quinta-feira, 4 de novembro de 2010

História: 20 anos do Grande Prêmio da Austrália de 1990


A Formula 1 chegava a uma marca especial em Adelaide em meio a muita controvérsia e brigas nos bastidores. O 500º Grande Prêmio da história da F1 teria como pano de fundo a confusão protagonizada pelos maiores pilotos de então, mas em situações opostas a de 1989. Um ano antes, Ayrton Senna dava uma emocionada entrevista coletiva, dizendo que Prost e Balestre tentavam 'desfazer de todos os valores que eu tenho'. Se havia valores ou não, Senna repetiu, com juros, a triste manobra de Prost um ano antes na mesma pista e agora era a vez do francês se mostrar indignado. O representante da Ferrari, que se mostrou irritada com a atitude de Senna e até ameaçou abandonar a F1, andava pelo paddock com uma fita mostrando que Senna era culpado pelo acidente e protestando como podia. Primeiro, não participou da tradicional foto oficial dos pilotos de final de ano. Depois, Prost não participou de uma foto comemorativa, em que os campeões que estavam presentes naquele dia tirariam uma foto juntos. Senna, Piquet, Hunt, Stewart, Brabham e Hulme estavam lá. Menos Prost.

Porém, qual moral Prost tinha em reclamar de Senna? O bicampeão preferiu se manter discreto durante o final de semana australiano, mas quando entrou na pista Senna fez o que dele se espera e marcou sua 52º pole na carreira, com Berger completando a primeira fila toda da McLaren. A temporada foi representada com a Ferrari ficando com toda a segunda fila, mas com Mansell ainda saboreando o contrato assinado com a Williams para 1991 e mais ainda por ter ficado à frente de Prost. A Benetton, que havia conseguido uma importante dobradinha em Suzuka, voltava a realidade com a quarta fila.

Grid:
1) Senna (McLaren) - 1:15.671
2) Berger (McLaren) - 1:16.244
3) Mansell (Ferrari) - 1:16.352
4) Prost (Ferrari) - 1:16.365
5) Alesi (Tyrrell) - 1:16.837
6) Patrese (Williams) - 1:17.156
7) Piquet (Benetton) - 1:17.173
8) Moreno (Benetton) - 1:17.437
9) Boutsen (Williams) - 1:17.596
10) Martini (Minardi) - 1:17.827

O dia 4 de novembro de 1990 estava quente e ensolarado em Adelaide, bem ao contrário da tempestade do ano anterior. Mesmo com o título já decidido, havia entre os pilotos uma especial vontade de vencer aquela corrida, pois como uma corrida centenária, eles entrariam para a história da F1. Como era costumaz, Senna larga muito bem, ao inverso de Berger, que parecia que seria engolido pelas Ferrari, mas o austríaco se aproveita da estreiteza da reta dos boxes em Adelaide e também da potência do motor Honda para se manter em segundo. Saindo um pouco de suas características, Piquet larga muito bem e pula para quinto. Seria o início de umas melhores corridas do tricampeão.

Enquanto Senna disparava na frente, Berger cometia outro erro bizarro ainda na segunda volta. Em 1990 os volantes não tinham os inúmeros botões e chaves para se acertar o carro on-line como hoje, mas na McLaren havia um ajuste para os freios. Berger foi colocar mais freio para a dianteira, mas sem querer ele desligou seu carro. Rapidamente o austríaco se deu conta da burrada e religou seu McLaren, mas aquilo proporcionou a Mansell assumir a 2º posição e partir em perseguição a Senna. Mesmo sendo um grande piloto, é por essas e outras que Berger nunca esteve verdadeiramente a ponto de conquistar um título ou brigar por ele. De forma surpreendente, na 4º volta, Piquet pega o vácuo da Ferrari de Prost na reta Brabham e retarda a freada para ultrapassar o rival. Não devemos se esquecer que Piquet tinha em mãos um raquítico Ford V8, enquanto Prost tinha o canhão que era o Ferrari V12. Em desvantagem de potência, Piquet resolve tirar o atraso no braço e três voltas depois já estava colado na traseira da poderosa McLaren de Berger. Numa manobra idêntica, Piquet deixa o austríaco para trás e assumia a 3º colocação.

Nesse momento, a corrida fica estática. Não havia brigas pelas primeiras posições e mesmo com o forte calor, não havia a obrigação de se trocar os pneus. Por várias voltas, as cinco primeiras posições permaneceram as mesmas: Senna, Mansell, Piquet, Berger e Prost. Desde o começo da temporada a Ferrari já havia percebido que Mansell, com sua tocada agressiva, desgastava muito mais os pneus do que Prost e isso ficou claro nesta corrida quando o inglês saiu da pista na volta 43 e rapidamente vai aos boxes trocar seus desgastados pneus. O piloto da Ferrari caí para a 5º posição, mas próximo de Berger e Prost, que batalhavam agora pelo 3º lugar. Após várias voltas solidamente à frente de Prost, Berger acaba errando e o francês não desperdiça a chance, enquanto Mansell só espera cinco voltas para deixar o austríaco para trás. Com Senna e Piquet na frente, havia uma expectativa de uma nova dobradinha brasileira, mas Senna começa a ter problemas de câmbio e isso faz com que o brasileiro saía de frente numa curva lenta à esquerda, passe reto e batesse no muro. Foi uma batida relativamente fraca, mas isso significava que Piquet estava novamente na ponta.

Com pneus novos, Mansell ataca Prost e assume a 2º posição de forma tranquila quando faltavam dez voltas para o final. O inglês era o único com pneus novos entre os pilotos de ponta e por isso forçou o ritmo para alcançar o velho rival Piquet. A corrida atingia seu clímax na medida em que Piquet sai da pista e permite a aproximação de Mansell. Nigel vinha em seu ritmo maluco de sempre e tinha dois objetivos: se despedir da Ferrari com uma vitória e ainda garantir o 3º lugar no Mundial de Pilotos. Já Nelson Piquet queria provar que ainda tinha a velha magia que lhe garantiu com todo o brilho três títulos mundiais. Porém, completamente sem pneus e tendo muito cuidado ao ultrapassar os retardatários, Piquet via Mansell cada vez mais próximo em seus retrovisores. O mundo prendia a respiração, esperando quando o inglês daria o bote no velho rival. E o bote viria exatamente na última volta. Piquet encontra retardatários na reta Brabham e com um motor um pouco melhor que os carros mais lentos, era claro a maior dificuldade de deixá-los para trás na grande reta, problema esse que Mansell desconhecia. Piquet ultrapassou um retardatário e voltou para a linha ideal, enquanto Mansell deixou o carro mais lento para trás e permaneceu na linha de dentro. O inglês freiou no limite do limite, mas Piquet usou sua maestria de contornar a curva no momento exato, em que não permitiu o ataque de Mansell, que teve que desviar, e ainda fazer a curva de forma correta a ponto de não perder velocidade. Foi uma prova cabal de que Nelson Piquet ainda era o grande campeão de que todos sentiam saudade. A manobra histórica garantiu a Piquet sua segunda vitória consecutiva, o 3º lugar no Mundial de Pilotos, à frente de uma Ferrari e uma McLaren, além de estar definitivamente na história como o piloto vencedor do Grande Prêmio de número 500. Mas alguém ainda duvidava de que Piquet já não estava na história da F1?

Chegada:
1) Piquet
2) Mansell
3) Prost
4) Berger
5) Boutsen
6) Patrese

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