terça-feira, 23 de maio de 2017

Rubinho

Poucos pilotos provocam tantos sentimentos ambíguos nas pessoas que acompanham a F1. Para os seus torcedores, ele só não foi campeão porque foi sacaneado pela Ferrari e, principalmente, por Michael Schumacher. Para os seus detratores, é o ‘Pé de Chinelo’, apelido ganho do programa Casseta e Planeta, além de representante-mor de memes de fatos lentos ou atrasados. A grande verdade é que Rubens Barrichello deixou uma marca indelével em sua longa passagem na F1 e alguns fatos mostram que o brasileiro, que está completando 45 anos hoje, foi um grande piloto de sua época, com feitos memoráveis, mas também  com algumas declarações infelizes.

Rubens Gonçalves Barrichello nasceu no dia 23 de maio de 1972 em São Paulo, muito próximo do circuito de Interlagos, onde acompanhava as corridas no quintal de sua avó, que depois entraria para o folclore da F1 por sempre saber como se comportava o instável clima próximo do circuito, que anualmente recebia a F1. Recebendo o mesmo nome do pai e do avô paterno, logo ele ficaria conhecido como ‘Rubinho’, apelido que o marcaria em toda a sua carreira, que começou quando Barrichello ficava cada vez mais apaixonado pelas corridas e também por acompanhar seu tio, Darcio dos Santos, piloto de relativo sucesso no automobilismo brasileiro nas décadas de 1970 e 1980 e hoje é dono de uma equipe na combalida F3 Sulamericana. Foi Darcio que ensinou Rubens Barrichello a andar de kart, quando este completou seis anos de idade. Quando completou nove anos, Rubens Barrichello iniciou as primeiras competições no kart, onde se tornaria um dos pilotos mais laureados da história do kartismo nacional, incluindo cinco títulos brasileiros e um sul-americano. Seu maior rival do kart foi Christian Fittipaldi, um ano mais velho, mas a briga fora das pistas era ainda mais intensa. Os pais dos dois, Rubens ‘Rubão’ Barrichello e Wilsinho Fittipaldi travavam discussões homéricas por causa das estripulias dos dois nas pistas enquanto, conta a lenda, as duas crianças brincavam juntas.

Assim que completou a idade mínima para se correr de carros, Rubens Barrichello estreou na F-Ford brasileira em 1989, com o forte patrocínio da Arisco, que o acompanharia por alguns anos. A estreia foi a melhor possível, com uma vitória no circuito de rua de Florianópolis. Rubens foi um dos melhores pilotos daquela temporada e terminou o campeonato em quarto, mas em alta e ainda em 1989 faz alguns testes na Europa, onde se muda no ano seguinte para competir na F-Opel. Correndo pela equipe Draco, Barrichello vence seis as onze corridas e se sagra campeão europeu, logo em sua estreia no Velho Mundo! O mundo acompanhava com atenção os passos de Rubens Barrichello e em 1991 ele se gradua à F3 Inglesa, correndo pela mítica equipe de Dick Bennett, a West Surrey, de tantos títulos conquistados, inclusive por brasileiros. A concorrência de Barrichello seria forte naquele ano. Gil de Ferran era um dos favoritos, mas a briga pelo título seria com outra futura estrela da F1: David Coulthard. O escocês foi o maior rival de Barrichello nas categorias de base na Inglaterra e os dois polarizaram a disputa, coadjuvados por Gil. Após quatro vitórias e uma disputa dura com o também badalado Coulthard, Rubens Barrichello vence um dos melhores campeonatos da história da F3 Inglesa. Aos 19 anos de idade, a chegada de Rubens à F1 não se, mas quando. Várias equipes sondaram o brasileiro, mas este prefere passar um ano na F3000 em 1992. Mesmo convidado pelas melhores equipes da F3000 na época, Barrichello prefere a desconhecida equipe italiana Il Barone Rampante, porém, Rubens faz uma temporada brilhante, principalmente pelo equipamento que tinha nas mãos e termina o campeonato em terceiro.

Aos 20 anos de idade, Rubens Barrichello era a grande esperança brasileira na F1 e tinha um patrocinador forte. Acompanhando a ascensão fulminante do paulista, Ayrton Senna tratava Barrichello como o seu sucessor, inclusive patrocinando a ida de Rubens ao Campeonato Mundial de Kart. O tratamento de Senna para com Barrichello era de mentor e aprendiz e Rubens encarava isso muito bem, tratando Ayrton com muita reverência. Era o Chefe, por sinal, ainda hoje Barrichello se refere à Senna dessa forma. As categorias de base tinham ficado pequenas demais para Rubens e a F1 era o próximo passo. Contudo, esse passo seria polêmico e, conta-se, fora o primeiro erro de avaliação de Barrichello na F1, antes mesmo de estrear. Várias equipes grandes estavam de olho em Rubens, mas Barrichello escolheu a Jordan pela oportunidade de estrear logo, além de ter sido mais vantajoso comercialmente. Também patrocinado pela Arisco, Nelson Piquet queria que Barrichello corresse, mesmo que por um ano como piloto de testes, numa equipe grande, mas Rubens preferiu a Jordan, fazendo com que Nelson Piquet, também um grande apoiador de Barrichello antes desse fato, se tornasse um dos seus críticos mais ácidos. Contudo, os primeiros testes de Rubens com a Jordan foram encorajadores. A Jordan tinha feito uma má temporada em 1992, mas a troca dos motores Yamaha pelo Hart tinha trazido bons benefícios ao carro. No dia 14 de março de 1993 Rubens Barrichello largava em Kyalami para a sua primeira corrida, de uma carreira que seria incrivelmente rica de histórias e, principalmente, longa. Em Interlagos, pista que conhecia desde o berço, Rubens abandona com problemas de câmbio, iniciando uma série incrível de abandonos em sua pista favorita.

A próxima etapa seria em Donington Park, pista que Rubens Barrichello conhecia muito bem dos seus tempos na F3 Inglesa. Todos se lembram da incrível primeira volta de Ayrton Senna, mas Rubens não ficou muito atrás. Largando em 12º, Rubens Barrichello completou a primeira volta em... quarto! Foi uma demonstração pouco lembrada, mas magnífica de Barrichello, que abandonou no finalzinho da corrida por problemas na bomba de combustível. Conta a lenda que a Jordan acreditava que Rubinho não completaria o mesmo número de voltas da Williams e por isso colocou menos combustível no tanque. O começo de carreira de Barrichello na F1 era verdadeiramente surpreendente. A falta de potência do motor Hart frustrou várias corridas onde Barrichello poderia finalmente pontuar, mas Rubens superou os vários companheiros de equipe que ele teve em 1993, inclusive os experientes Ivan Capelli e Thierry Boutsen. Na penúltima etapa do campeonato, em Suzuka numa pista em condições variáveis entre molhada e seca, Barrichello marca seus primeiros pontos na F1 com um quinto lugar, superando seu novo companheiro de equipe, o irlandês Eddie Irvine. Horas depois, Barrichello tentava segurar Senna, que agredira Irvine pela insolência do irlandês quando o tricampeão foi interpela-lo por uma manobra durante a corrida, quando o retardatário Irvine passou o líder Senna. Mesmo marcando apenas dois pontos no campeonato, Barrichello tinha impressionado bastante a todos e o viam como futura estrela na F1.

Rubens permanece outro ano na Jordan, onde teria o irascível Irvine como companheiro de equipe. Mesmo a Jordan tendo claros problemas financeiros, o time constrói um bom carro para 1994 e Barrichello começo o ano de forma estupenda. Espantando um pouco a ‘Maldição de Interlagos’, Rubens termina a prova em quarto lugar, mesmo que boa parte do público já tinha ido embora, quando Senna rodou sozinho em sua perseguição à Schumacher. Na prova seguinte, Barrichello faz uma prova de espera, se aproveita dos infortúnios alheios para terminar a corrida em terceiro em Aida, seu primeiro pódio na F1 (com direito à infame sambadinha) e de forma inesperada, estava em segundo lugar no Mundial de Pilotos. Então, veio Ímola. Na sexta-feira, Barrichello erra na rápida Variante Bassa e sofre o seu pior acidente na carreira. Apesar da espetacularidade do acidente, Barrichello estava relativamente bem, apenas com o nariz quebrado, um problema no braço e um baita susto. No sábado, logo após falar com a Globo, Barrichello viu Roland Ratzenberger bater na curva Villeneuve e morrer horas depois. Ainda abalado, Rubens foi para a sua casa na Inglaterra no mesmo dia, onde recebeu a pior das notícias no domingo: seu protetor e incentivador Ayrton Senna havia morrido. Não restam dúvidas que aquilo foi um divisor de águas importante na vida e carreira de Rubens Barrichello. Se com Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet houve uma passagem de bastão tranquila, Barrichello e toda a nação brasileira via em choque uma passagem de bastão que seria verdadeiramente traumatizante a todos os envolvidos.

Rubens Barrichello foi um dos que carregaram o caixão de Ayrton Senna e aos 22 anos de idade, o paulista colocou em seus ombros uma pressão brutal de toda a torcida brasileira. Barrichello só marcaria pontos novamente no verão, com um quarto lugar em Silverstone. Em Spa, Rubens mostra mais uma vez que é um dos melhores pilotos em piso molhado e de forma surpreendente, consegue marcar a pole na tradicional pista belga. Na época, Rubens Barrichello se tornava o piloto mais jovem a marcar uma pole na história da F1, mas logo o brasileiro seria engolido por Schumacher durante a corrida, até abandonar. Rubens Barrichello termina o ano com um respeitável sexto lugar no Mundial de pilotos e Barrichello ficou próximo de assinar com a McLaren, mas em outra decisão duvidosa de Rubens, ele preferiu ficar na Jordan. Após os primeiros testes de pré-temporada, porém, a decisão de Barrichello parecia acertada. Eddie Jordan conseguira um vantajoso contrato com a Peugeot e com isso a Jordan se tornava uma equipe de fábrica. Rubens era um dos mais rápidos pilotos nos testes, fazendo o brasileiro insuflar a torcida brasileira dizendo que tinha reais chances de vencer em 1995. Muitas pessoas e a própria Globo entraram nessa onda de otimismo exagerado. Era comum equipes médias, como a própria Jordan, testar com pouco combustível para aparecer bem nos jornais e conseguir patrocinadores. O motor Peugeot havia fracassado fragorosamente em sua rápida passagem pela McLaren em 1994, fazendo com que Ron Dennis partisse para uma parceira de vinte anos com a Mercedes. Outro ponto era que a embreagem no pé estava virando, aos poucos, peça de museu na F1 e a maioria dos carros usavam apenas dois pedais (acelerador e freio). Barrichello preferia frear com o pé direito, mas com a barra de direção no meio, Rubens teve que mudar seu estilo de pilotagem, mas de forma inconsciente, Rubens pisava no freio levemente nas retas, não apenas tirando velocidade do carro, como superaquecendo o motor.

Ninguém sabia desses detalhes quando Rubens Barrichello pintou seu capacete em homenagem à Senna em Interlagos, para uma jornada onde tudo deu errado para o paulista. A temporada de 1995 foi uma das piores de Rubens Barrichello na F1. Foram dez abandonos em dezessete corridas e essa fama de ‘quebrador’ fez com que Barrichello rapidamente sofresse piadas no Brasil. Surgia o Rubens ‘Pé de Chinelo’. Se houve alguma trégua nessa má fase, foi em Montreal, onde se aproveitando dos vários abandonos, Barrichello consegue seu segundo pódio na F1 com uma segunda posição, logo à frente de Irvine. O irlandês se entendia melhor com o carro e pela primeira vez na F1, Barrichello era superado por companheiro de equipe, notadamente na classificação. Enquanto isso, a Ferrari começava o seu planejamento para voltar a vencer, resultando na dispensa de Gerhard Berger e Jean Alesi no final de 1995. Com muito dinheiro e a chegada de Michael Schumacher, a grande estrela da época, a Ferrari tinha muito potencial para os anos seguintes e Barrichello via uma boa chance de crescer na F1, mas o brasileiro foi preterido justamente por Irvine. Barrichello marcou apenas onze pontos e perdeu dois pódios certos quando o motor Peugeot quebrou na última volta em Budapeste.

A carreira de Rubens Barrichello havia entrado numa encruzilhada no final de 1995. Preterido pela Ferrari, Rubens disse que não seria segundo piloto de Schumacher, que respondeu dizendo que o escolhido havia sido Irvine por que o irlandês tinha sido mais rápido naquele ano. E o pior era que o alemão estava certo. Barrichello usou seus patrocinadores para tentar um lugar na Benetton e na McLaren, mas as negociações não evoluíram. Um teste anti-doping positivo não ajudou a causa do paulista, mas logo Rubens seria inocentado. Com o crescimento da Indy, Barrichello chegou a pensar em seguir seu velho rival Christian Fittipaldi e atravessar o Atlântico, mas Rubens preferiu ficar mais um ano na Jordan. A equipe agora teria uma bela pintura dourada, mas o carro nitidamente não evoluiu. Em Interlagos, debaixo de chuva, Barrichello tem sua melhor corrida em 1996, onde lutou bravamente pelo terceiro lugar com Jean Alesi após largar em segundo e quando se aproximava de Michael Schumacher, o brasileiro viu seu Jordan ficar sem freios e abandonou após uma rodada. Foi uma temporada frustrante e sem pódios, ao contrário das anteriores. Rubens marcou vários pontos, principalmente no verão europeu, mas sempre esteve longe de brigar pela vitória, como era esperado quando a Jordan havia se associado à Peugeot. Barrichello resolve não renovar com a Jordan, que traz Ralf Schumacher para o seu lugar. Com apenas 24 anos, a carreira de Barrichello parecia fadada a ser igual ao seu rival Christian Fittipaldi, quando apareceu Jackie Stewart em sua vida. O escocês tinha uma das melhores equipes nas categorias de base da Inglaterra e após muitos títulos, Stewart entraria na F1 com o apoio da Ford.

Inicialmente Jackie queria Gil de Ferran, mas com o brasileiro se adaptando muito bem na Indy, Gil declina do convite e Stewart resolve investir em outro brasileiro que tinha andado muito bem nas categorias de base da Inglaterra. Desmotivado e sem muitas perspectivas, Barrichello agarra com as duas mãos o projeto da Stewart GP e em 1997 seria o principal piloto da equipe estreante. Os primeiros testes indicavam as dificuldades que Barrichello teria ao longo do ano. O carro era bom e o motor Ford tinha bastante potencial, mas a confiabilidade era muito ruim, com Rubens terminando duas de dezessete corridas naquele ano! Uma dessas chegadas, porém, seria muito comemorada. A Bridgestone fazia a sua estreia na F1 em 1997 e logo de cara constrói um pneu muito competitivo, principalmente em piso molhado. E choveu bastante em Monte Carlo. Normalmente Barrichello conseguia boas classificações nos sábado, mas problemas mecânicos o deixava na mão no domingo. Como seria uma corrida onde o motor não seria muito forçado, Rubens tinha boas perspectivas, ainda mais com os bons pneus que tinha. Barrichello faz algumas ultrapassagens, se aproveita da má escolha de pneus da Williams para terminar a corrida em segundo lugar, conquistando um pódio logo na estreia da Stewart. Esse seria o único momento de alegria da equipe, mas 1998 se provaria ainda pior. Com a radical mudança de regulamento, a Stewart não consegue projetar um carro tão bom quanto o primeiro e se o motor Ford parara de quebrar, o câmbio seria o calcanhar de Aquiles da equipe e isso apareceria logo na primeira corrida do ano, quando Rubens quebra o câmbio... na largada! Como na temporada anterior, o brasileiro sofreu bastante com a confiabilidade. Na Espanha, ele terminou em quinto lugar, resultado que repetiria no Canadá. Esses seriam seus únicos pontos em 1998. Apesar dos poucos resultados, Rubens Barrichello se mantinha com a moral alta na F1. Seu companheiro de equipe, Jan Magnussen, chegara com a fama de potencial campeão do mundo, mas Barrichello o derrotou inapelavelmente. No final do ano, Barrichello foi convidado pela Williams para capitanear o projeto da entrada da BMW a partir do ano 2000, mas Barrichello confiava que sanados os problemas de confiabilidade da Stewart, ele teria chance de vitórias. Outra escolha discutível...

No entanto, para muitos, Rubens Barrichello teria sua melhor temporada na F1 em 1999. Os níveis de confiabilidade da Stewart ainda não eram bons, mas o motor Ford se transformava num dos melhores da F1 e com um chassi equilibrado, Barrichello por várias vezes lutaria por pódios ao longo do ano. Em Interlagos, ele se classificou em terceiro no grid e assumiu a liderança na primeira curva. O brasileiro ponteou a corrida para delírio da torcida paulista, mas seu motor quebrou na quadragésima segunda volta. Ele já tinha marcado dois pontos na Austrália e ele terminou em terceiro lugar em Imola. No Grande Prêmio da França, ele reeditou sua performance do Grande Prêmio da Bélgica de 1994, quando ele aproveitou a chuva que caiu na classificação para conquistar uma impressionante pole. No domingo, a chuva caiu novamente no circuito de Magny-Cours e Rubens teve uma corrida fantástica, disputando posição com Coulthard, Hakkinen e Schumacher. Por causa da estratégia, Barrichello acabou superado por Hakkinen e o vencedor Frentzen. Rubens se classificava bem, conseguindo boas posições nos grids, então ele terminou em quinto em Budapeste e quarto em Monza. Além disso, em grande parte do ano ele dominou o seu novo companheiro de equipe, o veterano Johnny Herbert. Foi então que outra faceta apareceu para Rubens Barrichello. Em Nürburgring, onde o clima sempre foi um fator, Rubens cometeu erros em sua escolha de pneus, permitindo que seu companheiro de equipe passasse por ele e terminasse em primeiro, com Herbert dando a primeira e única vitória da Stewart. Barrichello teve de se contentar com um terceiro lugar, após muito pressionar a Prost de Trulli nas últimas voltas.

Com uma temporada tão forte, Rubens Barrichello se transformou num importante player na F1. Sem contrato para o ano 2000, choveram propostas para o brasileiro. A Ford resolvera comprar a Stewart, transformando o time em Jaguar e com o bom potencial da equipe, Barrichello poderia ser o primeiro piloto de uma equipe de fábrica e já com a experiência de uma vitória. A McLaren também se interessou, mas a tempestuosa relação entre Barrichello e Ron Dennis, que frustrou outras negociações no passado, praticamente descartou o brasileiro na equipe. Restava a Ferrari. Quatro anos após sua tentativa inicial, Barrichello finalmente se acertava com a Ferrari e aceitou o contrato oferecido por Jean Todt. Aos 27 anos, Rubens Barrichello tinha sua carreira relançada numa equipe verdadeiramente de ponta e fez renascer também no brasileiro a vontade de acompanhar a F1. A cobertura da F1 aumentou exponencialmente na virada do século. Mas haviam muitas perguntas que seriam respondidas ao longos dos seis anos em que Rubens Barrichello viveu na Ferrari. Quando Rubens criticou a Ferrari em 1995, dizendo que não seria o segundo piloto de Schumacher, a situação quatro anos depois era idêntica. Apesar de Eddie Irvine ter disputado o título de 1999 com Hakkinen por causa do acidente de Schumacher, o alemão era incontestavelmente o piloto número um da Ferrari e a grande estrela da equipe, afinal, ele trouxe consigo Ross Brawn e Rory Byrne, que fizeram a Ferrari a brigar novamente pelo título.  Quando foi apresentando, Barrichello disse que seria o piloto ‘1B’ da Ferrari. Outro ponto que trazia muita curiosidade no torcedor brasileiro era ver o comportamento de Barrichello frente à Schumacher. Muitos diziam que o paulista faria o mesmo que Senna em 1988, quando chegou na McLaren superando Prost. Outra questão era o terrível jejum de vinte anos sem títulos de pilotos da Ferrari, ocasionando uma pressão monumental numa equipe que já tinha o maior orçamento da F1.

A estreia de Barrichello na Ferrari foi muito boa, onde chegou a liderar a corrida em Melbourne, mas terminou em segundo, enquanto os dois carros da McLaren quebraram. A temporada 2000 foi um mano a mano entre Ferrari e McLaren. Rubens Barrichello ainda perseguia sua primeira vitória e quando conseguiu uma pole em Silverstone, todos pensaram que ele poderia consegui-lo, mas o paulista abandonaria, mais uma vez por causa de um problema hidráulico. Novamente velhos fantasmas de abandonos infestaram a vida de Barrichello. No meio do ano, a rádio Jovem Pan inventou uma musiquinha brincando com a situação de Rubens, que deixou o brasileiro muito irritado. Ironicamente, bem nessa semana, Rubens Barrichello lavou a alma. Tudo estava dando errado para Rubens no Grande Prêmio da Alemanha, com problemas em seu carro titular e uma chuva na classificação o colocando em 18º no grid. No entanto, no domingo, ele escalou o pelotão e no final da décima primeira volta ele já aparecia em terceiro lugar atrás dos McLarens quando a chuva apareceu com dez voltas para o fim. Hakkinen e Coulthard foram aos boxes colocar pneus de chuva, deixando Rubens na liderança. E para surpresa de todos, a chuva era menos intensa do que o esperado. Aos vinte e oito anos e depois de 124 corridas, um recorde, Rubens Barrichello finalmente conseguiu sua primeira vitória na F1. Suas lágrimas de alegria no pódio emocionaram a todos. Além disso, ele tinha apenas dez pontos de desvantagem para Schumacher no campeonato, que havia abandonado na primeira volta. Contudo, em Montreal, a Ferrari já dava mostras de quem era o seu preferido. Barrichello vinha em segundo e mais rápido do que Schumacher, quando a escuderia manda-o ficar na posição. Barrichello apenas ajuda Schumacher finalmente conquistar o título para a Ferrari no final do ano, enquanto Barrichello conseguia sua melhor temporada na F1 até então.

O ano de 2001 marca a chegada da Williams-BMW como postulante às vitórias. A mesma Williams-BMW que Barrichello desprezou em 1999. Com a McLaren sofrendo com uma ligeira decadência e a Williams ainda cometendo alguns erros, principalmente de confiabilidade, a Ferrari dominou completamente o ano, Barrichello conseguindo dez pódios em dezessete corridas, mas sem nenhuma vitória ou pole. O ano teve pontos negativos para Barrichello, como o evento em Interlagos, quando quase não largou por problemas em seu carro quando o levava ao grid e o posterior acidente com Ralf Schumacher, onde um descontrolado Barrichello teve toda a culpa ao acertar a traseira do alemão. Em Zeltweg, Schumacher brigava com Montoya e os dois acabaram saindo da pista. Barrichello assumia a segunda posição, atrás de Coulthard. Schumacher se recuperou e estava logo atrás de Rubens, que na penúltima volta é ordenado trocar de posição com o alemão. Barrichello só o faz na última volta, fazendo com que a Ferrari fosse muito criticada pela ordem de equipe. Perguntada se faria isso em caso de vitória, a Ferrari negou...

Precisando renovar o contrato com a Ferrari, que se encerraria no final de 2002, Barrichello se coloca claramente como apoiador da escuderia e de Schumacher, mas o brasileiro tem um início de campeonato azarado. Após conseguir uma bela pole na Austrália, acabou atingindo por trás por Ralf na primeira curva. Na Malásia e no Brasil, dois abandonos após estar brigando pela liderança. No Brasil, a Ferrari só tinha um novo F2002 pronto e mesmo correndo na casa de Barrichello, a Ferrari escolhe Schumacher a utilizar o novo carro, enquanto Rubens teria à disposição o carro velho, o F2001. A Ferrari F2002 foi um dos melhores carros já construídos na história da F1, com uma vantagem nítida sobre os demais. Se em 2001 Schumacher soube utilizar as fraquezas dos adversários, em 2002 ele massacrou a todos com um conjunto muito melhor do que os demais. Após um segundo lugar em Ímola na sua estreia com o F2002, onde Schumacher confessou ter usado o setup de Barrichello, Rubens quebrou novamente em Barcelona, antes da corrida em Zeltweg. Schumacher tinha um histórico praticamente perfeito contra os seus companheiros de equipe, mas na Áustria o alemão vinha sendo batido de forma inapelável por Rubens Barrichello. Seja em ritmo de classificação ou corrida, Barrichello tinha sido o mais rápido. No final da prova, com Schumacher se aproximando de Barrichello, o narrador Cléber Machado foi lembrado da troca de posições do ano anterior, ali mesmo na Áustria, mas ele nem ligou. ‘Hoje não, hoje não’. Na pista, na última volta, na reta de chegada, Barrichello encosta o carro para Schumacher passar. ‘Hoje sim...’

Foi um verdadeiro escândalo! O público vaiou a marmelada e Schumacher, tentando amenizar, colocou Barrichello no topo do pódio. Por várias semanas, só se falou dessa cena, que marcou para sempre a carreira de Rubens Barrichello. E o contrato de Rubens foi renovado até 2004, mas o estrago estava feito. Para sempre, Barrichello ficará conhecido por ter deixado Schumacher vencer. E na bandeirada, na frente de todos. Até hoje essa corrida, que completou quinze anos recentemente, é discutida, principalmente como cada um dos envolvidos se comportaram ou deveriam se comportar. Rubinho deveria desobedecer sua equipe, que lhe pagava um alto salário na época? O brasileiro deveria ter exposto sua equipe daquela forma? Schumacher não poderia ter recusado a vitória? E principalmente, qual seria o motivo da Ferrari ter dado uma ordem tão dispensável? O ano de 2002 talvez tenha sido o mais triste da F1 desde 1994, com a sombra do que havia acontecido em Zeltweg e Barrichello havia sido um triste protagonista. A Ferrari venceu de forma inapelável tudo a que tinha direito, com Barrichello vencendo mais três vezes, sendo que a última, por incrível que pareça, foi sem querer. Em Indianápolis, Schumacher dominou a prova e resolveu receber a bandeirada lado a lado com Barrichello, mas o alemão desacelerou demais e deixou Rubens passar. E tome vaia do público americano, mesmo que a troca de posição tenha ocorrido por erro de Schumacher, não por ordem de equipe.

Com Schumacher vencendo o seu quinto título ainda no verão, a FIA resolveu fazer várias mudanças no regulamento e por isso, 2003 foi um ano mais equilibrado, marcado pela guerra de pneus entre Bridgestone e Michelin. Rubens Barrichello tem um ano cheio de altos e baixos, onde o carro mais próximo dos rivais fez com que o paulista tivesse apenas alguns espasmos de superioridade. Foi nesse ano que Barrichello teve sua melhor atuação na F1, no Grande Prêmio da Inglaterra, com uma vitória categórica e uma ultrapassagem fabulosa em cima de Kimi Raikkonen. Em Interlagos, houve sua maior decepção em sua corrida caseira, quando ele abandonou com pane seca quando liderava. Em Hungaroring, Barrichello sofreu um acidente infame, quando sua roda traseira esquerda se soltou do seu carro sem aviso. A Ferrari acusou Barrichello de ter atacado as zebras de forma incorreta, trazendo grande indignação à imprensa brasileira. Muitas pessoas não aceitavam que Barrichello tivesse numa situação tão submissa dentro da Ferrari e o queriam fora da equipe. Surgiram propostas da Williams e da Toyota, mas Barrichello talvez esperasse que Schumacher se aposentasse logo e a Ferrari o recompensasse por sua lealdade. Antes de estrear na Ferrari, Barrichello se dizia o ‘futuro’ da Ferrari, mas Rubens se esqueceu que é apenas três anos mais jovem do que Schumacher. Em Suzuka, Barrichello venceu pela segunda vez no ano e garantiu o sexto título de Schumacher.

Porém, não tardou para a Ferrari voltar a dominar a F1. Se o F2003 GA não repetiu o F2002, o F2004 era uma arma tão potente quanto o invencível F2002. O cenário foi parecido, com Schumacher doutrinando o início da temporada para rapidamente conquistar o título, enquanto Rubens assegurava o vice-campeonato. E assim, "Schumi" venceu doze das primeiras treze corridas, não dando muita chance ao seu companheiro de equipe, que só foi conquistar suas primeiras vitórias (Itália e China) na metade final do campeonato. Com um carro muito superior aos demais, Barrichello passou por momentos embaraçosos, como o quarto lugar em Sepang e o sexto em Ímola, duas corridas onde Schumacher venceu com sobras. Quando Schumacher tem problemas nos treinos livres para o Grande Prêmio do Brasil, Barrichello parecia ter a chance que precisava para finalmente vencer em casa. A Ferrari focou em Rubens para lhe dar a vitória, mas o instável clima paulistano jogou contra Barrichello e após algumas opções erradas, ele teve que se contentar com um terceiro lugar, no que seria seu único pódio em Interlagos.

Quando 2005 chegou, parecia que nada poderia deter a Ferrari, mas quando a FIA impõe a proibição da troca de pneus, a Brisdgestone não se adapta e as equipes clientes da Michelin, principalmente Renault e McLaren dominam o ano. Nessas condições difíceis, Barrichello não pode fazer melhor do que alguns bons resultados. Após um segundo lugar na primeira corrida em Melbourne, Rubens abandona várias corridas. Em Ímola, o brasileiro tem seu primeiro abandono por problema mecânico em dois anos. Além disso, as relações com Schumacher começavam a deteriorar-se seriamente. Schumacher ultrapassou seu companheiro de equipe na freada do túnel de Mônaco na última volta da corrida, fazendo Barrichello reclamar bastante. No infame Grande Prêmio dos Estados Unidos, onde somente a Ferrari tinha carro para vencer após o abandono dos clientes da Michelin, Schumacher jogou pesado após uma parada e venceu, fazendo Barrichello soltar a pérola que era ‘apenas um brasileirinho contra esse mundo todo’. Enquanto isso, Jean Todt queria trazer Felipe Massa, que era empresariado pelo seu filho Nicolas. Na BAR, que era a equipe de fábrica da Honda, Gil de Ferran, amigo de longa data de Barrichello, assume a chefia da equipe e começa sondar Barrichello. Cansado de sua situação na Ferrari, mesmo tendo um dos melhores salários da F1 e um carro capaz de lhe dar vitórias, Barrichello resolve sair da Ferrari após seis turbulentos anos.

Rubens chega à BAR em 2006, que antes da temporada mudaria de nome para Honda, falando em título. Tendo 34 anos e mais de 200 corridas nas costas, Rubens já não é mais a esperança brasileira de substituir Ayrton Senna. Porém, a temporada de estreia na Honda não é nada boa. O classudo Jenson Button supera Barrichello e nas primeiras quatro corridas, o brasileiro só consegue dois pontos. Para piorar, mais uma vez Barrichello vê um companheiro de equipe vencer pela primeira vez na equipe, quando Button triunfa na Hungria. Mesmo marcando pontos de forma constante na metade final da temporada, Barrichello tinha metade dos pontos conquistador por Button e ainda via Felipe Massa conseguir algo que sempre perseguiu: vencer em Interlagos. Em 2007, a situação piora quando a Honda erra a mão e com uma pintura ambientalista, o time naufraga numa temporada onde esperava vencer. Nem Rubens ou Button ficam sequer perto dos objetivos da Honda e chegaram a ficar atrás da equipe B da Honda, a Super Aguri. Ao contrário dos prognósticos em que muitos colocavam o brasileiro fora da Honda e até mesmo da F1, Rubens Barrichello fica mais um ano na equipe. A Honda melhora levemente, mas nada que façam seus pilotos almejarem algo melhor do que conquistar pontos aqui e ali. Em Silverstone, debaixo de muita chuva, Rubens consegue um ótimo terceiro lugar. Ao seu lado, estava Lewis Hamilton, um piloto treze anos mais jovem e também ídolo de Senna. Quando olhava para o resto do grid, Barrichello não via mais ninguém que havia estreado com ele 1993. Para completar a situação, a Honda resolve deixar a F1 de uma hora para outra no final de 2008, ameaçando a continuidade de Barrichello na F1.

Em 2009 haveria uma grande mudança no regulamento e Ross Brawn sabia do potencial do novo carro e numa operação complexa, compra a equipe, fazendo surgir a Brawn GP, com a estrutura da antiga equipe Honda, incluindo os pilotos. Quando Button e Barrichello estrearam na pré-temporada, todos ficaram de queixo caído com a velocidade dos novos carros da Brawn. Muitos acusaram que o time estava apenas querendo aparecer, mas a realidade era que Ross Brawn tinha dado o pulo do gato com o novo regulamento e tinha, disparado, o melhor carro. Sem a política da Ferrari e tendo um companheiro de equipe mais acessível, Rubens Barrichello tinha a chance de sua vida, quando já contava com 37 anos de idade. Porém, Barrichello não se entendeu muito bem com os freios e Button venceu seis de sete corridas, praticamente definindo o título antes da metade do campeonato. Quando finalmente Barrichello se acertou com o conjunto, vencendo de forma metódica em Valencia e em Monza, já era tarde demais. Durante os treinos para o Grande Prêmio da Hungria, um dos amortecedores do carro de Barrichello se soltou e atingiu em cheio o capacete de Felipe Massa, que vinha logo atrás, deixando o piloto da Ferrari em coma. Massa nunca mais foi o mesmo piloto, apesar das negativas de Felipe de que o acidente o prejudicou. O que ninguém sabia era que a vitória de Barrichello em Valencia seria a última de um brasileiro na F1. Por falta de investimento para desenvolver o carro, a Brawn não segurou a emergente Red Bull e com Button apenas marcando de perto Barrichello até o fim do campeonato, o inglês se sagrou campeão e Rubens ainda perdeu o vice para Vettel.

Quando a Brawn foi vendida para a Mercedes, Barrichello saiu da equipe e finalmente aceitava correr pela Williams, após várias tentativas. Porém, era uma Williams diferente, sem apoio de fábrica e tentando se reerguer. Barrichello teria como companheiro de equipe o novato Nico Hulkenberg, quinze anos mais jovem do que ele. Quem estrearia também naquele ano era Bruno Senna, sobrinho do ídolo Ayrton. O início da temporada foi difícil para a Williams-Cosworth. Rubens, que facilmente levava vantagem sobre o seu companheiro de equipe, pôde trazer alguns pontos quando seu carro permitia. Ele terminou em quarto lugar em Valência e quinto em Silverstone. No Grande Prêmio da Hungria, Barrichello vinha com pneus melhores nas voltas finais e partia para cima de Schumacher, que reestreava de forma melancólica na Mercedes. Brigando pela décima posição, Barrichello põe por dentro e é fechado de forma criminosa por Schumacher, que acabaria punido pela manobra temerária. Na corrida seguinte, Rubens Barrichello completava seu 300º Grande Prêmio. Em Interlagos, novamente Rubens vê um companheiro de equipe brilhar, quando Hulkenberg consegue uma brilhante pole com piso molhado. Rubens permanece mais um ano na Williams, mas 2011 seria a pior temporada da histórica equipe. Barrichello marca apenas dois pontos e mesmo com quase 40 anos, ainda insistia em permanecer na F1. Como uma veterana atriz que não percebeu que o tempo passou e outras atrizes mais jovens e bonitas dominavam o palco, Barrichello teimava em se oferecer em ficar na F1, numa cena até grotesca para um piloto de sua história. Rubens não teve uma merecida festa de despedida e em seu adorado Interlagos, encerrou sua longa passagem na F1 com um 14º lugar. Ele seria substituído, ironicamente, por Bruno Senna na Williams. Foram 323 corridas, 11 vitórias, 14 poles, 17 voltas mais rápidas, 68 pódios, 658 pontos e dois vice-campeonatos (2002 e 2004).

Quase quinze anos depois de quase ir para a Indy, finalmente Rubens Barrichello estreou na categoria em 2012, ao lado do seu amigo, Tony Kanaan. Barrichello teve boas corridas, conquistou o prêmio de novato do ano, mas quando foi convidado pela TV Globo para comentar as corridas de F1, ele resolveu se aproximar da categoria novamente, tentando um lugar na categoria. A Globo percebeu isso rapidamente e dispensou Rubinho em 2014. Ainda em 2012 ele começou a correr na Stock Car e no ano seguinte fez sua primeira temporada completa, para se tornar campeão em 2015, 23 anos depois de sua última título. Hoje Rubens Barrichello corre ainda competitivamente pela Stock, enquanto seus dois filhos, Fernando e Eduardo correm de kart. Rubens é casado há vinte anos com Silvana Giaffone, que vem de uma família de automobilistas. O próprio Rubens Barrichello admite que não esperava ser lembrado como o piloto com mais corridas na história da F1. Ele queria ter sido campeão, sonho que perseguiu algumas vezes até de forma inocente. Quando marcou o melhor tempo da pré-temporada de 2011 com a Williams, ele falou em título, quando era claro como o céu é azul que não era possível. Quando foram anunciadas as mudanças de regulamento de 1998, ele perguntou se música da vitória estava pronta. Foram declarações como essa que fizeram Rubens cair no ridículo muitas vezes. Sua obsessão em falar de Senna também o atrapalhou bastante, pois dava a sensação de se comparar ao incomparável tricampeão. Logicamente que os seis anos que passou na Ferrari serão mais lembrados no livro que Barrichello diz um dia lançar. Os anos ao lado de Schumacher deterioram uma relação que foi sempre forçada, onde Barrichello queria demonstrar que não estava abaixo do alemão, quando era nítido que Schumacher era bem superior ao brasileiro em todos os quesitos de um grande piloto. Mesmo muitas vezes superando seus companheiros de equipe, Barrichello viu Herbert vencer na Stewart, Button vencer com a Honda e Hulkenberg ser pole na Williams. Porém, a Ferrari dominou como nunca havia feito exatamente nos anos em que Rubens Barrichello lá esteve e isso não deve ser encarado como uma coincidência. Se muitas vezes esteve em situações desagradáveis dentro da scuderia, Rubens ajudou bastante numa das maiores dominações da história da F1. Só não conseguiu o que queria por que lá havia um alemão.

Parabéns!
Rubens Barrichello

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Que pena...

Quando criança eu era louco por corridas e me impressionava bastante, mesmo que a cobertura por aqui fosse muito restrita, o Mundial de Motovelocidade. O balé dos pilotos e até mesmo as quedas espetaculares me chamavam a atenção. Eram tempos de Rainey e Schwantz, muito provavelmente fazendo gostar de todos os pilotos americanos. Talvez por isso eu gostasse tanto de Nicky Hayden. Ele não tinha a magia de Valentino Rossi ou o talento dos espanhóis, mas por ser compatriota de Wayne Rainey e Kevin Schwantz, eu gostava de Hayden. E torci muito por ele quando conquistou seu único título na MotoGP em 2006.

Medíocre? Não existem, em duas ou quatro rodas, campeões mundiais medíocres. Hayden conquistou seu título usando as armas que tinha nas mãos, derrotando um monstro sagrado chamado Valentino Rossi na última etapa, onde tudo estava a favor do italiano, além de ter superado um piloto mais talentoso do que ele com a mesma moto, apesar de ser um novato, que era Daniel Pedrosa. Hayden era um batalhador, consistente e, como dizem os americanos, um nice guy.

Dói ver um piloto que vi crescer desde que foi anunciado de forma surpreendente pela Honda no final de 2002 para subir direto da MotoGP vindo do AMA Superbike, como havia acontecido com Rainey e Schwantz. Ele tinha 21 anos de idade na época, praticamente a minha idade. Mesmo não sendo mais uma criança, ainda me vejo fazendo e realizado muitas coisas e de repente um cara da sua idade falecer impressiona.

Desde que foi anunciado o seu acidente, a situação de Nicky Hayden sempre foi desesperançosa. Era uma questão de tempo e a agonia do americano não durou muito. O Kentucky Kid pode não ter sido o mais talentoso, o mais veloz, mas foi um dos caras mais legais a ser campeão mundial. 

domingo, 21 de maio de 2017

A velha magia de Rossi

Valentino Rossi caiu na última volta do Grande Prêmio da França, no segundo erro do italiano da Yamaha nesse mesma volta. Quando perdeu a liderança ao errar no meio da volta, Rossi trincou os dentes e tentou um bote final em cima de Maverick Viñales, mas acabou encontrando o chão sagrado de Le Mans e acabou no zero em sua luta pelo título. Dois erros incaracterísticos, mas nem por isso tira o mérito da grande corrida que Valentino Rossi fez nesse domingo, lembrando os velhos tempos onde cozinhava Sete Gibernau a corrida inteira para dar o bote fatal nas últimas voltas, deixando o espanhol com a cara no chão. Mais de dez anos após esses tempos, Rossi repetiu a tática e quase venceu, mas Maverick Viñales é outro tipo de piloto, além de muito mais jovem, não cedendo aos jogos mentais de Rossi e garantindo a liderança do campeonato.

Até o ataque final de Rossi, a corrida pertencia ao anfitrião Johan Zarco. O francês da Yamaha Tech 3 fazia uma corrida formidável em Le Mans, como se fosse um veterano da MotoGP, mas apenas em sua quinta corrida na categoria, Zarco andou de igual para igual com pilotos bem mais experientes do que ele e melhor equipados, pois Johan usa uma Yamaha 2016, enquanto Viñales e Rossi montam Yamaha triscando de novas. Zarco fez uma ótima largada, assumiu a liderança, foi ultrapassado por Viñales e permaneceu a corrida inteira no pelotão da frente, separando os pilotos de fábrica da Yamaha. Foi então que começou o show de Rossi. O italiano vinha numa tocada tranquila, onde não era atacado e parecia até mesmo conformado com a terceira posição. Os tempos onde Rossi dava botes nos finais de corrida haviam ficado para trás, mas Vale fez uma corrida como nos seus tempos doutrinadores e após ultrapassar Zarco já no final da corrida, partiu com tudo para cima de Viñales, que chegou a errar, mas não cedia uma milímetro sequer para o companheiro de equipe. Se a corrida tinha sido até mesmo próxima, mas bastante morna, esquentou no final e como nos tempos das brigas com Gibernau, Rossi efetuou a ultrapassagem nas últimas voltas. Porém, se Gibernau abaixava a cabeça e era derrotado, principalmente mentalmente, Viñales não se fez de rogado e se manteve colado em Rossi. Foi então que Valentino errou duas vezes, a segunda o levando ao chão, entregando de bandeja a liderança do campeonato à Maverick, enquanto Zarco garantia o seu primeiro pódio na MotoGP.

Daniel Pedrosa fez uma boa corrida de recuperação, após uma classificação bisonha, onde largou em 13º. Pedrosa foi subindo o pelotão e quando já se aproximava de Márquez, o espanhol caiu na sua frente e com a queda de Rossi no final, Pedrosa assumiu o terceiro posto e a segunda posição no mundial, mesmo que um pouco distante de Viñales. Marc Márquez já começava a ficar distante da briga entre as Yamahas, mas ficar zerado na pontuação era tudo o que o espanhol não precisava. Mais pontos perdidos e a defesa do título ficando cada vez mais difícil para Márquez, principalmente com a Yamaha tão forte. A Ducati ficou mesmo como terceira força, com Doviziozo terminando em quarto e Lorenzo em sexto, após o espanhol decepcionar na classificação e largar em 18º.

Como aconteceu semana passada na F1, a queda de Rossi proporcionou choro de crianças na arquibancada. Valentino Rossi é uma lenda e talvez nem precisasse mais estar correndo para provar alguma coisa. Rossi já provou tudo o que tinha que provar e com o tempo chegando, há pilotos mais velozes do que ele. Porém, Vale permanece na MotoGP para nos contemplar com sua magia. Viñales venceu, Zarco brilhou, mas o nome da corrida foi, mais uma vez nos últimos 21 anos, Valentino Rossi.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

História: 25 anos do Grande Prêmio de San Marino de 1992

A quinta etapa da temporada de 1992 chegava à Ímola para a corrida caseira da Ferrari, mas quem estava mais à vontade no ano era a Williams. Com um carro nitidamente muito superior às demais, nem mesmo a chuva em Barcelona impediu Nigel Mansell dominar outra corrida e manter o 100% de aproveitamento. Enquanto Lotus e Minardi estreavam novos carros, Patrese teve um grande susto quando bateu forte na temida Tamburello e mesmo saindo do carro ileso, o italiano foi levado ao hospital por precaução.

Com um carro tão mais rápido do que os demais, Mansell ficou com a pole novamente, a sua quinta na temporada, mas talvez ainda sentindo a pancada na Tamburello, Patrese ficou apenas dois décimos à frente de Senna, que mais uma vez era o melhor do resto. Ou o primeiro dos mortais. Numa demonstração o quanto as equipes estavam em níveis estanque, as três primeiras filas eram ocupadas, na ordem, por Williams, McLaren, Benetton e Ferrari, com cada dupla ocupando uma fila e o primeiro piloto na frente. Mesmo correndo em casa, a Ferrari não conseguia diminuir a péssima temporada que estava enfrentando.

Grid:
1) Mansell (Williams) - 1:21.842
2) Patrese (Williams) - 1:22.895
3) Senna (McLaren) - 1:23.086
4) Berger (McLaren) - 1:23.418
5) Schumacher (Benetton) - 1:23.701
6) Brundle (Benetton) - 1:23.904
7) Alesi (Ferrari) - 1:23.970
8) Capelli (Ferrari) - 1:24.192
9) Alboreto (Footwork) - 1:24.706
10) Boutsen (Ligier) - 1:25.043

O dia 16 de maio de 1992 amanheceu com sol forte na Emilia-Romagna, espantando a chuva que caiu forte em Barcelona ou mesmo um ano antes ali mesmo, em Ímola, bagunçando a corrida. Porém, a temperatura estava mais alta do que o normal, podendo trazer alguns problemas aos pilotos. A primeira largada foi abortada quando Wendlinger e Capelli ficaram parados no grid. Na largada que valeu, Mansell saiu muito bem e manteve a ponta, enquanto Senna sai melhor do que Patrese, mas leva o troco ainda durante a Tamburello, enquanto Schumacher perdia três posições após ficar preso atrás de Berger.

O ritmo da Williams era avassalador e em três voltas, Senna já se encontrava 8s atrás de Mansell. Era o prenúncio de outro passeio dominical de Mansell, enquanto os dois pilotos da Benetton brigavam forte pelo quinto lugar, após Berger passar Brundle e este ser atacado por Schumacher. O dia da Ferrari piorava quando Capelli, já atrasado pela largada, rodava na Acqua Minerale e abandonava. Contratado como o próximo grande piloto italiano, Capelli decepcionava em sua estreia numa equipe grande. Ainda pressionando seu companheiro de equipe, Schumacher acaba rodando na volta 20 na Rivazza, batendo de traseira na barreira de pneus. O alemão retorna aos boxes lentamente apenas o mecânico da Benetton notar que a suspensão traseira estava quebrada e mesmo Michael ainda voltando a pista, ele abandonaria mais tarde. Game Over para Schummy. Exatamente nesse momento os pilotos procuravam os boxes para seus pit-stops. 

Alesi retardou ao máximo sua parada, assumindo a terceira posição, mas logo o francês estava sobre ataque cerrado dos dois carros da McLaren. Na volta 40 Senna consegue a ultrapassagem na freada da Tosa, mas Berger tenta pegar uma carona do companheiro de equipe e acaba batendo em Alesi, acabando de vez com o dia da Ferrari, além de ser mais um abandono para o austríaco. Mesmo sendo o piloto melhor preparado fisicamente da F1, os pneus desgastados de Senna, mais o calor forte, fez com que o brasileiro sofresse nas voltas finais, porém, o esforço do tricampeão significava que ele estava mais de 50s atrás de Mansell. Em outra corrida sem emoção, Mansell venceu pela quinta vez consecutiva, sendo o primeiro piloto a conseguir cinco vitórias nas cinco primeiras corridas na história da F1. Após receber a bandeirada, Senna ficou no carro completamente exausto, repetindo as cenas de Interlagos no ano anterior. Apenas Mansell e Patrese subiram ao pódio. Na metade de maio de 1992, todos já sabiam que Nigel Mansell seria o campeão do ano.

Chegada:
1) Mansell
2) Patrese
3) Senna
4) Brundle
5) Alboreto
6) Martini

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Força Kentucky Kid

A comparação é inevitável. Assim como Michael Schumacher, Nicky Hayden passou a vida correndo pelas pistas mundo à fora. Venceu corridas, mas como corre de moto, também caiu um bocado, sofrendo uma lesão aqui e ali. Foi campeão mundial na MotoGP, apesar de muitos considerarem o título de Hayden injusto. Essa consideração, sim, é injusta. Porém, Hayden sobreviveu as quedas e prestes a completar 35 anos, ainda está ativo como oficial da Honda no Mundial de Superbike. Andando de bicicleta, em velocidades infinitamente mais lentas do que está acostumado, o americano acabou atropelado e as notícias sobre Hayden não são nada boas. Sua situação é tão crítica, que não é possível operar uma fratura exposta na perna. As lesões são graves na cabeça e no peito. Só nos resta esperar que o Kentuck Kid saía bem dessa.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Figura (ESP): Fernando Alonso

Não faltaram candidatos a essa parte da coluna nesse final de semana. Lewis Hamilton, Force India, Nico Hulkenberg, Pascal Wehrlein... todos poderiam muito bem estar aqui como o destaque do final de semana, mas Fernando Alonso mostrou, como se isso ainda fosse preciso, de que é um gênio e somente as circunstâncias não o fizeram ter números de gigantes, como os contemporâneos Hamilton e Sebastian Vettel. A situação da McLaren-Honda é tão calamitosa, que o time patrocinou Alonso participar das 500 Milhas de Indianápolis, fazendo-o perder a corrida mais glamorosa do ano (Mônaco) apenas para deixar o espanhol, com o perdão da palavra, menos puto. As situações com que Alonso tem que viver por causa da falta de potência do motor Honda não condiz com a bela história da montadora japonesa, mas correndo em casa, Alonso tirou alguns décimos a mais e fez uma classificação histórica. Com uma reta enorme, Alonso conseguiu o quase milagre de levar seu carro ao Q3 e não fez feio, ficando em sétimo, à frente de carros nitidamente mais rápidos do que o seu, como Force India, Williams e Renault. Foi uma atuação que literalmente levantou a torcida espanhola, que vibrou como nos tempos da Alonsomania, de dez anos atrás. A corrida complicada, onde Fernando saiu da pista na curva dois fez com que o espanhol deixasse de marcar pontos na frente de sua torcida, mas o que Alonso fez no sábado já o coloca nessa altura da coluna e mostrou que Fernando Alonso está entre os grandes da F1. 

Figurão(ESP): Lance Stroll

Infelizmente, não há como não ser outro. O canadense, que foi campeão por onde passou nas categorias de base, está se mostrando claramente abaixo do nível de um bom piloto da F1. Stroll não tem a velocidade dos novatos audaciosos, mas não é contante como os pilotos mais cerebrais. Na Espanha, enquanto Massa fazia o seu dever de casa com o carro que tem e participava do Q3, Lance ficou pelo caminho no Q1. A corrida foi ainda pior. Massa furou o pneu na primeira volta e caiu para último, quase um minuto atrás do companheiro de equipe. Pois Felipe, mesmo sofrendo com um carro da Williams que não se encontrou em Barcelona, ainda foi capaz de alcançar e ultrapassar Lance Stroll, mostrando que seja em uma única volta rápida como em ritmo de corrida, o jovem canadense deixa muito a desejar frente a um piloto experimentado como Massa. O enorme aporte de dinheiro que a família Stroll injetou na Williams é muito importante para a equipes, mas os pontos que a equipe deixa de marcar por causa de Lance já fazem o setor financeiro da Williams fazer as contas...