quarta-feira, 2 de novembro de 2011

AJ

Para alguns, ele foi um dos pilotos mais determinados, duros e agressivos que a F1 já viu. Para outros, ele era um ogro, mal-educado e intimidador, que só foi campeão por ter caído nas graças de Frank Williams no momento em que o chefe de equipe inglês tinha o melhor carro da época. De uma forma ou de outra, esses adjetivos caem bem para Alan Jones. Esse australiano de personalidade forte teve tudo na vida para ser um piloto de corridas, mas circunstâncias fizeram que Jones tivesse que lutar para realizar seu sonho e por isso ele se tornou um verdadeiro guerreiro nas pistas, pois para conquistar seus objetivos, ele não poderia medir esforços. Através das dificuldades, Alan Jones nunca desistiu e chegou ao estrelato de forma tardia e curta, mas deixou sua marca na F1. Completando 65 anos no dia de hoje, vamos conhecer um pouco mais deste australiano casca grossa.

Alan Stanley Jones nasceu no dia 2 de novembro de 1946 em Melbourne e as corridas sempre tiveram ao alcance do pequeno australiano. Seu pai, Stan Jones, era um próspero concessionário de carros e muitas vezes participava de algumas corridas importantes. Na década de 50 Stan conseguiu seu auge ao vencer o Grande Prêmio da Austrália de 1959, derrotando na ocasião os melhores pilotos da Europa e seu grande rival na época, Jack Brabham. Ferrari e BRM tentaram contratar o australiano, mas Stan Jones resolveu ficar em sua terra natal para cuidar dos seus negócios e de sua família. Desde jovem vendo o pai correr, não foi surpresa Alan começar a querer correr e no momento em que seu pai chegava ao auge em 1959, Alan Jones conquistava o bicampeonato de kart do estado de Victoria e começava a dirigir os carros de corrida do pai, quando a família Jones sofreu um enorme baque. Uma grande recessão na Austrália sacudiu a economia local e Stan Jones foi à falência durante a década de 60. Alan Jones ainda corria em corridas de turismo, algo em que ele iria se especializar mais tarde, e em 1967 ele vai pela primeira vez à Inglaterra, onde decide se tornar um piloto de corridas. Mesmo que para isso ele tivesse que fazer grandes sacrifícios.

Sem apoio financeiro e recém-casado, Alan Jones chegou à Londres em 1970 decidido a fazer carreira de piloto, mas sem apoio, o australiano só consegue comprar um F-Ford usado, onde começa a correr na Inglaterra. Para se sustentar (e também sustentar as corridas...), Jones compra carros usados, faz algumas modificações e os vende por um preço um pouco melhor, algo que seria bastante utilizado por Nelson Piquet, um dos seus maiores rivais, quase dez anos mais tarde. Sem foco nas corridas e com pouco dinheiro para investir, Jones não conseguia os resultados esperados e para piorar, ele quebra a perna em Brands Hatch, testando o seu F3. A partir de 1973, quando é contratado pela GRD, Jones consegue seus primeiros sucessos, mas foi nesse mesmo ano em que ele perdeu o pai, vítima de um infarto. Conta a lenda que a coroa de flores jogado no túmulo de Stan Jones fora ganho por Alan dias antes, após uma vitória em Silverstone. Mesmo perdendo o título para Tony Brise, a carreira de Alan Jones começava a evoluir e em 1974 ele faria uma temporada completa na F-Atlantic, uma categoria intermediária entre a F3 e a F2. Jones obtém sucesso e chama a atenção do seu chefe de equipe, que consegue comprar um chassi usado da Hesketh de F1 e o australiano faz sua estréia na categoria que sempre sonhou durante o tumultuado Grande Prêmio da Espanha de 1975. Jones foi um dos muitos que se acidentaram naquele dia triste da F1, marcado pelo acidente de Rolf Stommelen, que matou mais de cinco fotógrafos. O alemão ficou o resto da temporada de fora e Jones foi chamado para substituí-lo na equipe Hill, de propriedade de Graham. Jones teria como companheiro de equipe seu velho rival Tony Brise, que já era considerado um dos pilotos mais promissores da época, mas que acabaria morrendo no final do ano em um acidente de avião que matou Graham Hill e sua equipe. Jones faz ótimas corridas, culminando com um quinto lugar em Nürburgring, mas como a equipe Hill tinha dificuldades financeiras, o australiano foi trocado por um piloto-pagante, mas essa exibição chama a atenção de outro ex-campeão mundial, John Surtees, que o contrata para 1976.

Surtees era conhecido por seu um chefe de equipe irascível, que muitas vezes brigava com seus pilotos por não serem tão bons quanto ele fora como piloto. De personalidade muito forte, não demorou para Jones entrar em rota de colisão com o chefe de equipe, mas isso não impediu algumas boas corridas, como o quarto lugar na última corrida da temporada, no Japão. Cansado da teimosia de Surtees, Alan Jones saiu do time no final do ano e sem muito espaço na F1, o australiano já estava de malas feitas para ir aos Estados Unidos para correr na Can-Am quando uma tragédia o fez voltar a F1. Durante o Grande Prêmio da África do Sul de 1977, Tom Pryce sofre um dos acidentes mais bizarros da história da F1 e morre, deixando a Shadow órfão de um piloto que não apenas fizesse seu trabalho dentro da pista, mas que fosse também um líder fora dela. Mesmo sem muita experiência, Jones é chamado para substituir Pryce e fazia uma boa temporada, culminando no Grande Prêmio da Áustria. A região de Zeltweg era conhecida pela sua instabilidade climática e a chuva se fez presente durante a corrida, mas o sol também deu as caras, fazendo daquela corrida uma verdadeira loteria. Com os pneus certos na hora certa, Jones venceu sua primeira corrida, recebendo a bandeirada na frente da Ferrari de Niki Lauda. Com outro pódio em Monza, Jones impressiona a Ferrari, que o sonda para o lugar de Lauda em 1978. Era praticamente a mesma proposta feita ao seu pai vinte anos antes, mas Gilles Villeneuve foi escolhido pelos italianos e como a Shadow também já sofria com problemas financeiros, Jones novamente se via sem alternativa para o futuro na F1, quando surge no seu horizonte Frank Williams.

Até meados da década de 70, a Williams era uma equipe mambembe e os esforços de Frank em manter sua equipe de forma digna na F1 eram admiráveis, mas não vinha dando resultados. Porém, no final de 1977 Frank consegue um valioso contrato de patrocínio com árabes e a Williams teria verba necessária para fazer uma boa temporada. Alan Jones se interessa pelo projeto da equipe e entra de cabeça na Williams em 1978, mas nem Frank, muito menos Jones esperavam pelo carro-asa da Lotus de Colin Chapman. Assim como as demais equipes, a Williams se torna obsoleta de uma hora para outra, mas Jones mantém sua fé na equipe e consegue bons resultados ao longo do ano, culminando com um ótimo segundo lugar em Watkins Glen, na última corrida da temporada. A Williams crescia de tal forma que, segundo consta, Frank Williams teria oferecido um cheque em branco para ter Emerson Fittipaldi na sua equipe e agora tinha orçamento suficiente para ter um segundo carro, para o veterano Clay Regazzoni, em 1979. Contudo, graças a fidelidade de Jones no ano anterior, AJ, como era conhecido na Williams, permanece como primeiro piloto. Até a metade do ano, a Williams vinha fazendo uma temporada parecida com a de 1978, mas Jones consegue sua primeira pole de forma surpreendente em Silverstone. O australiano lidera boa parte da corrida, mas abandona com problemas mecânicos. Porém, a Williams mostra a sua força e Regazzoni dá a primeira vitória da equipe na Inglaterra, para delírio de Frank Williams. Como num passe de mágica, a Williams passa a largar na primeira fila em todas as corridas até o final de ano e Jones finalmente venceria pela primeira vez com a Williams na corrida seguinte, na Alemanha. Na verdade, se não fosse a primeira metade do ano absolutamente discreta de Jones, o australiano brigaria pelo título de 1979, pois o piloto da Williams vence quatro das últimas seis corridas da temporada, finalizando o campeonato em terceiro lugar. Em menos de seis meses, Alan Jones se torna uma das estrelas da F1.

Jones inicia 1980 como um dos favoritos ao título e corrobora com isso com uma vitória sensacional na Argentina, primeira etapa do ano, quando teve que fazer uma parada não programada nos boxes quando liderava, caiu para quarto e em apenas dez voltas estava novamente na liderança. Porém, ainda na terceira corrida da temporada, em Long Beach, seu maior rival da temporada vence pela primeira vez: Nelson Piquet. O brasileiro havia estreado na F1 em meados de 1978 e fazia sua segunda temporada completa em 1980 e logo de cara ameaçava a soberania da Williams com seu belo Brabham branco e azul. As equipes tradicionais, como Ferrari e Lotus, estavam em má fase, enquanto Williams e Brabham, Jones e Piquet, brigavam pelo título. Com mais duas vitórias durante o ano, Alan Jones desembarcou em Montreal, penúltima etapa do ano, como favorito destacado ao título, precisando apenas de uma vitória para se sagrar campeão. Piquet ainda estava forte na briga e consegue a pole, mas um ameaçador Jones fica ao seu lado na primeira fila. O australiano aparece no domingo com um intimidador macacão verde escuro, quase negro, enquanto Piquet parecia nervoso antes da largada. A primeira curva seria decisiva e naquela época, Montreal tinha uma primeira curva rápida e até mesmo perigosa. Numa cena que nunca foi mostrada, Jones e Piquet chegaram lado a lado na primeira curva e como ninguém aliviou, Jones toca em Piquet e o brasileiro acaba se dando mal, batendo no guard-rail e destruindo seu carro. Porém, como vários outros carros bateram, a corrida foi interrompida e Piquet correu para seu carro reserva. O problema era que o chefe de mecânicos se esqueceu de trocar o motor, específico na ocasião, para treinos e portanto, mais potente e menos durável. Sem tempo hábil, Piquet largaria com esse conjunto e rezar para o melhor. Sabendo disso, Jones deixou o brasileiro desaparecer na frente e esperou, esperou... na volta 23, Piquet encostou seu carro com o motor quebrado quando liderava e Jones venceria não apenas essa corrida, como também seu primeiro e único campeonato, se tornando o segundo australiano a ser Campeão Mundial de F1.

Jones ainda venceria a última corrida de 1980 e uma prova extra-campeonato na Austrália, repetindo o feito do seu pai 21 anos antes. Novamente o australiano iniciava o campeonato como favorito em 1981, mas uma série de problemas e fatos destruiria o sonho do bicampeonato de Jones. O companheiro de equipe de Alan era o veterano argentino Carlos Reutemann, há muitos anos perseguindo seu título mundial. Reutemann havia sido um segundo piloto fiel a não deu trabalho a Jones em 1980, mas em 1981 tudo seria bem diferente. Após comboiar o australiano em Long Beach, onde Jones venceu, Reutemann liderava com folga o Grande Prêmio do Brasil, realizado debaixo de muita chuva. Então, a Williams mostrou uma placa “JONES-REUT”, mostrando claramente que queria Jones vencendo aquela prova. Vendo essa placa, Jones se acomodou e esperava apenas que Reutemann lhe cedesse a posição. O tempo passou, a corrida foi chegando ao fim e nada de Reutemann deixar Jones passar. Quando o argentino recebe a bandeirada, aquela temporada começava a ser definida. Jones fica furioso com Reutemann a ponto de não subir ao pódio, enquanto a Williams, desrespeitada por Reutemann, também não fica nada satisfeita com a atitude do argentino, mas enquanto Reutemann conseguia manter o ritmo durante o ano, Jones tem vários problemas. Durante o Grande Prêmio da Bélgica, Jones joga Piquet novamente para fora da pista e é chamado pelo brasileiro de ‘a besta da F1’. Mal sabia Piquet que Jones seria seu grande aliado no final do ano. Em Hockenheim, Jones protagoniza uma luta de tirar o fôlego com Alain Prost, que depois chamaria Jones de impetuoso, para não dizer violento! Mesmo sem estar na briga pelo título, Jones ainda tinha a admiração de Frank Williams e Patrick Head e no final de 1981 anuncia que abandonaria a F1 no final da temporada. E por isso, queria a vitória na última corrida do ano, em Las Vegas. Carlos Reutemann tinha apenas um ponto de vantagem sobre Piquet quando a F1 chegou aos Estados Unidos e Jones (e a própria Williams...) não estava muito preocupado em ajudar Reutemann a ser campeão. Num ato de desespero, Reutemann chegar a pedir desculpas a Jones na véspera da corrida, no qual Jones manda ele tomar no rabo. E Reutemann tomou mesmo. Apesar de largar na pole, o argentino fez uma corrida totalmente apática, enquanto Jones partia impávido rumo a sua última vitória na F1.

A Williams fez uma enorme festa para Jones, não se importando muito que Reutemann tenha perdido o campeonato por apenas um ponto. A rivalidade entre Jones e Reutemann era de tal, que Jones disse que o maior prazer que ele teve em 1981 foi ter colocado uma volta em Reutemann na corrida final em Las Vegas. Depois de mais de dez anos na Inglaterra, Jones retornava a sua amada Austrália e as corridas de turismo, onde com um Porsche 935 vence o Campeonato Australiano de GT em 1982. Porém, Jones ainda se sente atraído pela F1 e faz uma corrida solitária em Long Beach, onde abandona após poucas voltas. Alan sempre fora um piloto rechonchudo, mas sua forma física parecia cada vez pior e o australiano estava totalmente fora de forma nos Estados Unidos. Em 1984 Jones participa das 24 Horas de Le Mans e chega em sexto, sendo contratado pela Alfa Romeo no ano seguinte. Porém, o australiano é atraído pelo projeto de Carl Hass de ter uma equipe americana na F1 e ainda em 1985 participa de algumas corridas como laboratório. Ao lado do também veterano Patrick Tambay, Alan Jones faz sua última temporada de F1 em 1986 com a equipe Lola-Hass, mas o time tem uma temporada bastante irregular, com várias quebras e não raras vezes, largando nas últimas posições. Jones ainda mostra alguma força ao marcar um quarto lugar em Zeltweg, mas sua forma física precária não o ajudava a fazer boas corridas e no final do ano Alan Jones deixava definitivamente a F1, com um total de 116 corridas, 12 vitórias, 6 poles, 13 melhores voltas, 24 pódios, 203 pontos e o título mundial de 1980.

Após essa sua segunda passagem na F1, Jones se tornou chefe de equipe do tradicional Campeonato Australiano de Turismo, participando eventualmente de algumas corridas, principalmente da Bathurst 1000, a principal corrida australiana. Jones correu até 2002, mas tentou participar da malfadada GP Masters, em 2005, mas sua forma física cada vez maior o impediu de participar da corrida inaugural em Kyalami. Jones permaneceu junto a F1 sendo comentarista da TV australiana, além de ter ajudado seu filho Christian a ter sucesso na F1, algo que não conseguiu. Desde 2010, é convidado pela FIA a ajudar os comissários a tomar decisões em punir os pilotos por atitudes anti-desportivas dentro das pistas. Algo que Jones entende bem. O australiano foi muitas vezes julgado de ser agressivo demais e suas entrevistas ácidas também entraram para a história. Assim como é dentro da pista, Jones também era agressivo fora delas e conta a lenda que ele correu o Grande Prêmio da Itália de 1980 com a mão quebrada após uma briga num bar em Londres. Outra diz que Jones sempre corria com a mesma cueca vermelha para dar sorte. De qualquer forma, mesmo não sendo um dos pilotos mais brilhantes que a F1 já viu, Alan Jones entrou para a história pelo seu comportamento, principalmente frente ao rival histórico Carlos Reutemann, e pela fidelidade a Williams, onde até hoje é lembrado com muito carinho por Frank e Patrick Head.

Parabéns!
Alan Jones

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Figura(IND): Vijay Mallya

Ele não pilotou neste domingo e sua equipe nem ao menos chegou ao pódio, conseguindo apenas um oitavo lugar, mas Vijay Mallya foi o grande vencedor deste Grande Prêmio da Índia por ter realizado seu sonho, praticamente impossível se voltarmos dez anos, de ter uma corrida em sua pátria natal. Mesmo sua equipe não conseguindo grande destaque, a corrida em Nova Dehli teve um bom público, dois pilotos hindus (sendo que nenhum na Force India) e uma pista bastante apreciada por todos os pilotos. De dirigente aventureiro, como muitos chegaram a afirmar, Vijay Mallya conseguiu um bom espaço na F1 com uma equipe consistente e agora colocando seu país, sem muita tradição no automobilismo, no restrito calendário da F1.

Figurão(IND): Mark Webber

Não falta gente que associa o enorme sucesso de Sebastian Vettel unicamente ao grande carro projetado (mais um...) por Adryan Newey na Red Bull. Porém, mesmo com o melhor bólido do plantel, esse domínio vetteliano não se deve unicamente ao carro e a melhor razão disso é o desempenho de Mark Webber ao longo do ano e que exemplificado de forma perfeita na Índia. Antes da corrida em Nova Dehli, a Red Bull falou que ajudaria Webber a ficar com o vice-campeonato para que a temporada fosse completa e o próprio Vettel disse que não se importaria em ceder uma vitória para que Webber conseguisse o objetivo da equipe. O australiano não gostou, disse que não precisava. 'Deixa comigo!", deve ter dito Webber. Porém, Webber não se deixou ajudar com mais um final de semana totalmente eclipsado por Vettel, que conseguiu seu primeiro Grand Chelen na F1 (vitória, pole, melhor volta e todas as voltas lideradas), enquanto Webber, com o mesmo carro, tomou sete décimos no sábado e nem chegou ao pódio no domingo, ficando num quarto lugar melancólico, ficando atrás dos seus principais rivais pelo vice, Button e Alonso. Se continuar assim, Webber passará por um mico histórico, de não ter vencido uma única prova enquanto seu companheiro de equipe faz história com recordes em cima de recordes nessa mesmo temporada.

domingo, 30 de outubro de 2011

Chatice das Índias

Foi uma corrida chatinha a deste domingo. A má vontade pelo horário (06:30) e ter visto o Ceará perder mais uma vez no estádio não contribuiram muito para meu estado de ânimo. Nem o belo circuito, cheio de altos e baixos, curvas lentas e rápidas e retas longas fizeram do primeiro Grande Prêmio da Índia uma prova emocionante ou com lances chamativos. Por sinal, o momento mais emocionante da corrida foi mais entrevero entre Felipe Massa e Lewis Hamilton, onde não deveria ter havido nenhuma punição, mas acabou atrapalhando Hamilton e desestabilizando Massa, a ponto do ferrarista ter repetido o erro de sábado e estourado a suspensão numa zebra mal feita. Vitória? Sebastian Vettel, de ponta a ponta, sem dar chances a senhor ninguém, enquanto Button define a cada dia que passa seu merecido vice-campeonato em outra corrida que só não foi melhor do que Vettel.

Antes da corrida, a F1 prestou suas homenagens a Dan Wheldon e Marco Simoncelli, mostrando o luto do esporte a motor nesse momento de tanta dor, não importando a categoria. Mas quando as cinco luzes vermelhas se apagaram, a corrida teve um roteiro em que Vettel não foi ameaçado por ninguém, enquanto Button costurava uma segunda posição também solitária. Eles foram os donos da corrida, assim como foram os melhores do campeonato, em especial Vettel. Mesmo com um domínio parecido com o de Schumacher em 2002 e 2004, Sebastian Vettel não permite uma F1 tão asséptica e chata como naqueles anos vermelhos. Ao contrário. A alegria contagiante deste alemão, que vai derrubando um a um os recordes da F1, faz de cada vitória da Red Bull algo até engraçado muitas vezes, como a procura de Vettel de fazer o hat-trick e sua equipe pedindo quase que pelo amor de Deus para que ele parasse de fazer melhores voltas no final! No entanto, o carro da Red Bull não é assim tão superior aos demais pelas atuações de Mark Webber. Com os títulos de pilotos e construtores na mão, a Red Bull já anunciou que quer Webber como vice, inclusive com ordens de equipe, mas o australiano não ajuda e não ficou nem no pódio, perdendo o terceiro lugar para Alonso. Em quarto lugar no mundial, Webber deverá ficar com o mico do ano.

Jenson Button fez uma prova até mesmo discreta hoje, mas nem por isso o inglês decepcionou. Button ultrapassou Alonso na primeira curva e Webber na reta oposta, ficando na segunda posição até o final da corrida. Simples assim. Mas Button merece o vice-campeonato que está indo para suas mãos. Já Lewis Hamilton parece estar com um ímã para confusões e ainda mais com Felipe Massa. O inglês foi rápido no sábado, mas não largou muito bem e quando parecia pronto para ultrapassar o brasileiro, em mais uma das várias vezes em que se encontraram nesse ano, a manobra não acabou bem. Após não conseguir a ultrapassagem nas longas retas, Hamilton tentou passar na freada de uma curva à esquerda e Massa, mesmo tendo o inglês ao seu lado, não deu espaço e o toque foi inevitável, com Hamilton quebrando o bico e estragando sua corrida, terminando-a atrás das Mercedes. Já Massa recebeu um discutível drive-through e se perdeu definitivamente. Após sentir um problema no carro e trocar asa dianteira, Massa quebrou a suspensão novamente ao bater numa zebra mais alta. Um erro que ele havia cometido no sábado, mas talvez nervoso com sua situação tanto na Ferrari, como na corrida, o brasileiro cometeu o mesmo erro duas vezes. Com raiva, provavelmente de si mesmo, ele nem falou aos jornalistas, mas falar o que nesta hora? Alonso mais uma vez andou mais do que os recursos que dispõem e conseguiu mais um pódio, se consolidando no terceiro lugar do campeonato, à frente do melhor equipado Webber. Alonso ainda mostra suas magias e isso deve incomodar ainda mais Massa, mas para o espanhol, já serão cinco anos sem título, algo que também deve causar urticárias aos asturiano!

Com longas retas, a Mercedes fez outra boa corrida, correndo como uma solitária quarta força do campeonato, restando aos seus dois pilotos saber quem será chegará na frente na bandeirada. E desta vez foi Schumacher, que largou atrás de Rosberg, mas retardou ao máximo sua parada e foi rápido o suficiente para tomar a posição do companheiro de equipe (que teve uma parada lenta...) e sair na frente após a segunda parada. Schumacher ainda não está no nível de antes da aposentadoria e provavelmente nunca chegará lá, mas já está dando trabalho a Rosberg. Nas demais posições, Jaime Alguersuari fez uma prova sólida e provando o crescimento da Toro Rosso, foi o melhor destacadamente das equipes médias. Com uma vaga da equipe teoricamente em aberto, o desespero de Buemi com o motor quebrado mostra claramente que Alguersuari hoje está num melhor momento. Correndo em ‘casa’ a Force Índia marcou seus pontinhos com Sutil, mas Di Resta esteve longe de brigar com seu companheiro de equipe e por pontos. Sergio Pérez saiu da 20º posição no grid para 10º na bandeirada e salvou um ponto para a Sauber, que deverá ser ultrapassada pela Toro Rosso, mas o novato mexicano mostra bem uma maturidade impressionante, principalmente em ritmo de corrida. Kobayashi abandonou na primeira volta, não sendo claro o porquê. A Renault ficou na bica de marcar pontos, mas Petrov e Senna, este andando boa parte da corrida em nono, mostraram bem o declínio da equipe anglo-francesa e a presença do presidente da Renault, Carlos Gosh, no box da Red Bull mostra bem quem a montadora está apoiando agora. A Williams continuou seu sofrimento habitual, com Barrichello batendo em Maldonado na largada e estragando sua corrida, enquanto venezuelano abandonou quando brigava com Senna. A Williams tem a simpatia de muitas, talvez tendo a segunda ou terceira maior torcida da F1 em termos de equipe, mas o time precisa de mudanças da água para o vinho em 2012. Entre as novatas, Kovalainen andou novamente entre as equipes médias, denotando uma evolução da Lotus, enquanto Narian Karthikeyan, provavelmente em sua última corrida na F1, usou o fator casa para superar Daniel Ricciardo.

O circuito de Buddh, que agradou a todos, mostrou que mesmo em retas longas e uma asa móvel, pode fazer com que a corrida seja emocionante. A prova de hoje foi espaçada entre os líderes e as poucas ultrapassagens ocorreram no pelotão intermediário, mas Vettel não tinha nada com isso. Décima primeira vitória no ano e vigésima primeira na carreira. Este alemão de Heppenheim entra cada dia mais na história da F1.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

História: 25 anos do Grande Prêmio da Austrália de 1986

A temporada de 1986 já havia sido histórica, mas o campeonato ainda não estava definido num dos certames com o nível técnico mais altos da história da F1. A verdade era que três pilotos tinham chances matemáticas de voarem de volta de Adelaide com o título debaixo do braço. Nigel Mansell era apenas o segundo piloto de Piquet quando 1986 se iniciou, mas o inglês surpreendeu a todos com uma pilotagem agressiva, mas ao mesmo tempo dominadora com seu Williams e Nigel era o grande favorito ao título com 70 pontos, seis de vantagem sobre seus concorrentes. Com a Williams tendo feito um bom final de ano em 1985, o novo contratado Nelson Piquet era um dos favoritos e abriu o campeonato com uma vitória, mas o brasileiro não contava (e ninguém contava...) com o desabrochar de Nigel Mansell e além disso teve um campeonato irregular, tendo vitórias dominadoras, como também atuações bem abaixo do nível altíssimo imposto por Mansell. Alain Prost ainda tentava o bicampeonato, mas o francês sabia de sua inferioridade técnica e sque sua única chance era se Piquet e Mansell, que já não se bicavam há tempos, começassem a correr forte um contra o outro.

O clima não estava perfeito nos treinos, com a chuva aparecendo em determinados momentos, mas com pista seca Mansell se recuperou de sua pífia corrida no México e consegue uma bela pole-position, mesmo tendo batido seu carro, superando seu grande rival Nelson Piquet por uma margem mínima. O clima tenso começaria cedo entre os pilotos da Williams, com ambos tendo que dividir a primeira fila e, provavelmente, a primeira curva. Como sempre ocorria, Senna se metia entre os grandes e ficou em terceiro, à frente de Prost, que por sua vez ficou quase 1s atrás das Williams, demonstrando bem o quanto sua McLaren era inferior naqueles dias aos Williams. Seu companheiro de equipe, Keke Rosberg, vencedor desta corrida em 1985 e que se aposentaria em Adelaide, já tinha sido avisado que ele faria tudo para ajudar Prost. O finlandês seria parte essencial da corrida...

Grid:
1) Mansell(Williams) – 1:18.403
2) Piquet(Williams) – 1:18.714
3) Senna(Lotus) – 1:18.906
4) Prost(McLaren) – 1:19.654
5) Arnoux(Ligier) – 1:19.976
6) Berger(Benetton) – 1:20.554
7) Rosberg(McLaren) – 1:20.778
8) Alliot(Ligier) – 1:20.981
9) Alboreto(Ferrari) – 1:21.709
10) Streiff(Tyrrell) – 1:21.720

O dia 24 de outubro de 1986 estava nublado e havia até mesmo a expectativa de chuva em Adelaide para a última corrida do campeonato. Enquanto Mansell era político em suas declarações, Piquet falava sobre sua estratégia. “Espero que Mansell bata em Prost e deixem a corrida para mim...” Prost apenas observava ansioso para que os pilotos da Williams lhe dessem alguma brecha e assim ele conquistasse o bicampeonato. Após a vitória de Berger no México baseado unicamente na estratégia de não parar para colocar novos pneus Pirelli durante a corrida, a Goodyear resolveu arriscar e dar uma resposta ao rival. Os americanos chegaram à Austrália dizendo que haviam desenvolvido um pneu que duraria toda a corrida e que nenhum piloto precisaria parar fazer um pit-stop. Isso teria implicações diretas no campeonato. Se Mansell ‘esqueceu’ de largar na Cidade do México, desta vez o inglês saiu bem quando a luz verde acendeu, mas Senna largou ainda melhor e facilmente deixou Piquet para trás. Senna ainda tentou passar Mansell, mas o inglês se segurou e fez Senna fazer uma manobra acrobática atrás da Williams para manter seu carro em linha reta. Mais atrás, Alboreto batia ainda no grid de largada e encerrava seu dia após apenas alguns metros, enquanto a Ferrari via seu principal piloto encerrar o campeonato de forma patética.

Após a manobra de Mansell ainda antes da primeira curva, a pergunta era se o inglês forçaria uma briga com Senna, um mero franco atirador, para se manter na ponta. A resposta viria ainda na segunda curva, quando Senna ultrapassou Mansell praticamente sem briga, algo bastante incomum no currículo de ambos. Largando em sétimo, Rosberg já fustigava Piquet na briga pelo terceiro lugar, mas de forma até estranha, Mansell deixa Piquet e Rosberg passarem em apenas duas curvas. O Leão estaria com problemas? Nada disso! Nigel Mansell só precisava de um terceiro lugar para ser campeão e fazia naquele início de corrida uma prova tática e bastante cautelosa, ficando à frente de Prost. Quando os carros chegaram na reta Brabham, Piquet traciona melhor do que Senna e coloca seu Williams ao lado da Lotus. Os dois brasileiros aceleraram por toda a longa reta lado a lado e quando Piquet obteve uma pequena vantagem, cruzou na frente de Senna para ficar com o lado de dentro da curva e assumir a primeira posição. Em apenas uma volta, três líderes diferentes! Naquele momento, Nelson Piquet conquistaria o tricampeonato, mas era uma corrida de 82 voltas e muita coisa aconteceria naquelas duas horas subsequentes.

Ainda na segunda volta Rosberg ultrapassa Senna e parte para cima de Piquet, com ambos abrindo uma grande diferença para os demais. Para Piquet, apenas a vitória interessava, enquanto Rosberg claramente tentava finalizar sua carreira com uma boa corrida e tentar ajudar Prost. O conto de fadas de Senna, como normalmente ocorria, acabou na volta seis quando foi ultrapassado por Mansell e Prost. Senna já tinha feito demais ao brigar pela vitória em várias corridas naquele ano com a Lotus e o brasileiro abandonaria na metade da corrida num solitário sexto lugar. Porém, o fato mais importante aconteceria uma volta mais tarde, quando Rosberg ultrapassa Piquet de forma agressiva na reta dos boxes, assumindo a liderança e abrindo para o piloto da Williams. O finlandês se torna o piloto mais rápido da pista e abre para Piquet. Rosberg era claramente o ‘coelho’ da McLaren, sumindo na frente, tentando fazer com que os pilotos da Williams o seguissem e errassem. Porém, tanto Mansell, como Piquet faziam uma bela corrida e não caíram na armadilha da McLaren. Percebendo isso, Prost aumenta seu ritmo e após ultrapassar Mansell, começa a descontar a diferença para Piquet. Quando Prost já tinha Piquet em sua alça de mira, o brasileiro comete um incaracterístico erro e roda na frente do francês. Piquet volta à corrida colado em Mansell, mas o inglês teria sua vida ainda mais facilitada oito voltas depois.

Numa cena que não foi mostrada pela TV, Prost entra nos boxes na volta 31 com um pneu dianteiro direito furado. Para sorte do piloto da McLaren, o furo ocorreu a poucos metros da entrada dos boxes. Com seus principais adversários tendo problemas ainda antes da metade da corrida, tudo levava a crer que o título caminharia facilmente para as mãos de Mansell. Ninguém, naquele momento, acreditava que algo diferente de Mansell campeão aconteceria. Mesmo Piquet ultrapassando Mansell na volta 44 e Prost, o mais rápido da pista, se aproximando, Mansell só precisava manter-se na corrida que o título era praticamente seu. Porém, aquela não seria uma corrida normal e uma das maiores reviravoltas da história da F1 aconteceria nas voltas finais daquela decisão.

Quando ninguém mais lembrava que Rosberg liderava a corrida com boa vantagem, o piloto da McLaren apareceu nas câmeras da TV na volta 62 com um pneu traseiro direito dechapado, abandonando a corrida ali mesmo. Será que a história da Goodyear em cobrir toda a corrida com mesmo set de pneus era verdadeiro? A resposta seria dada na volta seguinte, quando após ser ultrapassado por Prost, Mansell foi protagonista de uma das cenas mais conhecidas da história da F1. No meio da reta Brabham, o pneu traseiro esquerdo da Williams número 5 estourou de forma espetacular sem o menor aviso e Mansell usou toda a sua habilidade em manter seu carro no controle, mas os danos eram demais para o inglês e a sua corrida estava acabada. Ainda havia esperanças para Mansell. Alarmados com seguidos estouros de pneus, os técnicos da Goodyear clamavam a todas as suas equipes clientes que chamassem seus pilotos para trocar os pneus. Meio reticente, mas com pneus muitos desgastados e muita vibração, Nelson Piquet entrou nos boxes para colocar pneus novos. E quanto a Prost? Tendo trocado seus pneus mais cedo por causa de um furo, o francês resolve ficar na pista e com Piquet não podendo forçar demais, por causa do combustível, Prost recebeu a bandeirada com apenas 4,2s de vantagem sobre Piquet, conquistando o bicampeonato de forma espetacular. “É inacreditável, eu sabia que o título era possível e eu sempre estive confiante. Eu também sabia que eu precisava de sorte e eu tive muito sorte hoje. Foi fantástico!”

Assim falou Prost depois da corrida. E foi mesmo uma corrida fantástica, uma das melhores da história da F1 e vinte e cinco anos depois, ainda é comentada com diferentes níveis de emoção. Com o melhor carro da F1, a Williams conseguiu perder o título de pilotos por apenas dois pontos e por erros próprios. Com Rosberg tendo estourado um pneu, não teria sido melhor trazer Mansell para os boxes e fazer um pit-stop por precaução, já que o inglês tinha uma enorme vantagem sobre o quarto colocado Johansson? Agora é fácil dizer, mas a Goodyear só agiu quando o próprio Mansell teve o pneu estourado. Mas o que os brasileiros não se conformam foi Piquet ter parado. Para muitos ele perdeu o título ali, mas ele teria segurado? Anos depois Piquet disse que o carro trepidava tanto por causa dos pneus que ele estava quase perdendo a visão no final da reta. Até mesmo Prost, com os pneus vinte voltas mais novos, também sofria de trepidação, mas o francês teve o talento de levar seu carro até o final e conseguir um incrível bicampeonato, calando a boca dos críticos que diziam que ele só foi campeão em 1985 por ter o melhor carro. Pois Prost não apenas conseguiu um título com um carro inferior, como derrotou duas lendas do automobilismo, com ele mesmo já entrando na história do automobilismo. Quando parou seu carro após a bandeirada e pôs as mãos na cabeça, Alain Prost parecia saber exatamente o feito que havia feito!

Chegada:
1) Prost
2) Piquet
3) Johansson
4) Brundle
5) Streiff
6) Dumfries

terça-feira, 25 de outubro de 2011

História: 35 anos do Grande Prêmio do Japão de 1976

Após as duas corridas norte-americanas, o campeonato seria decidido entre as duas estrelas de 1976 num novo cenário da F1. O circuito de Monte Fuji era a grande novidade do calendário com um circuito interessante no sopé do monte sagrado japonês, garantindo para a F1 sua primeira visita oficial ao oriente, além do calendário passar das tradicionais 16 corridas para 17. O terrível acidente de Lauda marcou um divisor de água da temporada e o austríaco perdia paulatinamente sua grande vantagem obtida ao longo do ano para James Hunt, que soube capitalizar as corridas em que Lauda não participou e sua cuidadosa (e corajosa) volta à F1. Por sua vez, Lauda já era um herói por estar correndo ainda com as cicatrizes do seu acidente e tinha certa torcida de todos na F1. Enquanto isso, James Hunt chegava a Tóquio alguns dias antes para, junto com Barry Sheene, bicampeão mundial de motovelocidade e também um playboy inglês, fazerem uma festa de arromba num hotel na capital japonesa. Surubas à parte, Lauda e Hunt estavam separados apenas por três pontos quando os primeiros treinos foram realizados em Monte Fuji.

A disputa pela pole entre Lauda e Hunt teve a intromissão da Lotus de Mario Andretti, que conseguiu acertar o difícil carro construído por Colin Chapman e melhorava de rendimento a olhos vistos ao longo do ano. Oito anos após sua surpreendente primeira pole, Andretti voltava a largar na ponta de uma corrida de F1, tendo ao lado na primeira fila James Hunt, que nesse primeiro round derrotou Lauda por 0.28s. Porém, se as posições se repetissem na corrida, Lauda seria o campeão por um ponto... A surpresa foi o carro japonês da Kojima, pilotado pelo também japonês Masahiro Hasemi, ficar entre os dez primeiros do grid, essa que foi a primeira corrida dos pneus Bridgestone na F1.

Grid:
1) Andretti(Lotus) – 1:12.77
2) Hunt(McLaren) – 1:12.80
3) Lauda(Ferrari) – 1:13.08
4) Watson(Penske) – 1:13.29
5) Scheckter(Tyrrell) – 1:13.31
6) Pace(Brabham) – 1:13.43
7) Regazzoni(Ferrari) – 1:13.64
8) Brambilla(March) – 1:13.72
9) Peterson(March) – 1:13.85
10) Hasemi(Kojima) – 1:13.88

No dia 24 de outubro de 1976, Monte Fuji viu o tempo mudar em 180º e o clima quente e agradável dos treinos se transformou numa chuva torrencial no domingo. Mais de 150.000 torcedores lotaram o circuito de Fuji na esperança de ver a decisão do campeonato mundial, mas os pilotos estavam temerosos em ter que largar em condições tão ruins. Reuniões foram realizadas e a largada era constantemente atrasada, na vã esperança de que as condições melhorassem. Na verdade, o tempo escurecia perigosamente e a corrida corria o sério risco de ser cancelada, mas alguns pilotos, como Peterson, Brambilla, Watson, Tom Pryce e Alan Jones não queriam o cancelamento da prova. Além, é claro, de Bernie Ecclestone em pessoa pedir que a largada fosse dada, para não atrapalhar as transmissões de TV. Exatamente às três horas da tarde, uma hora e meia depois do combinado, a luz verde foi dada para os vinte e cinco carros começassem a corrida, num momento em que a chuva não era tão forte, mas nem por isso a pista estava menos encharcada. Mostrando o quão determinado estava em vencer o título mundial, Hunt larga melhor do que Andretti e pula na frente, ficando na primeira posição ainda antes do final da reta dos boxes. Watson também larga bem e pula para segundo, à frente de Andretti. Contudo, Watson tem problemas ainda na primeira volta e cai várias posições.

Enquanto isso, e mais importante em termos de campeonato, Niki Lauda cruza a primeira volta apenas em décimo e na volta seguinte o austríaco entra nos boxes lentamente de forma inesperada. A Ferrari pensava que havia algum problema com o carro, mas Lauda simplesmente abandona a corrida por motivos de segurança. “Me pagam para correr, não para pular pela janela,” falaria Lauda sobre os motivos do seu abandono voluntário, seguido mais tarde pelos brasileiros José Carlos Pace e Emerson Fittipaldi. Apesar de a pista estar praticamente impraticável, os demais carros ainda corriam pela pista encharcada de Fuji e a Ferrari ficou uma fera pela atitude de Lauda, o chamando inclusive de covarde, praticamente esquecendo-se do que o austríaco fez nos últimos meses, ao sair do leito da morte praticamente direto para o cockpit da Ferrari. Enquanto nos boxes da McLaren os mecânicos comemoravam, Hunt liderava com tranqüilidade na frente, mesmo sabendo que um terceiro lugar lhe bastaria para ser campeão. Vittorio Brambilla, que havia conquistado sua única vitória na F1 debaixo de chuva um ano antes, fazia uma ótima prova e mesmo tendo que trocar um pneu defeituoso ainda na quinta volta, o italiano da March fazia uma corrida forte de recuperação. Enquanto Hunt aumentava sua vantagem sobre Andretti, Brambilla aumentava seu ritmo e do oitavo lugar que ocupava após sua parada nos boxes, o italiano conseguiu ultrapassar Andretti pelo segundo lugar na 16º volta! Imediatamente a diferença de 14s que Hunt tinha sobre o italiano desapareceu e como havia ocorrido no Grande Premio da Áustria de 1975, Brambilla atacava Hunt pela vitória.

Contudo, Vittorio Brambilla não era exatamente um piloto de paciência e suas peripécias entraram para o folclore da F1 em todos os tempos. Em apenas seis voltas Brambilla encostou em Hunt, que nem precisava se matar para se manter na liderança, já que o piloto da McLaren pensava unicamente no título, mas o italiano tentou a ultrapassagem logo na primeira oportunidade que surgiu e acabou levando o xis de Hunt. Para piorar, Brambilla acabou rodando e caiu para o quarto lugar. Era Vittorio Brambilla no seu estilo mais puro! Para o menor entretenimento da corrida, Brambilla acabaria abandonando com o motor quebrado, mas Jochen Mass fazia uma boa corrida e após ultrapassar Andretti, assumia a segunda posição, formando uma dobradinha da McLaren. Além de estar na liderança, Hunt agora tinha certeza que teria um escudeiro caso as coisas piorassem para o seu lado. E foi exatamente isso que acabou acontecendo!

Primeiro, Mass abandonou na 36º volta após sofrer um acidente. A chuva havia parado nesse momento e um trilho seco começava a se formar. Hunt via de longe a briga pela segunda posição se estabelecer entre Patrick Depailler, Tom Pryce e Mario Andretti, com Pryce tendo que abandonar com o motor quebrado. A pista fica bem traiçoeira neste momento, pois havia um claro trilho seco, mas muito molhado fora dela. Um erro seria fatal. Hunt cometeria outro tipo de erro ao forçar seus pneus para chuva no trilho seco e o resultado foi enorme desgaste dos pneus dianteiros do inglês. Correndo com a cabeça e tentando resfriar seus pneus quando podia, Depailler rapidamente descontou a desvantagem de 14s que tinha para Hunt e o ultrapassou, não demorando três voltas para Andretti fazer o mesmo. O terceiro lugar ainda garantia o título para Hunt, mas seu desempenho tinha caído de tal forma, que ele começava a ser ameaçado por Alan Jones e Clay Regazzoni, da Ferrari. O time italiano mandou Rega partir para cima, mas para garantir o terceiro lugar, a McLaren resolveu trazer Hunt para os boxes e trocar apenas os pneus dianteiros. Seria apenas uma parada de rotina, mas o nervosismo faz a McLaren se atrapalhar toda e 31s são gastos para trocar apenas dois pneus! Hunt vai para a pista louco da vida, pensando que o título tinha ido para o lixo tão perto do final, enquanto os mecânicos da Ferrari comemoram a desventura de Hunt. Lá na frente, Depailler tem um pneu furado e Andretti assume a ponta, enquanto James Hunt inicia uma das mais empolgantes recuperações já vistas na história da F1. Caindo para o sexto lugar, faltando apenas quatro voltas para o final, Hunt faz jus o seu nome e caça todos seus adversários. Jones assumia por pouco tempo a segunda colocação, mas roda e é ultrapassado por Regazzoni. Com pneus novos e tendo perdido menos tempo que Hunt, Depailler ultrapassa Jones e Regazzoni em apenas uma volta, deixando os dois para Hunt. O inglês parte para cima de Jones e o ultrapassa de forma agressiva, mas todos se perguntavam como seria a disputa com Regazzoni, um dos pilotos mais agressivos e duros que a F1 já viu. De forma surpreendente, Rega praticamente deixou Hunt passar e assumir o terceiro lugar, ainda sendo ultrapassado por Jones. Aquela era a última corrida de Regazzoni na Ferrari e muito se falou que o suíço deixou Hunt passar como forma de protesto pela forma como fora tratado pelo time de Maranello em 1976.

Tendo perdido pouco tempo durante a corrida, mas andando sempre entre os primeiros, Mario Andretti vencia novamente na F1 depois de muitos anos e a Lotus terminava um incomodo jejum sem vitórias, além de fazer Chapman não desistir da F1, pois ele disse no começo do ano que abandonaria a categoria se não vencesse uma única corrida na temporada. Além da pista molhada, a noite já estava caindo em Fuji e o pódio festejando Andretti foi praticamente no escuro... Hunt cruzou a linha de chegada em terceiro, mas o inglês estava tão adrenalizado que não percebeu que havia ganho o título e após parar o carro, ele quase partiu para a briga com Teddy Meyer, chefe da McLaren, que o convenceu a parar no final da corrida. Mais calmo, James Hunt pôde finalmente comemorar um dos títulos mais emocionantes e dramáticos da história, com o inglês derrotando Lauda por apenas um ponto, a menor diferença de todos os tempos até ali. Muitos dizem que James Hunt foi um campeão sem brilho, que só venceu porque tinha um carro acertado por Emerson Fittipaldi até 1975 e pelo azar de Lauda, mas o inglês mostrou várias virtudes no seu ano de triunfo e ele definitivamente soube aproveitar as oportunidades que surgiram e agarrou com força. Num campeonato tão polêmico e cheio de fatos históricos, de final tão apertado, disputado entre dois personagens tão antagônicos, não é surpresa que um filme esteja sendo rodado sobre a temporada 1976.

Chegada:
1) Andretti
2) Depailler
3) Hunt
4) Jones
5) Regazzoni
6) Nilsson

domingo, 23 de outubro de 2011

Bruxa solta



Ainda se recuperando da triste morte de Dan Wheldon, uma semana depois vimos outra tragédia envolver o esporte a motor. Assim como aconteceu em Las Vegas, o acidente ocorreu ainda no começo da corrida. Marco Simoncelli perdeu o controle da sua moto numa curva à direita e usando sua habilidade, tentou controlar sua Honda, mas com as motos ainda muitos compactas, Colin Edwards não conseguiu desviar da moto semi-caída de Simoncelli e acertou o italiano em cheio, com Valentino Rossi escapando por pouco.


A cena de Marco Simoncelli caído de bruços no chão, sem o capacete, logo fizeram nos lembrar da tragédia do ano passado com Shoya Tomizawa, morto em Mugello. E infelizmente tivemos o mesmo final. Após 45 minutos de tentativas, Marco Simoncelli, de apenas 24 anos, faleceu. O estilo doidão de Simoncelli, realçado com seu cabelo peculiar, fez do italiano um ídolo dentro da MotoGP, apesar de algumas polêmicas no qual se meteu, principalmente com os espanhóis Jorge Lorenzo e Daniel Pedrosa. Após uma reprimenda da Dorna, Simoncelli diminuiu seu ímpeto e marcava seus primeiros pódios, além de ter renovado com a Honda Gresini para 2012. Ao contrário de Las Vegas, o acidente de hoje pode entrar na sessão fatalidades. Corridas de motos tem uma configuração complicada, onde um acidente pode deixar o corpo do piloto exposto a um atropelamento, como ocorreu hoje e no ano passado com Tomizawa.


Foi a primeira morte na MotoGP desde 2003 com Daijiro Katoh e a segunda em um ano no Mundial de Motovelocidade. E o pior que foi a segunda morte em uma semana no esporte a motor. Wheldon, Simoncelli... Definitivamente não estamos acostumados a tantas tragédias nas corridas e por isso, essas notícias chocam ainda mais.