domingo, 24 de setembro de 2017

Corrida heroica

Marc Márquez venceu e disparou no campeonato. A Honda conseguiu uma dobradinha em Aragão. Andrea Doviziozo decepcionou na hora errada. E Jorge Lorenzo voltou ao pódio em outra corrida espanhola. Em condições normais, essas seriam os principais destaques da recém-terminada corrida em Aragão, mas Valentino Rossi conseguiu superar todas essas manchetes com uma corrida heroica nessa tarde.

Que os pilotos de moto são meio malucos, ninguém pode duvidar, até mesmo pelos riscos que correm ao andar a mais de 300 km/h em cima de uma moto, cujo contato com a asfalto não é muito maior do que um cartão de crédito. Porém, as recuperações pós-acidentes que chamam atenção. Desafeto de Rossi, Jorge Lorenzo fez a loucura-mor ao correr apenas um dia após ser operado, depois de um acidente em Assen na chuva. Fala-se que desde esse dia a relação Lorenzo-chuva nunca mais foi a mesma. Porém, o que Valentino Rossi fez hoje não fica muito atrás. Pouco mais de vinte dias depois de quebrar a perna direita, Rossi voltou ao Mundial e não se pode dizer que ele fez feio. Conseguiu um terceiro lugar no grid, passou a maior parte do tempo entre os três primeiros, mas o cansaço e as dores foram mais fortes e Rossi, de forma até esperada e lógica, foi perdendo rendimento e não mais brigou pela vitória, mas conseguindo um excelente top-5, contra pilotos melhores preparados e com motos melhores também. 

Marc Márquez caiu ontem na classificação e por isso largou em quinto, quebrando sua invencibilidade de quatro poles seguidas em Aragão. O espanhol da Honda fez uma corrida bem ao seu estilo, partindo para cima dos rivais de forma agressiva, até se arriscando em demasia quando ultrapassou Lorenzo e Rossi numa freada e acabou fora da pista. Contudo, o espanhol tinha mais moto e já nas últimas voltas conseguiu tomar a ponta de Lorenzo para vencer pela quinta vez no ano e abrir uma diferença boa no campeonato. Olhando o desempenho de Lorenzo com a Ducati, Andrea Doviziozo teve sua pior corrida no campeonato. O italiano até largou bem e correu a primeira metade da prova no pelotão da frente, mas foi perdendo rendimento e terminou apenas em sétimo, ultrapassado até mesmo pela anêmica Aprilia de Aleix Espargaró. Péssima hora de ter uma corrida ruim, pois Márquez agora tem dezesseis pontos de vantagem e mesmo Doviziozo sendo mais experiente, o italiano da Ducati nunca brigou pelo título da MotoGP, algo que Márquez já fez algumas vezes em sua carreira. Pedrosa dava pinta de ter outra corrida ruim, mas foi se recuperando até alcançar a segunda posição e completar a dobradinha da Honda, com Lorenzo em terceiro. O piloto da Ducati fez sua melhor corrida em sua passagem pela montadora italiana até agora, onde liderou boa parte da prova e mesmo superado pela força da Honda, se manteve perto dos compatriotas Márquez e Pedrosa. Largando na pole, Viñales vez uma corrida apagada, onde não lutou pela vitória, mesmo sendo o mais rápido na classificação.

Agora a MotoGP parte para a decisiva trinca de corridas no extremo oriente com Márquez tendo tudo para chegar à última etapa em Valencia com, ou o título nas mãos ou bem encaminhado. Doviziozo não teve força para diminuir o prejuízo e Viñales, após um começo de ano avassalador, terá que amadurecer mais para poder enfrentar Márquez num futuro próximo. Porém, Valentino Rossi merece sempre nossa reverência. Com 38 anos de idade, Rossi não tem mais nada a provar e pode-se dizer que ele tem mais a perder do que a ganhar em continuar competindo. Uma perna quebrada e vários pontos atrás no campeonato poderiam fazer o piloto da Yamaha simplesmente esperar para a melhor oportunidade para retornar às pistas. Porém, Valentino Rossi é feito de uma material diferente. Ele espantou os médicos e todo o mundo da MotoGP com uma volta impressionante. Rossi não venceu e nem subiu ao pódio, mas mostrou que está bem acima de todos no grid no quesito garra e amor às corridas.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Figura(CIN): Lewis Hamilton

Após suas vitórias em Spa e Monza, Hamilton partiu para Cingapura sabendo que teria uma corrida difícil pela frente. Se a Mercedes dominou nas lendárias pistas europeias e Hamilton se aproveitou muito bem por isso, a característica do carro alemão não casaria muito bem na apertada e sinuosa pista cingapuriana de Marina Bay. Hamilton tentou de tudo nos treinos, mas o máximo que conseguiu foi uma quinta colocação no grid. O inglês e toda a cúpula da Mercedes pensavam numa corrida de limitação de danos. Então, o inesperado que faz do esporte tão fascinante apareceu e as duas Ferraris, mais Verstappen, se eliminaram num acidente polêmico na largada, mas que Max não teve culpa nenhuma. Nesse momento, Hamilton já dava mostras do que poderia fazer ao pular de quinto para segundo na primeira curva, mas logo tomou a liderança quando Vettel abandonou com o carro destruído demais pelas pancadas recebidas. Porém, Hamilton não teria uma vida tão fácil na corrida. Daniel Ricciardo andou forte o final de semana inteiro e a Red Bull mostrou um ritmo muito forte em todo o final de semana na Cingapura, mas Hamilton mostrou que é um piloto diferenciado e dominou o talentoso australiano em todas as condições de pista, sejam elas secas ou molhadas. Nem as várias relargadas atrapalharam Hamilton rumo à uma vitória para lá de inesperada e com a vantagem conseguida nesse momento do campeonato, Lewis deu um importante passo no que pode ser seu quarto título mundial.

Figurão(CIN): Ferrari

A Ferrari chegou à cidade-estado de Cingapura como favorita destacada à vitória e a volta à liderança do Mundial de Piloto por parte de Sebastian Vettel era dada como favas contadas. Apesar da ameaça da Red Bull pelo desempenho dos austríacos durante os treinos livres, Vettel conseguiu a pole numa volta no limite, superando com até alguma vantagem a dupla da Red Bull. A agressividade de Max Verstappen era temida pela Ferrari na largada e tudo piorou com a chuva que caiu pouco antes dao apagar das luzes vermelhas. Talvez essa carga de tensão pode ter explicado o que aconteceu nos primeiros metros do Grande Prêmio de Cingapura. Com Hamilton apenas em quinto e numa pista amplamente favorável à Ferrari em comparação à Mercedes, Vettel sabia que manter a ponta era essencial, mas o alemão não largou bem, ao contrário do seu companheiro de equipe. Saindo da quarta posição, Raikkonen tracionou de forma estupenda, imediatamente ficando à esquerda de Verstappen, que largou de forma razoável e estava ao lado de Vettel, que ao ver sua primeira posição ameaçada, empurrou o holandês para a esquerda. Só que Raikkonen estava ao lado de Verstappen. O resultado foi um strike vermelho na primeira curva de Marina Bay e o que parecia ser uma corrida de soma importante de pontos para os dois Mundiais, terminou num dolorido zero ponto e a desvantagem de Vettel subindo para importantes vinte e oito pontos. Mais do que uma vitória. A Ferrari viu sua chance mais clara de vitória terminando pela afobação dos seus pilotos e com pistas, ora à favor da Mercedes, ora num nítido equilíbrio, terá que dar à Vettel um carro capaz de tirar uma diferença nunca vista entre os dois multi-campeões.

domingo, 17 de setembro de 2017

Nas mãos certas

A rateada em Watkins Glen assustou, ainda mais com Scott Dixon entrando definitivamente na parada. Asa negra da Penske, o neozelandês da Ganassi está mais do que acostumado em situações de decisão de título e em 2015 conseguiu uma virada histórica e improvável em cima de Juan Pablo Montoya. Porém, Josef Newgarden é feito de uma material diferente. Quando saiu do carro para comemorar com a equipe o título de 2017, o jovem americano de 26 anos nem parecia que acabara de conquistar seu primeiro campeonato na Indy. Gelado, Josef gritou o velho 'come on!' e vibrou com seus mecânicos e engenheiros, além de Tim Cindric e Roger Penske. Não havia choro ou movimentos exóticos. Newgarden saiu do seu Dallara-Chevrolet como se aquilo fosse mais uma corrida, não um sonho se tornando realidade, como o próprio definiu em entrevista à NBC. Josef é do tipo de pilotos que vencer uma corrida e um campeonato é tão natural quanto beber uma taça de vinho da região de Sonoma.

Josef Newgarden chegou à Penske após bons anos em equipes pequenas, onde conquistou três vitórias ao superar as gigantes da Indy, Penske, Ganassi e Andretti. O capitão Roger Penske farejou não apenas talento. Jovem,  americano, com trejeitos de modelo e bem articulado, Newgarden poderia ser o futuro da Indy e Roger não titubeou em dispensar o veterano Montoya e colocar Newgarden no quarto carro de sua equipe na Indy. Newgarden teria três pesos-pesados da história recente da Indy como companheiros de equipe. Simon Pagenaud era o atual campeão. Will Power é talvez o piloto mais rápido da Indy em circuitos mistos. Helio Castroneves tinha toda a experiência de 20 anos na Indy, mesmo em franca decadência há anos. Além do mais, havia o inimigo externo chamado Scott Dixon, numa Ganassi ainda se adaptando aos kits Honda. Porém, a velocidade de Newgarden não demorou a aparecer, mesmo que alguns incidentes fizessem que o americano não embalasse na primeira parte do campeonato.

Como um veterano, Newgarden conseguiu uma boa sequência na metade final do campeonato, conquistando quatro vitórias, passando por cima dos seus mais experimentados companheiros de equipe, além do astuto Scott Dixon. O erro em Watkins Glen fez Newgarden chegar à última etapa do campeonato pressionado, pois a sua vantagem no campeonato era pequena e o piloto mais próximo era justamente Dixon, com quatro títulos nas costas e extremamente forte em situação de final de campeonato. Pondo a cabeça no lugar, Newgarden aproveitou mais um final de semana próximo da perfeição da Penske e foi o pole e liderou as primeiras voltas em Sonoma, mas o americano não contou com a tática arriscada de Simon Pagenaud, que saiu da janela normal de pit-stops e com um ritmo alucinante, fez uma parada a mais do que os outros, mas era sempre mais rápido do que os demais rivais pela vitória. O francês venceu com categoria a última etapa do ano, garantindo o vice-campeonato.

A maior ameaça da Penske era Scott Dixon e a equipe fez de tudo para evitar os ataques do piloto da Ganassi. Em certo momento, a Penske deixou o piloto mais lento da equipe, Helio Castroneves, segurando o neozelandês, até Dixon 'ultrapassar' o brasileiro nos boxes e partir para cima do trio da Penske que liderava a prova. Com os recentes atritos entre Pagenaud e Newgarden, temia-se um toque entre eles e o campeonato da Penske indo para o ralo, mas Cindric controlava os impulsos de Newgarden pelo rádio e o americano se conformou com o mais do que necessário segundo lugar.

Dixon tentou uma tática quase suicida no fim, andando muito forte, num ritmo que não seria possível de se chegar ao fim sem uma última parada. Marcada por bandeiras amarelas marotas, a corrida em Sonoma foi limpa e Dixon teve que se conformar com a quarta posição, sendo o único piloto capaz de incomodar o poderio da Penske. Talvez o piloto mais completo da Indy, Scott Dixon terá que esperar por uma evolução da Ganassi com os novos carros em 2018 para poder enfrentar de igual para igual a Penske. Tony Kanaan teve uma corrida horrível, onde largando no final do pelotão, se envolveu num incidente nas primeiras voltas e passou a prova inteira uma volta atrás. Prestes a completar 43 anos, Kanaan fez uma temporada muito ruim e sairá da Ganassi pelas portas dos fundos, conseguindo abrigo na equipe de A.J. Foyt, time hoje de segundo escalão da Indy. Pelo o que fez nos últimos dois anos, era o máximo que Kanaan poderia almejar na próxima temporada.

Power voltou a ter uma temporada irregular, onde ora ganhava, ora batia, num ritmo bem parecido com o que acontecia antes de conquistar o seu campeonato, mas a velocidade do australiano em circuitos mistos permanece intacta. Pagenaud defendeu o seu título de forma discreta, ganhando apenas duas vezes, mas marcando pontos de forma consistente a ponto de conseguir o vice-campeonato. Helio Castroneves é claramente o ponto fraco da Penske e mesmo não fazendo o papelão de Kanaan em 2017, o brasileiro fazia corridas inconsistentes, principalmente nos mistos, onde muitas vezes liderou corridas, mas perdia rendimento ao longo das provas. Em Sonoma, Helio mostrou porque nunca foi campeão, numa corrida pobre na decisão do campeonato onde estava envolvido, mostrando a falta de estofo de Helio para ser campeão. Não é surpresa, diga-se, que ele nunca foi campeão de monopostos. A Andretti teve como destaque a vitória de Sato nas 500 Milhas de Indianápolis e a participação histórica de Fernando Alonso em Indiana, mas de resto, o time sofreu com o motor Honda, mas ao menos revelou Alexander Rossi como um futuro rival de Newgarden no futuro da Indy.

A corrida de hoje pode ter sido bem representativa para o automobilismo brasileiro na Indy. Kanaan irá para uma equipe de média para pequena em 2018, enquanto Helio ao que tudo indica irá para o programa IMSA da Penske, abandonando as chances de ser campeão, mas voltando para as 500 Milhas de Indianápolis. Ambos com mais de 40 anos de idade e em decadência em suas carreiras, Helio e Tony não veem ninguém a curto prazo a sucede-los na Indy.

Já a Indy não tem muito com o que se preocupar com seu futuro. De forma velada, a categoria torcia para um título de Newgarden. Ao contrário de Ryan Hunter-Reay, o último americano campeão, e de Scott Dixon, o melhor piloto, Josef Newgarden é carismático, jovem, corre pela tradicional equipe de Roger Penske e é americano. Além de muito talentoso. O título de 2017 está nas mãos certas.

Sorte no caos

A corrida em Cingapura nessa manhã foi como uma decisão no futebol. Sim, foi a primeira coisa que me veio a mente. Numa partida de futebol não há emoções durante todos os 90 minutos, mas alguns lances que resultam em consequências que podem durar dias, semanas e até mesmo anos. Foi impedimento? Foi gol? A bola saiu? A prova deste domingo ficará para sempre marcada pela largada e as consequências das decisões tomadas naqueles míseros dois ou três segundos antes da primeira curva por Sebastian Vettel, Max Verstappen e Kimi Raikkonen. O triplo acidente na largada entregou a vitória de bandeja para Lewis Hamilton, que antes da corrida sonhava com um pódio para diminuir o prejuízo de uma vitória de Vettel e acabou a prova com quase trinta pontos de vantagem, desequilibrando um pouco disputa que tinha com o alemão da Ferrari.

O domingo já começou especial com a chuva que caía no traçado cingapuriano. Pela primeira vez na história da F1, uma corrida noturna seria realizada com pista molhada, o que já era um desafio todo especial para os vinte pilotos que largaram parados, sem frescuras de safety-car. Nas duas primeiras filas dominadas por Red Bull e Ferrari, claramente quem saiu melhor foi Raikkonen, que se espremeu no muro para ficar por dentro na primeira curva. O segundo colocado Verstappen largou de forma razoável e se manteve em linha reta. Pressionado para vencer na melhor pista para a Ferrari nesse começo de reta final de campeonato, Vettel largou mal e não teve pudor em jogar sua Ferrari para a esquerda, para cima de Verstappen. O holandês ficou numa sinuca de bico. À direita, Vettel jogava seu carro para manter a vantagem da pole. À esquerda, Raikkonen vinha como um foguete e guinando sua Ferrari para a direita. O choque foi inevitável!

As rodas de Raikkonen se emaranharam com as de Verstappen, jogando Kimi contra a lateral de Vettel. De frente, parecia que Sebastian sobreviveria. Com o carro semi-destruído, Raikkonen se arrastou até acertar novamente Verstappen, pegando o azarado Alonso de rebarba. Kimi e Max abandonaram ali mesmo. Alguns metros depois, Vettel rodaria e arrancaria todo o bico de sua Ferrari. No que parecia ser uma barbeiragem do alemão em pista molhada, outras imagens mostraram a lateral destruída da Ferrari e um fluído verde caindo nas rodas traseiras do alemão, fazendo-o rodar e abandonar a prova alguns metros depois. E foi na pior hora possível. Ótimo piloto em piso molhado, Hamilton aproveitou o caos à sua frente para assumir a primeira posição e dominar uma corrida que parecia no início uma prova de limitação de danos. Ricciardo mostrou um ritmo superior nos treinos livres, mas na corrida o talento de Hamilton reverberou e o inglês não foi incomodado pelo piloto da Red Bull, mesmo com todas as relargadas devido às entradas de safety-cars. Foi um triunfo retumbante e novamente comparando com o futebol, Hamilton conseguiu uma goleada na casa do adversário. A Mercedes ainda viu Bottas, num final de semana extremamente apagado, conseguir o pódio com todos os abandonos resultantes e o time tedesco se firma cada vez mais como líder do Mundial de Construtores. No Mundial de Pilotos, os 28 pontos que Hamilton tem de vantagem dá uma ligeira tranquilidade para o inglês, pois daqui para frente, Vettel precisará de um campeonato próximo do perfeito para retomar a liderança do campeonato sem contar com problemas de Hamilton.

A repercussão da corrida praticamente terminou após a largada. Quem era o culpado? Era essa a pergunta feita por todos. De contrato recém-renovado, Raikkonen não pode ser acusado de ter largado melhor do que os pilotos à sua frente e tentar uma melhor posição na primeira curva. Tratado como uma ameaça na primeira curva pela impetuosidade, Max Verstappen mal se moveu enquanto era espremido pelas duas Ferraris. Restou Vettel. O alemão largou mal e na tentativa de se manter de qualquer jeito na ponta, acabou forçando para cima de Verstappen, mas Vettel não contou com a boa largada de Raikkonen, provocando o caos absoluto em que se meteu ele e a Ferrari. A situação de Vettel ainda não é crítica na briga com Hamilton, mas tirou um pouco a luta pelo título das mãos de Seb. Pela configuração atual do campeonato, apenas um problema de Hamilton colocaria a briga pelo título novamente no mesmo equilíbrio visto antes.

Atrás dos três pilotos com carros vencedores que sobraram, não faltaram brigas e acidentes. Carlos Sainz foi o grande destaque, conquistando seu melhor resultado na carreira bem no momento em que fora anunciado como piloto da Renault. Hulkenberg teve chances de quebrar o tabu de nunca ter ido ao pódio, mas acabou sucumbindo com problemas mecânicos quando estava em quarto. Palmer marcou seus primeiros pontos em 2017, mas o inglês foi tão azarado, que conseguiu isso bem no dia em seu substituto (Sainz) conseguiu o melhor resultado da carreira. Porém, mais azarado do que Palmer, só mesmo Alonso. O espanhol conseguiu uma largada espetacular e pulara para terceiro, quando pegou as sobras do incidente da largada e o fez abandonar mais tarde com a lateral do carro destruída, mas pelo menos a McLaren pontuou com Vandoorne, numa boa prova do belga. Pérez saiu do pelotão intermediário para chegar colado em Sainz, enquanto Ocon, bem menos experiente, não andou no mesmo ritmo do mexicano, como vinha acontecendo, mas garantiu um pontinho. Apesar de todas as deficiências, Stroll vem se mostrando um bom piloto na chuva e nessa condição suplantou com até facilidade Massa, reconhecido como um piloto que sofre na chuva. O brasileiro terminou em penúltimo, numa corrida onde apenas doze carros terminaram.

O acidente na largada em Cingapura poderá ser o grande marco da temporada 2017 da F1. Vettel transformou seu favoritismo em afobação e com isso destruiu não apenas sua corrida, como a de outros dois postulantes à vitória no sudeste asiático. Ano passado, alguns quilômetros ao norte, Hamilton perdeu o título quando o seu motor explodiu na Malásia. Quase um ano depois, na mesma região do globo, o inglês teve a sorte no caos e pode ter garantido o tetracampeonato hoje.    

sábado, 16 de setembro de 2017

Gangorra

Nas duas últimas corridas dessa temporada, Lewis Hamilton usou o favoritismo da Mercedes para conseguir duas vitórias enfáticas em dois finais de semanas dominadores, onde o inglês conseguiu duas poles que o colocaram como líder histórico desse quesito da F1. Porém, o grau de tecnologia e ciência da F1 está tão alto, que todos apostavam que o motivo do domínio da Mercedes em Spa e Monza colocaria o time alemão em maus lençóis em Cingapura, um circuito totalmente diferente das tradicionais pistas europeias. Se Hamilton é um dos grandes da história numa volta rápida, nem isso foi capaz de fazer o inglês sequer ficar entre os três primeiros que são entrevistados após o treino. Como também era esperado, a Ferrari voltou a pontear o treino com Vettel, como havia feito em Monte Carlo e na Hungria, pistas com características parecidas com a de Cingapura, porém, a Red Bull ficou muito próxima dos italianos.

Com todos os anúncios de ontem, ninguém prestou muito atenção na ótima forma da Red Bull. Numa pista onde a potência não faz diferença, a eficiência do chassi projetado por Adryan Newey fez com que a Red Bull dominasse na sexta, com a Ferrari sendo bastante discreta. Se estava escondendo o leite ou simplesmente ainda não havia encontrado o acerto ideal, o certo foi que a Ferrari melhorou seu desempenho no sábado e Vettel arrancou para uma pole numa volta banzai, com direito a toque no muro e tudo. A Red Bull mostrou força, mas Verstappen e Ricciardo não melhoraram seus tempos nas suas tentativas finais, mas ficaram em segundo e terceiro, com potencial para atacar Vettel, que não terá a proteção de Raikkonen, num obscuro quarto lugar. A Mercedes ficou abaixo das já baixas expectativas. Hamilton tomou mais de meio segundo e Bottas foi ainda pior, mais de 1s atrás de Vettel, com um tempo mais próximo do sétimo colocado, Hulkenberg. Também dentro das expectativas, a McLaren andou muito bem na travada pista asiática e colocou seus dois pilotos no Q3 com sobras. Mais um tapa na cara da Honda. Numa pista onde o motor é pouco exigido, o bom chassi da McLaren fez todo o serviço... A Williams está num final de semana ruim e Massa ainda bateu no muro, perdendo tempo no Q1 e saindo lá de trás numa pista ruim de ultrapassar, o brasileiro terá que ter muita paciência ou esperar por algo anormal para conseguir pelo menos um ou dois pontinhos.

Porém, a anormalidade é regra em Cingapura. A corrida noturna, que entrou no gosto da F1, já vai para a sua décima edição e sempre teve um safety-car para embaralhar um pouco as coisas. Numa pista travada, a largada e a primeira volta serão fundamentais para o posicionamento da corrida, até mesmo na bandeirada. Se Vettel largar bem e Hamilton não (ou o contrário), podemos ter líder novo amanhã à tarde.  

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Divórcio anunciado

Poucas notícias foram menos surpreendentes do que a anunciada hoje pela manhã. Depois de três anos de uma expectativa boa que se transformou em pura desilusão, o casamento McLaren/Honda terminará no final dessa temporada. Quando McLaren e Honda juntaram forças no início de 2015, a primeira coisa que todo fã de F1 lembrou foi da vitoriosa parceria acontecido no final dos anos 1980, com resultados espetaculares nas mãos de Alain Prost e Ayrton Senna. Contudo, haviam dois 'poréns'.

O primeiro era que afora o sucesso da Honda conseguido com a McLaren, a gigante nipônica colecionou fracassos na F1 em suas outras duas passagens pela categoria. Os japoneses tiveram o dissabor de ver a equipe que abandonaram no final de 2008 vencer o campeonato seguinte com o nome de Brawn GP. O segundo era a complexidade do novo motor da F1 híbrida, onde as demais montadoras (Mercedes, Ferrari e Renault) já vinham desenvolvendo há alguns anos e a Honda começou com seu novo motor com, no mínimo, dois anos de atraso. Para quem conhece a forma de trabalhar da Honda, sabe que os japoneses gostam de trabalhar do seu jeito e isso vem desde que Soichiro Honda entrou no Mundial de Motovelocidade com motores de quatro tempos, quando todo mundo usava (e ganhava) com motores de dois tempos. Sem conhecimento prévio e querendo fazer do seu jeito, a Honda começava a sua esperada parceria com a McLaren mostrando o que estava por vir. Pouca potência e pouca confiabilidade. Uma mistura fatal na F1.

A volta de Fernando Alonso à McLaren, patrocinada pela Honda, significava a ambição da montadora, mas também a certeza que não faltaria piloto para fazer a revivida parceria andar. Pois foi Alonso e sua forma difícil de trabalhar que começou a minar a parceria. Reclamações em público e rádios vazados que entraram para o folclore da F1 mostravam um Alonso indignado por estar sem condições de lutar pela vitória por causa do motor Honda, apelidado certa vez de 'GP2 Engine(Motor de GP2)'. O segundo ano da parceria mostrou uma evolução e a McLaren pontuou com alguma regularidade em 2016, mesmo que longe dos pódios prometidos pela Honda, porém, com a evolução do motor japonês, havia a esperança de que finalmente Alonso e a McLaren voltassem à brigar por vitórias no terceiro ano. Pois em 2017 aconteceu exatamente o contrário. Os engenheiros da Honda contrariaram suas convicções e projetaram um motor inspirado na Mercedes, o melhor da F1. Sem experiência nessa nova concepção de motor, a Honda voltou praticamente para o início de 2015, onde a combinação pouca potência e pouca confiabilidade voltou com força total. Foi o fim da paciência de McLaren e Alonso. Numa manobra ousada e surpreendente, Alonso correu as 500 Milhas de Indianápolis, na tentativa de fazer seduzir o espanhol, mas cansado da difícil vida de retardatário que nem sempre chegava ao fim das corridas, Alonso deu o ultimato: ou eu ou eles (Honda). Sem vencer desde 2012, a McLaren fez sua escolha.

E essa escolha trouxe uma série de desdobramentos. Primeiro foi que a McLaren perdeu o enorme aporte financeiro que a Honda trouxe para o time e com os parcos resultados nos últimos tempos, houve uma fuga de patrocínios e a McLaren terá que se virar sozinha para se manter, além de arcar com o poupudo salário de Alonso. Outro fato é que a McLaren perdeu o status de equipe de fábrica, algo que poderá pesar a médio prazo. Um dos motivos da McLaren se divorciar da Mercedes foi que o time nunca seria campeão como equipe cliente, algo que faz sentido. Não pegaria bem para a Mercedes ter uma equipe que era derrotada por um carro que usa o seu motor. Porém, o mesmo vale para a Renault, que tem uma equipe oficial na F1 e cederá seus motores para a McLaren a partir do próximo ano. Podemos estar vendo o apequenamento da histórica McLaren, algo que já aconteceu com a Williams.

Foi sabendo desse detalhe que a Red Bull começou uma paquera com a Honda, cedendo sua segundo equipe como guarita para os japoneses tentarem melhorar os seus motores e, quem sabe, ceder seus motores para a Red Bull num futuro próximo, a tornando equipe de fábrica novamente, algo que o time austríaco não é. Não podemos duvidar que a equipe Renault oficial poderá crescer e não seria interessante para os franceses perder para um carro que use o seu motor, raciocínio que McLaren utilizou em 2014. No meio de tudo isso, a Red Bull cedeu seu piloto Carlos Sainz para a Renault, cansada da mediocridade de Jolyon Palmer. No fundo, a Red Bull que estar associada de qualquer maneira à Honda e para isso, cedeu seu valorizado piloto nessa intrincada negociação envolvendo McLaren, Honda, Renault e Red Bull. Com a Toro Rosso, a Honda terá menos pressão para desenvolver seus motores, afinal, a Toro Rosso sempre foi uma equipe de meio do pelotão. Se os japoneses crescerem, a Red Bull se envolverá com os japoneses, deixando a longa parceria com a Renault. Se Sainz se destacar na Renault, o time poderá pegar o espanhol de volta ou ganhar muito dinheiro vendendo o contrato para a Renault. E a McLaren? Tem três opções. A mais curto prazo, é se tornar uma Williams da vida, uma equipe que vive de sua tradição e história. A segunda seria construir um motor, algo já aventado pelo time em outras oportunidades. A terceira seria a McLaren ficar de olho no interesse da Porsche em voltar a F1 e nesse caso, outra parceria histórica seria feita, quando a McLaren foi tricampeã com o motor TAG Porsche no meio dos anos 1980, sendo que ao contrários dos japoneses, a Porsche tem uma ótima experiência com motores híbridos no WEC.

Finalmente, Alonso. Com 36 anos de idade o espanhol já está em sua reta final na carreira e corre contra o tempo para voltar a vencer na F1. Contudo, suas escolhas definitivamente o atrapalharam conseguir melhores resultados e já corre à boca pequena que do jeito que vai a sorte de Alonso, não seria de se admirar que a Honda evolua exponencialmente a partir de 2018...