domingo, 30 de setembro de 2018

O dedo de Toto

Ordens de equipe sempre existiram e nunca deixarão de existir no automobilismo. Negar isso é tapar o sol com a peneira. A verdade é que desde 2001, quando a Ferrari mandou Barrichello ceder sua segunda posição para Schumacher na chegada do Grande Prêmio da Áustria, manobra repetida um ano depois valendo a vitória, os ordens de equipe ficaram mais visadas e criticadas. Não vale a pena aqui ficar citando caso a caso essas polêmicas manobras de equipe, que já aconteceram na luta pelo título de... 1958! Valtteri Bottas sempre correu bem em Sochi desde os seus tempos da Williams e ontem conseguiu uma belíssima pole, superando um hiper-confiante Lewis Hamilton, o que é um verdadeiro feito. O nórdico se manteve na ponta e tinha tudo para vencer, mesmo com Hamilton e Vettel à espreita. Sempre focalizado pelas câmeras, Toto Wolff apertava o botão 'tatitcs'. Não demorou uma volta para Hamilton assumir a ponta e vencer pela terceira vez em solo russo, se aproximando definitivamente do seu quinto título.

A corrida no chato traçado de Sochi foi até melhor do que as anteriores. Num circuito sem imaginação, onde apenas o longo curvão chama a atenção, a corrida de destacou pela proximidade dos três primeiros e até mesmo uma disputada troca de posição. A largada se deu sem nenhum problema, mas com Vettel mostrando que iria para o ataque, colocando por dentro de Hamilton algumas vezes nas primeiras curvas. Corrida assentada, Bottas liderava até com certa facilidade à frente de Hamilton e Vettel. Em outra prova sorumbática, Raikkonen foi um isolado quarto colocado, onde não atacou ou foi atacado por ninguém. Bateu o ponto e uma hora dessa está deixando o circuito com sua bela esposa e seu fofo pimpolho. A única rodada de paradas trouxe o único momento de emoção da corrida. Bottas foi o primeiro a parar, enquanto Hamilton resolver ficar duas voltas a mais na pista. Vettel parou entre os dois carros da Mercedes e quando Lewis voltou ao traçado, ele se encontrava atrás de Vettel. Inconformado com o erro da Mercedes, Hamilton tratou de consertar a besteira dos estrategistas e numa bela manobra no curvão, retomou a segunda posição, demonstrando a força da Mercedes na Rússia frente a uma impotente Ferrari. Se os táticos da Mercedes erraram feio com Hamilton, o pior viria com Bottas. Os três primeiros andavam juntos e a corrida tendia a se estender assim até o final, com Bottas finalmente vencendo pela primeira vez em 2018. A Mercedes, desde os tempos em que era parceira da McLaren, sempre evitou ordens explícitas de equipe e criticava abertamente a política da Ferrari de nomear um destacado primeiro piloto. 'Como fica a motivação do segundo piloto?', perguntava na época Norbert Haug. Essa resposta quem dará será Toto Wolff, que mandou Bottas praticamente parar o carro e deixar Hamilton vencer.

O clima de constrangimento ficou forte no carregado ar de Sochi. Lembranças de 2002 e 2010 vieram imediatamente à tona. Bottas ainda perguntou nas últimas voltas se a sua vitória seria devolvida, mas a negativa deixou o pódio num anticlímax raramente visto no momento mais festivo de uma corrida de F1. Hamilton estava nitidamente envergonhado e tentou fugir das entrevistas, enquanto Bottas estava com aquela cara de dar de ombros para qualquer pergunta feita. E as perguntas de praxe foram feitas e as respostas de praxe foram dadas. Não havia muito o que fazer. Hamilton ainda esboçou trocar de troféu no pódio e chamou Bottas para o lugar mais alto para receber o seu. Um movimento menos desnecessário do que em 2002, mas ainda assim desnecessário. Se dezesseis anos atrás a Ferrari não tinha um adversário sequer próximo para esboçar uma briga pelo campeonato, esse ano a Mercedes tem que lidar com a Ferrari, porém, as derrotas consecutivas deixaram o moral dos italianos abalado e a Mercedes, assim como Hamilton, tinham o campeonato controlado. A vantagem de Vettel no campeonato iria subir com a vitória ou o segundo lugar de Hamilton, mas o arranhão no histórico da Mercedes não será reparado tão cedo. O engraçado disso tudo é o que a Ferrari irá fazer sobre esse assunto sempre espinhoso na F1? Reclamar? Mas qual a moral os italianos tem sobre isso?

O nome da corrida foi Max Verstappen, que fez uma estupenda corrida de recuperação após sair da penúltima fila devido à punições e em menos de dez voltas já aparecia em quinto. É outro indicativo do abismo entre as equipes top-3 e as demais, da mesma forma como corrobora que o talento do aniversariante de hoje é mesmo fora do comum, pois Daniel Ricciardo com o mesmo carro não conseguiu a mesma recuperação, apesar de ter terminado num protocolar sexto lugar. Max liderou o maior número de voltas por ter postergado ao máximo sua parada, mas a ciência inexata dos pneus atuais da F1 ficou clara quando Verstappen colocou pneus ultramacios novos nas dez últimas voltas e simplesmente não foi capaz de diminuir a diferença para Raikkonen, com pneus macios desgastados. Leclerc venceu a corrida dos 'pobres' com uma belíssima ultrapassagem sobre Magnussen no início da corrida e se manteve a prova toda em sétimo. O danês teve que suportar a pressão dos dois carros da Force India a corrida inteira, que usou ordens de equipe para os seus dois pilotos atacarem Magnussen, mas sem sucesso. Pelo menos a Force India mandou Ocon e Pérez retomarem suas posições mais tarde. Grosjean, de contrato renovado com a Haas, ficou fora dos pontos, assim como dispensado Ericsson, longe do desempenho do seu companheiro de equipe da Sauber. Após um bom início de temporada, a Renault despencou e ficou fora dos pontos. Mau sinal para Ricciardo. McLaren e Williams brigaram pelas últimas posições, enquanto a Toro Rosso, que trocou seu motor para a corrida de hoje para ter tudo novo em Suzuka na semana que vem, na casa da Honda, abandonou com seus dois pilotos ainda no início da corrida. Por sinal, os únicos abandonos do dia.

O campeonato pode ter sido decidido hoje, mesmo que matematicamente a conta deva fechar novamente no México, onde Hamilton garantiu o seu tetra ano passado. A Ferrari parece impotente após tantas derrotas, mas a Mercedes não precisava passar por uma situação como a de hoje, onde viu seus princípios indo para o beleleu com a ordem imposta por Wolf. 

sábado, 29 de setembro de 2018

Surpresa na mesmice

A passagem da F1 pela Rússia mostrou um pelotão estanque em todos os treinos livres. A Mercedes voltava aos seus tempos de domínio, com seus dois pilotos bem na frente dos demais. A Red Bull deu pinta que seria a segunda força, mas as trocas de peças no motor, numa briga política com a Renault, jogou o time austríaco para as últimas posições de antemão. Já a Ferrari parecia em outro mundo, bem diferente de quando era a mais rápida. Para desgosto de Vettel, Arrivabene e sua trupe, a Ferrari está tomando quase 1s da Mercedes no final de semana em Sochi. A pole parecia destinada à Hamilton, mas Bottas conseguiu uma ótima volta no Q3 e contou com um erro de Lewis para conseguir sua segunda pole em 2018.

Não apenas a Red Bull, mas também Alonso e a dupla da Toro Rosso também realizaram trocas de motor e não seriam fatores de um treino que foi morno o tempo todo. A Mercedes dominou em todo momento sem nenhum rival à vista, mas no Q3 Bottas mostrou novamente que o circuito de rua de Sochi lhe veste muito bem. O finlandês ficou com o tempo mais rápido, mas contando com um erro de Hamilton em sua última volta. Restou a Vettel ficar com o terceiro tempo com boa vantagem para Raikkonen, que em troca tinha mais de 1s de vantagem para o resto. Com a Renault abdicando do Q2, as duplas de Force India, Haas e Sauber foram tranquilamente para o Q3 e brigaram entre si para ser o melhor do resto. Numa batalha equilibrada, Magnussen ficou com o quinto posto, seguido de perto por Ocon e Leclerc.

A corrida amanhã cedo tende a ser longe das emoções que já aconteceram nessa temporada, por sinal, confirmando a ruindade das corridas em Sochi. Se Bottas se mantiver na frente, talvez nem seja preciso a Mercedes emitir uma ordem de equipe para os seus pilotos, pois a vantagem de Hamilton sobre Vettel já é bastante grande, o mesmo acontecendo entre Mercedes e Ferrari nesse final de semana.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

História: 15 anos do Grande Prêmio dos Estados Unidos de 2003

Após a enfática vitória de Michael Schumacher em Monza, o alemão chegava para a reta final do campeonato de 2003 por cima frente aos seus únicos rivais com chances de título. Juan Pablo Montoya lutou muito com Michael em Monza, num circuito onde em teoria a Williams-BMW levaria vantagem, mas o colombiano acabou derrotado e chegava em Indianápolis pressionado, mas com boas perspectivas, pois além de ter boa parte de sua torcida na pista de Indiana, Montoya já havia triunfado na mítica pista de Indiana, nas 500 Milhas. Kimi Raikkonen parecia ser o piloto com menos chances. Usando muito mais a regularidade do que a velocidade no ano, Kimi conseguiu levar seu McLaren do ano anterior na luta pelo título, mesmo que todos apostassem numa briga renhida entre Schumacher e Montoya, com Raikkonen correndo por fora.

O grid para a corrida seria fundamental e um dos postulantes ao título estava na pole. E era justamente o que teoricamente tinha menos chances. Raikkonen encaixou uma bela volta para ficar na ponta, enquanto a Ferrari de Rubens Barrichello completava a primeira fila. Montoya era quarto e Schumacher era apenas um apagado sétimo colocado. Havia a expectativa de chuva para o domingo e muitos desconfiavam do bom desempenho de Barrichello, enquanto Schumacher parecia fora de ritmo. Rubens seria uma isca da Ferrari para limpar o caminho para Schumacher? Era o que todos se perguntavam.

Grid:
1) Raikkonen (McLaren) - 1:11.670
2) Barrichello (Ferrari) - 1:11.794
3) Panis (Toyota) - 1:11.920
4) Montoya (Williams) - 1:11.948
5) R.Schumacher (Williams) - 1:12.078
6) Alonso (Renault) - 1:12.087
7) M.Schumacher (Ferrari) - 1:12.194
8) Coulthard (McLaren) - 1:12.297
9) Da Matta (Toyota) - 1:12.326
10) Trulli (Renault) - 1:12.566

O dia 28 de setembro de 2003 amanheceu nublado e com clima instável em Indianápolis. Se em outras pistas essa condição climática até mesmo afugenta os torcedores, em Indianápolis ocorre o contrário. Acostumados com a pista oval, onde não se corre com chuva, o público de Indiana lotava a sua tradicional pista para uma corrida na chuva, algo totalmente diferente do que vêem normalmente. A possibilidade de pista molhada era mais uma pitada na disputa, pois Michelin e Bridgestone se comportavam de formas diferentes dependendo da quantidade de água na pista. Schumacher corria de Bridgestone, enquanto Raikkonen e Montoya estavam calçados de Michelin. A chuva era iminente na hora da largada, mas a pista estava seca quando as cinco luzes vermelhas se apagaram e Raikkonen imediatamente pulou na ponta. Montoya estava logo atrás de Barrichello, que largou muito mal, atrapalhando a vida do colombiano, que ficou atrás de Rubens. Se a manobra já tinha sido suspeita, as coisas piorariam mais tarde.

Schumacher havia largado muito bem, mas não demorou duas voltas para a chuva dar as caras em Indianápolis. Barrichello diria depois que estava com um problema de câmbio e isso tinha sido o motivo de sua má largada. O brasileiro segurava Montoya e no começo da terceira volta, Juan Pablo tentou a manobra no final da reta dos boxes, resultando num toque entre eles. Com a chuva ficando claramente mais forte, Barrichello abandonou no local, enquanto Montoya caía para sétimo. Muitos acusaram Barrichello de ter feito o serviço sujo da Ferrari, algo que o brasileiro sempre negou. Panis era ultrapassado seguidamente e enquanto a Ferrari de Rubens era retirada, causando a bandeira amarela, Schumacher ultrapassava Panis descaradamente. Todos esperaram uma punição ao alemão, mas ela nunca viria. Kimi construía uma vantagem na ponta, seguido por Ralf Schumacher, que largara muito bem. Na quinta volta a chuva molhava a pista, mas não a ponto de fazer os líderes trocarem de pneus. Nesse momento, os usuários dos pneus Michelin estavam em vantagem e o quarto colocado Schumacher foi ultrapassado por Coulthard e Montoya facilmente. Na décima volta a chuva cessa e a corrida se estabiliza com Raikkonen bem na frente, com Montoya em quarto e Schumacher em sexto, tendo sido ultrapassado também por Alonso. A corrida de Montoya começa a se complicar quando ele tem problemas no bocal de reabastecimento e perde muito tempo em sua primeira parada. Poucas voltas depois, a chuva. Dessa vez com força. A maioria dos pilotos entram nos pits para colocar pneus intermediários e bem no momento em que Montoya iria fazer isso, ele era informado que havia sido punido por stop-and-go pelo toque com Barrichello. Outra decisão polêmica e pró-Ferrari. O colombiano teve que cumprir sua punição e dar uma volta inteira com os pneus slicks na pista muito molhada antes de colocar os pneus certos, além de voltar a ter problemas de reabastecimento. A corrida de Montoya, assim como suas chances de títulos, estavam indo ralo abaixo.

A Bridgestone tinha uma vantagem clara com pneus intermediários e rapidamente Schumacher começou seu show. O alemão estava colado em Raikkonen e o ultrapassa na volta 28 com imensa facilidade. Michael abria vantagem como se Raikkonen corresse em outra categoria! Como alguns pilotos aproveitaram a oportunidade para ganhar posições, Button liderou algumas voltas até o seu motor explodir. Frentzen estava em segundo, com Heidfeld em terceiro com a outra Sauber. Havia uma possibilidade de um pódio triplo para a Alemanha! Porém, a chuva foi parando e na medida em que a pista foi secando, Raikkonen alcançou as duas Saubers para ficar com a segunda posição, mas ele nada podia fazer com relação à Schumacher. O alemão da Ferrari vencia pela segunda corrida consecutiva e ficava com as mãos na taça. Montoya perdeu uma volta e lutou muito, mas só conseguiu a sexta posição, apenas um posto de ter ainda chances de título. Juan Pablo nunca mais brigaria pelo título novamente. Com o segundo lugar, Raikkonen mantinha chances apenas matemáticas de título, enquanto Frentzen, em sua última temporada na F1, curtia seu último pódio. Foi uma das vitórias mais categóricas de Schumacher em sua carreira e que praticamente lhe garantiu o hexa.

Chegada:
1) M.Schumacher
2) Raikkonen
3) Frentzen
4) Trulli
5) Heidfeld
6) Montoya
7) Fisichella
8) Wilson 

terça-feira, 25 de setembro de 2018

História: 30 anos do Grande Prêmio de Portugal de 1988

Após a surpreendente corrida em Monza, onde a McLaren conheceu sua única derrota em 1988, a F1 se encaminhava para conhecer seu campeão daquela temporada e tudo levava a crer que seria Senna. Se o brasileiro vencesse uma corrida nas quatro restantes, seria campeão, enquanto Prost quebrava a cabeça com os pontos que teria que descartar no final do ano. Com um carro tão superior aos demais, a McLaren sugere a Honda que forneça um motor mais confiável, para evitar uma quebra como a vista com Prost em Monza. Os japoneses prontamente atende sua parceira. Outros tempos. Mansell se recuperava de sua catapora, enquanto sua futura equipe, a Ferrari, testava o revolucionário câmbio semi-automático, tendo como piloto de testes principal o então campeão da F3000 Roberto Moreno. 

Senna foi o mais rápido na sessão oficial de sexta-feira, enquanto Prost tinha problemas de motor. No dia seguinte, o francês desfrutou de um motor perfeito e consegue a pole, com Senna não conseguindo melhorar seu tempo. O brasileiro estava arredio dentro dos boxes da McLaren, ainda lamentando a vitória perdida em Monza. O herói de sábado fora Capelli. O jovem italiano colocou seu March-Judd em terceiro lugar, enquanto seu companheiro de Gugelmin ocupava um ótimo quinto lugar. Os pilotos da Ferrari (Berger em 4º e Alboreto em 7º) sofriam de uma falta crônica de aderência. Os Williams-Judd estavam fortes num circuito mais travado, mas Mansell (6º) tropeçou no trânsito e Patrese (11º) quebrou um motor. Piquet não pode fazer nada melhor do que o oitavo lugar com o seu Lotus, mas domina muito claramente Nakajima, apenas 16º. Se já estava chateado com a derrota em Monza, a perca da pole para Prost no Estoril deixava Senna arrasado nos boxes da McLaren.

Grid:
1) Prost (McLaren) - 1:17.411
2) Senna (McLaren) - 1:17.869
3) Capelli (March) - 1:18.812
4) Berger (Ferrari) - 1:18.903
5) Gugelmin (March) - 1:19.045
6) Mansell (Williams) - 1:19.131
7) Alboreto (Ferrari) - 1:19.372
8) Piquet (Lotus) - 1:19.551
9) Nannini (Benetton) - 1:19.572
10) Warwick (Arrows) - 1:19.603

O dia 25 de setembro de 1988 amanheceu quente e ensolarado no Estoril, num clima perfeito para uma corrida. Mesmo largando em primeiro, Prost reclamou bastante por estar largando na parte suja da pista e chegou a pedir que a McLaren varresse seu lugar no grid. A corrida começou muito confusa e foi necessário três largadas. A primeira foi adiada por problemas com Andrea de Cesaris antes mesmo da luz verde. Quando ela apareceu na segunda largada, um acidente no meio do pelotão suspendeu a corrida novamente. Warwick ficou parado no grid e foi atingido por De Cesaris, Luiz Perez-Sala e Nakajima. Depois de mais de meia hora a corrida finalmente teve seu início. Na segunda largada, Prost rapidamente percebeu a vantagem que Senna teve ao largar do lado limpo e por isso, na terceira tentativa o francês jogou seu carro para a esquerda, tentando intimidar Senna, porém o brasileiro se manteve firme e as duas McLaren chegaram lado a lado na primeira curva. Prost se mantinha por dentro, mas num corajoso mergulho por fora, Senna assumiu a primeira posição.

Mesmo não inteiramente satisfeito com o acerto do seu carro, Prost sentia que estava melhor equipado do que Senna. Após ameaçar no final da primeira volta, Prost pegou o vácuo de Senna na reta dos boxes e partiu para a ultrapassagem. Corroborando com seu estilo agressivo, Senna não titubeou em espremer Prost contra o muro dos boxes. No filme oficial daquela temporada, dá para ouvir claramente um português gritando 'ai, ai, ai'. Dessa vez foi Prost que não se intimidou e completou a ultrapassagem. Senna tinha problemas na bomba de combustível do seu carro, que consumia mais do que o normal e se quisesse chegar ao fim, Ayrton precisava andar num ritmo mais ameno. Prost rapidamente abre vantagem, enquanto Senna era atacado por Capelli e Berger. Era uma cena inimaginável, mas uma McLaren atrasava todo o pelotão. Capelli sofria com a pouca potência do seu carro no final da reta, enquanto Senna jogava duro. Após várias tentativas, Capelli finalmente ultrapassa Senna na volta 22, quando já se formava um pequeno pelotão atrás da McLaren. Imediatamente Capelli marca a volta mais rápida da corrida, até mesmo para fugir de Berger, que não demorou uma volta para ultrapassar Senna. Na volta 33, enquanto perseguia Capelli, Berger aciona sem querer seu extintor de incêndio, quase congelando suas pernas, mas o austríaco permanece na corrida. Porém, com o cockpit da Ferrari cheio de espuma, Berger acaba escorregando no pedal de freio na volta 35 e roda, acabando com sua corrida. Como diria o filósofo, há coisas que só aconteciam com Gerhard Berger...

Prost também economizava combustível, permitindo Capelli chegar bem próximo do francês, mas o piloto da McLaren logo aumentava o seu ritmo, controlando sua distância na ponta da corrida. Com um motor raquítico, Mansell não conseguia ultrapassar Senna, da mesma maneira em que ficava cada vez mais impaciente. O inglês atacava em praticamente toda a freada, mas Senna continuava aplicando fechadas. Na volta 54 Mansell tenta se aproveitar de um lento Jonathan Palmer, mas acaba se atrapalhando e bate na traseira de Senna. Para sorte do brasileiro, ele pôde continuar na corrida, mas era o fim de corrida para Mansell. Senna vai aos boxes para uma rápida averiguação e mesmo com um braço de suspensão torto, o brasileiro retorna à corrida em sétimo, que logo viraria sexto quando o motor de Gugelmin quebra na volta 60. Sentindo o motor superaquecer, Capelli vê no abandono do companheiro de equipe um sinal para abrandar o ritmo. Alboreto tentou uma aproximação em cima de Capelli, acreditando no seu computador de bordo, que lhe dizia que tinha combustível o suficiente. Contudo, a máquina falhou e Alboreto acabou ficando sem gasolina na volta final. Alain Prost venceu pela trigésima terceira vez na carreira, com Capelli ficando com um esplêndido segundo lugar com seu March-Judd. Boutsen ficou com a terceira posição, com Warwick em quarto, enquanto Alboreto salvou por pouco o quinto lugar. Senna chegou em sexto, mas sua manobra na segunda volta já tinha causado um belo estrago. Até então a atmosfera dentro da McLaren era respirável, apesar da competitividade dos seus dois pilotos, mas Prost saiu reclamando bastante da manobra de Senna ao joga-lo contra o muro dos boxes. Senna também reclamou da manobra de Prost na largada que valeu. Ambos foram chamados por Ron Dennis para se explicar. Com o final do campeonato tão próximo do fim, nada demais aconteceu entre Senna e Prost, mas a semente havia sido plantada para uma das rivalidades mais ferozes e fantásticas da história da F1.

Chegada:
1) Prost
2) Capelli
3) Boutsen
4) Warwick
5) Alboreto
6) Senna

domingo, 23 de setembro de 2018

Com a faca nos dentes

Apesar de ter alguns detratores, negar que hoje estamos vivendo a Era Marc Márquez é não querer enxergar o óbvio. A polêmica fala de Reginaldo Leme semana passada sobre Lewis Hamilton se encaminhar para ser o maior da história não é tão polêmico quando se fala do espanhol, que vai empilhando recordes, sendo que hoje se igual à Mike Hailwood no quesito pódios. "Ah, a Honda tem a melhor moto", falarão alguns críticos. Será mesmo? O desmotivado Daniel Pedrosa fez a melhor corrida dele do ano para ser quinto, enquanto Cal Cruthlow mal consegue se manter de pé em sua indomável Honda. Somente o talento absurdo de Márquez para domar sua moto, tanto que a Honda já percebeu o diamante que tem em mãos para acertar a moto do jeito dele.

A corrida de hoje em Aragão foi um luta entre Márquez e a Ducati de Doviziozo, com a dupla da Suzuki apenas observando o que poderia sobrar para eles. O pole Jorge Lorenzo não largou muito bem, surpreendido pela agressiva saída de Márquez, mas ao tentar dar o troco, Lorenzo acabou no chão na primeira curva e deslocou um dedo do pé direito. Para quem já correu com a clavícula recém-operada, isso não será nada demais para Lorenzo na próxima etapa daqui a duas semanas. Doviziozo assumiu a ponta da corrida, com Márquez e a dupla da Suzuki logo atrás, num pelotão que se manteria próximo até a bandeirada. A Ducati mostrou em todo o final de semana ser a melhor moto do pelotão, combinando a conhecida estúpida potência no retão de Aragão com o equilíbrio nas curvas de baixa. Márquez conseguia se manter na briga com uma habilidade formidável e dava estocadas em Doviziozo. Iannone deixava Rins para trás e acompanhava a briga de perto, mostrando uma surpreendente paciência. Nas voltas finais, com os pneus desgastados, a luta pela primeira posição apertou e os três primeiros chegaram a dividir a mesma curva, numa situação belíssima, mas que o mais talentoso normalmente vence. E sem sombra de dúvida, esse se chama Márquez.

O espanhol da Honda conseguiu a ultrapassagem decisiva e nas duas voltas finais não deu mais chance para Doviziozo, que abriu uma mínima diferença para Iannone para não ser atacado. Numa corrida muito boa, Márquez conquistou mais uma vitória na raça e se consolida entre os gigantes da história do Mundial de Motovelocidade. Outro piloto que está nesse panteão hoje sofre com uma Yamaha que definitivamente errou na mão em 2018. Rossi largou numa obscura 18º posição, mas foi se recuperando para terminar dez posições à frente do que saiu no grid, mas uma oitava posição, sendo a melhor Yamaha do grid, é muito pouco para um piloto como Rossi e para uma marca como a Yamaha. Viñales, que saiu na frente de Rossi no grid, terminou duas posições atrás. Rossi passou por várias gerações de piloto e com a mesma moto de uma possível futura estrela, Valentino vai superando-o.

Márquez também vai driblando a superioridade da Ducati em 2018 com pilotagens soberbas como a de hoje. A contagem regressiva para o pentacampeonato já começou. E Márquez só tem 25 anos... 

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Figura(CIN): Lewis Hamilton

Melhor do que escrever algo, basta ver o que Hamilton no sábado. A tranquila vitória no domingo foi apenas consequência. 


Figurão(CIN): Sergio Pérez

O mexicano Sérgio Pérez entrou na F1 como um típico pay-driver. Piloto de sucesso relativo nas categorias de base europeias, Pérez chegou na F1 com o respaldo dos vários patrocinadores do seu país, mas não demorou para o mexicano conseguir afastar essa impressão com ótimas apresentações com seu limitado Sauber. Isso foi em 2011. De lá para cá, Pérez foi para uma equipe grande (McLaren), decepcionou a tal ponto que só durou uma temporada, fazendo Sergio voltar para uma equipe média. A velocidade de Pérez mostrava que ele tinha condições, mais experiente, de estar numa equipe de ponta e finalmente brigar por vitórias. Porém, o tempo está passando e Sérgio Pérez já pode ser considerado um piloto experiente, mas a impressão é que o piloto latino ainda não explodiu como mostrado pelo seu potencial. No circuito de Marina Bay, Pérez teve uma corrida que mais lembrou um pay-driver nas suas primeiras corridas do que um piloto consolidado como ele é. Após uma belíssima apresentação no sábado, Pérez começou a enterrar sua apresentação no final de semana ao se envolver num sórdido acidente com seu ameaçado companheiro de equipe logo nos primeiros metros de corrida, representando o abandono de Esteban Ocon. Culpado claro pelo acidente, Pérez escapou de uma punição, mas ela não tardaria a acontecer. Tendo que parar cedo por causa do desgaste dos pneus hipermacios, Pérez acabou preso atrás da Williams de Sergey Sirotkin na sua volta à pista. A fase da Williams está tão ruim que o tradicional time ficou 1,5s atrás do segundo carro mais lento na classificação, mas Sirotkin permanecia na frente de Pérez sem maiores arroubos. Contudo, para o mexicano Sirotkin fazia travessuras e um chato mimimi foi transmitido via rádio por Pérez. Quando finalmente conseguiu ultrapassar Sirotkin, Pérez tocou no russo de forma inacreditável, estragando a corrida de ambos. Pérez caiu para as últimas posições após o toque e a punição merecida. Pelo menos o mexicano concordou com todas as punições sofridas, mas Pérez parece nervoso de ficar marcando ponto há tanto tempo na F1, sem chance de subir para uma equipe de ponta.