quinta-feira, 11 de julho de 2019

O acidente de Schumacher

O Grande Prêmio da Inglaterra de 1999 começava confuso vinte anos atrás. Alessandro Zanardi havia estacionado seu Williams no lugar errado do grid e por isso a largada fora cancelada. Os pilotos já estavam no meio da primeira volta, com a bandeira vermelha já mostrada, quando Michael Schumacher pareceu ter esquecido de frear na freada da curva Hangar. O alemão foi reto e bateu de frente na barreira de pneus. Apesar da pancada, Michael sairia do seu carro rapidamente. Era o que todos que assistiam a cena imaginávamos. 

Enquanto a Ferrari olhava assustada para os monitores, o resgate chegou rapidamente e na mesma velocidade ficava claro que o incidente não era tão simples assim. Schumacher havia quebrado sua perna direita em dois lugares e era resgatado da sua Ferrari semi-destruída. Nos boxes, Ralf Schumacher se desesperava pela falta de notícias do irmão e chegou a sair do grid, acompanhado por Alesi. O mundo prendia a respiração, principalmente quando vários lençóis não mostravam Schumacher sendo levado de maca para um ambulância, além de um frasco de soro conseguir ficar acima dos médicos. Quando muitos pensavam no pior, uma câmera conseguiu flagrar um tchauzinho do alemão.

Schumacher estava bem. Machucado, mas bem.

Ralf voltou para a segunda largada, enquanto a Ferrari lambia suas feridas. O maior rival de Schumacher naquele campeonato, Mika Hakkinen, largou novamente na pole e liderou as primeiras voltas. Quando o finlandês saiu do seu primeiro pit-stop, parecia que havia algo estranho. Mesmo Mika tendo completado a volta quase inteira, uma roda traseira saiu do seu McLaren, bem no momento em que Hakkinen passava pela entrada dos boxes. Fim de corrida para o finlandês.

David Coulthard assumia a ponta para vencer sem maiores arroubos. Enquanto boa parte da Ferrari se encaminhava para o hospital, quem ficou viu uma situação curiosa e interessante. Com o abandono de Hakkinen, o finlandês mantinha os oito pontos de vantagem sobre o piloto principal da Ferrari. Como Schumacher com certeza perderia algumas provas, o piloto principal da Ferrari passava a ser Eddie Irvine, que com o segundo lugar em Silverstone empatava com Schumacher no Mundial de Pilotos. Era como se o campeonato zerasse naquele momento para a Ferrari e Irvine.

Contudo, poucos acreditavam que Irvine, que fazia seu melhor campeonato na carreira, poderia liderar a Ferrari contra a potência da McLaren e a motivação de Hakkinen. O tempo mostraria que a conjunção de erros táticos da McLaren com uma boa dose de sorte do irlandês quase fez Irvine quebrar o jejum da Ferrari que naquele ano completava vinte anos. 

Ralf subiu ao pódio com o terceiro lugar e nem parecia o preocupado irmão de momentos antes, mas logicamente o piloto da Williams se dirigiu ao hospital para acompanhar Michael, que naquele momento era operado. A grave contusão somado ao desempenho de Irvine em sua ausência gerou muitas especulações, inclusive de que Schumacher se aposentaria. Ledo engano. Michael Schumacher retornaria ainda naquele ano à F1 e dominaria a categoria nos próximos cinco anos. 

Infelizmente, esse acidente em Silverstone não seria o mais grave acidente na vida de Schumacher. 

terça-feira, 9 de julho de 2019

História: 25 anos do Grande Prêmio da Inglaterra de 1994

Mesmo tendo conquistado a pole em Magny-Cours na semana anterior, Damon Hill era bastante criticado pela imprensa especializada, que o acusava de não ter condições de derrotar Michael Schumacher, além de já estar velho (34 anos) para ser uma promessa a ponto de se apostar. Numa entrevista antes do circo chegar à Silverstone, Frank Williams lamentava não ter contratado... Michael Schumacher. A pressão sobre Damon Hill era muito grande e o fato do seu pai Graham não ter vencido um único Grande Prêmio da Inglaterra era um fator de motivação ao tímido inglês. O autódromo de Silverstone foi modificado na primavera por recomendações da GPDA para melhorar a segurança. Várias curvas são modificadas, incluindo a curva rápida de Stowe.

Em quarto no final da primeira sessão de qualificação, Hill transcendeu no dia seguinte para tirar o máximo proveito do seu Williams FW16 e ficou com a pole position por apenas três milésimos à frente de Schumacher. O alemão da Benetton-Ford não poupou seus esforços, mas estava satisfeito com o segundo lugar. A Ferrari participou da luta pela pole position graças à potência do novo motor V12. Berger, muito incisivo, ficou em terceiro lugar, apenas vinte milésimos atrás de Hill. Alesi já estava mais para trás, a meio segundo. 

Grid:
1) Hill (Williams) - 1:24.960
2) Schumacher (Benetton) - 1:24.963
3) Berger (Ferrari) - 1:24.980
4) Alesi (Ferrari) - 1:25.541
5) Hakkinen (McLaren) - 1:26.268
6) Barrichello (Jordan) - 1:26.271
7) Coulthard (Williams) - 1:26.337
8) Katayama (Tyrrell) - 1:26.414
9) Brundle (McLaren) - 1:26.768
10) Verstappen (Benetton) - 1:26.841

O dia de 10 de julho de 1994 estava ensolarado, mas sem o forte de calor que marcou a corrida em Magny-Cours na semana anterior. Inclusive com a presença de Lady Diana, o público inglês lotou Silverstone para apoiar Damon Hill, no que era uma resposta aos críticos do inglês. Por outro lado, visto como o grande inimigo de Damon, Schumacher era vaiado a cada aparição. Durante a volta de apresentação, Michael Schumacher ultrapassou Damon Hill duas vezes, não respeitando a formação e no que era claramente uma violação das regras. Isso daria muito pano para manga até o final da temporada. Quando os carros estavam prontos para a largada, Coulthard acena com os braços e a largada foi abortada, com o escocês tendo que largar em último. No início da segunda volta de apresentação, Irvine tem o motor quebrado e não largaria, enquanto Schumacher novamente não respeita as regras da volta de apresentação. Já se falava abertamente na punição do alemão quando a largada foi dada, com Hill conseguindo manter a ponta. Na quinta fila, o motor Peugeot de Brundle explodiu espetacularmente e o inglês não corre sequer um metro antes de abandonar.

Hill e Schumacher imprimiam um ritmo muito forte, abrindo 7s em três voltas para o terceiro colocado Berger e 14s na volta 8. O austríaco estava com o carro mais pesado, enquanto os dois líderes marcavam volta mais rápida em cima de volta mais rápida. No pit-wall da Benetton, muita conversa acontecia para saber o que aconteceria. Que Schumacher seria punido, ninguém tinha muita dúvida, mas com quinze voltas de corrida ainda não se sabia como seria a punição. Flavio Briatore, Tom Walkinshaw, Ross Brawn e Joan Villadelprat pediam explicações à direção de prova. Quando Hill faz sua parada e retornou em terceiro, Pat Symonds advertia Schumacher de sua punição, mas ele diz que a penalidade seria de cinco segundos adicionado ao seu tempo no fim da prova. Enquanto isso, Briatore e Walkinshaw discutiam com os comissários da FIA do que já estava se tornando uma tremenda confusão, que já estava chamando mais atenção do que a corrida em si. Schumacher faz seu pit-stop normalmente e não paga qualquer penalidade. Para complicar a esdrúxula situação, o alemão aproveita as duas voltas com pista livre e retorna dos pits na frente de Hill.

Porém, Schumacher não liderava a prova, pois Berger estava postergando sua parada, mas quando estava prestes a ultrapassar a Ferrari do austríaco, a direção de prova mostrou uma bandeira preta para o alemão na volta 23. Briatore ficou uma fera nos pits e ordena que Schumacher continue na corrida, como se nada tivesse acontecendo, enquanto na Benetton, a confusão era enorme, com Walkinshaw indo até o diretor de prova Roland Bruynseraede pedir explicações. Após uma quente discussão, Walkinshaw retorna aos pits da Benetton dizendo que Schumacher não seria mais desclassificado, mas receberia uma punição de 5s em forma de stop-and-go. Três voltas depois o alemão cumpriu a tal punição e caiu para terceiro, com Hill, que ultrapassara Berger, na ponta da corrida, para delírio do público inglês. O motor de Berger quebrou na volta 32, deixando Hill em primeiro, com 18s de vantagem para Schumacher. Coulthard fazia uma bela corrida de recuperação e já estava na zona de pontuação. 

Os líderes completaram suas segundas paradas sem mudanças, enquanto o porta-voz da FIA Martin Whitaker anunciou à imprensa que Schumacher não fora punido por queima de largada, como foi anunciado anteriormente, mas por não ter mantido a sua posição nas duas voltas de apresentação. As voltas finais foram sem emoção em Silverstone dentro da pista, pois fora dela a torcida fez uma bela festa. Damon Hill venceu o GP da Inglaterra, com Schumacher em segundo lugar e Alesi em terceiro. Enquanto isso, Barrichello tentou uma ultrapassagem otimista na Luffield para surpreender Häkkinen na última volta. Os dois se tocam e rodam. Barrichello tem a suspensão quebrada e volta à pista bem lentamente, enquanto Häkkinen mantém o motor ligado, mas perde muito tempo para volta a pista. Quando parecia que Barrichello conseguiria um quarto lugar no limite, Häkkinen consegue a ultrapassagem na reta de chegada! Coulthard termina na sexta posição. Damon Hill fez a volta de desaceleração com uma enorme bandeira britânica, para deleite dos espectadores. Finalmente um piloto com sobrenome Hill vencia na Inglaterra! Porém, nos bastidores, as coisas continuavam quentes. Flavio Briatore e Tom Walkinshaw concentravam seus ataques aos diretores de prova, ou seja, Roland Bruynseraede e o diretor Pierre Aumonier. Inicialmente Schumacher seria punido em 25.000 dólares por não respeitar a bandeira preta, mas sua desclassificação parecia anulada. Parecia. 

Max Mosley apontava duas irregularidades graves cometidas por Benetton e Schumacher no Conselho Mundial de FIA, convocado logo depois da corrida: primeiro, que Michael não cumpriu a punição original dentro do prazo prescrito, então conscientemente ignorou a bandeira preta. A FIA não deu crédito às explicações de Schumacher, que afirmou ter visto a bandeira, mas não o painel em que estava inscrito o seu número, o 5. Briatore e Walkinshaw, que impediram a implementação da sanção, também foram convocados a se explicar. Além disso, Mosley criticava fortemente a direção da prova, cuja conduta errática estava na origem de toda a confusão. Afinal, como poderia uma bandeira preta, ou seja, exclusão da corrida, ser removida para se tornar um simples stop-and-go? A FIA já havia recebido denúncias de que a Benetton cometia infrações técnicas e era esse o motivo da enorme vantagem de Schumacher no campeonato. Num campeonato que já parecia decidido antes da metade, o erro de Schumacher, que falou que o motivo de sua desobediência na regra da volta de apresentação era esquentar os freios e que Hill estava muito lento, foi um prato cheio para que Schumacher e Benetton começassem a ver suas esperanças de títulos serem abatidas por suspensões e punições polêmicas. Schumacher acabaria realmente desclassificado meses mais tarde, dando pontos preciosos para Hill no campeonato.

Chegada:
1) Hill
2) Alesi
3) Häkkinen
4) Barrichello
5) Coulthard
6) Katayama

História: 30 anos do Grande Prêmio da França de 1989

Enquanto a F1 cruzava o Atlântico para voltar a Europa depois da animada e surpreendente corrida em Montreal, vários acordos e desacordos nos bastidores fizeram com que o Grande Prêmio da França de 1989 visse vários estreantes. Apesar da excepcional corrida em Jacarepaguá, era nítido que Johnny Herbert ainda não tinha se recuperado plenamente do seu sério acidente na F3000 em 1988 e o inglês era substituído por Emmanulle Pirro, que era pilotos de testes da McLaren. Pirro tinha sido sondado pela Lola e chegou a testar o carro, mas o italiano preferiu o melhor cockpit da Benetton. Cansado da instabilidade de Yannick Dalmas, a Lola contrata para o seu lugar o jovem francês Eric Bernard, que estava fazendo um bom campeonato na F3000. Na semana anterior a corrida, Derek Warwick se envolve num acidente de kart e com uma costela quebrada, o inglês não participaria da prova em Paul Ricard, sendo substituído pelo piloto de testes da Arrows, o norte irlandês Martin Donnelly.

Ken Tyrrell havia conseguido um muito bem vindo patrocínio da tabaqueira Camel, mas isso causou um pequeno problema dentro de sua equipe. Michele Alboreto era patrocinado pela Marlboro e logo se estabeleceu o conflito de interesses, resultando na dispensa do italiano, mesmo Alboreto tendo chegado ao pódio no México. Para substituir temporariamente Alboreto, Tyrrell convoca Jean Alesi. Rival de Bernard nas categorias de base na França e companheiro de equipe de Donnelly na F3000, Alesi era visto como estrela em ascensão e o francês já tinha despertado o interesse de Ligier e Williams. Muito bem visto pela crítica francesa, com a corrida em Paul Ricard e Alesi correndo com o patrocínio da Camel na F3000 pela equipe Jordan, Tyrrell achou uma ótima ideia dar uma chance ao francês de 25 anos. E o velho tio Ken não se decepcionaria. Se a França ansiava por uma nova estrela, a estrela estabelecida de 1989 estava de mudança. Alain Prost reuniu a imprensa na sexta pela manhã para anunciar que estava saindo da McLaren no final da temporada. Mesmo tendo sido uma parceria vitoriosa ao longo de seis anos, a péssima relação entre Prost e Senna tinha pesado demais. Prost continuava insinuando que a Honda favorecia Senna, enquanto Ron Dennis dizia que Prost não suportava perder para Senna com o mesmo carro. Claro que Prost não ficaria muito tempo sem contrato e a Ferrari já tentava a sua contratação, enquanto a McLaren negociava com Berger para fazer o movimento contrário. Além de rápido, Berger se dava muito bem com Senna...

Na classificação os pilotos da McLaren dominaram mais uma vez. Senna marcou o melhor tempo na sexta-feira, mas Prost lhe tomou a pole position no dia seguinte. Os tempos conquistados pelos pilotos da McLaren eram mais rápidos do que os alcançados em 1988. Mansell consegue um ótimo tempo para ser terceiro apenas dois décimos atrás da pole, num final de semana em que os carros com pneus Goodyear obtiveram clara vantagem em comparação aos usuários da Pirelli.

Grid:
1) Prost (McLaren) - 1:07.203
2) Senna (McLaren) - 1:07.228
3) Mansell (Ferrari) - 1:07.455
4) Nannini (Benetton) - 1:08.137
5) Boutsen (Williams) - 1:08.211
6) Berger (Ferrari) - 1:08.233
7) Alliot (Lola) - 1:08.561
8) Patrese (Williams) - 1:08.993
9) Palmer (Tyrrell) - 1:09.026
10) Gugelmin (March) - 1:09.036

O dia 9 de julho de 1989 amanheceu ensolarado e com muito calor no sul da França, um clima bastante típico dessa época do ano, mas que castigaria carros e pilotos trinta anos atrás. Por causa do calor, todos os pilotos escolhem os pneus duros e planejam parar pelo menos uma vez. Na volta de apresentação Patrese tem problemas de motor e fica parado. Não deixaria de ser uma sorte para o italiano, pelo susto ocorrido na primeira largada. Após seu pódio em Jacarepaguá, Maurício Gugelmin fazia uma temporada irregular com sua March e por isso o décimo lugar no grid era uma dádiva ao brasileiro. Na freada para a curva um, Gugelmin achou uma brecha e tenta colocar seu carro ali. Porém, com vários carros freando ao mesmo tempo e se movendo para conseguir uma boa posição, Gugelmin se viu sem espaço e proporcionou uma espetacular capotagem sobre os pilotos da frente, causando um verdadeiro caos no grid. E proporcionar uma das largadas mais conhecidas da história da F1.

Gugelmin bateu em Boutsen, decolou, caiu em cima da asa traseira da Ferrari de Mansell, depois em Berger e pousou de cabeça para baixo. Naquele dia Gugelmin estreava um capacete novo, que ficou lixado pelo contato com o asfalto. Apesar do susto, Gugelmin saiu do carro ileso. Mesmo no pelotão intermediário, vários carros bateram. Após se livrar de toda a confusão da primeira curva, Olivier Grouillard acabou batendo num lento Mansell metros depois. Com tanto confusão, a bandeira vermelha foi mostrada e uma segunda largada seria dada. Vários pilotos utilizariam carros reservas, enquanto Mansell, Gugelmin e Donnelly largaram dos boxes. Na primeira largada Senna saiu muito bem, mas na segunda tentativa, o diferencial do brasileiro quebrou quando ele engatou a segunda marcha. Por sorte a McLaren de Senna não foi atingida, porém era mais um abandono para o campeão de 1988, que colocava as mãos na cintura ao sair do carro, totalmente incrédulo.

Prost estava na sua situação preferida, que era de administrar a corrida a seu bel prazer, sem forçar muito num dia muito quente em uma pista em que sempre andou muito bem. Enquanto Prost se livrava facilmente do segundo colocado Berger, Mansell vinha num ritmo alucinante das últimas posições, chegando a ultrapassar até três carros numa volta! Na volta 12 Berger saiu da pista e cai para quarto, ultrapassado por Nannini e Boutsen, tendo que trocar seus pneus três voltas mais tarde, elevando Mansell a um impressionante top-10, lembrando que largavam 26 carros trinta anos atrás. Com o forte calor, não demorou muito para a corrida se tornar uma prova de sobrevivência, com os pilotos cuidando dos pneus, tentando parar nos boxes o menos possível. Quando já se recuperava de sua rodada, Berger abandonou com o câmbio quebrado na volta 29, enquanto Mansell, que trocou seus pneus, retornava a pista com a mesma voracidade de antes. Prost fez sua parada na volta 34 sem perder a ponta, enquanto o novato Jean Alesi conseguia uma corrida notável. Mesmo sem experiência com um F1, Alesi levava seu Tyrrell ao top-6, conservando seus pneus. E ele logo ganharia mais terreno. Na volta 41 o segundo colocado Alessandro Nannini se preparava para colocar uma volta em Nakajima quando sua suspensão traseira esquerda quebrou de forma espetacular, quase causando um grave acidente, pois a Benetton de Nannini passou sem controle a milímetros da Lotus de Nakajima. 

Quando o motor de Capelli explode na volta 44, Alesi assumia a segunda posição, se tornando um dos destaques da corrida. Boutsen, que havia parado para trocar pneus, não conseguia alcançar Alesi por causa de um problema de câmbio, que o faria abandonar na volta 50. Com os pneus cada vez mais desgastados, Alesi via crescer no seu retrovisor Patrese e Mansell, que também fazia uma corrida espetacular. Na volta 48, com os pneus em petição de miséria, Alesi faz sua única parada e retorna em quarto, dando um recado que ele poderia ser um digno sucessor de Prost, que liderava tranquilo. Patrese tinha largado com o carro reserva e tinha dificuldades de equilíbrio, mas segurava valentemente Mansell, contudo uma violenta rodada do italiano na volta 61 entregou a segunda posição para Mansell, coroando a belíssima corrida do inglês. O piloto da Ferrari lamentaria bastante depois da corrida ter largado dos boxes, pois tinha um ótimo ritmo em Paul Ricard. Alain Prost conseguiu sua trigésima sétima vitória na F1, 45s à frente de Mansell. Patrese terminou em terceiro e conseguiu o seu quarto pódio consecutivo. Alesi conquistou um excelente quarto lugar em sua estreia. Johansson terminou em quinto, dando os primeiros pontos para o Onyx. Primeiro ponto também para Grouillard, sexto. Mesmo com a vitória de Prost e a incrível corrida de recuperação de Mansell, o nome do dia era Jean Alesi. O francês recebeu os parabéns de Prost depois da corrida e passou a ser disputado por todo o paddock, mas Tyrrell acabaria contratando Alesi para 1990. Alesi seria uma estrela da F1 na década de 1990, mas não com o brilho intenso esperado. Ah! Depois do susto na primeira largada, Maurício Gugelmin teve problemas com seu March reserva na corrida, ficou várias voltas parado, mas acabou com a melhor volta da corrida!

Chegada: 
1) Prost
2) Mansell
3) Patrese
4) Alesi
5) Johansson
6) Grouillard

domingo, 7 de julho de 2019

Fora do padrão

Hoje a MotoGP saiu do padrão de corridas emocionantes e a prova na Alemanha não foi das mais animadas. E um dos culpados pela falta de emoção da corrida desse domingo manteve seu padrão em Sachsenring: Marc Márquez venceu. Pela décima vez consecutiva no pequeno circuito que ficava na Alemanha Oriental. Uma vitória de ponta a ponta, mesmo o espanhol não largando bem, mas bastou a freada da primeira curva para Márquez pontear a corrida até o final e vencer pela quinta vez na temporada e disparar em um campeonato que já parece ter dono.

Se em Austin, onde sempre venceu, Márquez caiu esse ano, em Sachsenring o espanhol da Honda não deu chances aos seus rivais. Márquez ainda deu uma bobeada na largada e chegou para a freada da primeira curva atrás de Quartararo, mas bastou frear um pouquinho mais tarde para se ver livre de qualquer ameaça e apenas aumentar sua diferença para os demais, numa corrida solitária de Márquez. Os números do espanhol espantam. Pela segunda vez na história do Mundial de Motovelocidade algum piloto venceu pela décima vez consecutiva numa mesma pista. Com o apagado quinto lugar de Andrea Doviziozo, o hexacampeonato na MotoGP de Marc já pode ser considerado favas contadas, o que juntando aos dois títulos nas categorias inferiores, Márquez irá para o oitavo título mundial, ficando apenas a um de Valentino Rossi. Isso com 26 anos de idade. Um piloto monstruoso e histórico, mesmo que muitos não gostem dele. Márquez não tem o carisma de Rossi, mas é definitivamente feito do mesmo material da lenda italiana.

Com Márquez imparável na frente, restou a briga pela segunda posição. E nem assim isso animou a corrida. Com Quartararo tendo feito uma primeira volta horrorosa e caindo logo em seguida, os espanhóis Maverick Viñales e Alex Rins disputavam o segundo posto, com vantagem para o piloto da Suzuki, enquanto Viñales era pressionado por um heroico Cal Cruthlow. Porém, Rins caiu já na metade final da corrida e Viñales segurou sem maiores arroubos a pressão de Cruthlow, que correu com uma fratura no joelho e se manteve colado na rabeta de Viñales até a antepenúltima volta. Um pódio valioso para o inglês. Mais atrás, as Ducatis brigavam entre si. De contrato renovado, Petrucci conseguiu derrotar seu companheiro de equipe Doviziozo, que vai marcando seus pontos, mas está longe de brilhar. Com apenas uma vitória na abertura do campeonato, Doviziozo vê o sonho do título cada vez mais distante com corridas perfeitas de Márquez, que desde o Catar sempre chegou à sua frente, quando ambos receberam a bandeirada. Rossi fez uma corrida burocrática, após uma classificação medíocre. Pode ser duro para os fãs (eu incluso), mas o tempo de Valentino já está passando e somente seu carisma o deixa numa equipe de fábrica como a Yamaha, que lhe deve quatro títulos na MotoGP, mas no momento Rossi está ficando para trás em comparação aos demais pilotos Yamaha. Um fato interessante do meio do pelotão foi que Stefan Bradl, substituto de Lorenzo e que nos últimos tempos é comentarista de TV, conseguiu um resultado bem similar ao que o tricampeão vem conquistando. Seria um sinal para Lorenzo?

Foi uma corrida longe de ser emocionante por causa de Marc Márquez, que vai tornando o campeonato desse ano ainda mais chato. Porém, da mesma forma como a Mercedes e Lewis Hamilton, não podemos criticar um piloto por ser melhor do que os outros ou que está ganhando demais. Os outros que corram atrás!

quinta-feira, 4 de julho de 2019

História: 15 anos do Grande Prêmio da França de 2004

Quinze anos atrás a Ferrari estava matando a tapa seus concorrentes, principalmente quem mais lhe incomodou no ano anterior, Williams e McLaren.Os números eram inegáveis e o heptacampeonato de Schumacher era uma questão de quando, com Rubens Barrichello ficando logo atrás do alemão em praticamente todas as corridas. A Ferrari F2004 era tão dominante quanto o carro no qual a Ferrari humilhou a concorrência dois anos antes, em 2002. A McLaren sofria com um motor Mercedes inconfiável, enquanto a Williams vivia um turbulento momento de transição, com seus dois pilotos, Juan Pablo Montoya e Ralf Schumacher, saindo da equipe no final do ano, isso sem contar a tumultuada relação entre a cúpula da Williams, que construiu um carro com uma dianteira horrorosa, e a BMW. Além da Ferrari, quem se aproveitava dessa fase complicada das tradicionais rivais da Ferrari eram Renault e BAR. Com estruturas menores, mas com bom investimento de montadoras, Renault e BAR estavam conseguindo seus melhores resultados em muitos anos, praticamente brigando para ser a distante segunda força de 2004.

Correndo em casa, a Renault se preparou com esmero para a corrida em Magny-Cours. O hoje presidiário Carlos Gosh presidia a Renault com um nariz torcido para a sua equipe de F1, mas Flavio Briatore usava sua lábia para manter os milhões que sustentava sua equipe, liderada por um jovem Fernando Alonso. Num treino com um formato bem diferente do atual, o espanhol ficou com a pole, superando por três décimos Michael Schumacher, enquanto Coulthard ocupava um surpreendente terceiro lugar com a McLaren. Barrichello era apenas décimo num grid muito apertado e que tinha como novidade o piloto de testes da Williams Marc Gene, substituindo o lesionado Ralf Schumacher. Como os pilotos davam apenas uma volta voadora com o combustível que utilizariam na largada do domingo, havia muita especulação com qual peso cada piloto iria largar no domingo. Alonso estaria mais leve do que o normal?

Grid:
1) Alonso (Renault) - 1:13.698
2) M.Schumacher (Ferrari) - 1:13.971
3) Coulthard (McLaren) - 1:13.987
4) Button (BAR) - 1:13.995
5) Trulli (Renault) - 1:14.070
6) Montoya (Williams) - 1:14.172
7) Sato (BAR) - 1:14.240
8) Gene (Williams) - 1:14.275
9) Raikkonen (McLaren) - 1:14.346
10) Barrichello (Ferrari) - 1:14.478

O dia 4 de julho de 2004 amanheceu com sol forte em Nevers, o que na maioria das vezes não significava um bom presságio para a corrida. As corridas em Magny-Cours nunca foram caracterizadas por serem das mais emocionantes e quando o clima estava tão quente como naquele dia quinze anos atrás, a esperança de uma boa prova não era das melhores. Porém, praticamente pela primeira vez Michael Schumacher conheceria o piloto que seria um rival à altura do laureado alemão: Fernando Alonso. Naqueles tempos em que a tecnologia já fazia muita diferença, a eletrônica da Renault era reconhecida como muito superior às demais e o momento em que isso era mais evidente acontecia na largada. O famoso 'botão mágico' da Renault fez Alonso disparar na frente, enquanto Trulli pulava de quinto para terceiro. As largadas relâmpagos da Renault aconteciam aos montes na metade da década de 2000.

Schumacher permaneceu em segundo nas primeiras voltas, perseguindo um Alonso inspirado e que tinha toda a torcida a favor. Mesmo a Renault estando numa boa temporada, era esperado que o espanhol parasse logo, mas Alonso permanecia na pista e num ritmo tão forte quanto o de Schumacher. De forma surpreendente, quem parou primeiro foi Schumacher, logo na volta 11, com Alonso parando algumas voltas depois. A tática era clara para todos: três paradas. Num circuito chatinho e de ultrapassagens complicadas, normalmente as corridas em Magny-Cours eram procissões entremeadas pelos pit-stops. Pela lógica, seriam quatro mini-corridas na França. Porém, Schumacher e os táticos da Ferrari pensaram em algo diferente. Se na pista seria muito complicado passar Alonso, restava usar a tática. Mas como, se todos estavam com uma tática idêntica? Ross Brawn confiava tanto no talento de Schumacher que muitas vezes colocava na mesa para o alemão uma estratégia arriscada, onde o alemão teria que transformar sua corrida em sucessivas voltas em ritmo de classificação. Ao invés de parar três, porque não quatro vezes? Para tanto, Schumacher teria que voar. E assim o alemão o fez. Michael fez sua segunda parada bem antes de Alonso e dessa vez superou o espanhol, mas a Ferrari não demorou a chamar seu primeiro piloto para os boxes pela terceira vez. Para quem assistia, era esperado uma longa parada. Reabastecimento em 6s e Schumacher voltava à pista em primeiro, com poucos segundos de vantagem sobre Alonso.

Fazendo as contas, Schumacher ficaria mais quinze voltas na pista. E nessas quinze voltas o alemão de 35 anos mostrou toda a sua genialidade com um ritmo absurdo na ponta, não dando chances à Alonso. Quando foi aos boxes pela quarta e última vez, Michael colocou combustível o suficiente para terminar a corrida e finalizar uma de suas vitórias mais marcantes na carreira. Naquele dia Schumacher encontrou um adversário fortíssimo e precisou improvisar para vencer um Alonso que começava a mostrar todo o seu talento que lhe daria dois títulos nas temporadas vindouras. Numa bela corrida de recuperação, Rubens Barrichello ocupava a quarta posição no último stint e partiu para cima de Jarno Trulli, que ocupou a terceira posição a corrida inteira. Mesmo num circuito de ultrapassagens complicadas, Rubens aproveitou um cochilo de Trulli na última curva da última volta para conseguir o último lugar no pódio. Aquela ultrapassagem sofrida na frente da torcida da Renault deixou Trulli em desgraça. Mesmo tendo conquistado sua única vitória apenas algumas semanas antes em Monte Carlo, o italiano entraria em conflito com Briatore e nem completaria a temporada com a Renault. No entanto, a exibição de Alonso e, principalmente, Schumacher, deixaram todos os demais pilotos como meros coadjuvantes.

Chegada:
1) M.Schumacher
2) Alonso
3) Barrichello
4) Trulli
5) Button
6) Coulthard
7) Raikkonen
8) Montoya 

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Figura(AUT): Max Verstappen

Não poderia ser outro! O que Max Verstappen fez em Zeltweg entrou para a história da F1, incluindo nesse caldeirão a bela festa promovida pela torcida holandesa pelo jovem neerlandês. Mesmo correndo em casa, as perspectivas da Red Bull não era das melhores. Zeltweg ou Spielberg, como queiram, tem retas longas e que favorecem os potentes motores Mercedes e, principalmente, Ferrari. Mesmo o motor Honda cada vez melhor, a Red Bull sabia que o final de semana em que se corre na pista que tem o mesmo nome da equipe seria complicado, mesmo Verstappen tendo vindo de vitória na pista no ano anterior. Porém, Max Verstappen deve ter visto as arquibancadas pintadas de laranja e se motivou como acontecia com Nigel Mansell nas famosas tardes de Silverstone e Brands Hatch na década de 1980. O holandês começou a mostrar a que veio com uma classificação onde enfrentou ombro a ombro Mercedes e Ferrari, com Max ficando na primeira fila. Contudo Verstappen pareceu ter estragado tudo com uma péssima largada, onde caiu de segundo para sétimo no final da primeira volta. O primeiro stint do piloto da Red Bull foi bem normal, não tomando conhecimento de Alfa Romeo e McLaren para se colocar em quinto. Num calor infernal na Áustria, Verstappen soube cuidar dos pneus, sendo um dos últimos a parar, pulando para quarto por causa dos problemas de Hamilton. Com pneus duros, começava o show de Verstappen. O holandês da Red Bull começou a ultrapassar quem aparecesse pela frente. Deixou Vettel e Bottas para trás mesmo com ambos tendo motores mais potentes. Nas voltas finais, Max encontraria um velho conhecido dos tempos de kart: Charles Leclerc. O monegasco da Ferrari havia dominado a corrida, mas não foi páreo para a recuperação sublime de Verstappen, que conseguiu uma ultrapassagem à fórceps, conseguindo uma vitória épica, mesmo que confirmada apenas três horas mais tarde por causa da manobra in extremis do holandês. Verstappen mostrou todas as características de uma corrida histórica. Ele foi resiliente quando errou na largada. Controlado ao cuidar dos pneus e do carro num calor atípico. Rápido e talentoso quando foi necessário. E muita agressividade nas suas ultrapassagens decisivas. Max Verstappen conseguiu uma exibição que o colocou na história septuagenária da F1.

Figurão(AUT): Pierre Gasly

Enquanto o ocupante da parte superior comemorava, talvez, uma das maiores exibições individuais da F1 no século 21, usando o mesmo carro e tendo cruzado a primeira volta logo atrás do companheiro de equipe, terminando a prova num obscuro sétimo lugar, uma volta atrás, chegou Pierre Gasly. O jovem francês da Red Bull está nessa parte da coluna mais uma vez, mas apesar de Robert Kubica pudesse estar aqui por ter conseguido tomar uma volta do companheiro de equipe, George Russell nem de longe emulou o desempenho de Max Verstappen nesse domingo. Os finais de semanas tenebrosos de Pierre Gasly vão se acumulando e o francês fica cada dia com menos defesa. Correndo na casa de sua equipe, Gasly cruzou a primeira volta colado na traseira de Verstappen graças a má largada do holandês, mas a partir de então o ritmo de corrida dos dois pilotos da Red Bull foi inacreditavelmente diferente. Enquanto Verstappen ultrapassava com facilidade Lando Norris e Kimi Raikkonen, Gasly ficou empacado atrás de dois pilotos muito bons, mas com equipamentos nitidamente inferiores ao que Gasly tinha em mãos. O francês ainda superou Raikkonen, mas não o fez com Lando Norris. Apesar do grande desenvolvimento da McLaren, o abismo entre as equipes top-3 e o resto ainda é gigantesco e nem assim Gasly foi capaz de superar o novato inglês. Nas últimas voltas, Verstappen perseguiu ferozmente Charles Leclerc e um dos retardatários que teve que superar foi justamente seu companheiro de equipe. Uma amostra clara que o trabalho de Pierre Gasly em 2019 vem sendo abaixo da crítica. Se antes a Red Bull tinha pilotos jovens sobrando em seu programa de desenvolvimento, a ponto de substituir Kvyat por Verstappen no meio da temporada, agora os austríacos tem que aguentar um piloto que não marca pontos suficientes no Mundial de Construtores. Vendo o que acontece com os pilotos que não cumprem os altos níveis exigidos por Helmut Marko, já está na hora de Gasly olhar alguma coisa fora da F1...