desenvolveu mais seus carros com receio de ultrapassar o tal teto. Porém, a mais 'prejudicada' foi mesmo a Haas. Patrocinada por uma empresa russa cujo dono é um dos magnatas que sustentam Vladimir Putin na Rússia, a Haas ficou com um abacaxi nas mãos, pois imediatamente o mundo impôs várias sanções à Rússia e até mesmo a FIA, tradicionalmente alheio às questões políticas, interveio e a corrida da Rússia foi devidamente cancelada. Uma das imposições era que todos os pilotos russos não correriam com sua bandeira, o mesmo acontecendo com as equipes. Pintada nas cores russas e com amplos patrocínios do país de Putin, a Haas teve que muda seu lay-out ainda na pré-temporada, mas teve um bônus inesperado. Para ter esse patrocínio, a Haas teve que aguentar o bizarro Nikita Mazepin. Com toda essa confusão, Mazepin teve seu contrato rescindido e a Haas recorreu ao veterano Kevin Magnussen, mesmo com a pressão brasileira para que viesse Pietro Fittipaldi. A Haas, que tinha sido a última colocada com 'vantagem' em 2021, usou o dinheiro de Mazepin para construir um carro melhor e ainda teve a sorte de não ter Mazepin no carro. Boa Steiner!


Quando a Mercedes apareceu com seu carro totalmente diferente, com as laterais finas como a Lambo de 1991, a F1 tomou um susto, pois o time de Wolff poderia ter dado um definitivo pulo do gato rumo ao nono ano de domínio, mas os tempos na pré-temporada não mostraram isso. A Ferrari era a grande favorita para o ano. Os italianos se concentraram para 2022 e os novos regulamentos, tendo o carro mais rápido e sólido da pré-temporada. Veio as primeiras corridas e Charles Leclerc tomou a liderança do campeonato com corridas fortes e muita velocidade no sábado, principalmente. Para melhorar a situação dos italianos, a Red Bull sofria com a confiabilidade dos carros e a Mercedes tinha errado seu conceito, sofrendo com algo que não era visto há quarenta anos: o porpoising. Com o retorno do efeito-solo, os quiques que eram vistos no começo dos anos 1980 voltaram com tudo em 2022, algo que os projetistas atuais simplesmente não conseguiam prever. Durante a pré-temporada, era impressionante o quanto os carros quicavam em alta velocidade, fazendo com que os capacetes dos pilotos balançassem demais. Rapidamente os pilotos passaram a reclamar de dores nas costas e a primeira grande polêmica de 2022 se estabeleceu. A Mercedes foi a principal prejudicada e que mais clamava por mudanças. Ferrari e Red Bull eram quem menos sofriam com o porpoising e simplesmente davam a dica: levantem os carros! O impasse foi feito e quando Hamilton saiu do carro com fortes dores nas costas após a corrida em Baku e sua eterna reta dos boxes, a FIA entrou em ação e medidas foram tomadas, enquanto as próprias equipes entendiam e minimizavam o problema, que na verdade nunca acabou até o final de 2022.


Enquanto isso, a Red Bull trabalhava na confiabilidade do seu carro e com esse assunto rapidamente resolvido, passou a atacar a desvantagem da Ferrari, que ainda no começo do ano não era nada desprezível. Max Verstappen chegou a emendar algumas vitórias consecutivas, mas Christian Horner teve um inesperado aliado para reverter a situação: a própria Ferrari. Já se passaram quinze anos desde o último título de pilotos da Ferrari e isso talvez reflita numa falta de experiência na gestão da equipe, que quando pressionada, simplesmente entregava a rapadura. Os erros estratégicos começaram a brotar no pomar de Maranello e Mattia Binotto parecia mais perdido que um japonês no meio de um forró. Com a vantagem da Red Bull diminuindo, a Ferrari forçou o desenvolvimento do seu carro e o aumento de performance atingiu a confiabilidade do carro, que começou a quebrar, algumas vezes com Leclerc na ponta, como foi em Baku. Com Carlos Sainz ainda tateando no começo do ano, o monegasco era claramente o primeiro piloto e com seu antigo rival Max Verstappen se aproximando no campeonato, Charles começou a errar e a saída de pista solo em Paul Ricard foi o grande exemplo de como Leclerc estava pressionado. Some-se a isso erros estúpidos de estratégia e tínhamos a receita perfeita de como uma equipe construir o melhor carro do ano estragar sua própria temporada. Leclerc ainda fez várias poles durante o ano, mostrando a velocidade da Ferrari, mas já na entrevista pós-classificação ficava claro que a Red Bull iria venceu no domingo. Era iminente. Claro que essa derrota custaria caro e após vinte e sete anos de Ferrari, Binotto foi dispensado.


A Red Bull aproveitou-se da fragilidade de sua maior rival de 2022 para quebrar recordes. Max Verstappen conquistou incríveis quinze vitórias no ano, se tornando o piloto com mais vitórias numa única temporada. Mais do que isso, Max foi dono de performances de tirar o fôlego, como em Hungaroring e Spa. Foram pilotagens que qualquer gênio da F1 assinaria. Desde 2013 sem títulos de construtores, a Red Bull recuperou o troféu, mesmo com a polêmica de ter furado o teto orçamentário em 2021 e a morte de Dietrich Mateschitz. Sergio Pérez se mostrou uma peça importante na equipe, com vitórias importantes e só perdendo o vice-campeonato por muito pouco para Leclerc. Porém, uma pequena confusão em Interlagos fez com que o final do ano da Red Bull não fosse um mar de rosas. Ainda na briga pelo vice, Pérez esperava que Verstappen lhe cedesse a posição em São Paulo, mas Max simplesmente se negou a isso, dizendo que havia algo que havia lhe irritado antes. Em Mônaco, Pérez bateu na classificação e isso estragou a volta de Verstappen, que largou atrás de Checo e terminou a corrida em terceiro, enquanto Pérez comemorou uma emocionante vitória. A imprensa neerlandesa indicou que a batida de Pérez teria sido proposital para prejudicar Verstappen e que por isso Max não ajudou Checo, que não escondeu sua raiva pela situação. Mesmo com tudo ganho, a Red Bull teve que interver, mas Verstappen não ajudou Pérez na corrida final para que o mexicano ficasse com o vice. Mas Checo terá chance de repetir Nico Rosberg?


Falando nisso em Mercedes, o time tedesco se estabeleceu como a terceira força do campeonato numa temporada cheia de altos e baixos. O carro não tinha nenhuma consistência e tanto poderia tomar uma volta, como dominar um final de semana, como em Interlagos. Porém, o vitorioso não foi Lewis Hamilton em São Paulo, na semana em que o inglês ganhou o título de cidadão honorário brasileiro. Após muita espera, George Russell finalmente estreou na Mercedes e o jovem inglês fez uma temporada de estreia numa equipe grande de forma impecável, mostrando uma pilotagem sólida e andando no mesmo ritmo de Hamilton. Em Interlagos Russell dominou a corrida e venceu pela primeira vez na F1, mostrando que a aposta de Wolff ainda pode render bons frutos. E Hamilton? Desacostumado com um carro ruim, Hamilton nem de longe mostrou ser o piloto faminto dos seus áureos tempos de domínio da Mercedes. Algumas vezes Hamilton se mostrou um piloto resignado, tomando volta em Ímola e pedindo para abandonar em Barcelona. Quando teve um bom carro, porém, Hamilton se mostrou forte e se recuperou de alguma forma na segunda metade da temporada, mas não impedindo que ele terminasse pela primeira vez na carreira sem vitórias na F1, além de ter sido superado por Russell no campeonato.


Outra esperança do novo regulamento técnico era diminuir as diferença entre as equipes grandes e médias, mas aconteceu exatamente o contrário. O abismo aumentou e os pódios foram inteiramente dominados pelos pilotos de Red Bull, Ferrari e Mercedes. Apenas Lando Norris furou esse domínio em Ímola. Contudo, a briga pelo meio do pelotão esteve longe de ser ruim, até mesmo fora das pistas. Alpine e McLaren brigaram palmo a palmo pelo quarto lugar no Mundial de Construtores, no final vencido pelos franceses. Porém, a Alpine teve sérios problemas de confiabilidade que fizeram com que a McLaren passasse boa parte do ano à frente da Alpine. Alonso mostrou sua magia em várias ocasiões, mas acabou tendo problemas demais com seu carro e por isso acabou atrás de Ocon, com quem teve atritos no final da temporada. Contanto com 41 anos de idade, Alonso não teve seu contrato renovado rapidamente e esse impasse acabou trazendo a grande polêmica fora das pistas entre McLaren e Alpine. Quando Vettel surpreendeu a todos com a sua aposentadoria, Alonso não deixou por menos e anunciou que substituiria o alemão na Aston Martin em 2023. O passo seguinte e lógico era que Oscar Piastri, tratado como uma perola pela Alpine, substituísse o espanhol na equipe gaulesa em 2023, certo? Não para Piastri e sua equipe. Foram meses de enrolação por parte da Alpine e Piastri corria o sério risco de ficar outro ano fora da F1 e por isso, o australiano negociou com a McLaren, claramente frustrada com outro ano abaixo da crítica de Daniel Ricciardo. Numa negociação por debaixo dos panos, Piastri se acertou com a McLaren e quando a Alpine anunciou que Piastri seria seu piloto em 2023, Oscar simplesmente negou a sua então equipe. Foi uma confusão gigantesca, principalmente quando a Alpine descobriu que tinha levado um chapéu histórico da McLaren, que tinha acertado com o jovem piloto da Alpine. O registro de contratos da FIA anunciou que a McLaren estava correta, deixando Otmar Szfanauer uma arara. Tentando compensar a errata de perder dois grandes pilotos em poucas semanas, a Alpine contratou Pierre Gasly, talvez esquecendo que Ocon e Gasly não se dão. 2023 tende a ser bem tendo pelos lados da Alpine, enquanto a McLaren terá dois jovens talentosos no seu line-up, mas precisando dar bons carros a eles.


Como falado anteriormente, Vettel anunciou sua aposentadoria ao final de 2022, iniciando uma temporada de despedida e não faltaram despedidas emocionantes na corrida final em Abu Dhabi. Após seu período de domínio com a Red Bull, Vettel passou a olhar para outros itens de sua vida e por isso ganhou vários admiradores pelas suas causas. Vettel saiu da F1 como um dos grandes, mas com bastante respeito entre seus pares, algo bem raro na história da categoria. Respeito que ninguém terá por Lance Stroll, cada vez mais na cara que só está na F1 por ser filho do dono. Quando a Ferrari começou o ano muito bem, puxou consigo suas clientes Alfa Romeo e Haas, mas na mesma medida em que a Ferrari foi perdendo o fôlego, as duas equipes caíram ao longo do ano. Após anos numa equipe de ponta, Bottas teve que reaprender a correr no meio do pelotão e aprender a liderar uma equipe, o que fez muito bem na Alfa Romeo, guiando o único novato no ano, Guanyu Zhou. O chinês chegou conhecido como pay-driver, mas se comportou muito bem, ao contrário dos canadenses Stroll e Nicholas Latifi. O piloto da Williams teve um ano medonho, mesmo liderando casualmente um treino livre. Tão ruim que Latifi, mesmo trazendo dinheiro para a Williams, acabou dispensado da equipe, entrando em seu lugar Logan Sargent, americano de bom desempenho nas categorias de base. Alexander Albon fez um trabalho muito bom ao liderar a Williams, mesmo não sendo possível tirar a equipe da lanterna do Mundial de Construtores. A Alpha Tauri teve uma grande queda em 2022 e ainda amargou a saída de Gasly e sem opções, manteve o inconstante Yuki Tsunoda, que aos poucos vai entrando para o folclore da F1, mas ao menos a equipe júnior da Red Bull terá um piloto conceituado em 2023, com a estreia de Nyck de Vries. A Haas viu Magnussen mal pegar no carro e marcar pontos, enquanto Mick Schumacher destruía seus carros em acidentes muito fortes, que doeram no bolso de Gene Haas. Para completar, em Interlagos Kevin ficou com uma incrível pole e Mick foi último. Apesar do sobrenome, Mick foi dispensado e a Haas trouxe da aposentadoria Nico Hulkenberg.


Após um 2021 inesquecível e de muita disputa, a temporada 2022 esteve longe de empolgar na luta pelo título. O conjunto Red Bull/Max Verstappen já é um dos mais dominantes da F1 no século 21 e por isso surge como grande favorito para 2023, mas há esperanças de mais competitividade. Dificilmente a Mercedes terá outro ano tão ruim e os erros de projetos foram descobertos e deverão ser corrigidos, enquanto a Ferrari tentará usar essa temporada como uma grande lição. As demais equipes tentarão encostar no pelotão dianteiro. Esperemos que 2023 não seja uma continuação dos recordes da Red Bull e de Max. Lógico, se você não ser neerlandês ou torcedor desse fenômeno chamado Max Verstappen.

domingo, 4 de dezembro de 2022

Que pena...

 


Bon vivant e charmoso, Patrick Tambay era o que poderíamos chamar de piloto querido por onde passou. Tambay se beneficiou do investimento feito por várias empresas franceses na década de 1970 no automobilismo e após dois ótimos anos na F2, Patrick estreou na F1 no meio de 1977 pela equipe Surtees, conseguindo resultados encorajadores a ponto de rivalizar com seu amigo Gilles Villeneuve como o piloto mais promissor da época. Graças aos contatos com a Marlboro, Tambay conseguiu uma vaga na McLaren, mas os resultados nas duas temporadas seguintes ficaram aquém do esperado, parecendo que a carreira do francês na F1 estaria no fim. Tanto que Tambay se mudou para os Estados Unidos e foi campeão da Can-Am em 1981. Participando de uma corrida aqui e ali na F1, Tambay viu sua carreira dar uma guinada em 1982. Mesmo que isso tenha sido por uma causa trágica. Seu amigo Villeneuve morreu em Zolder, deixando a Ferrari necessitando de um piloto e Tambay era um dos poucos disponíveis. Patrick relutou em substituir seu amigo morto, mas aceitou o desafio, conquistando seu primeiro pódio em Brands Hatch naquele ano. Semanas mais tarde, a Ferrari se viu envolvida em tragédia novamente com o gravíssimo acidente de Pironi em Hockenheim e Tambay era o único piloto da scuderia. Mesmo estando numa situação difícil, Tambay venceu na Alemanha e com esses pontos, ajudou a Ferrari a pelo menos vencer o Mundial de Construtores de 1982, garantindo um contrato com a equipe para a temporada seguinte. Tambay se tornou um dos principais pilotos da F1 em 1983, vencendo pela segunda e última vez em Ímola, numa corrida inesquecível, onde Tambay bateu Patrese nas voltas finais. Naquele domingo ensolarado Tambay usava o mesmo número 27 que havia consagrado Villeneuve e a festa que Patrick proporcionou naquele dia foi das mais emocionantes da década na F1. Tambay se manteve na briga pelo título até a parte final da temporada, mas a falta de confiabilidade da Ferrari somada a velocidade de Arnoux fez com que Tambay perdesse espaço na equipe, além do seu lugar, substituído por Michele Alboreto para 1984. Tambay achou espaço na Renault, que perdera o título por pouco em 1983, mas o domínio da McLaren em 1984 deixou pouco espaço para as demais equipes. Com a Renault acabando com sua equipe de fábrica em 1985, Tambay ainda iria para a Lola/Haas em 1986, onde terminaria sua carreira na F1 aos 37 anos de idade, com 114 corridas, duas vitórias, cinco poles, onze pódios e o quarto lugar de 1983 como seu melhor resultado. Após a sua passagem na F1, Tambay correu em Le Mans e no Rally Paris-Dakar. Tambay se enveredou pela política e apoiou seu filho Adrien no automobilismo, porém, Patrick foi acometido pelo Mal de Parkinson e saiu da vida pública nos últimos anos. Hoje pela manhã cedo, foi anunciado a morte de Tambay aos 73 anos. Um piloto que pode não ter sido um fenômeno, mas Patrick Tambay era um dos pilotos mais populares dos grandes anos 1980. Uma pena...

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Sem surpresas

 


Conhecendo a paciência latina, pode-se afirmar que até mesmo demorou. Após semanas de especulações, a Ferrari anunciou nessa terça-feira a saída de Mattia Binotto após 27 anos do ítalo-suíço na equipe italiana, começando de estagiário até o cargo de chefe de equipe. Foram muitos títulos conquistados Binotto nos áureos tempos de Schumacher e Mattia sempre fora considerado um grande engenheiro, quando fez parte dos motores da escuderia em meados dos anos 2000. Porém, nem todo técnico se torna um grande gestor.

Usando o próprio automobilismo como exemplo, sempre surgem jovens pilotos rápidos nas categorias de base, mas essas revelações muitas vezes 'batem no teto' numa categoria acima. Quem não se lembra de Antônio Pizzônia fazendo misérias na F3, mas já não sendo tão dominante na F3000 e fazendo um papelão na F1? Pois bem, Binotto pode ser um ótimo engenheiro ou chefe de departamento, mas cuidar de uma grande empresa, no que se tornou as equipes de F1, com todas as suas complexidades e políticas é um trabalho verdadeiramente para poucos. Binotto chegou à chefia da Ferrari num momento de transição, com a morte de Sergio Marchionne em 2018. Binotto teve um ano muito bom em 2019, mas a polêmica do motor 'apimentado' da Ferrari e um acordo secreto fez com que a Ferrari tivessem dois anos complicados em 2020 e 2021. A mudança de regulamento fez com que a Ferrari desse um passo à frente em 2022, mas não faltaram problemas que um chefe mais experiente e forte poderia resolver. E Binotto não resolveu.

Ainda em 2019, com a chegada de Charles Leclerc, o monegasco teve alguns arranca-rabos com Vettel, praticamente fazendo com que o alemão saísse da equipe no final de 2020. A Ferrari perdeu alguns pontos naquela época por pura falta de administração de seus pilotos. Ponto negativo para Mattia. Veio 2022 e a Ferrari parecia que nadaria de braçada com um carro bem nascido com o novo regulamento técnico, mas não demorou muito a desandar a maionese. Erros táticos básicos deixaram Leclerc, hoje a aposta da Ferrari, ainda mais pressionado, fazendo-o errar dentro da pista. Nesse círculo vicioso, Max Verstappen e Red Bull aproveitaram para dominar uma temporada que parecia vermelha no começo do ano. Graças a isso, a confiança da Ferrari e do presidente do grupo Agnelli John Elkann foi decaindo cada vez mais em torno da liderança de Binotto, que ainda se viu envolvido em problemas com Leclerc, cansado de ver a Ferrari cometer erros absurdos de estratégia.

Binotto não apareceu na maiorias das corridas finais, já indicando que ele não permaneceria no posto de chefe da Ferrari por muito tempo, algo alimentado pela imprensa italiana. Em comum acordo, hoje foi anunciado a saída de Binotto da Ferrari, que consta que foi de Binotto o pedido de desligamento dele. Rei morto, rei posto. Segundo a mesmo imprensa italiana, o favorito a ocupar o cargo de Binotto seria Fred Vasseur, chefe da Alfa Romeo, que passará por momentos de transição com a chegada da Audi nos próximos anos. A Ferrari ainda não se pronunciou quem será o novo chefe, assim como não se sabe o que Binotto fará da vida. A Ferrari evoluiu bastante com a mudança de regulamento, isso é um fato, mas também não dá para contestar que a liderança da Ferrari estragou um ano que poderia ser ainda melhor. Sem surpresas, sobrou para o chefe e Binotto procurará o que fazer em 2023.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Figura(ABU): Sebastian Vettel

 Todas as homenagens feitas para Vettel nesse final de semana dimensiona bem o respeito que Sebastian conquistou no sempre difícil ambiente da F1. Talvez esse tenha sido a maior proeza de Sebastian Vettel: mesmo sendo dominador, ele continuou o mesmo e sendo respeitado por todos. Danke Seb!

Figurão(ABU): Mick Schumacher

 Bem na semana em que recebeu a desagradável notícia de que seu contrato não seria renovado com a Haas, Mick Schumacher teve um final de semana bem miserável, o que não é bom como última mensagem para quem pensa em retornar a titularidade na F1. Mesmo largando na frente do consistente Kevin Magnussen, Mick fez uma corrida bem ao estilo do que foi seu ano: regular e burocrática. Schumacher mal apareceu na transmissão, mas quando o fez foi na pior situação possível. Exatamente um ano depois do toque que mudou a história do campeonato de 2021, Mick e Nicholas Latifi, outro que está saindo da F1, se encontraram e rodaram como se estivessem treinado antes, de tão coreografado que foi. Com um histórico ruim dentro da categoria, todos pensavam que se tratava de outra presepada de Latifi, mas o replay mostrou o erro crasso de Schumacher, batendo na traseira da Williams do canadense quando estava metros atrás de Latifi, numa manobra difícil de ser explicada. No fim, Mick Schumacher foi punido e foi um dos últimos na corrida derradeira de 2022. Com um bom pedigree e títulos na categoria de base, Mick Schumacher até o momento não mostrou a que veio na F1. Se não foi tão veloz, se meteu vários acidentes que marcou sua temporada que já não é mais de estreia. Duas boas corridas que lhe renderam pontos foi tudo que Mick fez e somente por causa do seu sobrenome ele ainda chama atenção de outras equipe, que pensam no jovem alemão como piloto reserva. Ao colocar sua cabeça no travesseiro, Mick Schumacher terá que fazer uma boa autocrítica e perceber que não foi à toa que a Haas preferiu tirar Nick Hulkenberg da aposentadoria, ao invés de renovar seu contrato. 

domingo, 20 de novembro de 2022

Pelada de fim de ano


 Com os dois títulos principais decididos com ampla antecedência e uma pista que ninguém consegue gostar, o final da temporada 2022 ficou com gostinho daquelas peladas de final de ano, onde todo mundo está tranquilo e despreocupado. Mesmo com o vice-campeonato ainda sendo disputados tanto por Construtores e Pilotos, a prova em Abu Dhabi manteve sua tradição de uma prova sem maiores emoções, mesmo que a tensão pelo ataque final de Pérez em cima de Leclerc tenha prendido um pouco a atenção, apesar de que matematicamente, junto a duas ajudas inesperadas, fizesse que a tarefa de Pérez fosse mais difícil. Lá na frente, Verstappen livrou logo vantagem para não dar chance ao azar e ter que ajudar seu companheiro (?) de equipe, vencendo com enorme facilidade, terminando um campeonato absolutamente impecável do neerlandês.

Com toda a celeuma ocorrida dentro do reino de Christian Horner e Helmut Marko, a expectativa ficou para observar o comportamento dos dois pilotos da Red Bull, que dividiram a primeira fila. Verstappen prometeu ajudar Pérez, enquanto Leclerc apenas observava toda a situação que poderia lhe ajudar a ficar, pelo menos, com o vice-campeonato. A largada foi convencional, com ninguém tentando maiores ataques, ainda mais em cima de Vettel, que fazia sua despedida da F1. A dupla da Red Bull deu pinta que dispararia frente à Leclerc, enquanto Sainz e a dupla da Mercedes se digladiavam numa disputa animada, mas que durou pouco tempo, com vantagem para o ferrarista. No entanto, Pérez começou a perder rendimento na medida em que a primeira parada se aproximava, fazendo o mexicano parar mais cedo do que Leclerc, que preferiu ficar na pista. Com o circuito de Yas Marina gastando mais pneus do que o esperado, pouco gente arriscou usar os pneus macios, preferindo a gama mais dura. Pérez colocou pneus duros, vislumbrando parar apenas uma vez, mesmo com muita corrida pela frente. Dois seis primeiros colocados, apenas Verstappen e Leclerc postergaram suas paradas, indicando que parariam realmente apenas uma vez, algo confirmado quando colocaram pneus duros perto do final da prova.

A situação de Pérez ficou numa situação incômoda. Tendo parado mais cedo, fazer apenas um pit-stop o deixaria a mercê de um ataque de Leclerc e por isso, optou por parar duas vezes, iniciando uma caçada em cima da Ferrari, numa luta direta pelo vice-campeonato. Para Leclerc, restava esperar um ataque que poderia ocorrer no final da prova. Porém, o monegasco contou com duas ajudas involuntárias que deveria render à Charles pagar os jantares de Gasly e Hamilton. Também escolhendo parar uma vez, Hamilton foi atacado por Checo, mas lembrando ainda da polêmica da final do ano passado, Lewis não tornou a vida de Pérez fácil, fazendo-o perder precioso tempo. Depois, Checo foi colocar uma volta em Gasly e Albon, dois pilotos apoiados pela Red Bull, mas Pierre, de saída das asas da Red Bull, não ajudou muito a causa de Checo, fazendo da situação do mexicano praticamente irreversível. Pérez lutou até o final, recebendo a bandeirada apenas 1.3s atrás de Leclerc, mas perdendo o vice por essa diferença. Enquanto isso, Verstappen não teve dificuldades maiores para vencer pela décima quinta vez e confirmar um ano próximo da perfeição, o mesmo acontecendo com a Red Bull, que manteve a curiosa estatística de nunca ter feito uma dobradinha no campeonato.

Após vencer sua primeira corrida, Russell fez uma prova discreta, terminando em quinto, atrás de Sainz. Hamilton queria parar duas vezes, a Mercedes não concordou, mas no fim um problema hidráulico no finalzinho da prova fez com que Lewis termine sua primeira temporada na F1 zerado em vitórias e poles. Hamilton saiu da corrida decepcionado, talvez querendo repetir a cena de 2018, quando ele e Vettel homenagear Alonso, que na ocasião se aposentaria. Porém, tanto Hamilton como Alonso foram os abandonos do dia e não puderam celebrar com Vettel, que terminou sua carreira com um décimo lugar. O alemão fez um começo de corrida forte, brigando com os dois carros da Alpine, mas na medida em que a Aston Martin escolheu a estratégia de uma parada, Vettel não teve o mesmo desempenho e contou justamente com o abandono de Hamilton para marcar seu derradeiro ponto na F1. Norris foi o melhor do resto, mas não foi o suficiente para fazer a McLaren ultrapassar a Alpine no Mundial de Construtores, que viu a Ferrari superar a Mercedes, mesmo com a grande evolução dos alemães. No quesito despedidas, Ricciardo pôde ter feito sua última corrida na F1 terminando nos pontos, algo que Latifi e Mick Schumacher estiverem longe de fazer. Os dois se tocaram, numa viajada de Mick, que deve ter entendido por a Haas preferir ter tirado Hulkenberg de sua aposentadoria.

E a temporada 2022 terminou do jeito que se desenrolou o campeonato. Verstappen se mostrou imparável em todo o final de semana, mesmo com Ferrari e Mercedes na espreita, mas o conjunto do neerlandês e a Red Bull se mostraram fortes demais para sofrer algum ataque. Porém, a grande estrela do final de semana foi Sebastian Vettel, que conquistou algo mais difícil do que quatro títulos na F1: o respeito absoluto dos seus pares. Danke Seb!

sábado, 19 de novembro de 2022

Ajuda?

 


Todas as confusões que ocorreram no final de semana paulistano ainda reverberam no último evento de 2022, com alguns rádios e linguagens corporais indicando que 2023 poderá ter algumas discórdias internas. Mesmo prometendo ajudar Sergio Pérez a ficar com o vice-campeonato, Max Verstappen marcou sua nona pole na temporada e mesmo perguntando por Checo via rádio, era claro que pelos trejeitos que Max estava desconfortável e que ajudar seu companheiro de equipe lhe doerá mais do que o imaginado. Nas arquibancadas, a resposta da torcida veio com gritos de 'Checo' enquanto Verstappen era entrevistado. Largando ali na terceira posição, numa situação de inferioridade com a Ferrari, Leclerc apenas espreita, talvez prevendo que Verstappen não ajude tanto assim.

A classificação em Abu Dhabi foi bem convencional, mesmo com a maior atenção para Vettel, que vem recebendo inúmeras homenagens da F1 e seus integrantes. Numa cena rara, todos os pilotos saíram para jantar para ficar uma noite a mais com Seb, enquanto tiraram uma foto juntos com Vettel na reunião da GDPA. Vários pilotos colocaram 'Danke' ou mudaram suas cores em cortesia à Vettel, que mostrou dentro da pista sua velocidade, que esteve adormecida na maior parte do tempo de 2013 para cá, conseguindo um tempo surpreendente no Q2 que o colocou na última parte da classificação. Saindo da Haas para dar lugar ao veterano Nico Hulkenberg, Mick Schumacher vai tentando mostrar serviço e foi ao Q2, algo que Magnussen não conseguiu por muito pouco. Na Alpine, Alonso não gostou nada de ter encontrado Ocon numa volta rápida e sua indiferença nos rádios demonstra que o espanhol apenas conta as horas para sair da Alpine e do convívio do jovem francês.

As brigas principais são pelo vice-campeonato de pilotos e de construtores. Após conseguir uma enfática dobradinha em Interlagos, apenas uma semana depois a Mercedes nem de longe brigou pela pole, ocupando inteiramente a terceira fila. Sorte da Ferrari, que nem de longe se aproxima da Red Bull e vê Binotto mais ameaçado do que nunca de procurar outras oportunidades no mercado. Checo está com um olho no gato (Leclerc) e outro no peixe (Max). Depois de toda a celeuma em São Paulo e até mesmo acusado de ter trapaceado em Mônaco, Pérez tenta manter-se calmo numa situação incômoda, onde não pode contar 100% com a ajuda de Verstappen e tem que deixar Leclerc atrás de si no domingo. Pérez andou forte o final de semana inteiro, mas no Q3 Max mostrou sua magia e ficou com a pole, com Sérgio ao seu lado na primeira fila. Terá ajuda? Não dá para cravar, mas Abu Dhabi verá outra corrida tensa, mais tensa que a Red Bull gostaria, o que não significa emocionante no histórico nada bom de Yas Marina.