sábado, 11 de abril de 2009

The golden boy


Juntamente com seus amigos Stirling Moss, Peter Collins e Tony Brooks, Mike Hawthorn fez parte dos pilotos que fizeram da Inglaterra a meca do automobilismo mundial nos anos seguintes, elevando o interesse pelas corridas a níveis estratosféricos na ilha durante a década de 50. Piloto muito rápido em um dia bom, Hawthorn sofreu com a inconsistência que lhe afetava desde o início da carreira, fazendo com que ele não conquistasse resultados regulares nos seus anos na F1. Loiro e alto, Hawthorn era considerado um playboy nos anos românticos da Formula 1 e ele estava sempre com um sorriso no rosto, além de sempre correr com uma gravata borboleta escondido na sua velha jaqueta verde, mostrando todo o seu patriotismo que viria a lhe marcar anos mais tarde. Primeiro inglês a se sagrar Campeão Mundial, Hawthorn não pôde comemorar muito sua conquista e se foi de maneira trágica, mas ao contrário do que acontecia naqueles tempos, ele não morreu a bordo de um carro de corrida. Se estivesse vivo, Mike Hawthorn estaria fazendo 80 anos no dia hoje e assim iremos conhecer um pouco mais de uma das primeiras estrelas inglesas da F1.

John Michael Hawthorn nasceu no dia 10 de abril de 1929 em Mexborough e a velocidade sempre esteve encrustado na sua vida. Seu pai e principal apoiador no início da carreira, Leslie Hawthorn, foi um antigo piloto de motos de antes da Segunda Guerra Mundial e era dono de uma pequena oficina, da onde Mike sempre pôde ter contato com carros e motos. Após sair da escola em 1946, Mike começou a trabalhar na oficina do pai e desde os nove anos tinha como principal objetivo se tornar piloto quando crescesse. Apesar de gostar da ideia, Leslie ainda fez com que Mike frequentasse uma escola técnica, com o intuito de ele se aperfeiçoar na mecânica e assim tocar o negócio da família mais tarde. Porém, Hawthorn estava mais preocupado em achar uma forma de começar a correr e como era comum na época, Mike se envolve primeiramente com as motos, comprando uma BSA 350cc de corrida em 1947 e foi com ela que Hawthorn participou de sua primeira corrida, vencendo na categoria novatos. No entanto, não demorou para o aspirante a piloto pular para os carros e o fez correndo com um Ryley na categoria turismo. Em 1950, ele participa de suas primeiras corridas em monopostos até ser contratado pela equipe Cooper de F2, onde consegue resultados surpreendentes.

Já com um nome respeitado na Inglaterra, Mike Hawthorn participa de sua primeira corrida de F1 no Grande Prêmio da Bélgica de 1952, com um Cooper Bristol de F2 comprado pelo seu pai. Contando com apenas 23 anos, muito novo para época, Hawthorn consegue um excelente quarto lugar em sua estreia no perigoso circuito de Spa e na sua terceira corrida na F1, em Silverstone, Mike consegue seu primeiro pódio na carreira com um terceiro lugar, ficando somente atrás das imbatíveis Ferraris. Com outro quarto lugar no Grande Prêmio da Holanda, Hawthorn consegue um impressionante quarto lugar no Mundial de Pilotos e isso chama a atenção da Ferrari. Mike fazia parte da equipe da Jaguar no Mundial de Carros Esporte e mesmo tendo sofrido um sério acidente em um teste pela montadora no final do ano, Hawthorn acaba contratado pela equipe italiana para 1953. Com o melhor carro da época, Hawthorn seria uma espécie de piloto-júnior da equipe, tendo a companhia dos experientes Giuseppe Farina, Alberto Ascari e Luigi Villoresi. Ascari tinha sido campeão de forma arrasadora em 1952 e começou 1953 dominando, com Hawthorn conseguindo dois quartos lugares como melhor resultado. O principal rival da Ferrari na época era Juan Manuel Fangio da Maserati, que tirava a desvantagem que tinha no braço. No rapidíssimo circuito de Reims, Fangio brigava ferozmente com as Ferraris, mas no fim da prova, apenas Hawthorn ainda estava batalhando com Fangio. Já considerado como o melhor piloto do mundo, poucos podiam imaginar que o inglês poderia fazer frente a Fangio, mas Mike fazia um briga de gato e rato com o argentino, com ambos trocando de posições várias vezes, principalmente na última curva que levava a grande reta dos boxes. Hawthorn, com apenas 24 anos contra 41 de Fangio, contornou melhor a última curva e bateu o argentino da Maserati na bandeirada de chegada por apenas 1.0s!

Aquela disputa contra Fangio havia sido o batismo de fogo para Hawthorn e todos puderam ver que o inglês podia enfrentar os grandes pilotos da época, além de ser naquele momento, o piloto mais jovem a ter vencido uma corrida de F1. No entanto, a outra faceta de Mike Hawthorn, a de boêmio, ficou clara ainda nesse dia. Em comemoração a primeira vitória na F1, Hawthorn foi para uma festa e passou a noite com uma garota. O que poucas pessoas sabem foi que ela engravidou de Mike. De família importante, ela foi forçada a sair de casa, mas o menino, chamado de Arnaud Michael Delauney, nasceu em 1954 e vive até hoje na França. Com outros dois pódios, Hawthorn repete o quarto lugar da temporada 1952 e partia para temporada seguinte confiante de que seria um dos favoritos ao título, principalmente com a saída de Ascari da Ferrari e o grave acidente sofrido por Farina na primeira corrida do ano na Argentina, que deixou o italiano de fora de várias provas durante o ano. Porém, 1954 acabaria sendo uma enorme decepção para Mike. Quando a Mercedes-Benz estrou na F1 no Grande Prêmio da França, todos perceberam que ninguém poderia bater os poderosos carros alemães e Hawthorn não foi páreo ao poderio que Fangio tinha nas mãos e o argentino conquistou o bicampeonato. Porém, dois acontecimentos atingiriam Hawthorn de forma ainda mais profunda. Durante uma corrida em Siracusa, Hawthorn sofreu um grave acidente onde ficou com sérias queimaduras pelo corpo, mas o pior ainda estava por vir. Enquanto convalescia no hospital, Mike soube que seu pai havia sofrido um acidente de trânsito e acabou falecendo. A morte do seu grande incentivador acabou influenciando no psicológico de Hawthorn, que ainda se recuperava das queimaduras e pouco fez até conquistar sua segunda vitória na carreira na F1, no Grande Prêmio da Espanha.

Extremamente patriota, Hawthorn sempre corria com uma jaqueta verde em homenagem as cores oficiais da Inglaterra nas corridas e quando Mike recebeu uma oferta para substituir Stirling Moss na equipe Jaguar no Mundial de Carros-Esporte, Hawthorn não pensou duas vezes em abandonar a Ferrari e a chance de se tornar Campeão Mundial de F1. Para 1955, Hawthorn correu na equipe Vanwall na F1 e como as equipes inglesas ainda não eram páreo para Mercedes e as equipes italianas, Mike pouco produziu nesse ano. Contudo, a Jaguar era a principal equipe no Mundial de Carros-Esporte e Hawthorn venceu várias corridas durante a temporada, mas a equipe inglesa era ameaçada pela Mercedes-Benz, com seu modelo 300SLR. Na época, a principal corrida para este tipo de carro eram as 24 Horas de Le Mans, onde Jaguar e Mercedes iriam com força total, inclusive com a montadora alemã levando para a França seus principais pilotos da F1, Fangio e Moss. Apenas dez anos após a Segunda Guerra Mundial, Hawthorn não escondia de ninguém que odiava a Alemanha por ter perdido parentes durante a guerra e dizia que não suportaria ser derrotado por um carro germânico. No início das 24 Horas de Le Mans, Hawthorn pulou na frente com seu Jaguar, sendo seguido pela Mercedes de Fangio e a Ferrari de Eugenio Castelloti. O ritmo imposto por Mike era alucinante e nem parecia que se tratava de uma corrida de 24 horas, a ponto do motor Ferrari de Castellotti, que acompanhava os dois, explodir! Hawthorn liderava com Fangio colado em sua traseira, numa briga que lembrava a disputa que tiveram em Reims, mas o inglês teria que fazer sua primeira parada para dar o seu lugar ao seu parceiro Ivor Bueb. Na época, não existia muro dos boxes e o Jaguar era o único carro a usar os modernos freios a disco. Sem querer perder tempo, Mike ultrapassou rapidamente o Austin de Lance Macklin e foi para a direita, cortando à frente do inglês. Sem o mesmo tipo de freio, Macklin joga seu pequeno carro para à esquerda para evitar bater na Jaguar de Hawthorn, mas para infelicidade geral, a Mercedes de Pierre Levegh, que tinha acabado de levar uma volta dos líderes, vinha a 250 km/h e não pôde evitar o choque. O carro do francês ultrapassou o muro de proteção do público e voou em direção a platéia. Levegh morreu na hora. O motor e o câmbio do Mercedes do francês foram jogados em direção a arquibancada e o autódromo havia se transformado em um pandemônio. No que foi a maior tragédia do automobilismo mundial, 82 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas. Para evitar que as estradas ficassem congestionadas e impedissem a passagem das ambulâncias, a corrida não foi parada. No meio da madrugada, a Mercedes abandonaria a corrida e no final do ano, o automobilismo. A Jaguar permanece na prova e a dupla Hawthorn/ Bueb acabaria vencedora da prova. Mesmo estando envolvido na tragédia, Hawthorn parecia feliz por ter derrotado a Mercedes e comemorava a vitória como se nada tivesse acontecido. No dia seguinte, na primeira página de um jornal francês, aparecia a foto de um sorridente Mike Hawthorn tomando champanhe e a legenda: "Saúde, Sr. Hawthorn, Saúde."

Após fazer três provas pela Ferrari na F1 no final de 1955, Hawthorn volta à uma equipe inglesa para 1956, a BRM, mas a equipe ainda não estava preparada para enfrentar as grandes equipe se tudo o que Mike pôde fazer foi conseguir um pódio no esvaziado Grande Prêmio da Argentina. Ve
ndo que o sonho de conquistar um título mundial com uma equipe inglesa se tornava cada vez mais difícil, Hawthorn retorna à Ferrari para a temporada 1957 e foi na escuderia italiana que Mike conheceria o seu melhor amigo: Peter Collins. Os dois ingleses andavam constantemente juntos, em companhia de suas respectivas namoradas, e a imprensa apelidou a dupla de Mon Ami Mate. A Ferrari constrói um ótimo carro para 1957 e Hawthorn se torna o principal piloto da equipe, mas o inglês não pôde enfrentar todo o talento de Juan Manuel Fangio, que conquistou seu quinto título mundial numa limitada Maserati. Na corrida que decidiu o campeonato, Hawthorn e Collins foram superados por Fangio na última volta do inesquecível Grande Prêmio da Alemanha, até hoje considerado uma das maiores exibições individuais de um piloto na história da F1, por parte de Fangio. Com o argentino se aposentando das corridas no início de 1958, Hawthorn começava a temporada como um dos favoritos ao título, mas teria que enfrentar o Vanwall de Stirling Moss. Após vários anos tentando, finalmente Tony Vanderwell teria um carro em condições de enfrentar as Ferraris e Maseratis, mas o carro ainda era muito inconfiável, apesar de nitidamente mais rápido que a Ferrari. Sabendo disso, Hawthorn marcava pontos com consistência e ao vencer o Grande Prêmio da França, assumiria a liderança do campeonato.

Nessa mesma corrida, Mike sofre o baque de ver seu companheiro de equipe Luigi Musso falecer após um acidente. Mas o pior ainda estava por vir. Após conseguir um segundo lugar no Grande Prêmio da Inglaterra atrás de Moss, Hawthorn fica sabendo que Peter Collins estaria fora da equipe Ferrari e ele intercede pelo amigo, ameaçando deixar a Ferrari caso Collins não corresse na Alemanha, próxima etapa do campeonato. A Ferrari entrega um modelo defasado a Collins, mas ao menos o inglês correria. Tentando mostrar serviço, Collins disputava a liderança da prova em Nürburgring com o próprio Hawthorn e o Vanwall de Tony Brooks. Era uma briga forte, onde os três andavam juntos por todo tempo. Brooks, vencedor daquela corrida, falaria mais tarde que após uma curva, deixou de ver a Ferrari do segundo colocado Collins. O inglês havia caído de um barranco e acabaria morrendo horas mais tarde. Mike fica arrasado. Em poucos mais de um mês, havia perdido seus dois companheiros de equipe, sendo que um deles era Peter Collins, seu grande amigo. Hawthorn informa a Ferrari que abandonaria as corridas, independentemente do resultado no final do ano. Na corrida seguinte em Portugal, Hawthorn roda ao derrapar numa linha de bonde (!) e teve que empurrar seu carro na direção certa. Isso era claramente fora das regras e ele acabaria desclassificado. Contudo, numa época totalmente diferente da atual, Stirling Moss, vencedor da corrida no circuito de rua do Porto e principal favorecido pela desclassificação de Hawthorn, foi em pessoa falar com a direção de prova para reverter a decisão dos comissários e foi prontamente atendido. Após um segundo lugar em Monza, Hawthorn só precisava de um segundo lugar na última corrida do ano, o Grande Prêmio do Marrocos, para se sagrar Campeão Mundial de F1. Moss precisaria vencer e torcer para que Hawthorn chegasse no máximo em terceiro. Numa prova marcada pela morte de Stuart Lewis-Evans, Moss fez sua parte e conquistou sua quarta vitória na temporada, mas a Ferrari mostrava que não tinha o mesmo nível de cavalheirismo de Moss e manda o americano Phil Hill, segundo colocado na disputa, ceder seu lugar para Hawthorn, terceiro. Com apenas uma vitória em todo o campeonato, Mike Hawthorn se tornava o primeiro inglês a ser Campeão Mundial de F1.

Mike cumpre sua palavra e abandona as corridas após a etapa marroquina com um título mundial, 45 corridas, 3 vitórias, 4 poles, 6 melhores voltas, 18 pódios e 127,66 pontos conquistados, além da polêmica vitória em Le Mans/55. Hawthorn tinha o seu casamento marcado com a modelo Jean Howart e pensava abrir um negócio com Duncan Hamilton, outro piloto da F1 na época. Enquanto curtia sua "aposentadoria" em uma oficina em Guilford no dia 22 de janeiro de 1959, Hawthorn vê o chefe de equipe Rob Walker com um Mercedes-Benz 300 SL. Apelidado de "Merceater", por preparar carros da marca alemã, Walker sabia da raiva que Mike nutria pelas máquinas alemãs e passou em frente a Hawthorn a mais de 160 km/h. Sem titubear, Hawthorn pega seu Jaguar 3/4 MK 1 de sua garagem e parte em disparada atrás de Walker. Numa repetição do que havia feito em 1955, só que ao inverso, Mike não admitia ficar atrás de um carro germânico, mas isso acabaria custando sua vida. Após fazer a ultrapassagem em um trecho com pista molhada, Mike perdeu o controle do seu carro e acabou espatifando seu Jaguar contra um ponto de ônibus e depois numa árvore. O carro foi partido ao meio e Hawthorn morreria pouco tempo depois. Ele tinha apenas 29 anos. Walker negou essa versão até sua morte em 2002, dizendo que o encontro foi casual. No entanto, conta a lenda que no final de 1958 Hawthorn tinha feito um check-up de suas queimaduras sofridas em 1954 e descobriu que tinha uma doença renal gravíssima. Os médicos deram-lhe apenas 18 meses de vida. Contudo, toda a Inglaterra ficou chocada com a morte do seu garoto de ouro e seu funeral, seis dias depois da tragédia, foi acompanhada por milhares de pessoas e todos os pilotos ingleses da F1. Servindo como inspiração, Hawthorn iniciou o que seria uma era de ouro para o automobilismo inglês, com vários títulos conquistados nos anos seguintes.

Um comentário:

  1. Uma história movimentada. Mike correu numa época cheia de grandes nomes, por isso tenha vencido poucas provas. Além das constantes perdas dos amigos.
    Essa do Moss pedir reconsideração da direção de prova, que diferença para a atualidade, onde qualquer coisinha já soltam um processo na FIA.

    Vi no Continental Circus, então, parabéns pelos dois anos do blog, muito mais sucesso.

    Abraços.

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