domingo, 11 de outubro de 2020

Missão cumprida e recorde igualado


Quando Lewis Hamilton venceu pela nonagésima vez, não era nenhum segredo que o incrível recorde de Michael Schumacher seria igualado a qualquer momento. Na verdade, desde que a Mercedes mostrou ter o carro a ser batido em 2020, essa contagem regressiva estava sendo feita por todos que acompanham a F1, surgindo até apostas de quando isso iria acontecer. Numa temporada atípica por tudo que estamos passando, Lewis Hamilton igualou o recorde de Schumacher justamente em Nurburgring, a pista mais próxima da cidade natal do alemão. Não importa todo o contexto em que Lewis Hamilton conquistou suas vitórias, se teve o melhor carro ou se não teve adversários tão fortes ou tão bem equipados quanto ele, mas a realidade é que ninguém tem 91 vitórias na F1 à toa e o inglês está, sim, entre os maiores da história.


Havia uma enorme expectativa de que a corrida em Nurburgring acontecesse debaixo de muita chuva, a ponto da F1 criar um plano de contingência, em caso da neblina da sexta-feira que cancelou todas as sessões retornasse no domingo. Porém, a chuva não veio na quantidade esperada, mas outro fator determinante deu as caras ao longo das encostas do castelo de Nürburg: o frio. Acostumada a correr em dias quentes, a F1 se viu num circuito onde a temperatura nunca atingiu os dois dígitos e aquecer os pneus foi um desafio constante a todos os pilotos. Porém, nem isso parou a Mercedes, principalmente de Lewis Hamilton. O inglês largou melhor do que o pole Bottas, mas o finlandês jogou duro na primeira curva e ficou stint inicial na ponta, mas Valtteri voltou a ser Valtteri ao errar a freada da primeira curva, proporcionando a ultrapassagem de Hamilton. Com o carro vibrando mais do que Hilux parada no sinal de trânsito, Bottas teve que antecipar sua primeira parada e atrás de Ricciardo, foi perdendo rendimento na medida em que o motor Mercedes falhou pela primeira vez no ano e a equipe tedesca amargou seu primeira abandono de 2020. Sem seu maior adversário, Hamilton apenas administrou Verstappen atrás de si até a consagradora bandeirada, vencendo pela nona vez nesse ano e começando outra contagem regressiva: onde comemorará seu heptacampeonato.


Mesmo a Red Bull ligeiramente mais próxima da Mercedes nesse final de semana, Verstappen pouco pôde fazer contra Hamilton, só ficando próximo do inglês quando o safety-car maroto apareceu na pista já nas voltas finais, porém, isso não tira o brilho da corrida do neerlandês, que subiu ao pódio novamente e encosta em Bottas na briga pelo vice-campeonato. Já Albon fez outra corrida esquecível, onde não largou bem, não conseguiu andar no ritmo da Renault de Ricciardo, foi justamente culpado por um toque em Kvyat e abandonou com um problema mecânico quando seria punido. Apesar da comparação ser até mesmo injusta com o tailandês, corridas como a de hoje não ajudam Albon. Com uma Mercedes e uma Red Bull de fora, alguém do pelotão intermediário subiria ao pódio e hoje foi a vez de Daniel Ricciardo, dando o primeiro pódio nessa volta da Renault à F1. O australiano fez uma corrida muito sólida, ultrapassando belamente Leclerc no começo da prova, contou com a ajuda da Renault quando os franceses pararam Ricciardo na hora correta pela segunda vez e segurou sem maiores sustos os ataques de Sergio Pérez. O risonho australiano vibrou como nunca e o CEO da Renault pareceu ter gostado do que viu. Pérez fez outra corrida de quase. O mexicano, que precisa de um resultado de relevo para conseguir uma vaga decente em 2021, teve chances de subir ao pódio pela primeira vez nesse ano, mas foi superado por Ricciardo, porém, Pérez teria uma chance de atacar mais fortemente o piloto da Renault se o SC não aparecesse no final, igualando a tático dos pneus dos dois. 


Como já aconteceu outras vezes em 2020, o Safety-Car entrou de forma, digamos, sem vergonha na pista, com o claro intuito de juntar os pilotos e ver no que dá nas voltas finais. O carro de George Russell estava numa posição mais próxima da pista quando o SC Virtual apareceu, ao meu ver, de forma genuína no começo da prova. Contudo, Lando Norris estacionou sua McLaren bem longe da pista e com um guindaste do lado. No máximo, um SC Virtual resolveria a questão, mas Michael Masi, apelidado certamente pelo ótimo Everaldo Marques como o 'Maníaco do Safety-Car', preferiu juntar tudo com o Mercedes de Bernd Maylander comandando o pelotão. Um artifício que pode causar danos para os fãs mais puristas. Ainda na Racing Point, o grande destaque vai para Nico Hulkenberg. Ontem pela manhã o alemão tomava um tranquilo café da manhã, quando recebeu uma ligação da Racing Point para que fosse para Nurburgring imediatamente. Hulk estava com seus exames de Covid na mão, pois estaria comentando a corrida para uma TV local, mas quando chegou ontem à pista, nem tinha a credencial correta e estava com o capacete com as cores da Renault, que usou ano passado. Indo para a pista na classificação, só conseguiu o último tempo, mas na corrida teve tempo para se acostumar à tudo e levou seu carro a um ótimo oitavo lugar, garantindo mais alguns pontinhos para a Racing Point e, no íntimo, fazendo com que alguns membros da equipe queiram outras dores de barriga para Lance Stroll...


A McLaren claramente perdeu rendimento nesse meio de temporada e o quinto lugar de Sainz aconteceu mais por problemas alheios, inclusive de Norris, que estava até mesmo na frente de Pérez quando começou a ter problemas no motor Renault. Pierre Gasly fez outra corrida sólida com a Alpha Tauri, enquanto Charles Leclerc foi muito bem pelo equipamento que tinha nas mãos. O monegasco ainda conseguiu salvar um sétimo lugar, mesmo a Ferrari usando todo o abecedário até acertar a estratégia de Leclerc. Já Vettel fez outra corrida abaixo do medíocre, ficando muito longe de Leclerc, além de cometer erros banais, como na tentativa de ultrapassagem sobre Giovinazzi no começo da prova. Por mais que seja de conhecimento público e notório que a Ferrari não ajuda os pilotos que estejam de aviso-prévio, o desempenho de Vettel já não condiz com essa desculpa. Com a sua vaga seriamente ameaçada por Mick Schumacher, que fez uma bela homenagem à Hamilton depois da corrida, Antonio Giovinazzi conseguiu marcar alguns pontinhos, enquanto outro ameaçado, Romain Grosjean, amealhou seus primeiros pontos do ano. Conseguindo o recorde de mais corridas na história da F1, Raikkonen sempre brigou com Vettel, mas seu erro no toque em cima de Russell foi de principiante.


Mesmo com todas as intempéries nesse final de semana, a F1 viu Lewis Hamilton e a Mercedes brilharem intensamente, mas hoje teve vários coadjuvantes (Ricciardo, Hulkenberg, Pérez, Gasly e Leclerc). A entrega do capacete de Michael Schumacher feita por Mick para Hamilton foi bastante simbólica, mesmo que o melhor teria sido que o próprio Michael tivesse feito essa entrega, mas o destino assim não o quis. Com o melhor carro nas mãos e uma equipe fortíssima a apoia-lo, Lewis Hamilton vai riscando suas missões para 2020. Uma foi cumprida hoje. 

Loteria numa temporada aleatória

 


A chuva é sempre muito esperada por todos os fãs de corridas justamente por que junto da precipitação, a imprevisibilidade vem junto, pois as diferenças entre máquinas e pilotos diminuem por causa desse novo fator, que pode favorecer ou desfavorecer alguns pilotos. No momento em que a volta de apresentação estava para começar em Le Mans, a chuva apareceu e todos os pilotos da MotoGP tiveram que trocar suas motos. Correndo na frente dos seus torcedores e vindo de uma pole dominante, Fabio Quartararo era o grande favorito na corrida, porém, o francês não se mostrou confortável em piso molhado e caiu pelotão abaixo, proporcionando um pódio aleatório numa temporada já aleatória da MotoGP.

Demitido da Ducati, mas com vaga garantida na KTM, Danilo Petrucci vinha de uma temporada ruim em 2020 e antes de garantir seu lugar em 2021, falava-se abertamente que o piloto da Ducati poderia ir para o Mundial de Superbike, até mesmo por que Danilo começou sua carreira nas categorias menores da Superbike. Contudo, se tem uma característica forte de Petrucci é seu ritmo forte em pista molhada e nesse domingo o italiano deu uma bela resposta aos seu críticos com uma largada muito boa, conseguindo a primeira posição logo no comecinho da prova para administra-la até a bandeirada. Foi a primeira vitória de Petrucci em 2020, mas também foi o primeiro bom resultado do italiano. Se a vitória de Petrucci já foi surpreendente, quem veio atrás da Ducati foi tão lotérico quanto. A verdade era que Alex Márquez fazia uma temporada muito ruim até mesmo para um novato. Correndo com a Repsol Honda que seu irmão mais velho estraçalhou a concorrência, muitas vezes Alex largou na última fila, sendo que foi superado uma vez pelo companheiro de equipe interino Stefan Bradl, que no começo do ano era mais comentarista de TV do que piloto de testes.

Em sua primeira corrida de MotoGP no molhado Alex Márquez saiu do final do pelotão e numa corrida controlada, subiu ao pelotão dianteiro para conseguiu um excepcional segundo lugar, subindo ao pódio pela primeira vez e dando a primeira alegria da Honda nesse ano. Pol Espargaró completou o pódio em sua KTM, apesar do catalão já andar na frente nesse ano, não deixou de ser novidade ver Pol tão bem no final da corrida. Além de não cair. Com um pódio tão aleatório, os favoritos não tiveram vez em Le Mans nesse domingo. Quartararo fez uma corrida sorumbática, onde nem de longe conseguiu brigar no pelotão dianteiro, só mostrando alguma agressividade quando foi atacado por Joan Mir, vice líder do campeonato, nas voltas finais. O oitavo lugar foi muito pouco para quem largou na pole e com jeito de favorito, mas a França ainda vibrou com o quinto lugar de Johan Zarco, com direito a melhor volta e ultrapassagem nas últimas curvas sobre Miguel Oliveira. Andrea Doviziozo andou boa parte da corrida no top-3, junto com as outras Ducatis de Petrucci e Jack Miller, mas o italiano acabou sucumbindo nas voltas finais, saindo até mesmo do pódio. Miller sofreu uma rara quebra mecânica num dia de muitas quedas, como a de Alex Rins, quando o espanhol da Suzuki vinha forte rumo a briga pela vitória e de Valentino Rossi, mais uma vez beijando o chão, dessa vez, ainda na primeira volta.

Num dia em que a chuva embaralhou ainda mais os pilotos, tivemos um pódio completamente diferente do que estamos vendo na temporada 2020 da MotoGP, porém, a competitividade da categoria é mostrada com Alex Márquez sendo o 15º piloto diferente a subir no pódio e Petrucci ser o sétimo vencedor diferente do ano. Com tantas surpresas, os favoritos ao título ficaram com o mesmo status quo. Porém, os fãs da MotoGP não tem do que reclamar com outra corrida tão boa e um campeonato totalmente aberto.

sábado, 10 de outubro de 2020

Bonança entre as tormentas

 


O sábado em Nürburgring seguiu o que a previsão meteorológica alemã falou desde o começo da semana: sol entre nuvens, mas seria apenas um suspiro entre dois dias de muita chuva e frio. Sexta tudo foi confirmado, com a neblina cancelando os dois treinos livres. A meteorologia acertará também no domingo?

O que foi fácil prever foi outra primeira fila da Mercedes, contudo, Max Verstappen deu bem mais trabalho à dupla negra e o pole não foi Hamilton, mas de Valtteri Bottas, que chegou a ter um Q2 bem discreto, porém mostrou força no Q3 ao enfiar quase três décimos em Hamilton, que nunca pareceu estar totalmente à vontade na pista alemã. Verstappen era o mais rápido antes da segunda rodada de voltas rápidas no Q3 e ficou apenas milésimos atrás de Hamilton, demonstrando que a alta altitude, somado ao pouco tempo de pista que tiveram as equipes favoreceu o piloto da Red Bull. Albon não fez bem o seu papel e ficou em quinto, logo atrás de um dos destaques do treino, com Charles Leclerc dando um pouco de alento à Ferrari com um excelente quarto lugar, com as duas Renaults logo atrás.

Já considerado um Roberto Moreno do século 21, Nico Hulkenberg foi chamado de última hora para substituir um indisposto (aqui no Ceará chamamos de fininha...) Lance Stroll. Mesmo tendo feito duas corridas com o carro, Hulk estava totalmente fora de ritmo e tendo que entrar direto na classificação, foi o último colocado. A corrida amanhã pode ser bastante molhada e se fala na corrida mais fria da história da F1. Bons predicados de uma corrida no mínimo interessante.  

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

História: 45 anos do Grande Prêmio dos Estados Unidos de 1975


Após a definição dos campeões de 1975 (Niki Lauda e Ferrari), não havia muito em jogo para a derradeira etapa do mundial daquele ano. Emerson Fittipaldi e Carlos Reutemann decidiriam quem seria o vice-campeão, com dois pontos de vantagem para o brasileiro, que ainda não tinha renovado seu contrato com a McLaren. Algumas equipes nem foram à América do Norte, pois com o cancelamento da corrida no Canadá, apenas Watkins Glen estava no foco das equipes, com a pista americana recebendo uma chicane para diminuir a velocidade, pois nas duas últimas corridas em Glen houveram duas mortes (Cevert e Koinigg). Um dos motivos para qual algumas equipes não viajaram foi a falta de dinheiro. Se sabia que a Hesketh estava sérios problemas financeiros e sir Alexander Hesketh estava a ponto de liberar James Hunt, cujo o passe era disputado por Lotus e Brabham.

Lauda conseguiu sua nona pole em 1975, igualando o recorde que era do próprio austríaco em 1974. Brambilla chegou a ficar com o melhor tempo na sexta-feira, mas não repetiu o bom desempenho no sábado. Emerson Fittipaldi melhorou seu tempo e completaria a primeira fila ao lado de Lauda, iniciando bem sua luta com Reutemann pelo vice, com o argentino conseguindo o terceiro tempo. Os treinos foram marcados pelo forte acidente de Brett Lunger, que nada sofreu, e por um incidente inusitado com Jacques Laffite. Precisando usar colírio, o francês confundiu os frascos e colocou nos olhos um produto anti-embaçante, queimando seus olhos e o deixando de fora da corrida no domingo.

Grid:

1) Lauda (Ferrari) - 1:42.003

2) E.Fittipaldi (McLaren) - 1:42.360

3) Reutemann (Brabham) - 1:42.685

4) Jarier (Shadow) - 1:42.759

5) Andretti (Parnelli) - 1:42.822

6) Brambilla (March) - 1:42.846

7) Pryce (Shadow) - 1:42.960

8) Depailler (Tyrrell) - 1:43.032

9) Mass (McLaren) - 1:43.100

10) Scheckter (Tyrrell) - 1:43.127


O dia 5 de outubro de 1975 amanheceu nublado em Watkins Glen, no estado de Nova Iorque, mas não havia previsão de chuva para a corrida, o que era um bom presságio aos pilotos, que protestaram antes da corrida contra a FISA sobre os contratos que tinham com as equipes. Mesmo sendo a última corrida da temporada e sem muita coisa a ser decidida, havia uma certa tensão no ar, pois Watkins Glen era considerada uma das pistas mais perigosas do mundo. Na largada Lauda sai muito bem e manteve a ponta, seguido por Emerson e Jarier. Reutemann largou mal e perdeu duas posições, complicando suas aspirações ao vice-campeonato.


Numa visão muito conhecida em 1975, Lauda liderava com tranquilidade a corrida, enquanto Emerson era pressionado por Jarier, mas não demorou para o brasileiro se livrar do piloto da Shadow. Mais atrás um incidente incomum fez Mass perder quatro posições. O alemão desligou acidentalmente seu motor, perdendo repentinamente desempenho, mas Mass percebe a tempo de não ser completamente engolido pelo pelotão. Após ganhar frente à Jarier, Emerson tentou um ataque em cima de Lauda, ficando apenas 1s atrás da Ferrari, enquanto Reutemann subia para quarto ao deixar Brambilla, contudo a corrida do argentino só duraria até a décima volta, quando seu motor explodiu. Emerson garantia seu vice-campeonato. Clay Regazzoni tinha parado nos boxes para trocar a asa dianteira de sua Ferrari após um toque em Mass e estava a ponto de tomar uma volta. Gentilmente ele deixou Lauda passar, mas não fez o mesmo com Emerson, que perseguia Lauda de perto. O piloto da McLaren gesticulava ostensivamente, enquanto Regazzoni permanecia bloqueando Emerson. Nos boxes, a equipe McLaren vai reclamar com o diretor de provas Burdette Martin, chegando a sugerir que Martin não desclassificasse não apenas Regazzoni, mas também Lauda! Depois de nove longas voltas Regazzoni finalmente deixou Emerson passar, mas o brasileiro já se encontrava 10s atrás de Lauda e sua segunda posição só não estava ameaçada por que Jarier quebrara novamente. Seu 12º abandono em catorze corridas! Nos boxes a confusão continuava quando Martin falou à Ferrari que desclassificaria Regazzoni. Luca di Montezemolo ficou furioso e quase saiu no braço com o diretor de prova!


Regazzoni entra nos boxes para abandonar, mas por ordem de Montezemolo, que não queria seu piloto desclassificado. Hunt era o terceiro colocado, mas atrás do inglês vinha uma fila de carros, inclusive Mass, que após seu erro bizarro, se recuperava. Na volta 33 Mass ultrapassou Hunt, deixando-o à mercê de Peterson e Scheckter. Emerson Fittipaldi marca a volta mais rápida da corrida para dar o recado de que tinha carro para vencer, mas sua vitória fora tirada da Ferrari por um truque sujo. Nas voltas finais Hunt começou a ter problemas de freios e é ultrapassado por Peterson, na melhor corrida da Lotus em algum tempo. O detalhe era que Peterson ainda usava o datada modelo 72! Mass também passa a ter problemas de freios e é alcançado por Peterson, mas na penúltima volta o sueco se empolga demais e acaba fritando seus pneus, saindo rapidamente da pista, fazendo que Hunt retornasse ao quarto lugar. Confirmando sua ótima temporada, Niki Lauda vencia pela quinta vez em 1975, mas a polêmica estava no ar com os bloqueios de Regazzoni em cima de Fittipaldi e o brasileiro chegou a ir conversar com Clay depois da corrida. Contudo, essa presepada protagonizada pela Ferrari e Regazzoni não tirou o brilho do título de Lauda. O austríaco já havia dado o seu recado em 1974 e com mais experiência dentro da Ferrari, dominou a temporada com muita velocidade e constância. O título de 1975 estava em ótimas mãos, com Andreas Nikolau Lauda.

Chegada:

1) Lauda

2) E.Fittipaldi

3) Mass

4) Hunt

5) Peterson

6) Scheckter

sábado, 3 de outubro de 2020

O ufanismo enganoso

 


Uma das críticas que se faz a Rede Globo quando o assunto é F1, é que sua forma de cobrir a categoria sempre foi pautada nas vitórias brasileiras, principalmente nos anos 1980, quando o auge de Nelson Piquet e Ayrton Senna foram praticamente emendados e o hino brasileiro era o principal hit da F1 naquele momento. Contudo, para esses torcedores a corrida acabava quando os brasileiros abandonavam ou deixavam de acompanhar a F1 quando algum piloto tupiniquim não vencia. Foi assim nas secas de brasileiros vencendo na F1 e não deixa de acontecer agora, sem nenhum brasileiro na categoria. As boas audiências da Globo vem muito pelos vários fãs abnegados, que adoram corridas, não importa quem esteja vencendo.

Nesse final de semana a Indy voltou ao circuito misto de Indianápolis para uma rodada dupla decisiva para o campeonato. A Band por muito pouco não transmitiu a temporada 2020, mas de última hora resolveu acompanhar a categoria que a tanto tempo transmite, principalmente no seu canal esportivo, o Bandsports. Com a concussão de Oliver Askew, a equipe McLaren resolveu trazer Helio Castroneves para substituir o jovem americano e com um pé fora da Penske, já que a equipe terminará seu programa na IMSA, Castroneves estaria interessado em voltar à Indy full-time. Para quem não lembra, Helio teve temporadas medíocres em seus últimos anos na Penske, chegando a ficar três anos sem vitórias na principal equipe da Indy, que muitas vezes dominava o campeonato com os seus outros pilotos. Mesmo aos 45 anos e com essa dificuldade anterior, Helio ainda se sente competitivo e suas exibições na IMSA deixa claro que o veterano não está tão fora de forma. Contudo, uma corrida endurance na IMSA é bem diferente de uma prova sprint na Indy. Porém, a equipe da Band resolveu nos brindar com uma transmissão ufanista em que a vaga na McLaren para 2021 teria que ser de Helio Castroneves. De qualquer maneira!

Celso Miranda e Paulo Carcasci são duas pessoas das mais entendidas do automobilismo brasileiro, mas a forçada de barra que ambos fizeram, principalmente o segundo, foi irritante nas duas corridas em Indianápolis. Na primeira corrida, de forma pouco usual numa sexta, dizia-se que Castroneves estava enferrujado, mas que ele estava no ritmo dos líderes. Contudo, ele chegou em 20º, uma volta atrás do vencedor Josef Newgarden. Num circuito de quatro quilômetros, andar no mesmo ritmo dos líderes está longe de significar que um piloto está levando volta dos líderes, mas Helio ainda teve um trunfo, que foi ter chegado à frente do seu jovem companheiro de equipe, Pato O'Ward. Já no sábado o mexicano se colocou entre os primeiros do grid e Helio continuava na rabeira. Dada a largada, com Will Power dominando a corrida de ponta a ponta, Castroneves mudou sua estratégia e chega a andar em sexto. "Uma pilotagem fantástica," exclamou Carcasci.

Não demorou muito para Helio Castroneves voltar para o fundo do pelotão, chegar numa posição ainda pior, 21º. Para piorar as coisas, O'Ward chegou em quinto lugar e a ponto de colocar uma volta no experiente brasileiro. Porém, mesmo com duas atuações medíocres, os comentaristas da Band achavam que Helio tinha feito um ótimo trabalho e que por eles, a vaga em 2021 na McLaren era dele. Um claro desserviço para alguém que estava assistindo a Indy pela primeira vez. Como um piloto que termina duas corridas abaixo da vigésima posição e uma volta atrás do vencedor andou super bem, como falado por Miranda e Carcasci? Se fosse leigo, eu acharia no mínimo estranho.

Claro que existe o fato de toda a adaptação a um carro, contudo, Helio já não vinha bem nas últimas temporadas na Penske e isso já faz alguns anos. Helio teve uma bela carreira nos Estados Unidos, mesmo não vencendo um campeonato, mas como tudo na vida há um início, meio e fim. Mesmo não querendo ou aceitando, o tempo de Castroneves na Indy já passou. E as duas exibições desse final de semana em Indianápolis esteve longe de impressionar qualquer chefe de equipe na Indy. Um contrato part-time ainda valeria para o bem da equipe e de Helio, mas dizer para milhares de pessoas que o Helio foi fantástico nessas duas corridas chega a ofender a inteligência dos telespectadores.

Numa resposta bem americana aos comentários ufanistas de Celso e Paulo na transmissão da Band, bastaria um... Come on!

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Perigo da tecnologia de ponta

 


Eram meados de 2008. O mundo havia passado por uma grande crise financeira, enquanto a F1 partia para seus testes de pré-temporada rumo a um novo e revolucionário regulamento para 2009, onde os carros ficariam menores e mais simples aerodinamicamente. A Honda vinha fazendo temporadas bem abaixo do esperado com sua equipe oficial, mas já testava normalmente com seus novos pilotos de testes, Bruno Senna e Lucas di Grassi. Foi então que meio do nada, a montadora japonesa anunciou que estava saindo da F1 de forma imediata, causando um grande rebuliço em sua equipe e na F1. Tudo levava a crer que Rubens Barrichello se aposentaria, Jenson Button teria que procurar emprego, assim como centenas de funcionários da fábrica, mas usando uma engenharia financeira, Ross Brawn comprou a equipe e o resto é história.

Pouco menos de doze anos depois, a F1 novamente é surpreendida pela Honda pela pior forma. No melhor momento nessa sua volta à F1, a Honda anunciou que deixará a categoria no final de 2021, deixando todos perplexos.

Essa decisão, que se sabe foi tomada no final de setembro, após um mês pensando acerca disso, afetou muito a F1, mas principalmente Red Bull e Alpha Tauri, que enquanto comemoravam a vitória ocasional de Pierre Gasly em Monza, se viam sem motor em 2022 e praticamente sem nenhuma perspectiva de ter um até lá. Um dos primeiros desafios de Stefano Domenicalli em sua entrada na liderança da F1 será conseguir um motor minimamente competitivo para a Red Bull, seja entra as três que estão competindo atualmente (e todas as três já tiveram problemas com a Red Bull...) ou de uma nova montadora. Por enquanto, a Red Bull se comprometeu a ficar na F1 para além de 2022, até porque assinou o famoso contrato da Concórdia, mas a situação da equipe se complicou deveras, pois a perspectiva de deixar de ser uma equipe de fábrica é real e mexe bastante nas finanças da equipe, sem contar a própria competitividade. Max Verstappen, considerado o piloto mais promissor da atual geração, hoje tem um contrato de longa duração com um time sem motor em 2022.

Outro fato é se podemos considerar a Honda uma montadora realmente vitoriosa na F1. Claro que os grandes momentos dos anos 1980 nunca serão apagados, mas percebe-se que a vitoriosa parceria com a McLaren e Williams foi mais uma exceção do que uma regra. A Honda fracassou nos 1960, nos anos 2000 e agora nos últimos anos, mesmo com as vitórias e pódios com a Red Bull, poderá ficar marcada pelo famoso 'GP2 Engine' gritado por Fernando Alonso no rádio em Suzuka, quintal da Honda, numa humilhação pública. Essa saída repentina da Honda é mais um exemplo do quão frágil está a situação das montadoras e como a F1 pode estar cometendo um grande erro ao se comprometer com uma unidade de potência tão complexa que somente as grandes montadoras podem bancar, mas essas mesmas montadoras podem deixar a F1 na mão quando bem entender. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

História: 25 anos do Grande Prêmio da Europa de 1995


 Graças a enorme popularidade conseguida por Michael Schumacher nos anos anteriores, o itinerante Grande Prêmio da Europa aportou em Nürburgring em 1995, propiciando uma segunda corrida na Alemanha. A futura equipe do alemão, a Ferrari, anunciou que o companheiro de equipe de Schumacher em 1996 seria Eddie Irvine, para surpresa de muitas pessoas. O irlandês era uma antítese de Schumacher, mas o alemão teria a certeza de que não teria uma sobra a perturba-lo e Irvine não se importava muito em ser segundo piloto da Ferrari. Para o lugar de Irvine, Jordan contratou o veterano Martin Brundle, para desgosto de sua parceira Peugeot, que desejava um piloto francês no segundo carro da Jordan. Um fato interessante foi que a Forti Corse construiu seu primeiro câmbio semi-automático, mas só teria um à disposição e Roberto Moreno foi o agraciado. Sabendo que o segundo câmbio estaria disponível na prova seguinte, Pedro Paulo Diniz entrou para a história da F1 como o último piloto a passar marchas através de uma alavanca.

O instável clima na região montanhosa de Eifel atrapalhou bastante a F1, com a chuva aparecendo em no final da sessão classificatória de sexta e no sábado pela manhã. A segunda sessão classificatória no sábado aconteceu com a pista mais úmida e apenas sete pilotos melhoraram seus tempos, com o grid definido pelos tempos de sexta, dando ainda mais munição à Ecclestone, que queria extinguir o qualify de sexta. A Williams dava mostras de ter o melhor carro, mesmo que constantemente superada pelo melhor piloto (Schumacher). Coulthard conseguia sua terceira pole consecutiva, com Damon Hill fechando a primeira fila, enquanto o anfitrião Schumacher era terceiro, sendo um dos poucos a melhorar em relação ao dia anterior. A Ferrari teve problemas no seu sistema de direção e levou 1s inteiro da Williams. Animado com a contratação pela Ferrari, Irvine consegue um ótimo quinto lugar, bem à frente de Barrichello, que sonhou com a vaga que seu companheiro de equipe havia conquistado.

Grid:

1) Coulthard (Williams) - 1:18.738

2) Hill (Williams) - 1:18.972

3) Schumacher (Benetton) - 1:19.150

4) Berger (Ferrari) - 1:19.821

5) Irvine (Jordan) - 1:20.488

6) Alesi (Ferrari) - 1:20.510

7) Herbert (Benetton) - 1:20.653

8) Frentzen (Sauber) - 1:20.749

9) Hakkinen (McLaren) - 1:20.866

10) Blundell (McLaren) - 1:20.909


O dia primeiro de outubro de 1995 amanheceu com muita chuva e neblina em Nürburgring, num típico dia naquela região e que também é um verdadeiro pesadelo para pilotos e equipes, pois se a chuva tinha sido forte o suficiente pela manhã para atrasar o warm-up, de tarde a previsão era de que não choveria mais, porém, a pista ainda estava bem molhada logo depois do almoço. Numa cena parecida com a de Monza, Coulthard bateu enquanto levava seu carro ao grid, mas o escocês ainda teve tempo de pegar o carro reserva, que estava acertado para Hill. A grande maioria das equipes optaram pelos pneus de chuva, enquanto Ferrari e McLaren escolheram os slicks, na esperança de que a pista secasse rapidamente. Após a primeira largada ter sido abortada por causa de Papis, Coulthard largou muito e se manteve em primeiro, enquanto Hill patinou muito e foi engolido pelo pelotão, inclusive Irvine, que pulou para terceiro, atrás do seu futuro companheiro de equipe Schumacher. 


A pista ainda estava muito molhada no primeiro setor, mas quase seca na última parte do circuito. Hill ultrapassa Irvine ainda na primeira volta para ser terceiro, porém, Coulthard e Schumacher abriam uma boa vantagem na ponta. Os pilotos da McLaren caíam pelo pelotão, mas os pilotos da Ferrari conseguiam se manter no primeiro pelotão, algo que lhes ajudaria bastante depois. Não demorou para Hill encostar nos dois líderes, enquanto Irvine já era um distante quarto colocado, contudo, os pilotos passavam a procurar trechos molhados para enfriarem seus pneus de chuva. Já Alesi crescia na corrida e após ultrapassar Herbert e Irvine, assumia a quarta posição. Na volta 11 os três primeiros vão aos pits colocar pneus slicks, mas Hill tem problemas em sua parada e fica atrás de Berger, que já havia largado com pneus slicks. Mesmo com pneus de chuva desgastados, Irvine segurou Coulthard até fazer sua parada para colocar os pneus corretos, fazendo com que Schumacher novamente encostasse na Williams, trazendo consigo Hill, que ultrapassara Berger (com problemas de motor) poucas voltas antes. Schumacher e Hill iniciam uma luta espetacular pela terceira posição, com Hill efetuando uma agressiva ultrapassagem, tomando o troco na passagem seguinte!


Correndo com o carro acertado para Hill, Coulthard começou a ter problemas de dirigibilidade com a pista seca, acabando por ser ultrapassado por Hill e Schumacher. Na primeira posição, Alesi era o piloto mais rápido e parecia ter a corrida na mão. O francês faz sua única parada na volta 34 e retorna ainda em primeiro, mas para surpresa de muitos, Schumacher entra nos pits para uma segunda e rápida parada, indicando que faria uma terceira parada. A Williams não faz nada, no que seria um grande erro estratégico. Com o carro mais leve, Hill era segundo e encostava em Alesi, enquanto Schumacher, que retornara à pista em quarto, se aproximava de Coulthard. Hill tenta um ataque em cima de Alesi e acaba quebrando a asa dianteira do seu carro, fazendo com que o inglês perdesse longos 30s nos boxes, saindo completamente da contenda da vitória. Schumacher, que ultrapassara facilmente Coulthard, se tornava o principal rival de Alesi e com o carro bastante leve, era 2s mais rápido do que o francês. Nos boxes, a equipe Pacific liberou Montermini antes da hora e um mecânico acabou machucado. Schumacher finalmente encostava em Alesi e quando percebe uma grande quantidade de retardatários, o alemão entra nos pits para a sua terceira parada. Seria uma medida certeira!


Com pista livre, Schumacher partiria para uma caçada alucinante nas últimas voltas do animado Grande Prêmio da Europa para cima de Alesi. Faltando treze voltas para o fim, Schumacher batia o recorde da pista de Nürburgring e estava somente 12s atrás de Alesi. A Ferrari resolve deixar Alesi na pista com os pneus desgastados, esperando e rezando que Schumacher não tivesse tempo hábil para chegar em seu piloto. Na volta 59 Damon Hill saiu da pista a bate sua Williams, abandonando no local e saindo do carro com dores nos joelhos. Aquela saída de pista era o exemplo da temporada medíocre de Damon Hill em 1995. Enquanto isso seu rival destruía a desvantagem que tinha para Alesi, ele ainda foi ajudado por Martin Brundle, que como retardatário não deu espaço ao piloto da Ferrari e Alesi perdia 5s na manobra. O espelho retrovisor de Alesi já estava cheio de Schumacher, mas havia um porém. Muitos reclamaram que o novo circuito de Nürburgring não tinha muitos pontos de ultrapassagem e Alesi contava com isso para conseguir sua segunda vitória na F1, mas nem ele e nem a Ferrari parecia conhecer o perseguidor deles. Schumacher colocava de lado sempre que podia, mas Alesi se mantinha firme, mas na antepenúltima volta, os dois se aproximavam de Diniz para colocar uma volta e para não atrapalhar os líderes, o brasileiro acabou colocando uma roda na grama. Isso assustou Alesi, que hesitou por um segundo, mas era o bastante para Schumacher. Na chicane Veedol, que ele havia ajudado a projetar, Schumacher efetua a ultrapassagem da vitória na frente de sua frenética torcida. Era a sétima vitória de Schumacher 1995, enquanto Alesi amargava uma triste segunda posição. Um distante Coulthard completou o pódio, com Barrichello dando um bom quarto lugar à Jordan e Herbert superando Irvine nas últimas voltas para fechar a zona de pontuação. Michael Schumacher sorria de felicidade no degrau mais alto do pódio. Ele não apenas conquistou uma das maiores vitórias de sua carreira, mas dava um grande passo em direção ao seu segundo título mundial. 

Chegada:

1) Schumacher

2) Alesi

3) Coulthard

4) Barrichello

5) Herbert

6) Irvine