sábado, 26 de junho de 2021

Mad Max


 Ele foi um dos pilotos mais carismáticos do Mundial de Motociclismo na virada dos anos 1990 e 2000, se tornando uma estrela pelos quinze anos em que esteve no Mundial. Apesar de ter faltado o título da principalmente categoria, ninguém tinha dúvida do talento, velocidade e a força de Massimiliano Biaggi. Dono de um temperamento irascível, arranjando confusão em praticamente todas as equipes por onde passou, Biaggi foi o grande rival de Valentino Rossi e por ter uma personalidade completamente oposta ao do seu compatriota, Biaggi foi tratado muitas vezes como o patinho feio da motovelocidade, o que não deixa de ser uma injustiça. Após quatro títulos nas 250cc, Biaggi brilhou no Mundial de Superbike, onde se aposentou depois dos 40 anos de uma carreira de sucesso. Completando 50 anos hoje, vamos ver um pouco de sua carreira.


Massimiliano Biaggi nasceu na cidade de Roma no dia 26 de junho de 1971 e na sua infância, sua paixão era bem diferente das motos. Influenciado pelo pai Pietro, Massimiliano era apaixonado por futebol e ele participou de vários campeonatos de base por times locais, mas não chegando a entrar na base do seu time de coração, o AS Roma. Quando tinha 17 anos, Biaggi acompanhou seu amigo Daniele num teste de moto na pista de Vallelunga. Daniele tinha uma moto e já testava na pista e numa das paradas, convidou o jovem Massimiliano dar uma volta. Foi assim, num golpe de sorte, que a vida de Biaggi mudou. Mesmo sem licença para correr, Biaggi foi imediatamente mais rápido do que seu amigo na velha pista próxima de Roma e Max decidiu que largaria o futebol e entraria de cabeça no motociclismo. Não tendo vindo de uma família rica, Biaggi trabalhou como entregador, para financiar sua empreitada no motociclismo. Vendo a obstinação do seu filho, Pietro Biaggi também deixou a bola de lado e se tornou mecânico de Max quando este estreou no Campeonato Italiano de Motociclismo, em 1989, na categoria 125cc de motos de produção. Max mostrava muita coragem, o que lhe rendeu algumas quedas, mas havia muito talento ali e Biaggi venceu o título no ano seguinte, pulando para as 250cc em 1991.


Numa ascensão meteórica, Biaggi impressionava a todos na Itália e ele venceu facilmente o Campeonato Europeu das 250cc. No Grande Prêmio da Europa de 1991, Biaggi fez sua estreia no Mundial correndo como convidado nas 250cc, mas sua velocidade tinha lhe feito a fama e em 1992 ele faria sua primeira temporada completa no Mundial correndo pela equipe Valesi e tendo como companheiro de equipe o experiente Pierfrancesco Chili. Na etapa da Itália Biaggi subiria pela primeira vez ao pódio e venceria a corrida derradeira em Kyalami, chamando a atenção da Honda, que o contratou para correr na equipe oficial das 250cc em 1993. Havia uma ótima expectativa para esse segundo ano de Max, mas a Honda foi a única equipe a correr com pneus Michelin e Biaggi só venceria uma corrida, terminando o campeonato em quarto. Mesmo tendo o suporte da Honda oficial e do lendário engenheiro Erv Kanemoto, Biaggi resolveu mudar e se juntou à montadora Aprilia. Seria uma parceria de muito sucesso. Logo na estreia pela nova equipe e moto, Biaggi venceria na Austrália e somando outras quatro vitórias, Max conquistaria seu primeiro título mundial. E não seria o único. Em 1995 e 1996, Biaggi venceu 17 das 29 corridas dessas duas temporadas, completando o tricampeonato de forma esmagadora. Se ainda faltava um desafio, ele viria em 1997. A Aprilia contratara Tetsuya Harada e enciumado, Biaggi retornou para a Honda. Foi uma temporada inesquecível, com Biaggi tendo vários excelentes pilotos para enfrentar. Além de Harada, havia Ralf Waldmann, Loris Capirossi e Olivier Jacque. A categoria 250cc tinha finais de corrida apertadas e houve uma disputa de altíssimo nível em 1997 entre Biaggi e o alemão Waldmann. Com cinco vitórias, Biaggi derrotou Waldmann por apenas dois pontos e o tetracampeonato estava garantido. Com 29 vitórias em quatro temporadas, a categoria intermediária estava definitivamente pequena demais para Max Biaggi. Ele precisava de voos maiores e o Mundial das 500cc era o óbvio destino.


Naquele tempo se vivia nas 500cc o domínio de Michael Doohan e sua Repsol Honda. Bem ao seu estilo, Biaggi desafiou a Honda a lhe entregar a mesma moto do australiano e ele disse poderia batê-lo. Vindo de um título emocionante com a marca da asa dourada, o desejo de Biaggi foi realizado e em 1998 ele estrearia nas 500cc com uma Honda igual a de Doohan, mas numa equipe diferente, capitaneada por Kanemoto. E a estreia de Biaggi fora a melhor possível, com pole, volta mais rápida e vitória dominante. A Era Doohan estaria no fim? O taciturno australiano aceitou o desafio de Biaggi e fez uma temporada baseada na inteligência, além de manter sua grande velocidade, conquistando seu quinto título seguido. Além da vitória em Suzuka, Biaggi só venceria outra corrida, mas garantiria o vice-campeonato logo em sua estreia. Tudo certo? Nem tanto. Biaggi não se considerava bem-vindo no paddock do Mundial de Motovelocidade e na maioria das vezes, permanecia calado e tratava mal jornalistas, trazendo para si muita antipatia. Sua relação com suas próprias equipes não era muito melhor. Após abandonar a Aprilia por ciúme de Harada dois anos antes, Biaggi acusou a Honda de favorecer Doohan por causa do patrocínio (Repsol) e se mudou para a Yamaha em 1999, levando consigo o patrocínio da Phillip Morris. Porém, a Honda ainda tinha a melhor motor e mesmo com o grave acidente que ocasionou o fim da carreira de Mick Doohan ainda na segunda etapa do campeonato, Alex Crivillé se tornou o primeiro espanhol a vencer na categoria rainha da motovelocidade. Desenvolvendo a moto, Biaggi foi apenas quarto colocado com uma vitória em Brno. Ainda fora das pistas, Biaggi via um fenômeno surgindo, que lhe traria problemas.


Mesmo com a presença de Capirossi, Massimiliano Biaggi era considerado o principal piloto da Itália naquele tempo, mas nas categorias menores do Mundial, um jovem excêntrico e extremamente talentoso cativava a todos com seu estilo de pilotagem. Valentino Rossi era exatamente o contrário de Biaggi fora das pistas. Simpático e brincalhão, Valentino logo se tornou o queridinho de todo o Mundial de Motovelocidade, só que dentro das pistas Rossi era ainda mais impressionante e com dois títulos em quatro anos, Valentino via seu caminho pavimentado rumo às 500cc, já na equipe oficial da Honda. Já contando com 29 anos de idade, Biaggi viu em Rossi mais do que um rival nas pistas, mas também um rival fora das pistas e por isso, antes mesmo de alinharem no mesmo grid, Biaggi e Rossi se detestavam e a rivalidade aumentaria ainda mais com o passar dos anos. Biaggi teve um ano complicado e com muitas quedas em 2000, mas se recuperaria na segunda metade e ainda terminaria o campeonato em terceiro, com duas vitórias. Porém, ele terminou o certame atrás do estreante Rossi, aumentando a tensão entre eles. Com a Yamaha mais desenvolvida, Biaggi lutaria pelo título com Rossi nos dois anos seguintes, mas acabaria derrotado em ambas pelo rival e inimigo. Com a imprensa totalmente pró-Rossi, a raiva de Biaggi ia aumentando. Durante o GP do Japão em 2001, Biaggi chegou a empurrar Rossi para fora da pista com o cotovelo e quanto Vale deu o troco, mostrou o dedo do meio para o compatriota. Já em Barcelona, numa cena nunca vista, os dois chegaram a trocar agressões na ante-sala do pódio


Biaggi se mantinha como um piloto de ponta, mas sua carreira parecia definitivamente eclipsada por Rossi. Quando surgiu o regulamento da MotoGP em 2002 e Biaggi sofreu com o desenvolvimento da Yamaha, ele retornou pianinho para a Honda em 2003, correndo pela equipe satélite de Sito Pons, mas tendo para si a mesma moto de Rossi, que venceu o terceiro título seguido mesmo assim. Então, veio o choque. Rossi e a Honda já não falavam a mesma língua e de forma surpreendente, Valentino se mudou para a Yamaha, antiga moto de Biaggi. Poderia ser a chance de Max, mas naqueles primeiros anos do século 21 Rossi parecia inatingível. Na sua primeira corrida para Yamaha em 2004, no obscuro circuito sul-africano de Pakhisa Freeway, Biaggi e Rossi travaram uma disputa épica pela vitória. A Yamaha não vencia desde 2002 com Biaggi, mas Rossi derrotou o compatriota da Honda de forma histórica e iniciou uma parceria longa com a marca dos diapasões. Biaggi ficou em terceiro lugar em 2004 e começou a pressionar a Honda para ter o potencial da equipe HRC ao seu lado. Alexandre Barros tinha sido o principal piloto da Honda em 2004 e havia decepcionado Biaggi dizia aos quatro ventos que se tivesse atrás do guidão que era de Barros, ele poderia derrotar Rossi. A Honda novamente apostou em Biaggi. E se deu mal! No final de 2004 Max sofreria um sério acidente de supermoto e passou por um longo período de fisioterapia, perdendo praticamente toda a pré-temporada de 2005 com a sua nova equipe. Quando voltou às pistas, Biaggi encontrou uma moto indócil e com Rossi ainda no auge dos seus poderes, foi derrotado de forma inapelável pelo rival. Sem nenhuma vitória e criticando a Honda para quem via pela frente, Biaggi terminaria o campeonato de 2005 em quinto, sua pior posição na categoria principal, seja 500cc ou MotoGP. Desgastado com a Honda, não teve seu contrato renovado e se falou que a montadora se negou a entregar suas motos à Biaggi. Max negociou com Kawasaki e Suzuki. Sem sucesso. O sexto lugar em Valencia/2005 fora a última corrida de Massimiliano Biaggi no Mundial de Motovelocidade. Foram 127 corridas, com 13 vitórias, 23 poles, 58 pódios e três vice-campeonatos (1998, 2001 e 2002). Isso, sem contar os quatro títulos nas 250cc.


Definitivamente sem lugar na MotoGP, Biaggi passou a investir no Mundial de Superbike, sem dúvidas um campeonato forte, mas longe do glamour e do nível da MotoGP. Por ter ficado sem vaga muito tarde na MotoGP, Biaggi acabou não conseguindo uma vaga na Superbike em 2006, curtindo um ano sabático, só estreando na categoria em 2007. E em grande estilo. Assim como ocorrera nove anos antes nas 500cc, Biaggi estreou com a Suzuki com pole e vitória dominante. E assim como ocorrera em 1998, Max não manteve o ritmo durante o ano e acabou derrotado por James Toseland e Noriyuki Haga. Biaggi ficou apenas um ano na Suzuki, se mudando para uma equipe satélite da Ducati em 2008, onde ficou parte do campeonato de fora, curando uma fratura no braço, mas em 2009 ele se reencontraria com uma marca muito importante para Biaggi: Aprilia. A montadora italiana desenvolvia sua moto contra a co-irmã Ducati e a experiência de Biaggi seria primordial nisso. Após um primeiro ano de desenvolvimento, Biaggi voltou a sentir o gostinho do título em 2010, derrotando a Suzuki de Leon Haslan. Em 2011 Biaggi acabaria derrotado pelo seu antigo companheiro de equipe Carlos Checa, mas Max voltaria com tudo em 2012, conquistando o bicampeonato, derrotando na ocasião Tom Sykes por meio ponto! Ao final do ano, com 41 anos de idade, Max Biaggi anunciou sua aposentadoria das grandes competições.


Biaggi se manteve ligado à Aprilia, inclusive participando de algumas corridas de Superbike como convidado em 2015 e abrindo uma equipe na Moto3 com apoio da montadora. Em 2017 Biaggi deu um susto em todos quando sofreu um acidente e quebrou vários ossos, mas o italiano acabaria se recuperando mais tarde. Dono de uma velocidade gigante, mas com uma personalidade complicada, Massimiliano Biaggi foi o primeiro grande rival do lendário Valentino Rossi e o que mais vestiu o manto de anti-Rossi entre os rivais de Vale. Porém, não seria justo dizer que Mad Max Biaggi seja lembrado apenas pela rivalidade com Rossi, pois o romano se manteve como piloto de ponta por vários anos no Mundial de Motovelocidade, se tornando uma estrela do motociclismo.

Parabéns!

Max Biaggi

quarta-feira, 23 de junho de 2021

A melhor de todas

 


Nesses últimos tempos de inclusão no esporte, o automobilismo muitas vezes se perdeu e trocou os pés pelas mãos. Ainda um ambiente muito masculino, muitas vezes as mulheres eram relegadas a segurarem plaquinhas ao lado dos pilotos no grid, mas isso foi mudando e nem grid girls existe em muitas categorias. No entanto, na pressa de colocar uma mulher em seus grids, se escolhem pilotos mulheres muito mais pela beleza do que pelos resultados, surgindo Carmen Jordá por exemplo. Danica Patrick e Ana Beatriz Figueiredo tiveram seus bons resultados em tempos recentes, mas havia a sensação que a presença delas no grid servia mais ao staff de marketing das equipes do que a equipe técnica. Porém, houve uma mulher que não queria ser melhor do que os homens, mas simplesmente andar junto com eles. E ela conseguiu! Correndo num período mágico do Mundial de Rali, Michele Mouton foi uma pioneira no automobilismo ao vencer quatro eventos do WRC e ser vice-campeã uma vez, sem ser uma mulher de uma beleza espetacular ou precisando de publicidade. Mouton mostrava seus atributos nas pistas de asfalto e terra pelo mundo. Completando 70 anos hoje, vamos conhecer um pouco da melhor piloto a estar atrás de volante de corrida da história.


Michele Mouton nasceu no dia 23 de junho de 1951 em Grasse, na Riviera Francesa cercada de infinitos jardins de rosas, que abastecia as indústrias de perfume local. Vivendo nesse mundo bucólico, a jovem Michele sempre se interessou por carros, principalmente porque seu pai adorava velocidade. Aos 14 anos Mouton deu uma volta na fazenda onde morava à bordo de um Citroën 2CV do seu pai e ficou ainda mais apaixonada. Ao completar o ensino médio Michele chegou a ingressar na faculdade de Direito, mas não terminou o curso, principalmente quando foi convidada por um amigo a ser seu navegador no famoso Tour de Corse. Rapidamente Michele mudou de banco e se tornou piloto, conseguindo bons resultados em ralis amadores. Seu pai viu uma centelha de talento e comprou para ela um Renault Alpine A110, dizendo à filha que ela tinha um ano para provar seu valor ou voltar para a faculdade. E Michele entendeu bem o recado do pai, pois ela venceu o Campeonato Francês Feminino e o Campeonato Francês da classe GT, culminando com uma vitória de classe 2L nas 24 Horas de Le Mans de 1975. Isso chamou a atenção da gigante Elf, que passou a patrocina-la e em 1977 ela foi contratada pela Fiat, onde ficou dois anos, conquistando bons resultados.


Até então Mouton participava de alguns eventos franceses e europeus, mas em 1980 ela foi contratada pela Audi para disputar o Mundial de Rali. "Foi um choque quando me ligaram", confessou Mouton sobre o primeiro contato da montadora alemã. Como o novo carro com regulamento do Grupo B ainda não estava homologado, Michele participou de alguns eventos fora do campeonato, mas o potencial do carro era evidente e em 1981 ela participou de todo o campeonato, andando de igual para igual com pilotos como Hannu Mikkola, Ari Vatanen e Henri Toivonen, acabando por vencer o Rali de Sanremo na Itália, se tornando a primeira mulher a vencer no Mundial de Rali. Foi também em 1981 que ela encontrou sua navegadora que lhe seria marcante: a italiana Fabrizia Pons. Para 1982 a Audi estava pronta para vencer o título e Mouton teria a companhia de grandes estrelas, como Walter Röhrl na Opel, seu companheiro de equipe na Audi Stig Blomqvist e o super rápido Markku Alén, com o Lancia 037. Em uma temporada empolgante, conseguiu três vitórias enfáticas em Portugal, na Grécia e... no Brasil! Sim, o Brasil já recebeu etapas do Mundial de Rali e uma delas foi vencida por Mouton. Na véspera da penúltima etapa daquela temporada, na Costa do Marfim, Michele foi informada que seu pai falecera de câncer e que seu último desejo era que Michele corresse aquele rali. Mouton liderava o rali com 18 minutos de vantagem sobre Röhrl e se confirmasse a vitória, ela estaria apenas dois pontos atrás do alemão na última etapa, na Inglaterra. Porém, no último dia o Audi de Mouton apresentou vários problemas mecânicos e na tentativa de compensar o tempo perdido, Michele acabou capotando e ela teve que abandonar. Röhrl foi campeão por antecipação, mas mostrando a mentalidade daqueles tempos, o piloto da Opel disse:  Teria aceitado o segundo lugar no campeonato para Mikkola, mas não para Mouton. Não é porque eu duvido de suas capacidades como piloto, mas porque ela é uma mulher.


Em 1983, o Mundial de Rali entrava de cabeça no Grupo B e seus carros de mais de 600 cavalos e muita tecnologia embarcada. Mouton começou o ano no Audi Quattro A1 com bons resultados, mas no meio da temporada ela passou para o A2 e como resultado sofreu com vários abandonos, terminando o campeonato apenas em quinto. Quando a Audi contratou a estrela Röhrl em 1984, o papel de Mouton na equipe diminuiu e ela participou apenas da metade do programa daquele ano, mas ainda conseguiu um ótimo segundo lugar no rali da Suécia, uma etapa que tradicionalmente favorece aos pilotos nórdicos por ser realizado em pista de neve. Para 1985 Mouton passou a desenvolver os carros da Audi, que lutava contra o avanço da Peugeot e da Lancia, porém, Michele não ficou totalmente parada, participando do campeonato inglês de rali e, principalmente, da famosa prova de Pikes Peak. No ano anterior Mouton havia participado da prova e ficado em segundo lugar. Correndo com Audi Sport Quattro, ela se aproveitou da pista escorregadia por causa da chuva para não apenas vencer, mas bater o recorde que pertencia a Al Unser Jr. Bobby Unser teria desdenhado do feito de Michele, que respondeu: se você tiver coragem, pode tentar me bater na descida também.


Após cinco anos de uma parceira marcante, Mouton saiu da Audi e se mudou para a Peugeot, onde participou do campeonato alemão, se sagrando campeã e no final do ano, ela anunciou sua aposentadoria aos 35 anos de idade. Mouton ajudou a criar o famoso Race of Champions em memória ao seu amigo Toivonen, morto em 1986. Em 2010, Mouton se tornou a primeira presidente da Comissão de Mulheres da FIA, ajudando a criar a W Series, campeonato onde somente mulheres correm. Foram apenas cinquenta etapas no Mundial de Rali, mas o suficiente para transformar Michele Mouton na melhor piloto mulher da história do automobilismo.

Parabéns!

Michele Mouton

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Figura(FRA): Red Bull

 Christian Horner exclamou antes do final de semana em Paul Ricard: se vencermos aqui, podemos vencer em qualquer pista! O dirigente inglês se referia ao incrível cartel da Mercedes no circuito nas proximidades de Marselha. Os tedescos lideraram praticamente todas as voltas desde que a F1 retornou ao tradicional circuito de Paul Ricard em 2018 e pareciam imbatíveis por lá. Parecia. A Red Bull mostrou mais uma vez que construiu um carro capaz de vencer a Mercedes e numa das pistas mais favoráveis ao time de Stuttgart, a Red Bull conseguiu uma bela vitória, usando também a tática. Quando Max Verstappen surgiu na frente de Hamilton após sua primeira parada, alguns fantasmas surgiram para a Red Bull. Em Barcelona Max ficou boa parte da corrida em primeiro, mas uma segunda parada da Mercedes fez com que Hamilton trucidasse a vantagem do neerlandês e ganhasse na Catalunha com uma ultrapassagem nas últimas voltas. A Red Bull temia um roteiro parecido e tomou à frente, trazendo Max para uma segunda parada. Agora, os papeis estavam invertidos. Verstappen se tornava o caçador e Hamilton teria que se defender como podia com pneus desgastados. Em certos momentos a tática usada da Red Bull parecia que não daria certo, mas Max usou sua amadurecida pilotagem para ultrapassar Hamilton na penúltima volta e vencer no reino mercediano. Para melhorar, Sergio Pérez bateu Bottas na disputa entre os segundo pilotos e subiu ao pódio pela segunda corrida consecutiva. Desde 2013 que a Red Bull não vencia três corridas consecutivas e a dupla da equipe subiu ao pódio juntos pela primeira vez, mostrando que o esforço em trazer Sergio Pérez está surgindo efeito. Com essa vitória, a frase de Horner pode se tornar verdadeira no futuro e o caminho para o primeiro título de Max Verstappen pode estar aberto.

Figurão(FRA): Ferrari

 Após duas corridas com um ritmo surpreendentemente forte, a Ferrari voltou à mediocridade de 2020 de forma também surpreendente em Paul Ricard. As duas corridas seguidas em circuito de rua fez muito bem à Ferrari, que chegou a sonhar com a vitória em Mônaco, fez com que seu piloto novato Carlos Sainz estreasse pela equipe no pódio no principado e por pouco Leclerc foi ao pódio em Baku. Saindo dos circuitos de rua, a Ferrari tinha esperança de se manter como a terceira força da F1 num circuito convencional, mas um ritmo de corrida incrivelmente baixo fez com que uma pulga ficasse atrás da orelha de Mattia Binotto e sua trupe. Na classificação a equipe italiana parecia seguir a toada das duas corridas anteriores, com Sainz liderando a Ferrari para ser o melhor do resto, com Leclerc um pouco mais atrás. Porém, o ritmo de corrida na França foi terrível para os piloto de Maranello, com Leclerc chegando a fazer um segundo pit-stop que o jogou na 16º posição, muito longe dos pontos. Sainz ainda resistiu um pouco mais, passou boa parte da corrida na zona dos pontos, mas com o final da corrida em Le Castellet se aproximando, o espanhol não foi páreo para o melhor ritmo de McLaren, Alpha Tauri, Alpine e Aston Martin, saindo da zona de pontuação. Quando se pensava que a Ferrari poderia estar renascendo com bons resultados consecutivos, agora parece que a scuderia simplesmente se aproveitou das peculiaridades dos circuito de rua de ficar em posições dos quais não pertencem. Binotto saiu de Paul Ricard ainda tentando entender o que aconteceu com a sua decantada reação. Porém, a corrida em Paul Ricard foi nm verdadeiro balde de água fria!

domingo, 20 de junho de 2021

Sorte de Palou

 


Josef Newgarden liderou boa parte da corrida em Road America e tinha tudo para não apenas acabar com a zica da Penske em 2021, como também entrar de vez na briga pelo título da Indy. O americano controlou o sempre perigoso Alex Palou sem maiores arroubos, mas uma bandeira amarela no final da prova juntou todos os carros, mas nada que Newgarden já tenha passado antes. Foi então que na relargada o Penske de Newgarden foi ultrapassado por Palou no final da reta. Talvez o espanhol tenha usado o 'push-to-pass', mas na reta seguinte Newgarden foi caindo pelotão abaixo, com o carro totalmente sem potência. Uma semana depois de perder uma corrida ganha com Power, a Penske viu Newgarden quebrar na penúltima volta e continuar em seu incômodo jejum de vitórias.

Claro que Alex Palou não teve nada com isso. O jovem espanhol da Ganassi capitalizou o infortúnio de Newgarden para vencer pela segunda vez em 2021 e com a corrida opaca de Pato O'Ward, retornar à liderança do campeonato com alguma folga. Will Power salvou um pouco a honra da Penske com um terceiro lugar, com Scott Dixon recuperando-se de uma classificação difícil para ser quarto e ainda ter os jovens Palou e O'Ward ao alcance no campeonato. Outro destaque vai para a corrida agressiva de Romain Grosjean, onde efetuou várias ultrapassagens no limite, mesmo que a Dale Coyne sempre o fizesse perder posições nos pits.

Passando da metade do campeonato, apenas Alex Palou e Pato O'Ward venceram mais de uma vez na Indy e lideram o campeonato, com Scott Dixon representando os 'dinossauros' em terceiro. Com essa falta de sorte, Newgarden ficou num distante quarto lugar no campeonato e com a Penske sofrendo em 2021, vê a nova geração se mantendo forte na Indy.

Papeis invertidos

 


Uma corrida em Paul Ricard havia trazido ao fã da F1 a mesma sensação de uma corrida em Barcelona. Ou seja, passar uma hora e meia vendo uma corrida chata e aborrecida, com o vencedor definido se não na largada, pelo menos após a única rodada de paradas. A chuva era esperada para animar as coisas, mas a pista estava claramente seca quando todos se preparavam para a prova. As expectativas eram baixas, mas a temporada 2021 vem se transformando naquelas em que os fãs irão se lembrar com muito carinho no futuro. A dupla Max Verstappen e Lewis Hamilton conseguiram transformar a tradicional corrida francesa chata numa prova emocionante por causa das estratégias diferentes de suas equipes, onde cada detalhe contou para que Verstappen derrotasse um impecável Lewis Hamilton na penúltima volta, elevando cada vez mais o nível de disputa entre esses dois grandes pilotos.


Debaixo de um céu carrancudo em Paul Ricard, mas sem chuva, a corrida foi um verdadeiro tabuleiro de xadrez em alta velocidade, mas se uma partida de tabuleiro pode não ser das mais empolgantes para se assistir, a corrida de hoje foi de levantar qualquer um. A primeira jogada foi o erro de Max Verstappen na segunda curva da corrida, após uma ótima largada, onde deixou Hamilton sob controle e o neerlandês apontou seu Red Bull na ponta na primeira curva, mas uma saída de frente fez Max sair ligeiramente da pista e Lewis Hamilton assumiu a ponta da corrida. Lewis, Max e Valtteri Bottas andaram o primeiro stint inteiro próximos, mas sem ataque, enquanto Sérgio Pérez parecia destoar, ficando mais para trás. Mesmo com todos largando com pneus médios, o desgaste ficava evidente com o passar das voltas, mesmo com Hamilton abrindo 2s sobre Max. Bottas foi o primeiro a parar, algo que Max fez na volta seguinte, mantendo a sua posição. Era esperado que Hamilton emulasse os dois que pararam antes e voltasse em primeiro. Mesmo a Mercedes efetuando uma parada perfeita, Lewis voltou exatamente atrás de Verstappen. Undercut efetuado com sucesso para a Red Bull. Porém, Max seguraria a dupla da Mercedes? Lewis tentou, abriu a asa, mas Max teimosamente se mantinha na frente sem fazer muito esforço. 

Detalhe: a criticada chicane no meio da reta Mistral ajudou Verstappen naquelas voltas em que Hamilton vinha on fire para cima dele. Sem a chicane, Lewis passaria direto por Verstappen. Mesmo com pneus duros e com um número de voltas razoável até a bandeirada, Verstappen sentiu que não daria para se manter em primeiro com aquele ritmo. Mesmo estando em primeiro, a Red Bull pensou rápido numa mudança radical de estratégia, trazendo Max para uma segunda e inusual parada, colocando pneus médios, iniciando uma caçada à Hamilton, da mesma forma que o inglês o fez em Barcelona, com vantagem para o inglês. Com o carro mais leve, os pneus médios resistiram bem, enquanto Hamilton teria que administrar como podia com seus pneus duros que teriam que ser levados até a bandeira quadriculada. Max foi triturando a diferença para Hamilton, mas sem forçar demais, dando a sensação que ele não teria tempo para alcançar o rival pelo título. Verstappen logicamente não teve trabalho com Pérez, mas e com Bottas? O finlandês ficou tempo demais andando com ar sujo na sua frente seus pneus não aguentaram o tranco, porém, era esperado de Bottas que ele resistisse mais e não cometesse um ligeiro erro na chicane da Mistral que fez com Max assumisse a segunda posição com facilidade. Max segurou um pouco o ritmo, até mesmo marcou tempos parecidos com o de Hamilton, mas faltando cinco voltas aumentou novamente o ritmo, tirou oito décimos por volta e na antepenúltima volta já estava com Hamilton na alça de mira. Como ocorreu em Barcelona, mas com os papeis invertidos, Max só precisou de um ataque para efetuar o ataque decisivo que o fez líder na penúltima volta da prova e vencer.


Foi uma vitória essencial para a Max Verstappen e a Red Bull. Hamilton havia liderado praticamente todas as voltas desde o retorno de Paul Ricard à F1 em 2018 e a Mercedes tinha sido imperial no palco francês. Mesmo com Hamilton liderando a maior parte da corrida, ele não teve o que fazer quando foi atacado por Verstappen, que abriu bons doze pontos para um resignado Hamilton, sofrendo a mesma decepção que Max teve em Barcelona. E o dia da Red Bull ainda melhoraria com seu segundo piloto. Se Pérez estava destoando no início da corrida, havia um motivo: ele estava economizando pneus. Ele foi o último a parar dos quatro líderes e mesmo colocando o mesmo pneu duro dos demais, Pérez estava melhor calçado no final da prova e ultrapassou Bottas para completar o pódio, fazendo o dia da Red Bull ainda mais feliz, além de abrir uma boa diferença para a Mercedes no Mundial de Construtores, no palco onde era esperado que a Mercedes reagiria. Essa semana se falou que o lugar de Bottas na Mercedes seria de George Russell e que o anúncio era iminente. No tabuleiro em que se transformou a corrida em Paul Ricard, Bottas não fez seu papel ao não conseguir segurar por muito tempo Verstappen, dando tempo ao piloto da Red Bull atacar o piloto principal da equipe. Isso, sem contar que ainda foi ultrapassado por Pérez no fim, cedendo mais pontos no Mundial de Construtores para a Red Bull. A situação de Bottas é tão indefensável, que nem em quarto no Mundial de Pilotos ele está...


Essa posição, passado pouca menos de um terço de campeonato, pertence à Lando Norris. O inglês da McLaren liderou o resto da F1 e mostrando que os resultados aleatórios em Monte Carlo e Baku foram causados mesmo por causa das peculiaridades dos circuitos de rua. Norris tomou um minuto do vencedor Verstappen e estava 50s atrás de Bottas. Ainda há um verdadeiro abismo entre as duas principais equipe e o resto, algo que a F1 espera estreitar com o esperado novo regulamento de 2022. A McLaren teve um ótimo desempenho com Ricciardo fazendo um belo início de prova, mas o australiano não suportou o ritmo de Norris, porém manteve a sexta posição, pressionado no fim por Gasly e Alonso. Bons pontos para a McLaren, que assumiu de vez a terceira posição no Mundial de Construtores, ainda mais com a pífia corrida da Ferrari, que parecia ter o ritmo desmanchando durante a prova e viu seus dois pilotos fora dos pontos. A Aston Martin foi muito bem, com seus dois pilotos pontuando, mas o destaque vai para Lance Stroll, que saiu da penúltima posição para décimo. Russell ficou perto dos pontos em décimo segundo, pressionado pelo pressionado Tsunoda, que largou dos boxes por causa do acidente na classificação. Com contrato renovado, Esteban Ocon foi superado com sobras por Alonso e ao contrário do companheiro de equipe, ficou longe dos pontos. A dupla da Haas novamente se estranhou na pista, mas Mick Schumacher soube se sobressair.


Da mesma forma que Max Verstappen saiu de Barcelona com a sensação de derrota após ser ultrapassado por Hamilton, que utilizou uma estratégia diferente para vencer, e deu a volta por cima, Lewis e a Mercedes podem muito bem dar o troco, porém, as duas próximas corridas serão na casa da Red Bull e onde Max Verstappen sempre consegue bons resultados. Se Max vencer as duas próximas corridas em Zeltweg, num lugar favorável para a Red Bull, o campeonato pode começar a pender para os austríacos, mas Paul Ricard também era um palco ideal para a Mercedes, mas os alemães foram derrotados. Senhores, estamos tendo até o momento um campeonato épico, com dois grandes pilotos dando tudo de si, conseguindo até mesmo algo que parecia impossível: tornar a corrida em Paul Ricard muito boa. Que venha outras corridas incríveis como a de hoje!  

Marc está de volta!


Foram mais quinhentos dias desde que Marc Márquez havia feito algo natural para ele naquele momento: vencer. O piloto da Honda caminhava para se tornar, pelo menos em números, o maior da história do Mundial de Motovelocidade, mas um acidente em Jerez ano passado e uma atabalhoada volta nas semanas seguintes colocou várias dúvidas na cabeça de todos que acompanham a MotoGP, além do próprio Márquez. Ele voltaria a ser o piloto espetacular de antes? O tempo foi passando, o problema no braço direito de Márquez se tornava mais sério do que o imaginado. A volta do espanhol da Honda foi lenta e as corridas de Márquez nem de longe lembravam o que Marc era capaz de fazer antes do acidente. Não havia evolução. A carreira de Márquez poderia estar terminando de forma repentina na nossa frente, com algo abrupto acabando com toda a confiança de hexacampeão da MotoGP. No entanto, nunca é bom duvidas dessas lendas. Além de talento, essas pessoas tem o dom de dar voltas por cima e calar os críticos.

Sachsenring sempre foi uma pista para Marc Márquez. Foram simplesmente dez vitórias consecutivas no pequeno circuito alemão, contando as categorias menores para Márquez, sem contar o fato da pista alemã ser conhecida por ter uma infinidade de curvas para a esquerda, não forçando tanto o baleado braço direito do espanhol. Seria a chance ideal para Márquez. O espanhol sempre andou entre os primeiros na Saxônia e seu quinto lugar no grid se transformou num segundo lugar na primeira curva, numa largada bem ao estilo agressivo de Márquez. À sua frente, apenas a surpreendente Aprilia do seu amigo Aleix Espargaró, rapidamente ultrapassada. Márquez liderava pela primeira vez desde sua dramática volta às pistas, mas ainda havia uma corrida inteira pela frente, sem contar o risco da chuva cair a qualquer momento. A direção de prova chegou a autorizar a troca de motos, mas em nenhum momento a pista chegou a ficar verdadeiramente molhada. E pista molhada era justamente o que Márquez não precisava hoje. Sua confiança fora mostrada na largada, mas o piso seco seria ainda melhor para Marc. A chuva não veio, mas um segundo obstáculo crescia.

Após um início de temporada cambaleante, a KTM cresceu muito nas últimas corridas e o português Miguel Oliveira é o líder natural da montadora austríaca. Depois de se livrar de Espargaró, Johan Zarco e Jack Miller, Oliveira se estabeleceu na segunda posição e iniciou uma perseguição à Márquez. Além da moto em ascensão, o próprio lusitano exalava confiança com ótimos resultados e vindo de uma vitória. Oliveira tentou, chegou baixar de 1s de desvantagem, mas Marc Márquez esteve impecável em sua pista favorita e conseguiu sua décima primeira vitória consecutiva na Saxônia. Mais do que isso, conseguiu um retorno triunfal às vitórias. Claramente emocionado, Marc Márquez nos lembrou que nunca devemos duvidas de lendas.