quinta-feira, 6 de novembro de 2008

História: 10 anos do Grande Prêmio do Japão de 1998


Após cinco anos da saída de Ayrton Senna, finalmente a McLaren voltaria a decidir um título mundial de pilotos. Mika Hakkinen estava quatro pontos à frente de Michael Schumacher e precisava de um segundo lugar para se tornar o segundo piloto finlandês a se tornar Campeão Mundial de F1. Pela primeira vez disputando um Mundial, Hakkinen estava bem mais nervoso do que o relaxado Michael Schumacher, que mesmo tendo a pressão de ter que tirar a Ferrari de um jejum que durava desde 1979, ainda era o azarão na disputa. Tamanha era a ansiedade do piloto da McLaren, que ele admitiu que uma vez que defecou no cockpit do McLaren Mercedes dele para que ele pudesse esquecer a tensão...

A disputa entre os dois postulantes ao título era muito acirrada, com o alemão tirando tudo o que podia da sua Ferrari, que era nitidamente inferior a McLaren MP4/13 de Hakkinen. No sábado, Hakkinen que escolheu apertar o ritmo mais cedo durante a sessão de Classificação e melhorou seu tempo em dois segundos na comparação com a manhã. Schumacher respondeu depressa e melhorou o tempo da pole provisória do seu rival em quatro décimos. Os dois estavam em uma classe do própria. Hakkinen voltou a pista, mas na sua volta rápida, ele fez um primeiro setor muito ruim, mas apenas pouco mais de um centésimo mais lento que o tempo de Schumacher. Schumacher melhorou seu tempo em mais um décimo, provando que talvez a Goodyear tivesse o melhor pneu para a classificação. Na última tentativa de Hakkinen ele estava mais rápido no primeiro setor por uma margem clara e os chefes da equipe Ferrari seguraram a respiração deles, mas Hakkinen espalhou na sujeira da pista - a tentativa dele estava acabada faltando menos da metade do circuito. Schumacher já estava na pista para defender a pole dele. Contudo, ele voltou à garagem feliz ao saber ainda na pista que ele tinha conseguido a terceira pole dele consecutiva. O primeiro round da disputa do título pendeu a favor de Schumacher, mas ainda havia o domingo e uma longa corrida pela frente.

Grid:
1) M.Schumacher (Ferrari) - 1:36.393
2) Hakkinen (McLaren) - 1:36.471
3) Coulthard (McLaren) - 1:37.496
4) Irvine (Ferrari) - 1:38.197
5) Frentzen (Williams) - 1:38.272
6) Villeneuve (Williams) - 1:38.448
7) R.Schumacher (Jordan) - 1:38.461
8) Hill (Jordan) - 1:38.603
9) Wurz (Benetton) - 1:38.959
10) Fisichella (Benetton) - 1:39.080

Apesar da forte chuva que caiu na madrugada de domingo, o céu do dia primeiro de novembro de 1998 amanheceu com sol e uma temperatura agradável, para deleite dos mais de 148.000 espectadores que lotaram as dependências do circuito de Suzuka. Mesmo acostumado com decisões, o circuito japonês parecia tão ansioso como sempre e ninguém imaginava uma decisão polêmica como a de 1997, quando Schumacher jogou o carro em cima de Villeneuve, mas levou a pior. Em desvantagem no campeonato, o alemão só pensava em vencer e contar com a ajuda de Irvine, que tanto o auxiliou na corrida do ano anterior graças ao seu enorme conhecimento da pista. Durante o warm-up (lembram dele?), Schumacher foi o mais rápido, mas um fator que parecia insignificante ajudou a decidir o campeonato. Jarno Trulli teve o seu motor Peugeot quebrado e por isso teria que usar um motor velho na corrida.

Quando as luzes começaram a se acender, um piloto na décima quarta posição começou a abanar as mãos. Era Trulli! O italiano teve um problema no motor reserva do seu carro e abortou a largada. Quase imediatamente, os mecânicos de preto da McLaren voltaram para o grid para assistir os carros deles, equipados com pacotes de gelo seco para minimizar o aumento de calor no motor. Os mecânicos da Ferrari pareciam desprevenidos para a largada cancelada e para o que era incrível era que a única companhia de Schumacher no grid era de um comissário de corrida. Trulli, como diz as regras, se alinhou em último para a relargada. Quando ele ia para a posição 22 no grid, na frente, a Ferrari de Schumacher estava preparada para sair para a segunda volta de apresentação com a embreagem acionada, quando o carro imediatamente morreu. Era treze minutos além da décima terceira hora do dia. Mika Hakkinen observou depois: "Quando eu me sentei no grid, eu me sentia bem vendo meus meninos esfriando meu carro antes da segunda largada. Quando eu dei uma olhada, podia ver que a Ferrari não estava fazendo nada para Michael". Foi o anti-clímax! De repente, ainda na largada, o campeonato já parecia decidido.

Pela segunda vez, o grid estava sendo deixado pelos pilotos e incrivelmente, o pole Schumacher estava indo para o fim do grid para se unir a Trulli na parte de trás para a segunda largada. Na terceira tentativa, os carros saíram sem problemas e Hakkinen fez uma largada limpa a liderava na primeira curva, seguido por Irvine que fez uma grande largada, indo para a frente de Coulthard. Enquanto isso, na parte de trás do grid Michael Schumacher tinha conseguido quatro posições até que ele alcançasse a primeira curva. Cinco outros carros foram passados ao final da primeira volta e o colocou em 13º. Na volta 3, Schumacher estava à frente de um Fisichella complacente em um 8º lugar notável. À frente, Irvine estava se aproximando de Hakkinen e de repente a causa de Schumacher não parecia assim tão perdida. Ao término da volta 4 Schumacher estava se aproximando rapidamente do irmão dele e o Jordan estava fumando, mas continuava em 7º e estava apenas 12 segundos atrás do líder. Ralf, como todo mundo esperava, não ofereceu nenhuma resistência a Michael na Ferrari. Então, o piloto da Ferrari se encontrou com o seu velho rival Damon Hill.

Os dois tinham protagonizado batalhas épicas e, ao mesmo tempo, criado um enorme inimizade mútua. Para piorar, à frente de Hill vinha Jacques Villeneuve, que não tinha (e nunca perdoou...) a atitude de Schumacher no ano anterior. O alemão estava cercado de inimigos! Embora Suzuka seja um circuito fantástico para os pilotos, na realidade não oferece muitas oportunidades de ultrapassagem excluindo a aproximação para a chicane. Hill não estava sendo muito pressionado pois tinha o muito melhorado motor Mugen Honda que não parecia inferior ao motor Ferrari, principalmente em termos de aceleração. Schumacher estava preso, apesar de ser dois segundos por volta mais rápido que a Jordan de Hill. Schumacher ficou preso até a volta 13 quando Hill foi para os boxes para uma parada mais cedo. Ralf Schumacher admitiu que não gostou da atitude do seu companheiro de equipe e após a corrida, Michael não foi nada amistoso em seus comentários sobre a disputa com Hill...

Enquanto Hill estava nos boxes, Schumacher surpreendentemente passou de forma tranqüila Villeneuve no último momento, com pneus usados no hairpin e ainda passou por fora. De último no grid, Schumacher estava num incrível 3º lugar. Porém, a agressividade de Schumacher pagaria um preço. Ainda na volta 17, Schumacher fez sua primeira parada colocando um novo jogo de pneus e estava com pista livre e prontamente bateu a volta mais rápida por várias voltas em sucessão. Porém, os pneus Goodyears da Ferrari não estavam apreciando o trabalho extra e na volta 23 Schumacher escorregou na chicane em uma nuvem de fumaça de pneu, passando reto na chicane no processo. O carro parecia inseguro na freada do hairpin e o pneu dianteiro direito dele parecia muito desgastado. Na volta 30, um incidente que parecia insignificante mudou todo o panorama da corrida. Tora Takagi e Esteban Tuero vinham disputando com bastante empenho a gloriosa penúltima posição quando os dois se estranharam na chicane, deixando muitos destroços. Correndo em casa, Takagi chegou a mostrar o dedo médio para Tuero e partiu para cima do argentino, mas a corrida não foi interrompida.

Então, na volta 32, a toda velocidade na reta dos boxes, o pneu Goodyear traseiro direito de Schumacher se desintegrou, com escombros voando alto no ar. Schumacher lutou com o carro, mas a suspensão foi muito danificada e não havia nenhuma opção a não ser sair do circuito. Hakkinen era afinal o Campeão Mundial. Depois a Goodyear confirmou que o estouro do pneu foi causado pelo acidente na chicane. Era a última corrida da tradicional marca americana na F1...

Quando o chefe da McLaren Ron Dennis entrou no rádio para contar para Hakkinen que Schumacher estava fora, a reação do Finlandês foi bastante surpreendente - ele começou a assobiar e cantar enquanto ele dirigia: "Eu me sentia tão bem. Eu sabia que eu era o campeão e isso era o bastante. Mas eu não vou lhe contar o que eu estava cantando no carro. Isso seria muito embaraçoso!" A partir da saída de Schumacher, a corrida se tornou um passeio de Hakkinen em sua McLaren e ele recebeu a bandeirada para uma tranqüila vitória. Era a confirmação de um talento que foi chamado pela McLaren muito jovem, tentou da melhor forma possível substituir Senna dentro da McLaren num dos piores momentos da história da equipe, sofreu um sério acidente nesse meio tempo, mas finalmente tinha chegado ao olimpo. Hakkinen não podia ter virtuosismo de Schumacher, mas foi um dos grandes pilotos de sua era!

Chegada:
1) Hakkinen
2) Irvine
3) Coulthard
4) Hill
5) Frentzen
6) Villeneuve

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

5x Loeb


Por causa da enorme repercussão do Grande Prêmio do Brasil, ninguém deu muita bola sobre o que aconteceu sobre quatro rodas no resto do mundo. No entanto, no oriente a história estava sendo feita com o inédito pentacampeonato seguido do francês Sebastien Loeb. O francês da Citröen fez uma corrida à la Hamilton, só administrando a posição que deveria chegar para conquistar o seu quinto título. O terceiro lugar confirmou um dos maiores talentos do esporte a motor mundial e outra lenda do Mundial de Rally, mas há outros fatos a serem postos na mesa.

Claro que Loeb é um fenômeno, mas há coisas que facilitam a vida do francês. A primeira é o desprezo que a FIA dá ao espetacular Mundial de Rally. Conta a lenda que o WRC atingiu um nível de popularidade tão grande em 2003, que chegou a incomodar a F1 e isso causou calafrios na dupla Mosley & Ecclestone. Então, de uma hora para outra, Mosley passou a baixar medidas calamitosas para o esporte, o deixando com um número minguado de carros e pilotos. Hoje, apenas três (Citröen, Ford e Subaru) realmente disputam o campeonato e se não fosse pelas equipes satélites, poucos carros estariam na pista pelo mundo. O próprio calendário indica o pouco caso da FIA com o seu campeonato, ao marcar uma etapa decisiva do Mundial no mesmo dia em que o mundo inteiro estava de olho na emocionante decisão da F1. As mudanças nas regras fizeram verdadeias bandeiras do WRC aposentarem, como foi o caso de Carlos Sainz e Marcus Grönholm, e deixou Loeb sozinho para dominar o Mundial da forma como achar melhor. A jovem dupla da Ford (Mikko Hirvonen e Jari-Matti Latvala) é talentosa, mas inexperiente e ainda não está no nível de Loeb. O companheiro de equipe de Loeb, Daniel Sorno, tem o mesmo problema dos pilotos fordianos, fora que só anda verdadeiramente bem no asfalto. Sem contar com a sombra do próprio Loeb. A Subaru, a marca mais popular do Mundial, passa por uma crise técnica interminável e deixa Petter Solberg e Chris Atkinson brigando pelo lugar mais baixo no pódio. Quando hás quebras entre Ford e Citröen! Suzuki e Mitsubishi ainda estão no começo de um novo projeto e demorarão um bocado para se verem entre os líderes.

Mas como não tem nada com isso, Loeb fez um campeonato em que algumas vezes sofreu com o seu modelo C4, mas venceu dez etapas e não vê um adversário a sua altura num médio prazo, fazendo com que o hexacampeonato uma meta para lá de palpável. Chegando a ser lógico! Tomara que o quadro atual do WRC mude e no futuro podermos ver grandes marcas e pilotos disputando palmo a palmo quem vencerá a lenda Sebastien Loeb!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Figura (BRA): Alemães

Se Nick Heidfeld e Adrian Sutil não fizeram nada demais na última corrida do campeonato, Sebastian Vettel e Timo Glock quase decidiram o campeonato de 2008! Confirmando o seu enorme talento, Vettel largou nas primeiras filas, ultrapassou a cambaleante McLaren de um obscuro Kovalainen e andou no mesmo ritmo dos líderes. A pista ainda estava úmida, mas quando o asfalto secou, o alemãozinho da Toro Rosso foi ainda forte e atacou a poderosa Ferrari de Felipe Massa, que teve que andar no limite para se defender de Vettel. Com uma estratégia diferente, Vettel aparecia na quinta posição, logo atrás de Hamilton quando a chuva reapareceu em Interlagos. Mostrando o quanto é um candidato a gênio debaixo de chuva, Vettel deixou Hamilton para trás e nem de longe foi incomodado pelo inglês. Mas Vettel ainda estava em quinto. Aí entrou Glock. O alemão da Toyota, atual campeão da GP2, começou o ano mal e teve seu nome cogitado a sair da equipe japonesa, mas com uma ótima metade final de temporada, Glock passou a marcar pontos regularmente e em Interlagos, se transformou num dos principais nomes da corrida. Quando os primeiros pingos caíram no asfalto paulistano, a Toyota preferiu deixar seus pilotos na pista com pneus para piso seco. Era um risco, mas Glock, tendo superado seu experiente companheiro de equipe Trulli a tempos, estava em quarto. E andando bem! Mas a chuva aumentou e com ela trouxe Vettel e Hamilton nos calcanhares do alemão. Com os pneus acabados, Glock pouco pôde fazer para evitar a ultrapassagem do seu compatriota e, principalmente, de Hamilton, garantindo o título para o inglês na última curva. Claro que Vettel já pode se considerar uma estrela em ascenção e Glock será amaldiçoados pelas próximos gerações brasileiras, mas ambos deram uma demonstração que o legado Schumacher no automobilismo alemão foi forte.

Figurão (BRA): Finlandeses

Bem que os coadjuvantes que poderiam definir o campeonato para um lado ou para o outro poderiam ser os companheiros de equipe de Hamilton e Massa, mas Kimi Raikkonen e, principalmente, Heikki Kovalainen estiveram longe de ajudarem seus colegas de box e fizeram outro final de semana de doer. Raikkonen fez seu dever de casa ao se colocar entre Massa e Hamilton, mas fez uma corrida discretíssima e pelas altas expectativas que tinham sobre ele nesta corrida e em toda a temporada, a sua atuação no domingo deixou a desejar. Claramente batido pelo seu companheiro de equipe, Kovalainen só apareceu bem na largada, quando protegeu Hamilton na primeira curva. De resto, nada a destacar. O finlandês foi ultrapassado por Alonso e Vettel ainda na primeira volta e se ainda atacou Alonso, desapareceu após levar um xis do espanhol. Muito tempo na sexta posição, quase que como escudeiro de Hamilton, Kova assistiu de longe seu companheiro de equipe quase perder o título e se conformou com a sétima posição na corrida e a mesma no campeonato. Um desempenho pobre do finlandês, algo bem parecido com seu compatriota da equipe rival.

domingo, 2 de novembro de 2008

HISTÓRICO!!!!!!!!!


Se Alfred Hitchcock e Steven Spielberg se juntassem um dia e dissessem um para o outro "Vamos produzir um final de campeonato de F1?", talvez não conseguissem fazer o que aconteceu agora a pouco. Se qualquer um dos protagonistas vencessem o campeonato, a conquista seria histórica. Felipe Massa, por ter virado um campeonato tão impossível como no ano passado, na frente de sua público, que deu um colorido todo especial a esse final de campeonato. Hamilton, por ser o mais jovem piloto a ser Campeão Mundial e por confirmar um talento que já podia ter se consagrado ano passado. Mas a decisão desse ano foi ainda mais histórico pela forma como Hamilton conquistou o título. 'Sem palvras', disse o primeiro negro a conquistar a F1. E foi um final de campeonato que ficará marcado para sempre nos olhos de quem teve o prazer assistir uma das corridas mais dramáticas da história.

O drama começou ainda com os carros parados, esperando o início da volta de apresentação. Uma pancada de chuva inundou a pista. Quando todos corriam para pegar os pneus para chuva forte, o sol apareceu. O que fazer? Arriscar pneus slicks ou de chuva forte? Os dois postulantes ao título foram na via mais segura e colocaram pneus intermediários, assim como o resto do grid. A largada, atrasada em dez minutos, foi tranqüila, mas a segunda perna do S do Senna marcou a despedida de David Coulthard. Foi a síntese dessa sua última temporada, mas o escocês fez muito mais em sua carreira e falarei sobre isso outro dia. Nelsinho, 99% confirmado com a Renault, também abandonou a prova ao rodar sozinho e se juntou ao escocês como os únicos abandonos desta tarde.

Enquanto Massa disparava, Hamilton perdia seu escudeiro Kovalainen, que tão bem tinha lhe defendido na primeira curva, mas caiu frente aos talentos genuínos de Alonso e Vettel no final da reta oposta. Quando a pista secou de vez e os pilotos trocaram seus pneus, a corrida mudou de quadro e novos protagonistas. Massa ainda liderava, mas tinha Alonso e Vettel fungando no seu cangote. Fisichella, que tinha parado mais cedo, atrapalhava a vida de Hamilton, que estava no perigoso sexto lugar, posição que lhe tiraria o título pela segunda vez consecutiva. Após ultrapassar o italiano de forma agressiva, Hamilton passou a administrar a corrida. Coisa que Massa fazia faz tempo. Ambos faziam o que deviam fazer. Massa vencendo a corrida, Hamilton, administrando o campeonato. Então, a prova se tornou estranhamente monótona, sem disputas ou brigas por posição. A expetativa e a tensão estavam no ar, como se algo pudesse acontecer a qualquer momento. A perspectiva de chuva era crescente na medida em que a corrida se aproximava do final, e as nuvens negras no horizonte prometiam um clímax pouco visto na história da F1.

Como tinha acontecido em Spa, a chuva apareceu no seu finalzinho. Porém, a confusão foi menor. Todos os líderes entraram nos boxes, inclusive Massa e Hamilton. Mas havia um pequeno detalhe. Glock, que chegou a pressionar Hamilton em determinado momento da corrida, resolveu não parar. Hamilton estava no limite do campeonato, na quinta posição, mas tinha Vettel nos seus calcanhares. Faltando duas voltas, Kubica passou os dois e Vettel aproveitou a deixa para deixar Hamilton na ponta do abismo. O sexto lugar lhe tirava o título. Da mesma maneira como tinha acontecido em 2007. A torcida urrou como um gol. Como uma vitória... de Senna! Aquele título de Massa parecia com as inesquecíveis conquistas do eterno ídolo brasileiro. Hamilton tentava, mas Vettel se distanciava. "Come on, baby", gemia sua linda namorada. Mas tudo parecia perdido. No conforto do chão da sala da minha casa, já dizia o "O Massa é campeão!". Porém, havia outro detalhe. Glock, que chegou a ser o mais rápido na pista quando a chuva ainda era tímida, viu a chuva aumentar de intensidade. Enquanto Massa recebia a bandeirada, Hamilton via seu título escorrer por entre seus dedos enquanto mergulhava rumo a Junção. Então vi aquele carro branco e o capacete predominantemente vermelho. Era Glock! Que se arrastava na curva da Junção. Vettel já o tinha deixado para trás, enquanto Hamilton ultrapassou o alemão na última curva, ganhando um campeonato que parecia de Massa 500 metros antes.

Hamilton cruzou a linha de chegada em quinto, conquistando o campeonato e partindo centenas de corações, inclusive de Massa e toda sua família, que chorou muito junto com ele. O momento de sublime alegria virou momento de extrema decepção com as palavras cruéis de um mecânico ferrarista, que já tinha visto pela TV a dura realidade. A família Massa, tão preocupada em vibrar, tirou a atenção da tela da TV e não viu a cena que entrou para a história da F1. Hamilton não foi brilhante hoje e, como disse ontem, nem precisava. O inglês foi o inverso de 2007. Foi calmo nos momento mais complicados, principalmente quando foi ultrapassado por Vettel na penúltima volta. Ao invés de tentar uma manobra maluca, o piloto da McLaren apenas continuou pressionando e teve muito sangue frio ao deixar para trás Glock, de forma limpa, na última curva e conquistar o seu sonhado primeiro título. Que deverá ser o primeiro de muitos. Seus números na F1 impressionam pela precocidade e pela ferocidade com que vem sendo conquistados. Sem o enorme fardo de ter perdido o título como perdeu em 2007, Hamilton virá ainda mais forte em 2009. A McLaren, após dez anos de jejum, desde o título de Mika Hakkinen, que foi comemorado ontem, está ainda mais tranqüila com relação ao ano passado, pois venceu com um piloto nascido em sua manjedoura e afastou a hipotése de que venceria apenas se tivesse um piloto de fora, como foi o caso de Alonso. Se não tem um grande segundo piloto como provou hoje, mais uma vez, Heikki Kovalainen, tem um jovem campeão com um futuro brilhante pela frente.

Felipe Massa fez o que tinha que fazer. E o fez com enorme maestria. Da mesma forma que Hamilton teve a tranqüilidade para se livrar dos momentos mais complicados, Massa também foi sereno e forte quando a corrida podia ter saído das suas mãos. Seja quando choveu, tipo de piso em que conhecidamente não se dá bem, seja na forte pressão de Vettel ou na chuva no final, Massa tinha consciência de que tinha o melhor carro da pista e foi soberano numa pista que mudava de condições a cada pingo de água que caía sobre ela. A vitória de pouco lhe serviu, mas foi o final de campeonato que mostra o quanto Felipe ficou forte após tantas adversidades nesse ano. Após tudo o que passou, perder o campeonato na última curva pode não ser um fator tão determinante assim, mas o seu choro ainda com o capacete, sua emocionante entrevista coletiva e a forma como vibrou com a torcida, o colocou como um dos ídolos da torcida. Não antes, como queria Galvão Bueno...

A corrida teve como um dos principais coadjuvantes, um futuro protagonista. Sebastian Vettel dá mostras quase que mensais, o quanto é um piloto espetacular. No seco ou no molhado, o alemão foi um dos principais destaques dessa corrida e por muito pouco não definiu o campeonato. A sua ultrapassagem em Hamilton poderia ter dado o título a Massa, mas o destino não quis assim, mas o alemão conquistou outro ótimo resultado para sua equipe que, nunca devemos esquecer, era a Minardi a três anos atrás. Bourdais andou bem até ser jogado para fora por um destrambelhado Jarno Trulli no S do Senna. Ao colocar seu carro na grama molhada, o francês pareceu perder o melhor momento e acabou nas últimas posições. Como foi nessa sua primeira temporada, quando tudo parecia ir bem para Bourdais, algo acontece com ele!

Raikkonen fez o chamado dever de casa, chegando à frente de Hamilton, mas esteve longe de ser brilhante, um ano depois de sua consagração. Se não fosse por Vettel, o grande nome dessa corrida seria Fernando Alonso. O espanhol mostra que faz mesmo a diferença e fez uma corrida sensacional hoje, se colocando entre os Ferraris e conquistando mais um pódio nesse seu excepcional final de temporada. Praticamente fechado com a Renault, Alonso deverá ser um dos destaque no ano que vem e, quem sabe, brigando pelo título com os destaques de 2008. Piquet será seu companheiro de equipe, mas precisará de uma temporada bem melhor do que essa, se quiser permanecer na F1 por mais tempo. A Toyota mostrou sua evolução hoje e quase definiu o campeonato, mas a aposta de Glock acabou dando errado quando a chuva aumentou e foi ultrapassado por Hamilton na última curva. No entanto, dá para destacar o crescimento do alemão, superando seu experiente companheiro de equipe Trulli, que mais uma vez demonstra que é um grande piloto em treinos, mas muito irregular em ritmo de corrida. Barrichello, em sua provável última corrida, fez o feijão-com-arroz em seu péssimo carro e chegou no pelotão intermediário. Correndo com o capacete de Ingo Hoffmann, cujas cores imitou em seu início de carreira no kart, Barrichello bem que poderia ter finalizado sua carreira de uma forma bem mais digna.

Como deu para perceber, muitos fatores poderia ter definido o campeonato, como a ultrapassagem da cambaleante BMW de Robert Kubica no final da prova em Hamilton na penúltima volta. Ainda poderia ter acontecido muito mais nesse histórico Grande Prêmio do Brasil de 2008, mas tudo que se passou já entrou para a história da F1. Poucas vezes dá para perceber tão claramente que fizemos parte da história e hoje foi o caso. Não será preciso passar anos para vermos algo tão claro. Hamilton, em sua ultrapassagem consagradora sobre Glock, tirando o título de Felipe Massa na última curva. Simplesmente histórico!

sábado, 1 de novembro de 2008

Primeira parte completa


Pelo menos de sua parte, Felipe Massa está fazendo o que lhe convém. Uma tranqüila pole tendo em mãos o melhor carro da pista de Interlagos. Só para garantir, colocou pouco combustível no tanque de sua Ferrari. Porém, Felipe Massa não depende somente de si e mesmo vencendo a corrida amanhã, algo altamente provável, ele ainda depende de Hamilton. E o inglês está correndo, como se diz no futebol, com o regulamento debaixo do braço. Ao não ter o melhor carro, Lewis está fazendo o que pode, sem fazer grandes loucuras e largará amanhã em quarto. Se terminar assim, Hamilton seria campeão por apenas dois pontos.

Massa e o circuito de Interlagos tem uma conectividade que chama a atenção e hoje ficou comprovado com uma pole tranqüila, após dominar as demais partes da Classificação. A diferença para os demais indica que Felipe pode estar mais leve que os demais, na tentativa de garantir uma tranqüila primeira curva e a vitória na seqüência. Massa tem a corrida nas mãos e seu retrospecto correndo em casa indica isso. Muito festejado pela torcida e pela família (Galvão acha a esposa de Felipe muito séria, mas eu a acho muito antipática mesmo!), Felipe tem a faca e o queijo na mão. Mas para a corrida!

Com o mesmo motor que usou na vitória na China, Hamilton claramente se cuidou em toda a Classificação, nunca dando mais de uma volta rápida na Q1 e Q2. Um fato interessante era que em toda a oportunidade em que saía para a pista nas primeiras partes da Classificação, Hamilton fazia a volta mais rápida, sendo suplantado por Felipe momentos depois. Tendo Kovalainen logo atrás, Hamilton não deverá se preocupar muito com Trulli, que deve estar muito leve para amanhã. A única preocupação do inglês será Alonso, que largará logo atrás dele e deverá ser agressivo, na tentiva de fazer Hamilton errar. Porém, Hamilton tem a faca e o queijo na mão. Mas para o campeonato!

Nas despedidas, Barrichello andou acima do que sua Honda lhe permite, enquanto Coulthard bateu o ponto na Q2, mas sua câmera on-board chamou mais a atenção. Amanhã, se tudo correr nos conformes, Massa vencerá com sobras, mas o título só virá por alguma besteira de Hamilton ou da McLaren. A chuva pode aparecer e isso será ótimo para Hamilton, pois não é segredo de que Massa não anda bem nessas condições (apesar de Luciano Burti querer fechar os olhos para a realidade...). A corrida deverá ser tensa, mas apenas pela expectativa do que fará Hamilton. Até agora, Massa fez sua parte. Então, o que resta ao ferrarista é esperar!

Últimos preparativos

Acabou a poucos instantes o último treino livre para o decisivo Grande Prêmio do Brasil de 2008. Como diria aquela pessoa que tem a imcumbência de dar uma notícia a alguém, Felipe Massa tem uma má e outra boa notícia. A má, é que, pelos resultados, Kimi Raikkonen não parece muito interessado em ajudá-lo em conquistar o título, com o finlandês apenas em décimo segundo. A boa, é a ótima fase de Alonso, que acabou com o primeiro tempo após passar o treino inteiro nas últimas colocações. Se o resultado desse treino servisse para o Grid de amanhã, Hamilton teria que dividir a primeira curva com seu maior rival, tendo Felipe Massa logo atrás em quarto. Esse treino já trouxe resultados ilusórios em outras oportunidades durante o ano, mas parece que a McLaren está mais forte do que o esperado, mas confio numa ótima volta de Massa na Q3 e ainda acho que ele será o pole.