sábado, 2 de setembro de 2017

Treino maluco e resultado igual

Todo ano tem uma ou mais corridas malucas para animar a temporada. Devido ao clima ou às circunstâncias, corridas se tornam malucas e resultados inesperados aforam nesses momentos. Treino maluco é mais difícil de acontecer e bastou uma chuva forte em Monza para que o treino dessa manhã inteira fosse um dos mais intensos dos últimos tempos. Os resultados inesperados aconteceram, mas o que não mudou foi o pole. Essa semana Mark Webber declarou que Lewis Hamilton é o melhor homem do sábado desde Ayrton Senna. Para muito gente, é um sacrilégio comparar alguém ou alguma coisa com Senna, mas pensando bem o australiano tem toda a razão. Não importa as condições de pista, Lewis é sempre mais rápido do que todo o resto e com sobras. Além de Senna, na F1 contemporânea alguém é capaz de meter 1s no segundo colocado como Hamilton fez hoje debaixo de chuva forte? 

E a chuva foi a grande protagonista nas primeiras duas horas de treino. Isso mesmo, duas horas em que o treino ficou interrompido após Romain Grosjean aquaplanar no meio da reta dos boxes. A chuva forte no início não impediu a FIA de liberar os pilotos e com menos de três minutos Grosjean batia e soltava impropérios aos organizadores, pois a pista estava encharcada, particularmente na reta dos boxes, onde houve um recapeamento recentemente. Foi um espera chata e com muita gente reclamando. "Já se largou com mais chuva!", exclamavam pelas redes sociais. Na verdade, durante o Q3 estava chovendo tanto ou mais do que no momento do acidente de Grosjean. A transmissão do Sportv falou de várias teorias, mas não tocou no mote principal. A morte de Jules Bianchi. A FIA, FOM e os organizadores de Suzuka escaparam de um bom processo pela morte de Bianchi e quando chove, o corpo governamental da F1 escolhe a cautela ao extremo. Se alguém corrigir que os trio do Sportv falou sobre isso, estejam à vontade. É que em certo momento em cansei de algumas abobrinhas e fiquei vendo o 'inédito' Highlander...

Voltando à pista, com chuva os resultados podem se misturar, mas não houve maiores surpresas até o Q2. Pérez foi superado por meros dois milésimos por Ocon no rumoroso caso da briga interna dentro da Force India e o mexicano ficou de fora do Q3. Com uma montanha de punições, Alonso mal andou no Q2, mas Stoffel Vandoorne mostrou porque a McLaren aposta tanto nele e o belga foi ao Q3. Massa avançou nos últimos momentos, mas seu companheiro de equipe Stroll já chamava a atenção com um ótimo desempenho em pista molhada, ficando sempre entre os primeiros. A piora da pista no Q3 criou ainda mais tensão, que foi maximizada por um problema na cronometragem. Sem querer saber muito de quem estava em primeiro ou não, Lewis Hamilton marcou o melhor tempo desse sábado e conseguiu sua pole de número 69, entrando no livro dos recordes. Falem o que quiser do inglês, mas ele é simplesmente fenomenal e não incluir Hamilton entre os grandes da F1 será apenas implicância pura e simples com o piloto da Mercedes. Já o outro grande de 2017 decepcionou, com Vettel sucumbindo ao mau desempenho da Ferrari na chuva e nem de longe os vermelhos puderam alegrar sua grande torcida em casa. 

Como a Red Bull trocou várias peças nos carros dos seus pilotos, as boas performances de Verstappen e Ricciardo pouco valeram na definição do grid de amanhã. Com isso, as primeiras surpresas virão logo atrás de Hamilton, com Stroll e Ocon pulando para segundo e terceiro respectivamente. Ambos com motores Mercedes, mas com pouca experiência em largar naquelas posições. Vettel terá que correr atrás do prejuízo e ainda há a indefinição de como estará o clima amanhã. A previsão é de tempo seco, o mesmo de hoje e vimos o que aconteceu. Independentemente do clima amanhã, Lewis Hamilton é o grande favorito à vitória.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Pensando nos pontos

Corrida em Spa é sempre sinônimo de emoção, certo? Nem sempre. Quinze anos atrás, no Grande Prêmio da Bélgica de 2002 a F1 viu uma de suas temporadas mais chatas estragar até mesmo uma prova em Spa. 

Aquela corrida foi tão chata, que durante a transmissão da Globo, Galvão Bueno lançou um desafio para Reginaldo Leme: Quem eram os cinco pilotos da BRM em 1972? Se o desafio fosse feito quinze anos depois, seria logo criado um hashtag e milhares de expectadores ajudariam o Regi a responder o desafio do Galvão. Sem tanta interatividade, Regi contava na época apenas com a sua memória e alguns amigos lhe mandando SMS. Outros tempos.

Um fato interessante nessa corrida foi perceber que os cinco pilotos que receberam a bandeirada foram praticamente os mesmo que largaram nessas posições. Na classificação no sábado, Schumacher fez o melhor tempo com a Ferrari, seguido por Raikkonen (McLaren), Barrichello (Ferrari), Ralf (Williams), Montoya (Williams) e Coulthard (McLaren). Raikkonen quebrou o motor no final da corrida, mas já havia perdido a sua segunda posição para a imbatível Ferrari de Barrichello, enquanto Schumacher liderou de ponta a ponta e venceu exatos dez anos após sua primeira vitória na F1. Montoya e Coulthard superaram um problemático Ralf e assim terminou a corrida, num exemplo claro das forças daquela época. As Ferraris disparadas na frente, Williams e McLaren andando misturadas e só então vinha o resto do pelotão. Em Spa, o sexto colocado foi Eddie Irvine da Jaguar, quase um minuto atrás do terceiro colocado Montoya. 

Na época, apenas os seis primeiros marcavam pontos e pela lógica, se não houvesse um problema com algum piloto das três principais equipes de 2002, os pilotos das equipes médias ficavam zeradas, numa época em que a F1 tinha cada vez menos abandonos, principalmente nas equipes grandes. Estava claro que o sistema de pontuação, praticamente o mesmo desde os primórdios da categoria na década de 1950, estava antiquado para a F1 contemporânea. Colocando na ponta do lápis, as equipes médias gastavam rios de dinheiro para marcar (haviam equipes de fábrica da Ford e da Honda nesse meio), com sorte, oito pontos ao longo de toda a temporada. Como convencer um investidor patrocinar uma equipe para marcar poucos pontos no final do ano? Haviam muitas reclamações à respeito e o sistema de pontuação da Indy era sempre usado como exemplo. Na época, a CART dava pontos até o 12º colocado na bandeirada. Aquela corrida em Spa foi um exemplo cristalino que teria que haver uma mudança no sistema de pontos rapidamente.

Porém, a politicagem de Max Mosley entrou em ação e com medo do domínio avassalador da Ferrari, aumentou-se o número de pilotos marcando pontos na temporada seguinte, mas o valor da vitória foi diminuído, com apenas dois pontos separando o primeiro do segundo colocado. Anos depois essa aberração foi abolida e a vitória passou a valer mais hoje em dia. Muitos puristas ainda clamam pelo sistema de pontos usado entre 1990 e 2002. Trazendo aquela pontuação para 2017, provavelmente teríamos um quadro relativamente parecido com 2002, com duas equipes dominando as quatro primeiras posições (Ferrari e Mercedes) e uma terceira força destacada (Red Bull). As outras equipes? Só reza braba para que um desses carros quebrassem para conseguir um lugarzinho entre os seis primeiros. Numa opinião particular do blogueiro, a corrida em Spa/2002 mostrou bem que aquele sistema de pontuação estava obsoleto para uma F1 com um nível de qualidade dos materiais cada vez maior e onde as quebras se tornavam raras nos carros. Quando metade do grid abandonava com alguma quebra mecânica, o sistema antigo de pontuação funcionou muito bem, mas a F1 evoluiu a ponto de quebras deixarem de ser constantes. E não se pode pedir a uma equipe que construa um carro que quebre. Se a pontuação estava obsoleta quinze anos atrás, ainda está em 2017, portanto, não tenho saudade nenhuma do antigo sistema de pontuação, assim como não tenho saudade nenhuma de 2002, pelos mais variados motivos.

Ah! Os pilotos da BRM em 1972 foram Jean Pierre Beltoise, Peter Gethin, Howden Ganley, Helmut Marko, Alex Soler-Roig, Reine Wisell e Jackie Oliver. Não eram cinco? É que a BRM precisava de dinheiro e vendia a vaga para quem aparecesse com alguma grana, mas os quatro primeiros correram a maioria das provas naquela temporada.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

História: 35 anos do Grande Prêmio da Suíça de 1982

Desde 1955, com a catástrofe em Le Mans, ficou proibido as corridas em território suíço, mas isso não impedia que ocorresse um Grande Prêmio da Suíça e a federação local promoveu sua corrida no exterior, em Dijon-Prenois, na vizinha França. Lugar da primeira vitória de Alain Prost. Com o segundo lugar conquistado em Zeltweg, Keke Rosberg assumia a segunda posição do campeonato seis pontos atrás de Didier Pironi, que nunca mais correria de F1. Apenas um ano antes Keke lutava para conseguir um lugar no grid com a moribunda Fittipaldi e mesmo sem vencer uma única corrida, estava prestes a se tornar Campeão Mundial. Não faltavam críticas em cima do finlandês, acusado de falta do brilho dos grandes campeões, mas ele se aproveitou bem da falta de confiabilidade de Renault e Brabham-BMW, além do azar da Ferrari, para se colocar nessa posição com seu confiável Williams-Cosworth. Alain Prost era anunciado como piloto número um da Renault para 1983 e com isso, René Arnoux estava fora da equipe francesa. Frank Williams negociava com a BMW, mas o chefão inglês não aceitou engolir Manfred Winkelhock, imposição dos bávaros, e no momento em que renovava com Rosberg, anunciava a contratação de Jacques Laffite, que fora piloto da Williams nos primeiros e difíceis momentos da equipe inglesa.

Num circuito em que testava constantemente, não foi surpresa ver a Renault dominar a classificação, conquistada por Prost após uma briga feroz com Arnoux. Isso aconteceu na sexta. No sábado, um calor infernal fez com que as condições da pista piorassem e ninguém melhorasse os tempos do dia anterior. Um segundo atrás da Renault, vinha Patrese em seu Brabham, enquanto Piquet era apenas sexto e reclamando da nova versão da Brabham, que somente ele usou. Niki Lauda disse que sua McLaren estava perfeita em Dijon e conseguiu um notável quarto lugar. O motor Alfa Romeo V12 permitiu à De Cesaris um quinto lugar, enquanto Giacomelli, que havia aceitado as desculpas do companheiro de equipe pelo acidente na largada na Áustria, se colocava entre os dez primeiros. As duas Williams compartilhavam a quarta fila, mas pela primeira vez no ano Daly superava Rosberg. Isso era um pequeno alento para Watson, que ao contrário do seu companheiro de equipe Lauda, não tinha um bom carro na França. Vencedor da corrida anterior, Elio de Angelis conseguiu apenas um 15º lugar, com o seu companheiro de equipe Mansell lutando bastante para conseguir a 26º e última posição do grid.  

Grid:
1) Prost (Renault) - 1:01.380
2) Arnoux (Renault) - 1:01.740
3) Patrese (Brabham) - 1:02.710
4) Lauda (McLaren) - 1:02.984
5) De Cesaris (Alfa) - 1:03.023
6) Piquet (Brabham) - 1:03.183
7) Daly (Williams) - 1:03.291
8) Rosberg (Williams) - 1:03.589
9) Giacomelli (Alfa) - 1:03.776
10) Tambay (Ferrari) - 1:03.896

O dia 29 de agosto de 1982 amanheceu com sol e calor em Dijon-Prenois, mas havia uma novidade não muito boa para os tifosi. Patrick Tambay reclamava de fortes dores do pescoço e não foi à pista no sábado. No domingo as dores permaneceram e a Ferrari resolveu poupar o seu único piloto. Após vários anos, não haveria uma Ferrari numa largada de F1. Por causa do calor, os pilotos se esmeraram na escolha dos pneus. Prost usava os compostos mais macios da Michelin, enquanto Arnoux largou com os mais duros. Todos os pilotos clientes da Goodyear escolheram os mais duros. Na luz verde, Arnoux consegue uma melhor saída e toma a ponta de Prost, seguidos por Patrese e Lauda. Numa manobra audaciosa por fora, Keke pula para o quinto posto, mas durante a primeira volta foi ultrapassado por Piquet. 

Nelson Piquet estava numa estratégia de parar durante a corrida, a grande novidade do ano, mas além do brasileiro, era Prost quem estava mudando de posição, assumindo a liderança na segunda volta e logo marcando a volta mais rápida da corrida. O calor forte, mais o desgaste dos pneus, fez com que o ritmo da prova fosse um pouco mais lento. Piquet ultrapassa Patrese, que não faria um pit-stop programado, na terceira volta e parte para cima de Arnoux. Porém, Piquet não estava confortável com os seus pneus e na quinta volta ele escorrega no óleo derramado pelo estouro do motor de Roberto Guerrero, perdendo um pouco de tempo. Após ultrapassar Lauda, Rosberg ultrapassa Patrese na sexta volta e de forma bastante interessante, acompanhava de perto o ritmo forte de Piquet. Também pensando no campeonato, Watson realizava uma boa corrida de recuperação e ganhava terreno. Na volta 11, Piquet finalmente ultrapassa Arnoux, mas já estava 7s atrás de Prost. Patrese perdia rendimento e após ser ultrapassado por Lauda, era acossado pelo ascendente Watson, que já entrava na zona de pontos. Sabendo que Piquet iria fazer um pit-stop, Arnoux praticamente deixou Piquet passar e acompanhava o brasileiro a distância, com Keke apenas 2s atrás. Porém, a diferença entre Prost e Piquet não diminuía. A tática de Piquet e da Brabham não estava surtindo o efeito esperado.

Na ânsia de ganhar posições rapidamente, Watson ultrapassa Patrese passando por cima de uma zebra, mas se hoje isso é banal, em 1982 era algo que poderia destruir a corrida de um piloto, pois poderia danificar as minissaias laterais, que ajudavam a aerodinâmica dos carros. Não demorou e Watson entrou nos boxes para consertar sua minissaia e saía definitivamente da briga pela corrida. Rosberg abranda o seu ritmo para economizar os pneus, enquanto os três primeiros colocados negociavam com diferentes graus de sucesso espaço com os retardatários. A diferença entre Prost e Piquet chega a cair para a casa dos 4s, mas com Piquet parando na volta 40, exatamente a metade da corrida, sua tática não tinha dado certo. O brasileiro retorna à pista em quinto, quase 50s atrás de Prost e com os pneus duros, pois Piquet não se deu muito bem com os macios. Foi uma tentativa válida para acabar com o domínio da Renault, mas no fim, era os carros franceses que lideravam a corrida suíça. Porém, Prost danificou sua asa esquerda enquanto colocava uma volta num retardatário e Arnoux se enganchava no trânsito. Rosberg e Lauda andavam próximos e quando o finlandês encontrou Andrea de Cesaris, o piloto da Alfa Romeo não facilitou as coisas para Keke, que ficou bastante irritado e quase jogou o italiano, literalmente, na Suíça! Piquet estava num ritmo tão lento, que acaba levando uma volta de Prost, que via seu carro ficar cada vez mais desequilibrado e Arnoux se aproximava aos poucos. Rosberg se aproveitou que De Cesaris estava num daqueles dias e o italiano atrapalhou Lauda a ponto de Keke escapar na frente. O piloto da Williams vinha menos de 10s atrás de Prost.

Em Paul Ricard, a Renault havia mandado Arnoux ceder sua vitória para Prost, no que foi ignorado por René, desafeto declarado de Prost. Com Arnoux se aproximando do seu primeiro piloto, a cúpula da Renault começava a ficar nervosa, pois sabia que René ignoraria solenemente qualquer ordem de equipe para manter as posições. Porém, Arnoux teve o seu motor com problemas de injeção e ele entrou nos boxes lentamente. Eram menos pontos no Mundial de Construtores para a Renault, mas a certeza de uma corrida tranquila para Prost. Ou não? Keke Rosberg já vinha menos de 5s atrás com poucas voltas para o fim. Prost estava com problemas claros de dirigibilidade e toda a França torcia loucamente por Prost e a Renault. Conta a lenda que os organizadores da corrida até tentaram 'diminuir' a corrida, colocando menos voltas para o final no placar eletrônico. Faltando duas voltas para o fim e com Rosberg colado em Prost, o diretor de corridas chegou a entrar na pista com a bandeira quadriculada, mas o pessoal da Williams chiou. Exatamente nessa volta, Prost escorrega um pouco e Rosberg consegue a ultrapassagem consagradora. Por causa da confusão na direção de prova, Keke deu uma volta a mais para finalmente receber a bandeirada de sua primeira vitória na F1. Mais varzeano impossível! A torcida francesa vaiou Rosberg, que tomou a liderança que fora de Prost por 78 das 80 voltas. Lauda completou o pódio, com Piquet superando Patrese no final, mas a tática do pit-stop não havia funcionado a contento. Elio de Angelis fechou a zona de pontuação, bem longe da vitória que conquistara quinze dias antes. Keke Rosberg conquistava a primeira vitória da Finlândia na F1 e assumia a liderança do campeonato. Prost e a Renault amargavam outra derrota doída e para os críticos de Keke, um fato deixava-os ainda mais sem crédito. Se não fosse desclassificado injustamente no Brasil, Rosberg teria se tornado campeão em Dijon, mas com Pironi de fora da temporada, Keke poderia ser campeão em Monza, próxima corrida. O título não demoraria a ser de Keke Rosberg.

Chegada:
1) Rosberg
2) Prost
3) Lauda
4) Piquet
5) Patrese
6) De Angelis

História: 40 anos do Grande Prêmio da Holanda de 1977

Faltando cinco corridas para o final da temporada de 1977, Niki Lauda era o grande favorito a conquistar o seu bicampeonato. As marcas do acidente no ano anterior ainda estavam bem vivas no rosto e na alma do austríaco, mas Lauda superou tudo para fazer um campeonato impecável, onde marcou o máximo de pontos possíveis, incluindo duas vitórias. Jody Scheckter e seu surpreendente Wolf estavam na vice-liderança, mas dezesseis pontos atrás de Lauda e todo o poderio da Ferrari. Mario Andretti (Lotus) e James Hunt (McLaren) pareciam estar melhor equipados em comparação à Lauda, mas ambos já tinham contabilizado muitos abandonos e estavam longe do austríaco, que mesmo na liderança do campeonato, estava insatisfeito. Cansado das intrigas internas da Ferrari, Lauda negociava um contrato com a Brabham, financiado pela Parmalat.

Após algumas corridas difíceis, a Lotus de Mario Andretti voltava a mostrar o seu potencial e o americano conseguia sua quinta pole no ano, tendo ao seu lado a surpreendente Ligier de Jacques Laffite, que crescia após sua primeira vitória na Suécia. O dois contendores do título de 1976 dividiam a segunda fila, seguidos por Nilsson, Reutemann, Peterson e Watson. A Renault retornava à F1 após ficar de fora duas corridas consecutivas. Jabouille sofreu com um turbo quebrado na sexta, mas no sábado o francês conseguiu um impressionante décimo lugar no grid, para alegria dos chefes da Renault.

Grid:
1) Andretti (Lotus) - 1:18.65
2) Laffite (Ligier) - 1:19.27
3) Hunt (McLaren) - 1:19.50
4) Lauda (Ferrari) - 1:19.54
5) Nilsson (Lotus) - 1:19.57
6) Reutemann (Ferrari) - 1:19.66
7) Peterson (Tyrrell) - 1:19.85
8) Watson (Brabham) - 1:19.93
9) Regazzoni (Ensign) - 1:19.93
10) Jabouille (Renault) - 1:20.13

O dia 28 de agosto de 1977 amanhece com tempo bom e um tímido sol nas dunas de Zandvoort, num belo dia para uma corrida de F1. Porém, o dia começou agitado na Ligier quando o motor de Laffite quebrou durante o warm-up e o francês teve que utilizar o carro reserva, que ficou pronto faltando apenas trinta minutos para a largada! James Hunt consegue uma largada espetacular e pula de terceiro para primeiro na freada da curva Tarzan, com Andretti ainda conseguindo um segundo lugar, mas tendo que segurar Laffite. Mais atrás Jochen Mass toca em Alan Jones e acaba na barreira de pneus, acabando com a corrida do alemão da McLaren.

Durante a primeira volta Laffite finalmente ultrapassa Andretti, mas demonstrando a força da Lotus naquele dia, o ítalo-americano nem esperou o início da segunda volta para retomar a segunda posição, ultrapassando Laffite na linha de chegada, enquanto Watson abandonava sua Brabham que vinha colado nas Ferraris, com um vazamento de óleo. Imediatamente Andretti vai para cima de Hunt, iniciando uma briga histórica entre os dois. Ao contrário do que mostra o filme 'Rush', o grande desafeto de Hunt na F1 era Andretti (juntamente com Depailler...) e os dois juntos não poderia dar coisa boa. Andretti sempre tentava a ultrapassagem no final da reta dos boxes e Hunt sempre ficava por dentro, deixando o lado de fora para o piloto da Lotus. Na sexta volta, Hunt repete a manobra, mas Andretti, sabendo que tinha o melhor carro, força a passagem por fora da curva Tarzan. O choque foi inevitável! Andretti bate na traseira de Hunt e roda, por sorte, não é atingido por Laffite e as duas Ferraris, que já vinham colados na briga pela liderança. Hunt continua por alguns metros, até abandonar logo depois, com a suspensão quebrada. Hunt, que iria completar 30 anos naquela semana, ficou irado. Apontando o dedo para Andretti a cada passagem do americano e chegou aos boxes possesso. A relação dos dois, que já não era boa, azedou de vez após esse episódio.

Por incrível que pareça, Andretti não perdeu muito tempo com o incidente e o americano retornou à pista em quarto, logo atrás de Reutemann. Laffite liderava a corrida, com Lauda colado em sua caixa de câmbio. Na décima volta Mario ultrapassa Reutemann na curva Tarzan, local onde tentou ultrapassar Hunt sem sucesso. Logo Andretti cola em Lauda, que se defende bem, mas a briga não duraria muito, pois Andretti tem problemas de motor ainda na volta 14 e abandona. Era o quarto abandono de Mario Andretti devido à problemas mecânicos. Laffite era pressionado pelas duas Ferraris e numa manobra trabalhada, Lauda consegue a liderança na volta 21. Laffite tenta dar o troco, mas logo Lauda aumentava a sua vantagem na liderança. Reutemann vinha próximo de Laffite, mas a segunda Lotus de Gunnar Nilsson se aproximava do argentino. Na volta 35, Nilsson perdeu o controle do seu carro na curva Panorama e acabou fazendo Reutemann rodar. Foi um erro de Nilsson, que naquele momento apenas comboiava Carlos. Para Nilsson, a corrida acabou ali mesmo, enquanto Reutemann teve que ir aos boxes para reparar seu carro. Quem assumia a terceira posição era o surpreendente Patrick Tambay, que fazia sua estreia na F1 naquela temporada e guiava um pouco competitivo Ensign. Jabouille estava em sexto e poderia marcar os primeiros pontos da Renault, mas o francês acabaria abandonando com a suspensão quebrada. A diferença entre Lauda e Laffite nunca superava os 4s. Niki administrava a corrida de forma incrível, sempre demonstrando ter uma reserva técnica, se fosse necessário usar. 

Numa impressionante corrida de recuperação, Carlos Reutemann escalou o pelotão rumo ao sexto lugar, o que lhe garantiu um ponto. Lauda administrou bem a corrida até o seu final e quando foi atrapalhado pelo retardatário Hans-Joachim Struck, permitindo a aproximação de Laffite, Niki marcou a volta mais rápida da corrida. Ao fim de 75 voltas, Lauda recebeu a bandeirada com menos de 2s de vantagem sobre Laffite, mas o francês sequer esboçou um ataque mais sério em cima da Ferrari. No início da última volta Patrick Tambay passa lento na reta dos boxes, mas ainda em terceiro. Porém, o jovem francês acaba ficando sem gasolina na última volta, lhe privando de um incrível pódio nas suas primeiras corrida na F1. Tambay seria escolhido a revelação do ano em 1977 e ainda conseguiu um quinto lugar, pois Reutemann já estava duas voltas atrás do líder. Quem se aproveitou do azar de Tambay foi Jody Scheckter, que amealhou mais alguns pontinhos na sua inglória luta com Lauda pelo título. Numa prova correta, Emerson Fittipaldi levou seu Copersucar à um ótimo quarto lugar, na melhor corrida do modelo F5 até então. Com uma equipe bem mais forte e consistente do que a Wolf do vice-líder Scheckter, além dos abandonos de Andretti e Hunt, Niki Lauda dava um passo significativo rumo ao bicampeonato.

Chegada:
1) Lauda
2) Laffite
3) Scheckter
4) Fittipaldi
5) Tambay
6) Reutemann  

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Figura(BEL): Lewis Hamilton e Sebastian Vettel

Para quem não presta atenção nas minúcias de uma corrida de automóveis, a atuação das grandes estrelas da F1 atual pode passar desapercebida. Houve ultrapassagens? Não. Trocaram de posição? Apenas uma vez, por um bico na reta Kemmel, mas logo Hamilton retomou a posição. Hamilton e Vettel esperaram pelo palco perfeito para mostrarem que ambos estão um nível acima dos demais pilotos do pelotão atual da F1. Talvez com exceção de Fernando Alonso, mas o espanhol não pode mostrar nada por motivos óbvios. Na lendária pista belga, com toda a sua velocidade, seletividade, seus aclives e declives, além de toda a sua dificuldade, Hamilton e Vettel deram um show em todo o final de semana, sempre andando próximos e no limite. A corrida foi 44 voltas de classificação para os dois, com a diferença entre eles nunca superando os 2s. Um erro seria fatal. E ninguém errou. A melhor volta de ambos foi 1s mais rápida do que os demais. Haviam demonstrações de coragem e talento a cada momento. A forma como Hamilton cruzava a Eau Rouge para ficar 1s na frente de Vettel volta a volta mostra bem o quilate do inglês da Mercedes. A coragem com que Vettel atacou Hamilton, após subir a Eau Rouge colado no carro do rival mostrou bem que o alemão da Ferrari não deve nada ao inglês. Hamilton igualou o recorde de Schumacher no quesito poles, mostrando sua velocidade pura. Vettel fez uma corrida perfeita, usando uma leitura da prova ao nível, no mínimo, de Alain Prost. Cada um ao seu estilo, dentro e fora da pista, podem estar escrevendo uma bela página da história da F1. Azar daqueles que só olham para o passado e não curtem o presente.

Figurão(BEL): Force India

Como perder pontos preciosos por falta de comando. Esse é o lema da Force India em 2017. O time hindu está confortavelmente na quarta colocação do Mundial de Construtores, tem uma dupla de pilotos equilibrada e que anda no mesmo nível, mas os chefes da equipe estão tendo mais dores de cabeça do que o imaginado nesse ano. Sergio Pérez e Esteban Ocon são dois pilotos que estão pensando num mundo maior do que a Force India e por causa dessa ganância de ambos de almejarem um lugar numa equipe de ponta num futuro próximo, Pérez e Ocon não se conformam em ficar atrás do companheiro de equipe. A proximidade de ambos fez bem à Force India na medida em que ambos amealharam vários pontos na primeira metade do ano, mas os ruídos começaram ainda no Canadá, reverberando em Baku para finalmente desaguar à Spa. O primeiro contato imediato entre os carros róseos aconteceu logo após a largada, quando Pérez espremeu Ocon contra o muro, segundo o mexicano, de forma involuntária. Apesar do toque, Ocon ficou à frente de Pérez, algo que vinha fazendo o final de semana inteiro. Mesmo dizendo que foi sem querer, a forma como Sergio corria mostrava um homem numa missão, inclusive uma saída de pista que custou uma punição à Pérez. Quando se encontraram novamente, por coincidência no mesmo local do toque depois da largada, Sergio Pérez não queria deixar Ocon passar. E Esteban não queria saber de ficar atrás do companheiro de equipe, que superou o final de semana inteiro. O resultado poderia ser trágico. Pérez deveria salvaguardar seu carro e do seu companheiro de profissão e de equipe. A trancada que o mexicano deu em Ocon foi realmente bastante criticável, ainda mais com um companheiro de equipe, que ficou possesso, inclusive acusando Pérez de ter tentado matá-lo duas vezes! O pós-corrida foi tão agressivo quando dentro da pista, com Ocon falando em conversa de homem para homem e Pérez dizendo que não ia repetir besteiras. Depois ambos amenizaram o discurso para o mundo externo, mas nada leva a crer que Pérez e Ocon fizeram realmente as pazes nos intramuros da Force India. Se nos três últimos anos a chefia da Mercedes conseguiu segurar Rosberg e Hamilton (mesmo assim, foi do jeito que lembramos), o chefão da Force India Vijay Mallya nem pode deixar a Inglaterra, pois pode ser preso. Sem um comando claro, a Force India pode padecer de uma rivalidade acima dos níveis aceitáveis dentro da equipe. 

domingo, 27 de agosto de 2017

Abrindo o campeonato

Marc Márquez corria em terceiro e com a boa vantagem que tinha sobre os seus rivais no campeonato, dá até para afirmar que o espanhol da Honda administrava a corrida pensando nos pontos que tem no campeonato, pois o líder de então Valentino Rossi era justamente o piloto que estava mais longe dele na tábua de pontuação. Antes mesmo da F1 atingir o nível técnico de hoje, onde os abandonos por problemas mecânicos são raros, a MotoGP sempre mostrou esse nível de excelência, com as motos raramente quebrando. Normalmente quando um piloto abandona, é devido à uma queda. Pois Marc Márquez experimentou um dia de Fernando Alonso e viu seu motor Honda explodir já no final do Grande Prêmio da Inglaterra, novamente abrindo o campeonato, que se tornou tão apertado como antes das férias.

Num clima atípico em Silverstone, com sol e calor, a MotoGP nos mostrou uma de suas típicas corridas, com os líderes sempre muito próximos e muita disputa entre eles. Rossi testou bastante em Misano o desgaste de pneus e quando saiu de suas características e largou bem, o italiano parecia não ter adversários rumo a vitória em sua corrida de número 300 na categoria principal do Mundial. Porém, Rossi sempre teve companhia. Maverick Viñales arriscava ao escolher o pneu traseiro macio, o mesmo que lhe garantiu a vitória ano passado, mas ao contrário de 2016, esse ano estava quente em Silverstone. Lorenzo foi logo despachado pelo companheiro de equipe Doviziozo e se juntava às duas Hondas de Márquez e Cruthlow para brigar pela vitória. Lorenzo perdeu o contato com o pelotão da frente e passou a liderar o trio com Johann Zarco e o novamente apático Daniel Pedrosa.

Doviziozo fazia sua corrida cerebral numa moto que claramente não era melhor numa pista cheia de curvas de raio longo como Silverstone. O italiano usava muito bem a potência da Ducati nas longas retas, mas sofria nas curvas. Doviziozo foi ultrapassando um a um, primeiro os dois pilotos da Honda e depois os dois pilotos da Yamaha, até chegar à ponta da corrida já nas voltas finais. Com o surpreendente abandono de Márquez, Andrea retomou a liderança do campeonato e com a quarta vitória na temporada, é o piloto com mais triunfos em 2017, surpreendendo até mesmo seu mais fanático torcedor. Doviziozo não é o piloto mais rápido e habilidoso da MotoGP, mas compensa com muito trabalho e sua pilotagem cerebral. Rossi poderia voltar ao campeonato, depois de jogar a toalha nessa semana, mas o passão que lavou de Viñales o colocou novamente numa situação difícil, mas ainda contornável com o abandono de Márquez. Após muito choramingar pelos cantos nas últimas corridas, Maverick fez uma boa corrida finalmente e nas últimas curvas ensaiou um último ataque em cima de Doviziozo, mas sem sucesso.

Se na F1 a batalha pelo título vai se bipolarizando entre Hamilton e Vettel, na MotoGP a coisa vai ficando indefinida, na medida em que Andrea Doviziozo, uma espécie de patinho feio dos pilotos de ponta, vai continuando seu sonho e na melhor temporada de sua já longa carreira, vai surpreendendo não apenas por se manter na briga pelo título, como liderando na frente de Márquez, que uma hora dessa está telefonando para Alonso para pedir ombro e saber a experiência de ver um motor Honda quebrar. As Yamahas reviveram, principalmente com Viñales, que arriscou tudo e se não ganhou, pelo menos está no páreo. São quatro pilotos de três marcas diferentes na briga. O campeonato está mais aberto do que nunca!