domingo, 16 de março de 2025

Caos na confirmação da expectativa

 


Pole, melhor volta e vitória da McLaren em Melbourne, na abertura do campeonato 2025 da F1. Expectativas confirmadas depois da pré-temporada, correto? De certa forma, sim, porém, a primeira corrida do ano foi das mais animadas e a chuva não mostrou todo o potencial da equipe comandada por Zak Brown, que ainda perdeu uma dobradinha certa. Criando casca, Lando Norris sobreviveu bem ao caos australiano e controlou muito bem uma corrida em que aconteceu muita coisa que não estava no controle do inglês. Lando largou bem e, aleluia, confirmou a pole, tendo que segurar a pressão de Piastri quando a pista secou e depois Max Verstappen nas duas últimas voltas, em condições bem traiçoeiras. E falando em Max, o piloto da Red Bull claramente andou bem mais do que o carro e somente seu talento o fez andar minimamente próximo das McLarens em alguns momentos.


Os últimos dias previam chuva iminente em Melbourne na hora da corrida da F1. Horas antes, um temporal se abateu no momento da corrida da F2 e a prova foi cancelada, com direito até mesmo a patinhos bebendo água no asfalto alagado. Felizmente a chuva diminuiu no momento da largada da F1 e a largada ocorreu normalmente. Bem, pelo menos os carros saíram na hora da largada, pois Isack Hadjar rodou na volta de apresentação, ainda na curva 2. Um duro golpe para o francês, que se dirigiu aos pits claramente triste e numa cena tocante, foi consolado por Anthony Hamilton, pai de Lewis, ídolo confesso de Isack. A largada teve Max Verstappen mostrando suas credenciais e logo de cara ultrapassando Piastri, que mesmo relutando, acabou cedendo a posição para o neerlandês. Porém, a pista molhada fez mais vítimas juvenis e o ameaçado Jack Doohan bateu com força na curva seis, trazendo o Safety-Car. Começo nada auspicioso para alguém tão pressionado quanto o australiano, enquanto seu pai, o lendário Mick Doohan, balançava a cabeça nos boxes. Outro pai lendário que não deve ter ficado muito feliz foi o bicampeão mundial do WRC Carlos Sainz, pois seu filho rodou durante o período de SC, num verdadeiro anticlímax, após um final de semana promissor de Sainz Jr. Os mecânicos da Williams tiveram um verdadeiro Deja-Vu, tendo que trazer o funileiro mais cedo que o esperado.


Com poucas voltas a corrida já havia se tornado uma prova de sobrevivência. A relargada, ainda com pista molhada, mostrava o trio Norris-Max-Piastri juntos e destacados dos demais, liderado por Russell e Leclerc, que fez uma excelente largada. Hamilton era segurado por Albon e tentava se entender com os novos comandos de sua Ferrari. Como a pista melhorava nitidamente, era chegada a hora das equipes conversarem com os pilotos para o momento exato de colocar pneus slicks. Porém, antes disso, a McLaren mostrou sua força. Já com os pneus intermediários desgastados, Verstappen era fortemente pressionado por Piastri e acabou errando uma freada, permitindo a ultrapassagem do piloto da casa. Com a pista bem melhor, a McLaren começou a imprimir um ritmo 1s mais rápido do que Max, que parecia impotente frente a força dos carros laranjas. A hora de colocar pneus slicks chegou no momento em que Alonso, tentando ir para cima de Gasly, bateu seu Aston Martin no muro, trazendo novamente o Safety-Car. Com todo mundo com pneus slicks, o céu melburniano ficou escuro e as equipes previam chuva forte em poucos minutos. Não havia sossego para os pilotos e para Lando Norris em particular, que foi o primeiro que alcançou a pista novamente molhada e saiu da pista, trazendo consigo Oscar Piastri. Contudo, se o inglês se saiu bem da escapada de pista, Piastri ficou parado no grama e teve que engatar uma ré para sair da situação, perdendo quase uma volta no processo. O caos retornou com força e dois estreantes, Gabriel Bortoleto e Liam Lawson, bateram seus carros e o SC estava de volta. 


As voltas finais, com todos novamente de pneus intermediários, viu Verstappen partir para cima de Norris, mas este segurou o rojão muito bem, mostrando uma evolução do ano passado para cá. Tendo claramente o melhor carro do pelotão no momento, Lando Norris capitalizou a pole, algo que o inglês falhou várias vezes ano passado. Numa corrida com várias intempéries, Norris não se abateu e levou a McLaren a vitória, confirmando toda a expectativa que havia em cima da equipe. Piastri ainda marcou pontos, incluindo uma ultrapassagem antológica na última volta em cima de Hamilton. No entanto, a McLaren terá que cuidar do gerenciamento dos seus pilotos. Quando a pista estava no limite para se colocar pneus slicks, Piastri se aproximou rapidamente de Norris e tomou um rádio que pareceu mexer com o australiano. Situações que devem se repetir ao longo dessa longa temporada e a McLaren terá que ter cuidado para não degringolar para uma situação de perder um campeonato que poderá ser ganho com alguma facilidade. Até porque Max Verstappen está à espreita, só esperando o menor dos erros mclarianos para agarrar a oportunidade. Na Austrália, Max Verstappen lembrou os tempos de Michael Schumacher nos primeiros anos de Ferrari, quando não tinha carro para vencer, mas sempre que podia cravava Hill, Villeneuve e companhia. Max largou muito forte, andou no meio das McLarens até onde deu e somente um incaracterístico erro deixou Verstappen num longínquo terceiro lugar. Porém, os SC fizeram com que Max fosse uma constante ameaça aos pilotos da McLaren e será interessante observar essa fase caçadora de Max Verstappen, farejando qualquer vacilo de Lando ou Oscar. Se de um lado a Red Bull sabe que pode contar com um extraclasse, no outro sofre com o segundo piloto. OK, ainda é muito cedo para apontar dedos à Liam Lawson, mas o final de semana de estreia do neozelandês foi pífio, culminando com uma rodada solo. No entanto, para um piloto que se mostrou inseguro o tempo inteiro, deixa-lo com pneus slicks na pista molhada foi uma atitude sórdida da Red Bull, enquanto que no México, há pessoas com um sorriso no canto da boca...


George Russell fez uma prova solitária, onde mal apareceu e se aproveitando do erro de Piastri, beliscou um pódio. No entanto, os olhos de todos que acompanham a F1 se viraram para Andrea Kimi Antonelli. Vindo de uma má classificação, o italiano foi mais um dos novatos a rodar, mas salvou o carro e fez uma belíssima corrida de recuperação numa prova caótica, chegando em quarto lugar, apenas 1,7s atrás de George, que largou doze posições à sua frente. Bela estreia do italiano, se tornando o segundo piloto mais jovem da história a marcar pontos. Com dois pilotos pontuando bem, a Mercedes termina o primeiro final de semana do ano empatada com a McLaren no Mundial de Construtores. Um bom começo para Toto Wolff, mesmo com um carro que não se mostrou forte o suficiente para tal feito. A Ferrari começou o ano com muitas mensagens de rádio para seus pilotos e se complicando na estratégia. Ou seja, tudo normal para a turma de Fred Vasseur. Hamilton liderou sua primeira volta com uma Ferrari, mas num erro estratégico da equipe, que o manteve na pista tempo demais com pneus slicks, jogando Lewis e Leclerc para o final da zona de pontuação. Charles ainda recuperou duas posições, enquanto Hamilton tomou uma ultrapassagem por fora de Piastri, marcando apenas um pontinho. P8 e 10 não estavam nos planos da equipe de Maranello.


Uma corrida caótica é tudo que as equipes do pelotão intermediários pedem a Deus e vários times se valeram dos problemas dos pilotos das equipes grandes para se destacarem. Mesmo com a saída precoce de Sainz, a Williams viu Albon fazer uma corrida sólida, sempre na zona de pontuação e terminando em quinto, lembrando que só não foi quarto lugar, porque a Mercedes obteve êxito no recurso que punia em 5s Antonelli. Fazendo uma corrida arroz-com-feijão, Lance Stroll levou seu Aston Martin ao sexto lugar, sem incomodar ninguém. Mostrando que panela velha é que faz comida boa, Nico Hulkenberg fez em uma corrida mais do que Zhou e Bottas fizeram ano passado, levando a Sauber a um ótimo sétimo lugar. Bortoleto largou mal, relatou problemas nos freios e levava seu carro rumo a bandeirada até rodar e bater seu Sauber. Porém, o recado de Gabriel foi dado no sábado. Tsunoda passou boa parte da corrida na zona de pontuação, mas a Racing Bulls se atrapalhou na hora de trazer o japonês aos boxes na hora correta e acabou vendo Yuki fora dos pontos, o mesmo acontecendo com Gasly, que foi engolido pelas Ferraris e Piastri nas voltas finais. A Haas tem hoje o pior carro do pelotão, com Ocon e Bearman sempre nas últimas posições.


Foi uma corrida para lá de animada, mas quando teve pista livre a McLaren deu o seu recado às demais equipes: em ritmo de corrida, o time papaia tem uma vantagem grande. Até demais. Norris venceu com certa autoridade, enquanto Piastri sofreu com a falta de sorte dos australianos em casa. Porém, Max Verstappen provou mais uma vez que é hoje o grande piloto do pelotão atual e estará à postos para capitalizar qualquer vacilo da McLaren. Um belo início de um campeonato, mas o ritmo de corrida da McLaren assusta para quem esperava um campeonato apertado. Xangai nos dará mais respostas, por ser um circuito mais convencional. A não ser que o clima chinês esteja tão maluco quanto o australiano. 

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