domingo, 30 de abril de 2023

Torcida frustrada

 


Desde que chegou à Indy vindo de uma passagem conturbada e marcante na F1, existe uma torcida toda especial para Romain Grosjean, ainda mais após o acidente que o francês sofreu que terminou sua carreira na F1 e a forma como Romain está feliz na América junto à sua família, mostrada várias vezes nas redes sociais. Após um ano um pouco abaixo das expectativas em 2022 na equipe Andretti, Grosjean tomou as rédeas da equipe nesse ano, superando até mesmo o queridinho Colton Herta. Grosjean bateu na trave em St Pete, sofreu um acidente no final da corrida do Texas e ficou com a pole em Barber nesse sábado, sendo o melhor carro da Andretti com sobras. Grosjean liderou praticamente toda a corrida, mas nas voltas finais o francês da Andretti cometeu um pequeno erro que foi capitalizado por Scott McLaughlin da Penske, que conseguiu a sua primeira vitória no ano.

No belo circuito do Alabama, Grosjean liderou as primeiras voltas vindo da pole e não demorou para que a estratégia entrasse em ação. Afinal, parar duas ou três vezes? Essa questão seria crucial para o andamento da corrida, enquanto Romain liderava à frente de Palou e O'Ward. Os carros da Penske não estavam lutando diretamente pela vitória e provavelmente por isso o Capitão trouxe seus três carros para os pits ao redor da volta quinze de noventa, indicando que parariam três vezes. Grosjean e os líderes ficaram mais tempo na pista, demonstrando que parariam duas vezes. Inicialmente a turma da Penske parecia estar certa. Liderados por Newgarden, o trio de Roger foi subindo o pelotão rapidamente, usando os pneus macios novos, ultrapassando quem via pela frente. Quando os líderes pararam, a turma da Penske estava bem na fita, mas na única bandeira amarela do dia, provocada por Sting Ray Robb pouco depois da metade da corrida, as estratégias se igualaram, pois a turma das três paradas tinham acabado de parar.

Nesse momento, houve um deja vú da primeira corrida em St Pete, pois Grosjean liderava à frente de Scott McLaughlin, que conseguia a sorte grande nessa bandeira amarela. Newgarden passou a sofrer com problemas em seu carro e cairia pelotão abaixo. Mesmo com O'Ward e Palou vindo muito forte, trazendo consigo o surpreendente Christian Lundgaard, que fez uma prova maravilhosa, a corrida passou a ser uma disputa direta entre Grosjean e Big Mac, algo já visto em St Pete e que não deu muito certo. Os dois abriram na relargada e quando fizeram suas paradas derradeiras, iniciaram uma briga de tirar o fôlego, com praticamente a mesma cena ocorrendo em St Pete. Grosjean parou uma volta antes de McLaughlin, que saiu dos pits na frente, mas com os pneus frios. De forma agressiva, Grosjean conseguiu a ultrapassagem e partia impávido rumo a sua esperada primeira vitória na F1. Será?

Com mais push-to-pass, McLaughlin se aproximou novamente de Grosjean e faltando poucas voltas para a bandeirada, Romain espalhou a farofa e permitiu o troco do piloto da Penske. Para complicar, Will Power havia superado O'Ward e Palou nos pits, se aproximando dos dois líderes rapidamente com os pneus macios. Além de não poder atacar Scott, Grosjean teria que lidar com Power, mas na medida em que se aproximou do carro da Andretti, Will foi perdendo o ímpeto e garantiu o seu primeiro pódio no ano. Scott McLaughlin venceu pela primeira vez no ano, enquanto torcer para Grosjean está se tornando algo cada vez mais complicado para quem acompanha a Indy. 

Melhor do que a preliminar


 Uma coisa boa que a Liberty fez foi ter uma ligação com as demais categorias importantes do esporte a motor. Nos tempos de Bernie, as corridas da F1 ocorriam na hora que desse na telha do dirigente e não faltaram momentos onde a F1 invadia o horário de outras corridas interessantes, fazendo os fãs perderem boas corridas. Com a Liberty isso meio que acabou e nesse final de semana, houve uma clara sincronização entre as corridas da F1 e da MotoGP. E o interessante foi que a F1 começou bem cedo, deixando a MotoGP como evento principal do dia. Foi bem assim que aconteceu, com a corrida da MotoGP bem melhor do que o sonífero de duas horas que foi o Grande Prêmio do Azerbaijão. Jerez viu uma corrida próxima na briga pela liderança e por muito pouco Bagnaia derrotou Brad Binder, reassumindo a liderança do campeonato, após algumas quedas bobas do atual campeão.

Felizmente os pilotos da MotoGP não acompanharam a prova azeri e não ficaram com muito sono, pois a corrida em Jerez começou animada, deixando claro como as KTM's tem um controle de largada muito superior à Aprilia do pole Aleix Espargaró. Porém, assim como aconteceu na Sprint de ontem, uma bandeira vermelha deu as caras ainda nas primeiras curvas. Tentando andar mais do que sua Yamaha, hoje uma das motos mais fracas do pelotão, Fabio Quartararo contornou os primeiros metros de forma agressiva e acabou caindo, levando consigo Miguel Oliveira, que voltava do acidente em casa com Marc Márquez. Oliveira bateu forte no muro inflável e saiu de maca, enquanto Quartararo teve que pagar uma punição por volta longa. E duas vezes, já que queimou a saída da primeira volta longa. Incrível como as motos nipônicas estão claramente atrás das europeias, iniciando uma nova era da MotoGP. Se não fossem as quedas durante a corrida, nem Honda ou Yamaha ficariam no top-10 da corrida de hoje.

Lá na frente a dupla da KTM largou novamente muito bem, com Binder se sobressaindo sobre Jack Miller, enquanto Bagnaia se colocava em terceiro. Espargaró caiu para quarto e ainda seria ultrapassado por Jorge Martin. Foi uma corrida próxima, onde os sete primeiros chegaram a estar separados por apenas 3s com mais da metade da corrida. E o sétimo colocado era o convidado Daniel Pedrosa, que testava a KTM, mostrando o grande erro estratégico da Honda em dispensar o veterano espanhol nos testes da moto. Enquanto a Honda via seus principais pilotos em Jerez caindo nas primeiras voltas (Mir e Rins), a KTM liderava a corrida em dobradinha, mas tinha Bagnaia como grande ameaça. Correndo pressionado após as quedas na Argentina e em Austin, parecia que Pecco era mais cauteloso do que o normal, pois tinha mais moto que Binder e Miller. Numa tentativa atrapalhada, Bagnaia chegou a encostar em Miller, antes de ser punido e tendo que devolver a posição. Pecco não baixou a guarda, foi para cima das duas KTM's e assumiu a ponta já no final da prova. Caso encerrado? Nada disso! Mesmo com pneus claramente desgastados, Binder colocou o coração na ponta dos dedos e numa demonstração de muito coragem, foi para cima de Bagnaia na última volta, que forçou tudo para se manter na ponta e voltar a vencer no campeonato.

Com a queda de Bezzecchi, Bagnaia reassumiu a liderança do campeonato, além de tirar um grande peso dos ombros após as decepcionantes corridas onde abandonou e jogou muitos pontos no lixo. Com Quartararo sofrendo com a Yamaha, Márquez sofrendo com seus fantasmas e os demais pilotos se revezando na frente, Bagnaia vai se mantendo sempre na briga pela ponta e se consolidando como favorito ao bicampeonato.

Street Fighter


 Correr em circuitos de rua, com seus muros próximos, significa estar mais perto do erro e por isso, o piloto precisa ser bastante preciso em sua tocada. Com cinco vitórias em circuitos de rua (sem contar a Sprint de ontem), Pérez já pode ser considerado um especialista em pistas citadinas, mas não foi esse o principal motivo da vitória de Checo hoje. Um Safety-Car na hora errada transformou no que seria em mais uma vitória de Max Verstappen num amargo segundo lugar, com o irascível neerlandês tendo que ser conformado via rádio por Christian Horner, enquanto Checo vencia novamente e completava a dobradinha da Red Bull em Baku, que também teve como característica a dobradinha de corridas soporíferas.


Baku é uma pista de rua com personalidade, com uma sessão de altíssima velocidade bastante longa, uma parte bem capciosa no meio do circuito, onde os pilotos normalmente encostam no muro ou passam muito perto, além da parte estreita do castelo. Ótimas corridas já aconteceram na pista azeri, mas a edição de 2023 esteve longe de entrarem para o rol de provas assim. Mesmo com o SC entrando na pista e praticamente definindo o vencedor, a corrida foi um longo bocejo, mas Sergio Pérez e a Red Bull não tem do que reclamar. Mesmo com Charles Leclerc ficando com a pole e mantendo a ponta na largada, até os postes de Baku sabiam que o monegasco não duraria muito à frente da turma da Red Bull. Bastou que o DRS estivesse ativo, para que a Ferrari de Charles fosse engolida pelo duo da Red Bull sem maiores cerimônias. Nem Max ou Checo forçaram a barra, nem Leclerc dificultou a manobra. Era algo tão natural que Leclerc preferiu nem perder muito tempo segurando a turma austríaca. Rapidamente na ponta, Max e Sergio dispararam na ponta, com o mexicano já acossando Max quando Nyck de Vries, amigão de Verstappen, cometeu um erro básico ao quebrar a suspensão batendo na entrada de uma curva. Mesmo com toda a moral dentro da Red Bull, será difícil para Verstappen defender De Vries. Minutos antes, Verstappen reclamava da falta de aderência do carro e isso seria o motivo de Pérez estar tão próximo. 'Box, box, box', respondeu de imediato a Red Bull. O problema foi que o timing não foi dos melhores. Com De Vries estacionado com a traseira do lado de fora da pista, era claro como um dia de sol no Ceará que o SC real entraria na pista. E quem estava nela, teria uma vantagem. Verstappen parou, o SC veio e Pérez fez sua parada de forma tão tranquila, que não apenas permanecia na liderança, como Max ainda teria que ultrapassar Leclerc novamente.


Verstappen não perdeu muito tempo atrás de Leclerc e logo encostou no seu companheiro de equipe. E assim as demais voltas em Baku viram uma batalha próxima e de alto nível entre Pérez e Verstappen, com os dois andando no limite, com direito e ligeiros toques no muro, mas muito, muito longe de emocionar o público que assistia a corrida in loco ou pela TV. A corrida foi de um bode assustador. Após a única relargada do dia, onde houveram algumas trocas de posições, como a bela ultrapassagem de Alonso em cima de Sainz, a corrida entrou num longo marasmo, onde praticamente nada aconteceu até a bandeirada. Com os pneus duros servindo muitíssimo bem para completar a corrida praticamente inteira, ninguém arriscou uma segunda parada e simplesmente administraram a borracha para chegar bem o bastante para terminar bem a prova. Houveram algumas trocas de melhor volta por parte de dos líderes nas voltas derradeiras, mas lá atrás George Russell se viu incapaz de ultrapassar Lance Stroll e muito na frente do nono colocado. O inglês colocou pneus macios novos e acabou com a brincadeira, mantendo a posição e ainda ganhando um pontinho extra. Pérez venceu, mas no rádio pós-corrida ficava claro de quem é a preferência dentro da Red Bull. Verstappen era consolado por Horner, que com uma voz paternal, dizendo que foi mesmo falta de sorte de Max. Uma situação que deixa clara a situação de Pérez dentro da equipe, mesmo ele estando próximo de Verstappen nos pontos na briga pelo título.


Leclerc não fez maiores esforços para se manter em terceiro, numa corrida solitária e onde teve como maior emoção ser ultrapassado três vezes por um carro da Red Bull. Porém, foi o primeiro pódio da Ferrari no ano e Leclerc vai se consolidando como um dos especialistas em Baku. Já Carlos Sainz viveu uma corrida ainda mais burocrática, onde levou uma ultrapassagem daquelas de Alonso e ainda se viu motivado a atacar o conterrâneo pelo seu engenheiro via rádio. Não sei o que Carlos entendeu, mas o fato foi que ele terminou longínquos 22s atrás de Alonso e tendo que se defender de Hamilton. Sainz vai se consolidando como um segundo piloto da Ferrari. Embalado pelas músicas de Taylor Swift, Alonso fez uma corrida decente, depois dos problemas que a Aston Martin enfrentou no final de semana, chegando a esboçar um ataque à Leclerc nas voltas finais, mas Fernando teve que se conformar com o quarto lugar, terminando fora do pódio pela primeira vez em 2023. Stroll chegou a receber dicas alonsianas durante a corrida. 'O acerto de freio está bom assim', falou Fernando para Lancinho... que saiu da pista e foi ultrapassado por Hamilton. Quase 30s atrás de Alonso, Stroll vai mostrando a diferença que o separa de Alonso. Após todo o auê de ontem, a Mercedes teve um desempenho bastante discreto, com Hamilton iniciando a corrida de forma bem sem graça, seguindo Verstappen no SC e com isso perdendo tempo, mas Lewis despertou após a relargada e efetuou quatro ultrapassagens, incluindo uma bem apertada em cima de Russell, mas mesmo com mais carro, Hamilton ficou empacado atrás de Sainz a corrida quase inteira, o mesmo acontecendo com Russell em relação à Stroll.


No pelotão intermediário, Esteban Ocon e Nico Hulkenberg largaram dos pits com pneus duros, esperando e rezando que um segundo SC entrasse na pista e os salvasse. O primeiro já tinha elevado-os à zona de pontuação e ambos ficaram a corrida inteira com os pneus duros, mas como nada aconteceu, Ocon e Hulk pararam já nas voltas finais e saíram da zona de pontuação, entregando a nona e décima posições para Norris e Tsunoda. Porém, destaque negativo para a parada de Ocon. O francês esperou a última volta para entrar no pit-lane e deu de cara com a FIA se preparando para o pódio, fechando a passagem e com vários fotógrafos no local. Numa cena perigosa, Ocon passou perto de várias pessoas, que chegaram a pular para não serem atingidas. Outro destaque negativo vai para Bottas, que desde que entrou nessa onda naturista, viu sua carreira ir por água abaixo. Último lugar para o nórdico, que andou o tempo todo atrás de Zhou, até o abandono do chinês.


E assim foi o Grande Prêmio do Azerbaijão de 2023. Sem muitas linhas a serem escritas, pois pouca coisa aconteceu na pista. Pérez ganhou e se aproximou de Verstappen no campeonato, mas se quiser ser campeão, o mexicano teria que fazer um campeonato onde teria que derrotar não apenas Max, uma missão por si só bastante complicada, mas também sua própria equipe, já que a Red Bull praticamente vive em torno de Max Verstappen. Será possível que Pérez emule o que Nelson Piquet fez em 1987 e Fernando Alonso quase fez em 2007? Checo desequilibraria Verstappen como Nico Rosberg fez em 2016? O tempo dirá, mas a próxima corrida será numa pista de rua. Chance para Checo dar um xeque em Verstappen, ou o neerlandês colocar ordem na casa. Em 2023, tudo se resume ao que acontece dentro da Red Bull.

sábado, 29 de abril de 2023

Mexer no que está quieto (2)

 


Com a Liberty desesperadamente tentando fazer com que o formato da Sprint engrene, as mudanças transformaram o sábado num evento inteiramente dedicado à mini-corrida inventada não se sabe bem o porquê e nem para quê. A minha visão disso tudo é que a Liberty está angustiada por mais receitas e para isso, precisa aumentar o número de corridas no calendário, mas as próprias equipes se negam a fazê-lo pela estafa do próprio staff. Então a Liberty coloca a Sprint como uma forma de barganha para os promotores das corridas para aumentar a quantia a ser paga por prova, algo que deverá funcionar com os países ditos emergentes dentro da F1, como o pessoal do Oriente Médio. Porém, como diria o poeta Garrincha, faltou combinar isso com os russos, pois até o momento a Sprint Race vai se mostrando um fracasso de público e crítica, pois tantos os pilotos não gostam, como também as equipes e, mais importante para a Liberty, também a audiência.

Como a Liberty investe nesse formato até mesmo como uma forma de aumentar a grana, ela vai mudando o conceito da ideia, mas parece que nada vai dando certo. Com os pilotos preocupados em marcar pontos no domingo e os chefes de equipe desesperados em não ter grandes danos que afetem o teto orçamentário, qual a motivação de querer agressividade na Sprint Race? Os próprios pilotos e equipes verbalizam isso. Ao bater na classificação da Sprint, Logan Sargeant ficou de fora da mini-corrida e a Williams foi muito clara que o melhor era se concentrar no domingo. Numa regra sem sentido, a FIA resolveu outorgar quais compostos de pneus as equipes usariam na classificação da Sprint. Cada time teria que reservar pneus médios novos para Q1 e Q2 e um jogo de pneus macios novos para o Q3. Norris não tinha mais pneus novos e a McLaren o fez de forma consciente, mesmo sabendo que isso prejudicaria a Sprint de Lando. Qual motivo? Muito simples. O foco é no domingo...

Claro que quando os dezenove carros vão para a largada e os pilotos fecham suas viseiras, algo pode acontecer que saía do script. Max Verstappen não largou de forma perfeita e foi atacado por George Russell. Houveram alguns toques TOTALMENTE NORMAIS de corrida entre os dois e no fim, o piloto da Mercedes se deu melhor na primeira volta. Na relargada do Safety-Car causado pelo acidente de Tsunoda ainda na primeira volta, Russell bobeou de forma até inocente e Max deu o troco de forma graciosa. Porém, Max não se conformou com os toques na primeira volta e foi tomar satisfação com Russell na frente de todos depois da corrida, amentando a sensação de que mesmo sendo uma baita piloto, talvez um dos mais talentosos da história, Max Verstappen está longe do carisma dos poucos gigantes que passaram nesses 73 anos da F1. Falando da corrida em si, Sergio Pérez usou seu fetiche por corridas de rua e facilmente ultrapassou Leclerc assim que o DRS esteve disponível. Enquanto teve pneus, Leclerc perseguiu Checo de perto, mas quando a Ferrari satisfez sua fome por borracha, Charles perdeu contato, mas com Verstappen ainda com lágrimas nos olhos pelo chorôrô no incidente com Russell e tendo um buraco na lateral do seu Red Bull, Leclerc controlou Max e garantiu a segunda posição e teve a certeza que a pole de amanhã dificilmente será capitalizada na bandeirada em condições normais.

Com equipes e pilotos boicotando a ideia a Sprint Race, o que vimos em Baku foi algo tão emocionante quando assistir uma pintura secar ao vento. Muitas vezes o arroz com feijão serve muito bem. Colocar novos ingredientes pode até ser interessante na teoria, mas basta uma colherada para perceber que o básico já é o suficiente para saciar a nossa fome. Por mais que a Liberty tente nos fazer engolir a Sprint Race, a ideia vai se tornando um fracasso, mesmo com todas as tentativas. O final de semana da F1 com treinos na sexta, classificação normal no sábado e corrida no domingo é o arroz com feijão que serviu nos últimos 73 anos e mesmo com invencionices, é o cardápio que o fã da F1 precisa. 

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Mexer no que está quieto

 


Os fãs mais puritanos não devem gostar muito do que irei escrever aqui, mas se teve algo que a F1 evoluiu foi na definição do seu grid. Antes a classificação tinha uma hora de duração e os pilotos tinham doze voltas à disposição para marcar seu tempo mais rápido. Tudo muito descomplicado, mas para quem assistia era nada empolgante, principalmente na primeira metade. Para quem acompanha a F1 desde antes de 2002 deve se lembrar do marasmo que havia na pista antes que um carro, normalmente uma Minardi, entrasse na pista. Alex Yoong sempre beliscava um P1. Então os pilotos entravam de uma vez para completar suas quatro tentativas e se as câmeras mostravam Schumacher, Barrichello e Montoya, os demais pilotos passavam praticamente incógnitos. Claro, se eles não atrapalhassem alguém brigando pelas primeiras posições. Por isso que prefiro a fase do Q1, Q2 e Q3, pois os pilotos tem mais de uma tentativa e podemos ver as várias brigas no pelotão.

Porém, a Liberty Media e a FIA não pensam assim. E quem sou eu para se achar o dono da verdade, mas as várias tentativas de 'trazer emoção' na definição do grid vão tornando esse item, que não precisa ser mudado, num verdadeiro circo. A chegada da Sprint Races foi mais uma tentativa disso e vem se tornando um retumbante fracasso por um motivo bem simples: ninguém quer arriscar a posição de pista numa corrida de 100 km que vale muita pouca coisa. E tirando as provas em São Paulo, as Sprints vão se tornando um sonífero de trinta minutos, com os pilotos preferindo manter suas posições após a largada. Percebendo isso, mas precisando de mais receitas, a Liberty insiste teimosamente com a Sprint. Para evitar a cautela dos pilotos, a Liberty e a FIA resolveram desmembrar Sprint Race da classificação, iniciando nessa sexta-feira um novo formato em mais uma tentativa de vingar a Sprint Race e quem sabe seguir a Dorna e colocar as corridas curtas em todo o calendário.

Com isso, a classificação em Baku ocorreu nessa sexta-feira pela manhã e deve ter trazido um senhor prejuízo para algumas equipes. Com apenas um treino livre (algo que a Liberty quer impor...), os pilotos não se ambientaram com o capcioso circuito urbano de Baku e o resultado foi um Q1 sem fim, com dois acidentes que atrasaram bastante a programação. Nyck de Vries sentiu um problema no freio, mas foi para a pista mesmo assim, apenas para destruir a frente do seu Alpha Tauri e colocar mais pressão do agora octogenário Helmut Marko no neerlandês. Quando a pista foi liberada, Pierre Gasly estampou seu carro no muro, no que foi uma grande pena para a Alpine. Gasly havia tido problemas em seu carro no único treino livre e seu bólido chegou a pegar fogo. A Alpine fez uma verdadeira operação de guerra para colocar Pierre na classificação. Tudo isso para Gasly bater e largar na última fila, de qualquer maneira. 

Falando no único treino livre, Leclerc ficou mais próximo do normal da Red Bull, mas com a superioridade atual dos austríacos, não faltou quem dissesse que isso seria fogo de palha. Porém, Charles tirou tudo da sua Ferrari e numa cena curiosa, empatou até mesmo nos milésimos com Verstappen durante o Q3. No desempate, Leclerc melhorou mais do que Max e ficou com a pole... de domingo. Não devemos esquecer esse detalhe! Um ligeiro arranhão no domínio da Red Bull, que já demonstrou outras vezes que em ritmo de corrida, é bastante superior à concorrência. Não importando quem seja. Além de ter o melhor carro do pelotão, a Red Bull vem se caracterizando por uma consistência muito grande, enquanto Ferrari, Mercedes e Aston Martin, suas mais próximas perseguidoras, patinam. Se Hamilton subiu no pódio corrida passada, o inglês quase ficou no Q2, deixando de fora justamente seu companheiro de equipe Russell por meros quatro milésimos. Se a Ferrari sofreu nas primeiras corridas, pelo menos Leclerc se sobressaiu hoje, enquanto Sainz faz até agora um final de semana esquecível. Em volto à cômicos comentários de que estaria namorando com a cantora Taylor Swift, Alonso sofreu com uma Aston Martin que tem problemas no DRS, que se recusou a funcionar. Num circuito de longas retas, isso é decisivo, com Alonso longe da briga pela pole.

Amanhã o dia será todo da Sprint Race. Haverá uma classificação separada e a mini-corrida logo em seguida. Já estão surgindo as primeiras críticas, mas amanhã nos debruçaremos sobre elas. No momento, Charles Leclerc comemora uma pequena pancada dada na Red Bull, mas que a tendência é que a virada venha fácil e rápida. Mas só depois de amanhã. 

domingo, 16 de abril de 2023

A primeira de Kyle

 


Kyle Kirkwood estreou ano passado na Indy com a bagagem de ter sido o piloto com mais vitórias no programa 'Road to Indy', somando todas as categorias de base da Indycar. Ligado à equipe Andretti, Kirkwood mostrou bastante velocidade andando na pequena e teimosa equipe Foyt, mas também mostrou inconsistência e muito propensão à acidentes. Mesmo com esse histórico nada animador, Kirkwood foi o escolhido pela Andretti para substituir Alexander Rossi em 2023. O ano não começou de forma auspiciosa para Kyle, com dois acidentes em St Pete e Texas, mas em Long Beach, Kyle Kirkwood mostrou sua velocidade na classificação, onde ficou com a pole e na corrida, o piloto da Andretti andou como veterano junto aos pilotos de ponta da Indy e conseguiu sua aguardada primeira vitória.

A tradicional corrida em Long Beach não foi tão animada, mas nem por isso foi menos emocionante, com as variantes táticas de acordo com os pneus utilizados pelos pilotos. Como a Indy não utiliza cobertores térmicos, os pneus duros demoravam demais a aquecer e seus usuários eram presas fáceis para a turma com pneus moles, contudo, com o passar das voltas, os pneus moles iam perdendo ritmo e viravam presas fáceis para os duros. Uma ciência que parece exata no automobilismo, mas corridas em circuitos de rua como em Long Beach muitas vezes não mostra a lógica e os pilotos e equipes quebraram cabeça nas 85 voltas, em qual pneu usar, principalmente nas primeiras voltas, com a pista nem tão emborrachada. Helio Castroneves, cada vez mais um ex-piloto em atividade (sem contar Indianápolis), errou sozinho ainda na primeira volta, praticamente acabando com a ideia da tática de três paradas. Kirkwood havia ficado com a pole e segurava um animado pelotão de tinha Grosjean, Ericsson O'Ward e Newgarden. O piloto da Penske era o único no pelotão com pneus duros e soube como ninguém segurar o rojão no momento mais crítico dos seus pneus, sabendo aproveitar quando os macios fraquejaram um pouco antes da primeira rodada de paradas, provocada por uma bandeira amarela.

Correndo na frente do patrão, Pato O'Ward esteve longe de encher os olhos de Zak Brown. O mexicano tentou uma ultrapassagem bastante otimista em cima de Scott Dixon, que acabou causando o abandono do piloto da Ganassi mais tarde e na relargada, no mesmo local, se envolveu num incidente com Kirkwood, acabou caindo para as últimas posições e tomou uma volta, totalmente sem ritmo, após ser apontado como um dos favoritos à vitória. Além de perder a liderança do campeonato. Newgarden liderou o segundo stint, mas usando os pneus macios, o americano foi também o primeiro a parar na segunda rodada de paradas. Grosjean, Kirkwood e Ericsson pararam em voltas consecutivas e todos teriam consequências pelas escolhas. Com a pista mais emborrachada, todos escolheram os pneus duros, mas quem esperou mais um pouco para parar, obteve vantagem. Para piorar as coisas para Newgarden, além de ter caído para terceiro na sequência de paradas, a Penske percebeu que o americano teria que economizar bastante combustível se quisesse terminar a corrida, levando à Newgarden a uma pálida décima posição, após ser várias vezes ultrapassado. 

Kirkwood parou depois de Grosjean e ficou à frente do companheiro de equipe, mas a dupla da Andretti teria uma forte ameaça. Último a parar, Ericsson ultrapassou Herta e Palou, partindo para cima do duo da Andretti com uma situação melhor de combustível. Os três primeiros ficaram separados por menos de 2s nas voltas finais, mas Kirkwood segurou muito bem os dois ex-F1 que vinham lhe pressionando e venceu a sua primeira corrida da Indy, ainda tirando a zica da Andretti, que após mostrar bons carros em St Pete e Texas, colocou seus três principais carros entre os quatro primeiros, com Herta em quarto, sendo pressionado no fim por Palou. Will Power foi o melhor Penske em sexto, colhendo mais alguns pontinhos no campeonato, algo que o australiano soube usar muito bem. Porém, o líder do campeonato voltou a ser Ericsson, que vem se mostrando bastante consistente nesse início de certame, enquanto Kirkwood mostrou que a aposta de Michael Andretti nele vai valendo a pena.

Sobrevivência

 


Havia um jogo de tabuleiro chamado 'Resta Um' onde se dizia que era um ótimo treino para se aprender a jogar Dama ou Xadrez, onde o objetivo é deixar apenas um botãozinho no tabuleiro. A corrida da MotoGP em Austin nesse domingo foi bem parecido, onde o asfalto castigado do Texas transformou a prova num teste de sobrevivência, com vários pilotos caindo, incluindo alguns de pilotos de ponta. Alex Rins não tinha começado bem seu relacionamento com a Honda, mas ao se tornar o principal piloto da montadora da asa dourada com mais um acidente de Marc Márquez, Rins começou a se recuperar e numa pista onde o espanhol sempre andou bem, Rins deu um show, dando a primeira vitória da Honda em mais de quinhentos dias, mesmo que aproveitando de mais uma queda de Pecco Bagnaia.

Debaixo de um calor considerável, Austin viu uma corrida mais acidentada do que o normal, muito pela pista extremamente ondulada e que já foi asperamente criticada pelos pilotos. Ainda desfalcado de Márquez e Bastianini, o grid de vinte pilotos teve apenas treze motos recebendo a bandeirada. Vindo de vitória na Sprint no sábado e mordido pela queda solo na Argentina, Bagnaia largou muito bem da pole e mesmo tendo Rins em seu cangote, o italiano da Ducati parecia ter a corrida sob controle quando sofreu uma queda aparentemente boba, onde Pecco nem estava sendo muito pressionado naquele momento. Mesmo vindo de um título onde tirou incríveis 91 pontos de desvantagem, não será todo ano que Bagnaia irá conseguir grandes recuperações e suas quedas solos já começam a preocupar a Ducati, cujo chefe Davide Tardozzi se ajoelhou de frustração. Tudo isso deixava Rins tranquilamente na ponta, porém Bagnaia não foi o primeiro e nem o último a cair, deixando a prova tensa. Quartararo, vindo de uma ótima largada, assumiu a segunda posição, tendo Luca Marini próximo. Companheiro de equipe do líder do campeonato Bezzecchi, Marini não quis saber de ordens de equipe e rapidamente deixou Bezzecchi para trás e correu atrás do seu primeiro pódio na MotoGP.

A força da Ducati ficou clara quando Marini ultrapassou Quartararo como se a Yamaha fosse uma Moto2. Porém, Marini não foi capaz de ir atrás de Rins, mesmo o espanhol se poupando. Único piloto no grid a ter vencido na MotoGP em Austin, Rins fez uma corrida magistral, superando os maus resultados anteriores com uma vitória categórica. Correndo pela equipe satélite da Honda, Rins foi o único piloto da montadora a ver a bandeirada e ver Joan Mir, seu antigo companheiro de Suzuki e pilotando a Honda de fábrica, cair quando estava em décimo segundo é bastante sintomático, que talvez a Honda tenha escolhido o piloto errado da Suzuki para o seu time de fábrica. Resta à Rins uma maior consistência, para que corridas como a desse domingo sejam mais regra e não exceções. Quartararo levou a Yamaha nas costas rumo ao terceiro lugar, enquanto Morbidelli voltou à mediocridade de sempre, mas pelo menos terminou. Jorge Martin mostrou mais uma vez o porquê da Ducati não ter o escolhido como piloto de fábrica por mais uma queda, ainda na primeira volta, levando consigo Alex Márquez. Jack Miller vinha em terceiro, após uma grande largada, mas caiu sozinho e teve que voltar aos boxes à pé pela sexta vez nesse final de semana. 

Mesmo a Ducati tendo a melhor moto do pelotão, isso não foi sinônimo de vitória certa e os italianos viram uma Honda, talvez a pior moto do pelotão, triunfar com uma moto satélite e com um piloto que ninguém levava muito em conta. A MotoGP tem suas surpresas, mas Austin precisa de um recapeamento urgente ou teremos mais corridas como a de hoje, onde o que mais importava era simplesmente sobreviver.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Que pena...

 


Não faltam pessoas que falam que os pilotos de rali são os mais completos do mundo, superando os pilotos de 'asfalto'. Por correrem em estradas rodeadas por árvores, postes e até mesmo gente, os ralis tem uma pitada de perigo que lembra os primórdios do esporte a motor. Esses pilotos parecem ser até mesmo imortais, tamanha a habilidade ao volante de um carro e em desviar dos problemas. Por isso que quando um acaba encontrando o destino, o mundo do esporte fica tão consternado. O irlandês Craig Breen sempre teve os ralis no sangue, filho de Ray Breen, campeão irlandês de rali. Mesmo começando no kart, antes dos 18 anos Craig se mudou para os ralis e fez toda a sua carreira nas categorias de base do Mundial, até chegar ao WRC, inicialmente como piloto júnior da Citroen e depois da Hyundai, nunca fazendo uma temporada inteira. Somente em 2022 Breen conseguiu um lugar como piloto titular na Ford, terminando o campeonato em sétimo. Retornando à Hyundai em 2023, Craig Breen brigou pela vitória na Suécia e se preparava para a próxima etapa do WRC, na Croácia, a ser realizado na próxima semana. Durante um teste, Breen perdeu o controle do seu Hyundai I20 e bateu num poste de madeira, que caiu em cima de Craig. Seu navegador nada sofreu, mas Craig Breen não resistiu aos ferimentos e faleceu com apenas 33 anos, deixando o mundo do WRC e do automobilismo em geral mais triste nessa quinta-feira. 

domingo, 9 de abril de 2023

Desenterrando esqueletos

 


Injustiças acontecem aos montes no esporte e muitas vezes, quem merece vencer, acaba sendo derrotado por circunstâncias do próprio esporte. 

Voltando quinze anos no tempo, a F1 teve um digno campeão mundial, mesmo Lewis Hamilton ainda padecendo de alguns problemas que lhe atrapalharam bastante antes do inglês se tornar um piloto praticamente completo nos últimos anos. Hamilton estava em sua segunda temporada na F1 e cometeu alguns erros básicos, como no Canadá, quando não respeitou um sinal vermelho no final do pit-lane. Tudo isso culminando para a apoteótica final em Interlagos, onde Hamilton ultrapassou Timo Glock na última curva e conquistou o título que era de Massa por alguns segundos.

No entanto, em agosto de 2009 veio à tona o que ficaria conhecido como 'Singapore-gate', quando Nelsinho Piquet, recém-demitido da Renault, admitiu que batera de propósito na corrida de estreia em Cingapura para beneficiar Fernando Alonso, além de dar a primeira vitória à Renault depois de dois anos. Foi o maior escândalo da história da F1 e Flavio Briatore nunca mais retorno à categoria. Graças a Deus! Se fizermos uma continha básica, se a corrida cingapuriana fosse cancelada, Massa seria o campeão de 2008, mas nem a Ferrari se animou muito em tentar algo para reverter o título de 2008. E a vida continuou para todos os envolvidos.

Nas últimas semanas Bernie Ecclestone falou a uma publicação alemã que considerava Schumacher o maior campeão da história da F1, pois achava que o título de 2008 não deveria ter sido de Hamilton por toda a polêmica envolvida. Até aí, opinião do antigo dirigente. O diferencial foi Ecclestone ter dito que soube de toda a marmelada orquestrada por Briatore ainda em 2008 e contou à Max Mosley, então presidente da FIA. E ambos se calaram. Há uma regra não escrita na F1 de que resultados não podem ser mudados ou contestados após a festa anual da FIA para os seus campeões. Como Reginaldo Leme soltara a bomba em agosto de 2009, teoricamente nada poderia ser feito para o ano anterior, mas com a nova informação de que Ecclestone e Mosley sabiam da tramoia de Briatore ainda em 2008 e se calaram, surgiu uma das polêmicas mais vazias dos últimos tempos.

A reação de Felipe Massa ao perder um título por tão pouco foi admirável e foi bastante elogiada na época. Porém, Massa resolveu usar essa afirmação de Ecclestone para contestar o título de 2008, inclusive usando meios judiciais. Gosto de me colocar na situação de pessoas prejudicadas e se fosse Felipe, com certeza estaria muito puto por saber que, além de ter perdido o título por tão pouco, ainda havia uma chance do resultado ter sido revertido se Bernie e Max não tivessem convenientemente se calado naquela época. 

Porém, desenterrar um esqueleto após quinze anos não irá acrescentar em nada de bom à Felipe Massa. Lembrando que se Hamilton errou em 2008, Massa errou muito mais. Uma rodada solo na Malásia e uma atuação bisonha em Silverstone não ajudaram em nada Massa. Na Bélgica, uma vitória caiu no colo de Massa no tapetão e de forma para lá de injusta, com uma punição ridícula para Hamilton na ocasião. Somando a isso tudo, a Ferrari demorou a colocar pneus certos em Monte Carlo e a explosão do motor na Hungria, quando Massa estava com a vitória a apenas duas voltas de distância. Colocando em miúdos, Hamilton mereceu o título daquele ano mais do que Massa, mesmo Felipe ter tido seu melhor ano na F1. O erro (da Ferrari) em Cingapura e a corrida zerada de Massa seria apenas mais um em uma temporada atípica, onde os protagonistas erraram demais.

Por mais que tenha razão em reclamar e ficar chateado, não seria bom para Felipe Massa se tornar o primeiro campeão no tapetão da história da F1.  

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Figura(AUS): Nico Hulkenberg

 Muitos pilotos que retornam ao cockpit de um carro de F1 depois de um ou mais anos de fora reclamam que precisam de um tempo para adaptação, além de outros que nunca voltarem a serem os pilotos de antes, como foi o caso clássico de Michael Schumacher. Quando foi anunciado para o lugar de Mick Schumacher na Haas, muitos criticaram a volta de Nico Hulkenberg à F1 depois de três anos, pois o alemão já conta com seus 35 anos e ainda tem o incômodo recorde de corridas sem pódio na categoria. Poucos enxergavam de qual forma Nico poderia agregar à F1, mas Hulkenberg vem surpreendendo nessa sua volta à categoria. Tendo como companheiro de equipe Kevin Magnussen (com quem teve uma discussão épica anos atrás), Hulkenberg vem superando com certa folga o rápido danes, que se destacou por ter superado o jovem Schumacher ano passado. Nico superou K-Mag em todas as classificações até o momento e se viu o vizinho de boxe marcar os primeiros pontos para a Haas, Hulkenberg deu o troco em Melbourne, com uma corrida sólida na zona de pontuação, andando boa parte da prova à frente da McLaren de Lando Norris e com toda a confusão que aconteceu na última relargada, Hulk foi capaz de ganhar mais algumas posições e terminar em sétimo, superando Magnussen no Mundial de Pilotos e praticamente pagando a aposta de Steiner fez nele.  

Figurão(AUS): FIA

 Em três corridas até o momento, a FIA esteve nessa parte da coluna duas vezes, mas é impossível não colocar a FIA aqui após o papelão perpetrado na corrida em Melbourne. A F1 vive num dilema em que manter seus fãs mais antigos e fieis, que preferem uma corrida mais 'pura' ou agradar os jovens fãs, atraídos pela série 'Drive to Suviver' e que estão ávidos por ação na pista, mesmo que algumas vezes de forma forçada. O Grande Prêmio da Austrália teve o recorde de três bandeiras vermelhas, porém, as duas primeiras estiveram longe de serem necessárias e a terceira foi consequência da penúltima aparição do pano rubro. Não houve nenhum grave acidente ou problemas extra-pista que justificasse a entrada das bandeiras vermelhas a não ser movimentar a corrida, deixando um cheiro de farsa para quem assistiu a prova australiana. Pegou muito mal o papel da FIA e nos faz perguntar: e o lado esportivo da F1, como fica? 

domingo, 2 de abril de 2023

Indy raíz

 


O carro atual da Indy tem tanto downforce, que as ultrapassagens em circuitos ovais se tornou algo bem complicado, principalmente em circuitos de altíssima velocidade, como é o caso do Texas. Para complicar, nos últimos anos a pista de Fort Worth recebeu um tratamento de PJ1 para aumentar a aderência dos pneus Goodyear da Nascar, mas que simplesmente não funciona nos compostos da Firestone da Indy. As últimas corridas no Texas fora uma decepção, onde apenas uma linha rápida era utilizada. Para 2023, após longo tratamento, o PJ1 foi sendo retirado e uma segunda linha por fora foi sendo utilizada, afetando positivamente a corrida desse ano.

Ao contrário de muitos fãs da Indy, particularmente não gosto muito da pista do Texas. A velocidade atingida deixa as corridas tão emocionantes como no limiar de um grave acidente. Kenny Brack que o diga. Porém, sem grandes problemas, a corrida desse ano foi uma das melhores dos últimos tempos, com várias trocas de liderança. Se a McLaren sofre na F1, na Indy a equipe vai muito bem, obrigado. Felix Rosenqvist ficou com a pole, com Pato O'Ward e Alexander Rossi dentro do top-5 no grid, cercados pelos carros da Ganassi e de Newgarden. Largando para a sua corrida de número 370, Dixon foi um dos que brigaram pela vitória, junto com Palou, Newgarden e O'Ward. Rossi se envolveu num acidente nos pits com Kyle Kirkwood e perdeu várias voltas, enquanto Rosenqvist bateu quando já nem brigava pela vitória. 

Newgarden já havia vencido a corrida do ano passado na última volta e liderou mais de cem voltas. Quando Devlin Defrancesco bateu no muro, quebrou a suspensão e provocou um acidente com Graham Rahal nas voltas finais, a liderança na relargada era de O'Ward e o mexicano era favorito a vencer, mas na relargada foi atacado por Newgarden e Palou, com David Malukas surpreendendo com pneus novos. Newgarden se estabeleceu na ponta e na linha de dentro, se defendendo como podia dos ataques de O'Ward, que tinha um carro mais rápido. Alguns metros atrás, Grosjean fazia uma corrida para marcar bons pontos, mas um leve toque em Malukas levou o francês para o muro novamente na penúltima volta, decidindo a corrida. 

O'Ward ensaiava um último ataque e já tinha percebido que ao sair da curva 4 por fora, tinha boas chances de cruzar a linha de chegada na frente de Newgarden, nem que fosse por muito pouco. Porém, com a bandeira amarela, o mexicano da McLaren perdia mais uma chance de vencer e teve que se conformar com mais um segundo lugar, enquanto que Josef vencia pelo segundo ano consecutivo por muito pouco em Texas, que nos mostrou uma corrida daquelas nesse domingo.

Suave veneno

 


Marco Bezzecchi chegou à MotoGP como mais um dos protegidos de Valentino Rossi, mesmo sem conquistar nenhum título nas categorias de base, mas obtendo bons resultados. Companheiro de equipe do meio-irmão de Valentino na equipe da lenda da motovelocidade, Bezzecchi sempre ficou com um equipamento ligeiramente pior do que de Luca Marini, porém, Bezzecchi já tinha mostrado ter mais talento do que Marini e tendo em mãos uma Ducati, Marco começou a temporada 2023 já subindo ao pódio na corrida inaugural em Portugal e na Argentina, debaixo de chuva, o italiano de 25 anos dominou a corrida como se fosse um veterano, conquistando sua primeira vitória na MotoGP, o mesmo acontecendo com a equipe de Rossi.

Com o tempo ruim e asfalto molhado, havia ainda mais tensão no ar. Com tantos acidentes e pilotos machucados, a MotoGP largaria em Termas de Rio Hondo com o recorde negativo de apenas dezessete motos no grid e com a pista molhada, os pilotos teriam que ter bastante cuidado para não aumentar a lista de lesionados. Alex Márquez surpreendera ao ficar com a pole no sábado, vindo do Q1, mas foi outro piloto de equipe satélite da Ducati quem se destacou logo de cara. Bezzecchi, que usa um escorpião como marca, saiu muito bem e já nas primeiras curvas, onde todos tinham muito cuidado, se estabeleceu na ponta. No início, apenas Márquez, Bagnaia e Franco Morbidelli seguiam de perto Bezzecchi, mas rapidamente o piloto de Rimini foi abrindo vantagem na pista molhada argentina e simplesmente não foi mais visto a corrida inteira. Bezzecchi acabou com todas as desconfianças com uma pilotagem soberba e garantiu não apenas sua primeira vitória na MotoGP, como ascendeu à liderança do campeonato.

Bagnaia fazia uma corrida cautelosa, repetindo o que fez no sábado na Sprint, onde terminou apenas em sexto. Após se livrar de Morbidelli, Pecco passou a se concentrar em Márquez e efetuou a ultrapassagem sem maiores dramas. Para cair sozinho, sem ser pressionado, logo em seguida. Foi um duro golpe para Bagnaia, que poderia disparar na ponta, mas acabou com zero ponto, mesmo com tão poucas motos no grid. Márquez e Morbidelli partiam para o pódio, que no caso do piloto da Yamaha seria um prêmio, após uma enormidade de corridas ruins por parte do italiano. Só que os dois não contavam com o crescimento de Johan Zarco no final da prova. Andando até 1s mais rápido, o francês engoliu os dois, sendo a ultrapassagem sobre Alex se deu na última volta, dando a sensação de que se tivesse mais duas ou três voltas, Zarco poderia ameaçar Bezzecchi. Não deixa de ser uma ressurreição para Morbidelli, que andou forte todo o final de semana e na frente de Quartararo, que assim como seu compatriota, subiu de rendimento nas voltas finais, após ser acertado por Nakagami no início da prova, e Fabio ainda salvou um sétimo lugar após ocupar a última posição. Após vencer a Sprint de forma espetacular, largando de 15º, Brad Binder caiu na primeira volta e chegou em último, enquanto a Aprilia, que deu pinta de que poderia dominar como fez ano passado, ficou fora dos dez primeiros.

O que aconteceu com Binder e a Aprilia só mostra como as coisas mudam rápido na MotoGP. Bagnaia também pode falar sobre isso, com uma queda solo inexplicável e indesculpável, entregando a liderança do campeonato à Bezzecchi. O domínio da Ducati é tamanho na MotoGP atual, que o pódio foi todo preenchido pelas motos italianas, com três equipes satélites diferentes. O tempo dirá se Marco Bezzecchi se manterá na briga pelo título, como fez Bastianini com o time Gresini ano passado, mas o italiano provou que merece uma melhor atenção da MotoGP.

Marasmo e caos

 


Os pilotos gostam muito de usar a palavra 'montanha-russa' para definir suas corridas, mas não há como sair desse 'adjetivo' para definir o que foi o Grande Prêmio da Austrália de 2023. A corrida oceânica saiu do marasmo ao caos em vários momentos, apenas o vencedor não mudou nessa temporada: a Red Bull. Dessa vez não teve dobradinha, mas os austríacos comemoraram outra vitória dominante com Max Verstappen, que mesmo não largando bem e dando um sustinho no terço final da corrida, teve a prova sob controle e com a corrida burocrática de Pérez, já abre uma diferença que deverá ser substancial rumo ao tricampeonato do neerlandês. Porém, a corrida desse domingo não foi tranquila, com muitas disputas, acidentes e um show de incompetência da FIA, que no afã de garantir um 'bom show', deu um baita prejuízo aos donos de equipe.


O pouco espaço entre a linha de largada e a primeira curva não impediu que George Russell saísse muito bem no apagar das cinco luzes vermelhas ultrapassasse Verstappen, que foi claramente cauteloso. Sabedor que seu maior rival e talvez único pelo título, Sérgio Pérez, estava num final de semana para lá de esquecível, tudo que Max não queria era problemas e ele os evitou ao máximo, freando tão cedo na curva 3, que permitiu a ultrapassagem de Hamilton e trouxe um pouco de caos, com o toque de Leclerc em Stroll, que provocou o abandono do monegasco ali mesmo, além de inaugurar a série de Safety-Cars. Na primeira relargada, a dupla da Mercedes e Verstappen se destacou de Sainz e Alonso. A Mercedes tinha como trunfo ter seus dois carros contra Max e por isso segurou Russell para proporcionar o DRS à Hamilton, para que o inglês pudesse segurar as estocadas de Verstappen. Porém, essa tática durou pouco com o acidente de Alexander Albon, que largara muito bem e com os toques à sua frente, subia para um surpreendente sexto lugar. O anglo-tailandês tem muita velocidade, mas bastante inconsistência, batendo quando estava muito bem, deixando a Williams sem pontos. Porém, o que veio a seguir mostrava que a FIA, talvez influenciada pela Liberty, queria mexer na corrida. A Williams de Albon nem estava numa posição tão ruim assim e apesar da pista estivesse imunda, um SC daria conta do recado tranquilamente. Porém, precisamos de um bom show e corrida foi parada por uma bandeira vermelha para lá de desnecessária.


À essa altura Russell e Sainz foram os grandes prejudicados, pois eles tinham parado no SC que veio a seguir ao acidente de Albon, mas com a bandeira vermelha, ambos perdiam o posicionamento e com os demais carros colocando pneus duros, qualquer vantagem dois fora para o espaço. O asfalto de Melboune não é muito abrasivo e por isso a estratégia de uma parada, com todos colocando os pneus duros, era a tática ideal e com a bandeira vermelha proporcionando a troca de pneus sem um pit-stop, as equipes estavam felizes com os carros indo até o final da prova sem mais paradas. Quem não deve ter gostado disso foram as pessoas nas arquibancadas, que quebraram recordes na Austrália, além das pessoas que ficaram na frente da TV, muitas vezes em horários para lá de inconvenientes. Como os pilotos teriam que levar seus carros até o final com aquele jogo de pneus, ninguém poderia forçar em demasia, levando ao marasmo que se viu na corrida na Arábia Saudita. Verstappen rapidamente ultrapassou Hamilton e abriu uma vantagem em que Max apenas administrou. Hamilton ficou para trás, tendo Alonso sempre menos de 2s atrás, enquanto Russell tentava a recuperação, ultrapassando de forma bonita Gasly, mas quando inglês pensou em se insinuar para cima de Alonso, o motor Mercedes abriu o bico, deixando George na mão. Gasly tinha se aproveitado bem da bandeira vermelha e mesmo ultrapassado por Sainz, o francês seguia a Ferrari sem maiores dramas. Sainz chegou a encostar no seu compatriota Alonso, mas mantendo os mesmos 1,5-2s que Alonso tinha de desvantagem para Hamilton. E assim permaneceu a corrida por longas e sorumbáticas voltas. Havia a tensão dos carros relativamente próximos, os pilotos reclamando do ritmo, mas ninguém atacava ninguém, pois o objetivo era ver a bandeirada. Enquanto Verstappen saía rapidamente da pista na penúltima curva, Checo Pérez fazia uma corrida burocrática, bem longe da agressividade mostrada por Max em Jidá. O mexicano da Red Bull parecia não acreditar que poderia escalar o pelotão e muitas vezes demorava em demasia para ultrapassar carros 2s mais lentos que o seu. Em condições normais, Pérez chegaria num sétimo lugar, talvez pressionando Lance Stroll, quando a corrida teve a guinada derradeira nas voltas finais.


Kevin Magnussen, pressionado pela boa atuação de Nico Hulkenberg, sempre mais rápido nos treinos e na corrida, brigava com Zhou pela décima segunda posição. Na abertura da antepenúltima volta, o danes abriu demais na curva dois e bateu forte no muro. O pneu traseiro da Haas ficou no meio da pista e com a suspensão quebrada, K-Mag abandonaria seu carro logo depois. Safety-Car na pista, sem muito choro, nem vela. Porém, com o pneu de Kevin no meio da pista, tendo que retirar a Haas do acostamento e alinhar todo mundo atrás do SC, estava claro que a corrida não seria reiniciada. Para quem acompanha a Indy e a Nascar, há uma clara imposição dos organizadores americanos: não se pode terminar uma corrida sob bandeira amarela. Na Nascar, surgiu a prorrogação. Na Indy, bandeiras vermelhas garantem a limpeza da pista e uma relargada. Com a Liberty cada vez mais empenhada em ter um 'bom show', seguiu os companheiros da Indy: bandeira vermelha. Afinal, o show tem que continuar, com os carros na pista. Outro fato interessante é que Michael Masi, o homem que provocou toda a polêmica de 2021, estava em Melboune nesse final de semana para uma visitinha. Com certeza olharam para Masi e recordaram do para sempre lembrado final de campeonato de 2021 e toda a polêmica que acarretou. Para que arriscar? Vamos ter um bom show. Bandeira vermelha!


Com todos os pilotos calçados com pneus macios e podendo forçar à vontade para pouquíssimas voltas, estava na cara que ia acontecer uma merda. E aconteceu! A terceira largada parada do dia foi uma carnificina. Verstappen posicionou seu carro mirando Lewis e foi assim que o piloto da Red Bull manteve a primeira posição. Porém, a freada da primeira curva foi caótica, com Gasly freando tudo para não bater em Alonso, Sainz tocando no seu compatriota, Pérez saindo da pista e quando Gasly retornava à pista, bateu em... seu companheiro de equipe Ocon, destruindo a corrida da Alpine. Para completar, Tsunoda já tinha batido em Bottas, enquanto Sargeant se tocou com De Vries e Stroll, que poderia ter subido para terceiro, mostrou seu 'talento' e passou reto na terceira curva. Sobrava poucos carros e uma terceira bandeira vermelha apareceu, dessa vez de forma necessária, por causa dos inúmero detritos na pista e os vários carros a serem retirados. Fico imaginando como devem estar felizes os chefes de equipe, que nessa semana entregarão seus relatórios financeiros à FIA sobre a temporada 2022. Foi um strike com vários carros danificados. De forma estranha, a FIA ainda queria mais e anunciou uma nova largada, quando a TV mostrava claramente que todas as 58 voltas tinham sido completadas. Alonso, que com o toque recebido saída da zona de pontos, reclamava que a terceira largada tinha que ser cancelada e que tudo deveria voltar como estava. A vontade do espanhol foi realizada e a quarta relargada do dia, com o mesmo grid da outra relargada, foi apenas para Verstappen receber a bandeirada com o carro em movimento. Com a saída dos carros da Alpine e a punição à Sainz pelo toque em Alonso, vários carros que não pontuariam entraram na zona de pontos. A Aston Martin subiu para terceiro e quarto, ganhando bons pontos no Mundial de Construtores, Hulkenberg marcou seus primeiros pontos em seu retorno, a problemática McLaren pontuou com seus dois carros, com destaque para a corrida combativa do novato Piastri e Tsunoda saiu do zero. Pérez ainda salvou um quinto lugar num dia nada auspicioso para o chicano.


A corrida desse domingo pode ser dividida entre o caos absoluto e o marasmo absoluto, sem meio-termo. Com tantos acidentes, apenas doze carros completaram a corrida, mas Max Verstappen apenas observa de cima toda a confusão que se estabeleceu. A Red Bull tem um carro nitidamente superior a qualquer um, com Aston Martin, Mercedes e até mesmo Ferrari e Alpine brigando pelo resto. Porém, a F1 não precisa de showzinhos forçados para ter um bom espetáculo.