domingo, 28 de julho de 2019

Doideira

Nos dias de corrida de F1 pela manhã eu tenho um pequeno ritual um pouco do início da transmissão, que é ver como está o tempo. Sol ou chuva? Após dois dias de calor sufocante, Hockenheim amanheceu com chuva, o que dava uma pitada a mais para uma corrida que já prometia, pois as duas rápidas Ferraris largariam na segunda metade do pelotão. Porém, nem de longe a corrida prometia ser tão insana como a de hoje, em que o vencedor fez cinco pit-stops, o safety-car entrou na pista quatro vezes, boa parte dos pilotos de ponta tiveram corridas para esquecer, Stroll liderou algumas voltas e Daniil Kvyat levou a Toro Rosso de volta ao pódio pela primeira vez desde a célebre vitória em Monza de Vettel em 2008.

A corrida na Alemanha já começou prometendo quando foi anunciado que a largada seria parada. Sim, já era um indício de que as coisas seriam diferentes. Quando a pista está molhada, virou padrão para a FIA mandar que a largada seja atrás do safety-car. Bernd Maylander até esteve presente na largada, mas apenas para que os carros se acostumassem ao piso molhado, já que em nenhum momento desse final de semana os pilotos experimentaram essas condições. Largada, parada, dada, Max Verstappen novamente largou mal e caiu para quarto, repetindo a má saída da Áustria, quando venceu. Será destino? A partir de então a corrida se tornou uma loteria ao bel-prazer da mãe-natureza, com a chuva indo e voltando a todo momento, tornando a situação dos pilotos críticas. Cada decisão tomada influenciou positiva ou negativamente a corrida dos pilotos nesse domingo. E quem se sobressaiu foi Max Verstappen, que  lutou contra uma má largada para novamente vencer em condições atípicas. Se na Áustria o holandês se aproveitou do calor infernal, hoje Max se aproveitou do clima inclemente nas margens da Floresta Negra. Além da sua excepcional pilotagem, Verstappen contou também com pit-stops sem erros e na hora certa da Red Bull para vencer com certa tranquilidade no final, aumentando a sensação que o holandês só precisa de um carro ligeiramente melhor para brigar pelo título. Porém a Red Bull viu o outro lado da moeda em outra corrida medonha de Pierre Gasly. O francês errou várias vezes, em nenhum momento flertou em brigar pelo pódio, foi ultrapassado por pilotos da Toro Rosso, subsidiária da Red Bull e no fim acabou se envolvendo num incidente com Albon na última volta. Após sua corrida decente em Silverstone, Gasly voltou ao olho do furacão, onde já havia batido na sexta e viu os dois pilotos da Toro Rosso andarem muito bem.

Para quem acompanha esse blog sabe que esse blogueiro não é o maior fã de Daniil Kvyat. O russo pode dizer que tem a estrela na testa, pois em outros tempos já estaria correndo numa categoria menor como a F-E, depois de tantos fracassos na F1 e ser até mesmo humilhado pela cúpula da Red Bull. Como hoje quem teve sorte chorou menos, Kvyat acertou na mosca ao colocar os pneus slicks na penúltima relargada e estava em segundo quando todos os líderes colocaram os pneus certos. Kvyat só não pôde segurar Vettel no final, mas ao ultrapassar Stroll um pouco antes, o piloto da Toro Rosso se colocou numa ótima posição de pódio, levando a equipe italiana que um dia se chamou Minardi de volta ao pódio depois de quase onze anos. E combinado com mais uma péssima exibição de Gasly, o nome de Kvyat está de volta a baila para uma vaga na Red Bull. O grande rival de Kvyat está dentro de sua equipe, pois Albon também fez uma belíssima corrida e pontuou bem, apesar do toque com Gasly na última volta. Sainz foi a cara dessa corrida maluca. O espanhol saiu da pista, quase atolou sua McLaren e ainda assim teve tempo para ser quinto, enquanto Norris abandonou com problemas mecânicos. Em algum lugar nas Astúrias, deve ter chegado a informação que a Honda colocou dois carros seus no pódio e a McLaren beliscou um bom quinto lugar. Ai Alonso...

Mesmo com a bela corrida de Verstappen, o nome da corrida foi mesmo Sebastian Vettel. Um ano antes, em condições até parecidas com a de hoje, Vettel saiu da pista sozinho e começou seu inferno astral, onde quando não é a Ferrari que erra, é o alemão que apronta com batatadas que não condizem a um tetracampeão. Ontem a Ferrari errou, mas hoje, um ano depois da corrida que marcou sua carreira, Vettel consertou a marcada com uma prova sensacional vindo de último para a segunda posição. Quando a pista ainda estava úmida, Vettel fazia uma corrida até apagada, ficando muito tempo atrás da Alfa Romeo de Kimi Raikkonen, mas quando a pista secou, Vettel pareceu ter ligado o 'turbo' e passou quem via pela frente, chegando a um incrível segundo lugar. Da mesma forma que Hockenheim foi um marco negativo na carreira de Vettel ano passado, tomara que a prova de 2019 seja uma reviravolta positiva para o alemão. Leclerc começou a corrida de forma agressiva, se aproveitou um dos raros acertos da Ferrari ao colocar pneus intermediários novos quando o safety-car virtual deu as caras, mas o jovem monegasco também errou muito e acabou batendo quando a chuva veio no momento em que a maioria estava com pneus slicks. Mais uma chance desperdiçada para Leclerc, que provou não ser tão forte assim no molhado.

Com tantos personagens importante na corrida de hoje, alguém poderia perguntar: e a Mercedes? Pois é, a Mercedes armou toda a festa pelos seus 125 anos de história no automobilismo, patrocinou a ameaçada corrida em Hockenheim, vestiu seus mecânicos de forma retrô e pintou seus carros de forma diferente para ter a sua pior corrida dos últimos cinco anos. A lamentação de Hamilton pelo rádio foi verdadeira: como tudo pode ter dado tão errado? Sim, tudo deu errado para a Mercedes, começando com seus pilotos, que lideraram o primeiro stint da corrida e davam pinta de mais uma dobradinha. Porém, foi Hamilton e Bottas que cometeram os maiores erros do dia, saindo da pista três vezes e deixando a equipe no zero. O caso de Bottas foi o mais emblemático. O finlandês tinha tudo para tirar toda a desvantagem que tinha para Hamilton no campeonato, mas Bottas simplesmente não conseguia ultrapassar Stroll e acabou errando sozinho na curva um, lugar onde Hamilton tinha rodado um pouco antes. A batida de Bottas deixou a Mercedes no zero, bem no final de semana em que a montadora anunciou que decidirá quem será seus pilotos em 2020 no mês vindouro. Se fosse futebol, Esteban Ocon já estaria no aquecimento ao lado do campo...

Reginaldo Leme soltou um 'Meu Deus...' quando a TV mostrou Lance Stroll saindo com pneus slicks. O veterano comentarista mal poderia imaginar que essa manobra por muito pouco não deu o segundo pódio da carreira do canadense. Stroll emergiu na ponta da corrida e se não fosse o furacões Verstappen e Vettel, teria garantido o pódio para Racing Point, que viu seu piloto principal ser a primeira vítima da pista traiçoeira. Teoricamente a Haas estaria comemorando seus dois carros na zona de pontuação, numa corrida onde o time americano tentou estratégias arriscadas com Magnussen chegando a correr em segundo. Porém, o pobre Günther Steiner terá outra crise para administrar, pois novamente Grosjean e Magnussen se tocaram numa disputa de posição. Da mesmo forma que Gasly e Bottas, Grosjean e Magnussen devem estar procurando algo para fazer em 2020. Hulkenberg, que sempre se mostrou fortíssimo na chuva, se achou em segundo lugar numa das relargadas. Seria hoje que o alemão quebraria o tabu sem pódios? Definitivamente, não. Primeiro, Hulk seria ultrapassado pela dupla da Mercedes e depois bateria na saída da última curva, local onde Leclerc abandonou e Hamilton saiu da pista e quebrou o bico. Para completar o dia para Abiteboul, Daniel Ricciardo abandonou com o motor quebrado. Voltando aos clichês do futebol, Abiteboul está prestigiado dentro da cúpula da Renault. Numa bela corrida de Kimi Raikkonen e Antonio Giovinazzi chegando a ficar com a volta mais rápida, a Alfa Romeo marcou pontos também com seus dois pilotos. Com tantos acidentes, erros, problemas e abandonos, a Williams quase marcou pontos, mas com um carro tão ruim, acabou no zero novamente.

Para quem açodadamente cravou a morte da F1, seria bom rever alguns conceitos. O mundo está tão imediatista, que basta um momento ruim (ou até mesmo bom) para decretar conceitos sobre o que está acontecendo. A F1 está cheia de problemas estruturais e tomara que sejam consertadas logo, para o bem do automobilismo, mas morta ou próxima disso, a F1 definitivamente não está! Mesmo com tantas presepadas, a Mercedes dificilmente perderá o título desse ano e Hamilton será hexacampeão, mas das últimas seis corridas, cinco foram sensacionais. Tirando a dona da casa Mercedes, Leclerc, Renault, Gasly, Bottas, Steiner e Alonso, todos saíram de Hockenheim com muito o que comemorar com a doideira de hoje. 

sábado, 27 de julho de 2019

Boa nostalgia

Na manhã desse sábado em Hockenheim, os torcedores da Ferrari sentiram uma boa nostalgia quando viram a Ferrari F2004 pilotada por um piloto com sobrenome Schumacher pela pista alemã. Voltando quinze anos no tempo, a Ferrari venceu o Grande Prêmio da Alemanha de 2004 com Michael Schumacher dominando a corrida, assim como o alemão dominava aquele campeonato rumo ao heptacampeonato. Eram bons tempos da Ferrari, o auge do pai de Mick Schumacher, que deu umas voltas hoje, e da cúpula ferrarista, composta por Jean Todt, Ross Brawn e Rory Byrne. Lógico que erros e problemas aconteciam, mas a Ferrari estava tão bem estruturada, que tudo parecia coberto pela experiência dentro e fora da pista.

Retornando ao presente, a Ferrari dominava o final de semana alemão com alguma facilidade, com Leclerc chegando a botar seis décimos na turma da Mercedes, que corre literalmente em casa e em comemoração aos 125 anos de envolvimento com o automobilismo, chegou à Hockenheim com um estilo retrô. Também correndo em casa estava Vettel, que está usando o capacete da lenda do DTM Bernd Schneider. Um ano depois do erro que se tornou um marco em sua carreira, Vettel sofreu outro golpe em Hockenheim quando teve um problema no turbo de sua Ferrari ainda no Q1 e largará amanhã em último. Leclerc continuava liderando a Ferrari na luta pela pole, mas quando o Q3 começou, os mecânicos da Ferrari cercavam o carro do monegasco. Enquanto a dupla da Mercedes e Verstappen marcavam seus tempos, Leclerc saiu do cockpit vermelho para incredulidade de todos em Hockenheim. A Ferrari, talvez em sua melhor chance em 2019 para derrotar a Mercedes, abandonava com seus dois carros na classificação, entregando de bandeja a pole para Hamilton, que já se tornou o favorito a vitória amanhã.

A classificação teve alguns destaques adicionais, como a impressionante proximidade no pelotão intermediário, que viu Norris ficar no Q1, enquanto Sainz foi ao Q3. Raikkonen liderou a meiúca com sua Alfa Romeo, enquanto a Haas mostrou algum alento depois da desastrosa corrida na Inglaterra. Resta saber como os americanos sairão na corrida. Pela primeira vez no ano Stroll passou ao Q2. Mesmo com o feito, isso só é outra demonstração de fraqueza do canadense, enquanto Pérez foi ao Q3 e mostrou seu bom trabalho de sempre. Chama também atenção Verstappen ter conseguido beliscar a primeira fila, mesmo tendo problemas em seu motor. Outro ponto negativo para Bottas, que deve estar ansioso para saber se ficará ou não na Mercedes em 2020. 

A corrida de amanhã já terá a atração de ver as duas Ferraris, que andaram muito bem até agora, saindo em posições bem abaixo do potencial delas. Leclerc e Vettel terão corridas divertidas pela frente, ainda mais com a possibilidade de chuva. Enquanto a Mercedes vibra outra vez em casa, a reunião da Ferrari deverá ser quente, como numa reunião de família napolitana. Bem longe dos tempos em que a Ferrari dominava a F1.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Puxando a sardinha

Os anos 1980 foram os mais legais e românticos do esporte a motor. Na mesma medida em que as corridas entravam cada vez mais nos lares das pessoas através da TV, a velocidade impressionante dos bólidos e a aura que os pilotos dessa época tinham fazem que essa década tenha um lugar especial para todos que acompanharam, nem que seja um pouco, F1, Indy, Rali, Endurance ou motovelocidade naqueles tempos.

Falar dos anos 1980 causa um enorme turbilhão de emoções nas pessoas, fazendo-as imaginar estar em Silverstone, Indianapolis, Le Mans, Assen ou Jacarepaguá. Foram realmente anos mágicos e que entraram para a história, mas passados trinta naos dessa década explosiva, algumas pessoas se esquecem que o mundo não parou em 1989 e que a vida, assim como o esporte a motor como um todo, segue evoluindo. 

O que era o topo da tecnologia se tornou rapidamente obsoleto e foram substituídas, mesmo tendo muito carinho por elas. Motor turbo, câmbio na mão, poucos comandos no volante se tornaram peças de museu e seguindo o propósito do automobilismo, aparatos mais modernos apareceram, da mesma forma que os pilotos vão se preparando cada vez mais e superando os que ficaram para trás. Essa é a ordem natural da vida.

Nessa semana Nigel Mansell sacudiu o mundo da F1 com uma entrevista à revista da FIA onde tentava dizer em palavras o que era a F1 no seu tempo. Mansell usou bem as palavras em seu depoimento para destacar seu tempo, que foi realmente inesquecível e espetacular, mas como acontecia nos seus tempos de pilotos, Nigel acabou derrapando quando estava mais emocionado. O inglês usou a frase "os pilotos de hoje nunca saberão o que é um carro de F1" para quantificar o quão bom era sua época. E realmente era. Porém, Mansell se esqueceu de um detalhe primordial: a F1 não parou no tempo.

Mansell pisou na bola ao dizer essa frase, menosprezando os pilotos da F1 atual, cujos carros são factualmente os mais rápidos da história. Seja na F1 ou em qualquer ramo, subestimar as pessoas é um erro grave e dizer que os pilotos atuais 'não conhecem um carro de F1' foi mais um da longa lista de Mansell. Um carro de F1 nunca foi fácil de ser pilotado e mesmo com vários aparatos ao alcance da mão, um piloto de F1 atual precisa ser extremamente técnico e talentoso para ser rápido. Não devemos nos enganar. Para um piloto atual de F1, altamente preparado mental e tecnicamente, pilotar um carro dos anos 1980 pode até parecer fácil. A mão de obra dentro de um carro de F1 atual é tão ou mais frenética do que nos anos 1980, mesmo que bastante diferente dos tempos mágicos de Mansell.

Rememorando a Copa do Mundo de 1994, cuja conquista completou 25 anos esse mês, falava-se abertamente antes da competição que os jogadores da Copa de 1970, a última que o Brasil havia vencido naquele momento, torciam contra os atletas comandados por Parreira. O motivo? Se dizia que muitos daqueles jogadores do mágico time de 1970 ainda viviam das glórias daquele título. No caso de uma vitória do Brasil 24 anos depois, como acabou acontecendo, esses jogadores perderiam essa pecha de últimos campeões.

Maldades à parte, é da natureza humana querer que seu feito seja o mais importante, o mais difícil, o mais emocionante. Mansell puxou a sardinha para o seu lado, destacando sua época que foi realmente sensacional e inesquecível, mas a F1 e a vida não parou naqueles gloriosos tempos.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Figura(ING): Lewis Hamilton

O inglês teve mais trabalho do que o planejado, mas isso não impediu que Lewis Hamilton conseguisse sua sexta vitória em Silverstone e se tornar, de forma isolada, o maior vencedor do Grande Prêmio da Grã-Bretanha. Hamilton não liderou nenhum treino livre, mas dava a sensação que estava tudo sob controle e que a vitória viria no domingo, já que a Mercedes novamente abria muita vantagem para as rivais. Porém, Hamilton acabou superado por míseros seis milésimos de segundo para o seu companheiro de equipe na classificação. Largando na primeira fila, Hamilton esperava superar Bottas como já acontecera antes, mas o nórdico, precisando mostrar serviço para continuar na Mercedes em 2020, jogou duro na disputa entre eles e se manteve na liderança no primeiro stint. Com duas estratégias diferentes entre os pilotos da Mercedes, Hamilton teve a sorte dos campeões ao ver Antonio Giovinazzi rodar sozinho e o safety-car entrar na pista no momento correto, fazendo com que Hamilton entrasse nos boxes para sua única parada nesse momento. Após a relargada, com Bottas atrás e ainda tendo que fazer uma parada, Hamilton estava com a vitória nas mãos. Porém, Lewis meio que queria provar que sua vitória não foi na sorte. Quando Bottas fez sua segunda parada e colocou pneus macios, ele logo marcou a volta mais rápida da corrida e parecia que o finlandês ficaria com o ponto da melhor volta. Porém, Hamilton economizou seu equipamento e numa última volta mágica, conseguiu marcar a melhor volta da corrida com direito a recorde da pista com o pneus duros e com trinta voltas de 'idade'. Um momento incrível e um recado de Hamilton para o seu companheiro de equipe: você andou bem hoje, mas tenho reserva para lhe derrotar quando quiser. Hoje, Hamilton pode derrotar qualquer um na F1 com seu incrível talento.

Figurão(ING): Sebastian Vettel

Antes da corrida de Montreal, havia um forte boato de que Sebastian Vettel, mesmo ainda prestes a completar 32 anos, estaria próximo de se aposentar de forma prematura da F1. A sombra de Charles Leclerc na Ferrari e atuações inconsistentes desde a segunda metade da temporada passada eram os fatores que faziam Vettel pensar em abandonar tudo. Porém, Vettel conseguiu sua melhor corrida no Canadá, mesmo que punido de forma polêmica e ter perdido a vitória. Após a corrida desse final de semana em Silverstone, há quem queira que realmente Vettel se aposente, mas por motivos diferentes. O alemão da Ferrari vinha fazendo uma corrida até interessante, após ter se aproveitado da entrada do safety-car e ganhar posições, mas era atacado por Max Verstappen. Após ser ultrapassado por fora pelo holandês na Stowe, Vettel tentou dar o troco na curva seguinte, mas acabou errando os cálculos de forma bisonha e encheu a traseira do holandês, colocando ambos para fora da pista. Por mais que tenha perdido a pressão aerodinâmica no momento em que freou colado na traseira de Verstappen, Vettel tem doze temporadas nas costas para saber dessa possibilidade ao frear no limite colado no carro do adversário. Punido de forma correta, Vettel caiu para as últimas posições, enquanto Charles Leclerc, mesmo prejudicado novamente pelas táticas ferraristas, subiu ao pódio. Quando ainda estava na Red Bull, Vettel não reagiu muito bem quando Ricciardo começou a roubar seu espaço na equipe e com Leclerc cada vez mais forte e recebendo mais atenção, Vettel vai repetindo a situação vivida cinco anos atrás na sua antiga equipe. Sem ter para onde ir se sair da Ferrari, Vettel estaria teoricamente fora da F1. Tomara que não, pois um tetracampeão sempre tem lugar, mas o alemão precisa de resultados melhores e errar menos, principalmente erros crassos como o de ontem.

domingo, 14 de julho de 2019

É disso que o povo gosta!

As vozes de 141.000 espectadores pareceram ter acordado o mundo da F1 em Silverstone. O histórico circuito inglês não permite as facilidades de uma corrida empolgante como ocorreu em Zeltweg, mas Silverstone é Silverstone. Olhando apenas os resultados, uma nova dobradinha da Mercedes com Hamilton disparando cada vez mais na liderança do campeonato rumo ao hexacampeonato pode indicar uma corrida enfadonha, mas a uma hora e meia de corrida em Silverstone foi das melhores nos últimos tempos, com brigas em todas as posições, incluindo a primeira. A F1 precisava dar um bom show em seu berço e conseguiu! A torcida deve estar deixando Silverstone feliz pela vitória (a sexta no circuito) de Lewis Hamilton e com a bela corrida que assistiram.

Com a Mercedes dominando desde o princípio do final de semana, a briga pela vitória ficaria entre seus dois pilotos, com um claro favoritismo para Lewis Hamilton. Simples, certo? Nem tanto. Hamilton teve que usar da sorte para superar seu companheiro de equipe, que lutou de forma dura e justa nas primeiras voltas para permanecer em primeiro, com Bottas só perdendo a corrida por causa de um safety-car fora de hora. Porém, Lewis Hamilton precisava provar que é um piloto fora da caixa. Nas últimas voltas, com mais de 20s de vantagem sobre Bottas, que teve que trocar os pneus por uma segunda vez e estava equipado com macios, Hamilton baixou o ritmo para uma última volta voadora. Mesmo com pneus duros de trinta voltas de 'idade', Hamilton tirou a volta mais rápida de Bottas com direito a recorde de pista. Foi como um recado ao finlandês: hoje você andou bem, mas quem manda aqui sou eu! Hamilton marcha impávido rumo ao hexacampeonato e Bottas mostrou que sua defesa de posição nas primeiras voltas na casa de Hamilton prova que o nórdico tem muita capacidade. Apenas falta que essas atuações excepcionais de Bottas se tornem regras.

Com a Mercedes disparada na frente, Ferrari e Red Bull também protagonizaram disputas de tirar o fôlego, principalmente entre Max Verstappen e Charles Leclerc. Rivais desde os tempos do kart, Leclerc e Verstappen nos mostraram os melhores momentos da corrida com disputas roda a roda de tirar o fôlego. Com contas pendentes desde a última corrida na Áustria, os dois jovens pilotos mostraram que a F1 não está morrendo. Longe disso! Mesmo com os dois brigando fortemente por posição, a saída de pista de Verstappen não foi causada por Leclerc, que mais uma vez foi vítima de um erro tático da Ferrari no momento do safety-car. Embalado com a bela vitória na Áustria, mas sem chances de vitória, Max foi com tudo para cima de Vettel, que se beneficiou do safety-car para pular de quinto para terceiro lugar, com a parada dos rivais à frente. Demonstrando sua ótima fase, Verstappen conseguiu uma bela ultrapassagem por fora na freada da reta Hangar, mas Vettel saiu mais embalado para a próxima freada, na Club. Como não poderia deixar de ser, Verstappen fechou bem a porta e Vettel permaneceu atrás. Sabendo que não teria pressão aerodinâmica. Ou não? O resultado foi um sórdido acidente em que Vettel encheu a traseira de Verstappen e ambos saíram da pista, trazendo Leclerc de volta ao pódio e fazendo com que Gasly conseguisse seu melhor resultado nessa sua passagem pela Red Bull, que pode ser breve, apesar do bom resultado. Vettel teve que trocar o bico e foi punido justamente pelo acidente provocado por ele. Verstappen mudou de posição e fechou toda a porta? Sim, contra fatos não há argumentos. Mas com doze anos de F1, Vettel está louro de saber que frear no limite tão colado atrás de um carro pode ocasionar perca de pressão aerodinâmica e o resultado ser um acidente em que a culpa, como na lei do trânsito, é de quem bate atrás. Vettel está longe do seu auge e seu último título completará sete anos. O alemão já mostrou na Red Bull que não reage bem quando tem uma sombra e Charles Leclerc na Ferrari é uma sombra que vem incomodando bastante Vettel, com erros seguidos e que já incomodam também a cúpula ferrarista. Por isso que os boatos de uma aposentadoria precoce de Vettel pipocam aqui e ali. E os tempos da Ferrari realmente são outros. Em outros tempos, quem poderia imaginar a Ferrari ser prejudicada três vezes consecutivas pelos comissários?

Com Vettel caindo para último com poucas voltas para o fim, a briga pelo melhor do resto valorizou um pouco mais: um sexto lugar. Até o final a briga ficou entre Carlos Sainz e Daniel Ricciardo. Tendo largado mais atrás, Sainz foi um dos beneficiados pelo safety-car e colocando pneus na hora certa, ficou numa ótima posição para vencer a disputa do pelotão intermediário, com Ricciardo colado em sua traseira, mas sem muitos ataques efetivos. Norris estava na disputa, mas ao contrário do companheiro de equipe da McLaren, acabou perdendo terreno e ficou fora dos pontos. Raikkonen garantiu mais alguns pontos para a Alfa Romeo, enquanto Giovinazzi acabou mudando a face da corrida quando rodou sozinho na Club, trazendo o safety-car que tanto ajudou e atrapalhou pilotos hoje. Mesmo fazendo uma temporada medíocre, Daniil Kvyat vai marcando pontos e chamando a atenção da Red Bull, que hoje não tem quem colocar no lugar de Gasly e o russo pode ser o escolhido. Albon, que passou a corrida na frente de Kvyat, foi uma das vítimas do SC e saiu da zona  de pontuação nas últimas voltas. Hulkenberg também perdeu para o desgaste de pneus, mas ultrapassou Albon nos momentos finais da corrida para garantir mais um pontinho para a Renault. Sérgio Pérez perdeu a asa numa disputa com Ricciardo e com isso, a Racing Point não fez mais nada na corrida, pois esperar algo de Stroll é pedir demais. A Haas segue seu calvário. Numa disputa na primeira volta, seus dois pilotos bateram rodas e com os carros quebrados, abandonaram logo depois. Coitado do Steiner. No final de semana em que completa 50 anos de F1, a única alegria de Frank Williams no dia de hoje foi uma volta que deu pelo circuito ao lado de Lewis Hamilton num carro de passeio. Simplesmente tocante.

Após a corrida em Paul Ricard, era facílimo criticar a F1 e para quem queria aparecer, declarar sua morte. A F1 sempre teve corridas ruins e boas, como a de hoje. Mesmo com problemas urgentes a resolver, a F1 sempre sobreviveu aos problemas e não é uma corrida emocionante (ou não) que pode-se definir os rumos da categoria. Olhando um pouco para o lado, a MotoGP está com Marc Márquez com o título nas mãos e dominando corridas como se estivesse brincando no parque. Porém, as corridas não deixam de ser boas e disputadas. Lewis Hamilton irá vencer pela sexta vez na F1 e a Mercedes está dominando a F1, mas se houverem mais corridas como hoje, ninguém irá reclamar tanto.

sábado, 13 de julho de 2019

Falso equilíbrio

Olhando o grid de largada do treino em Silverstone realizado a pouco, pode-se pensar que a F1 está extremamente equilibrada. Os quatro primeiros colocados, de três equipes diferentes, ficaram separados por menos de dois décimos de segundo, com os três primeiros ficando menos de oito centésimos entre si. Porém, dando uma nova olhadinha, percebe-se que a relação da F1 em 2019 não mudou com a Mercedes completando mais uma primeira fila, com Leclerc fazendo bem o seu papel com a Ferrari (Vettel não) e Verstappen fazendo milagres com seu Red Bull.

As nuvens pesadas em Silverstone poderiam fazer da classificação um assunto interessante com pista molhada, mas a esperada chuva não veio e a classificação ocorreu de forma tranquila, mas o que chamou a atenção foi sempre que os pilotos estavam muito próximos, mesmo que com resultados iguais às demais corridas. A dupla da Williams e Stroll cumpriram o script e ficaram no Q1. Frank Williams, homenageado pelos seus 50 anos de F1, mordia os lábios com seus carros ficando a 1s dos demais. Kvyat foi outro que ficou no Q1, demonstrando muito bem que o russo tem que dar graças a Deus por ainda estar na F1.

McLaren e Renault lideraram o pelotão intermediário, mesmo Carlos Sainz tendo ficado pelo Q2. Vettel sofria com problemas de abertura do seu DRS e por isso, não conseguia igualar os ótimos tempos de Leclerc, que brigava com as Mercedes pela ponta, enquanto Max Verstappen, que não vinha esmagando Gasly como costumeiramente acontece, acordou no Q2. Mesmo correndo em casa e vindo de quatro poles seguidas em Silverstone, Hamilton foi superado por Bottas, mesmo melhorando seu tempo na segunda tentativa do inglês, mas acabou por ser milésimos insuficiente para superar Bottas, que voltou a ficar em primeiro no grid. Leclerc vinha mais rápido em sua última volta, mas acabou perdendo no terceiro setor e ficou em terceiro, mas menos de um décimo atrás de Bottas, com Verstappen separando as Ferraris com um ótimo tempo no fim. 

Apesar de todo esse equilíbrio, a Ferrari já detectou que não tem o mesmo ritmo da Mercedes em ritmo de corrida, enquanto Bottas já mostrou algumas vezes esse ano que Hamilton ainda é muito superior durante as provas. Vitória fácil de Hamilton? Tudo indica que sim, mas ano passado Hamilton foi tocado na primeira curva e perdeu a vitória, enquanto a chuva, que só ameaçou hoje, pode cair amanhã, num grid nem tão normal como ocorreram em outras oportunidades, mas sem o embaralhamento da Áustria, que causou uma ótima corrida. Dedos cruzados para termos uma boa corrida e os chatos de plantão não voltem com suas trombetas do apocalipse.