domingo, 15 de março de 2015

Melancolia

Foi triste ver um grid com apenas quinze carros. Se doze meses atrás haviam 22 carros, em 2015 sete carros menos largaram em Albert Park, claro que alguns devidos a problemas técnicos e até físicos, mas está na hora de uma mudança na F1 para que haja mais carros no grid. Não equipes como a Manor, que não conseguiu colocar seu carro de 2014 modificado na pista devido a um software, mas terceiros carros de Mercedes, Ferrari ou Red Bull, para garantir também mais qualidade no grid e evitarmos Marcus Ericssons da vida. Porém, após 58 voltas, Lewis Hamilton não tinha nenhuma preocupação com o tamanho do grid e venceu com sobras a primeira etapa de 2015, ano em que pode lhe garantir um tricampeonato. Se no ano passado a Mercedes ainda se preocupou com a confiabilidade, neste ano o time alemão viu Nico Rosberg chegar com folga em segundo, dando uma ou outra estocada em cima de Hamilton, mas em nenhum momento o inglês se aperriou. Na segunda divisão da F1, Sebastian Vettel conseguiu um marcante pódio em sua primeira corrida da Ferrari, mas os 30s de desvantagem para os carros da Mercedes indicam que o alemão terá que se conformar em brigar com as Williams até o final do ano.

Antes mesmo da largada, vários problemas deixaram o grid mais enxuto desde o infame Grande Prêmio de San Marino de 1982, há praticamente 33 anos atrás. Como dito anteriormente, a Manor fez um grande esforço para conseguir estar pelo menos na F1, mas mais preocupada em resolver abacaxis financeiros e burocráticos, a Manor não teve tempo em mexer no seu carro de 2014 com gambiarras e um simples software da Ferrari fez com que os carros de Will Stevens e Robert Mehri ficassem muito bem estacionados nos boxes em Melbourne. O grid caía para 18 carros. Ontem, Valtteri Bottas sentiu dor nas costas durante a classificação e foi levado para o hospital, talvez explicando a sexta posição no grid do finlandês. Contudo, Bottas não foi liberado pelos médicos da FIA para correr. 17 carros restaram. Quando foi levar seu problemático McLaren-Honda para o grid, o piloto substituto Kevin Magnussen viu o motor nipônico estourar. 16. E finalmente, Daniil Kvyat teve problemas de câmbio ainda antes da largada. E tivemos o melancólico número de quinze carros no grid em Albert Park, que rapidamente caía para treze com o abandono duplo da Lotus e terminaria em onze na bandeirada. Largando na pole, Hamilton fez uma largada convencional, onde não foi atacado por Rosberg e a partir daí, fez um 'sunday drive' em Albert Park. Correndo com sobras, Hamilton apertou nos momentos em que Rosberg, que também correu livre, leve e solto todo o domingo, pensou em ameaçar a posição do companheiro de equipe. Foi uma corrida solitária dos dois carros da Mercedes, onde completaram mais uma dobradinha desde a mudança dos motores V8 aspirados para os V6 turbo. 

Na luta da segunda divisão, Felipe Massa começou melhor ao manter seu terceiro lugar, com Vettel também se mantendo sem quarto, mas numa largada confusa, já que Raikkonen largou muito mal e o jovem estreante Carlos Sainz chegou a meter seu Toro Rosso entre os primeiros, antes que o safety-car desse as caras devido, oh novidade, um acidente de Pastor Maldonado na primeira curva. Com Bottas de óculos escuros dentro do box da Williams e Raikkonen tendo que se recuperar de sua péssima largada, ficou claro que a briga pelo terceiro lugar seria entre Massa e Vettel, com vantagem do brasileiro quando os carros estavam com os pneus macios. Quando a corrida passou de um terço e foi realizado a única rodada de paradas dos líderes, Massa e a Williams vacilaram. Primeiro dos líderes a parar, Massa voltou à pista logo atrás da claudicante Red Bull de Daniel Ricciardo. Mesmo bem mais rápido do que o australiano e a Williams tendo feito um ótimo pit-stop, Massa não foi capaz de ultrapassar Ricciardo até esse fazer seu único pit-stop. Quando Vettel fez sua única parada algumas voltas mais tarde, o alemão retornou tranquilamente na frente de Massa, em terceiro, e com os pneus médios, pôde controlar com facilidade Massa até a bandeirada. Após um ano ruim com a Red Bull, Vettel começou com pé direito sua aventura pela Ferrari, ao contrário de Raikkonen. Após sua péssima largada, Kimi foi um dos primeiros a fazer seu pit-stop, mas um problema na roda traseira esquerda fez o piloto da Ferrari perder muito tempo. Calçado ainda com os pneus macios, Raikkonen era um dos pilotos mais rápidos na pista, mas teria que fazer uma segunda parada e desta vez a Ferrari se atrapalhou bisonhamente, ao liberar Raikkonen quando o mecânico da problemática roda traseira esquerda não tinha apertado direito a pneu e o finlandês abandonou algumas curvas mais tarde, com a roda solta. 

Já Felipe Massa, mesmo tendo largado em terceiro e ter caído de posição numa corrida com poucos carros, não tem muito do que reclamar, vide seu péssimo histórico em Melbourne, onde ano passado ele ficou na primeira curva, atropelado por um Kobayashi sem freios. Bons pontos no campeonato logo de cara, ao contrário do ano passado. Porém, o melhor Felipe do dia foi o novato Nasr. Numa pilotagem extremamente segura, o brasileiro da Sauber fez uma corrida excelente, onde ultrapassou com decisão Carlos Sainz na relargada, assumindo o quinto lugar. Logo, o brasiliense tinha em seus retrovisores Daniel Ricciardo, piloto da casa, e Kimi Raikkonen, louquinho para diminuir o prejuízo. Sem se abalar, Nasr segurou bem a pressão de dois pilotos que já venceram na F1 e se acabaria superado por Raikkonen, não fosse o problema do finlandês, segurou com maestria Ricciardo, garantindo o quinto lugar em sua estreia, a melhor de um brasileiro na F1. Se Nasr conseguiu esse resultado numa corrida com poucos carros, devemos lembrar que nos anos 70, 80 e em menor intensidade 90, os carros quebravam muito e não raro, pouquíssimos carros terminavam as provas, principalmente nas corridas de abertura de campeonato. Foi uma ótima corrida de Nasr, talvez atrás de Hamilton, o grande destaque da prova. Algo que não aconteceu na transmissão da Globo. A ideia de trazer convidados para a transmissão da corrida seria ótima, se os agregados entendessem do assunto. Raul Boesel e Bia Figueiredo até trouxeram algumas informações interessantes e embasadas, mas ter dois atores e o Giba do vôlei foi dose de matar elefante. As comparações entre F1 e o vôlei, na tentativa do Galvão de trazer Giba para a transmissão foram ridículas, enquanto os dois atores, que nem sei o nome, só falaram amenidades e meteram até MMA no meio. Na tentativa de melhorar a transmissão, a Globo poderia usado mais a técnica e menos o entretenimento. 

Quem também não foi muito brilhante foi o companheiro de equipe de Nasr. Já contando com uma temporada de experiência na F1, Marcus Ericsson foi completamente superado pelo novato brasileiro na Sauber, mas com poucos carros, o sueco ainda pôde marcar seus primeiros pontos na F1, mas foi o único a fazer três paradas, principalmente devido a um erro que estragou um jogo de pneus macios. Após toda a contenda com Giedo van der Garde (o grid poderia ter apenas treze carros...), a Sauber saiu de Melbourne no lucro, com seus dois carros nos pontos, após não marcar nenhum ano passado. Porém, ficou claro que dos seus dois pay-drivers, Nasr é muito melhor. A Red Bull teve uma corrida para esquecer. Inicialmente, Kvyat nem largou, enquanto Ricciardo fez uma prova discreta, onde não conseguiu atacar Nasr pela quinta posição. Aparentemente o motor Renault é o mais fraco da F1 atual e a paciência dos chefões da equipe que há dois anos atrás dominava a F1 está perto do fim. Carlos Sainz fazia uma bela estreia, talvez tão boa quanto a de Nasr, mas um problema na roda traseira esquerda do seu Toro Rosso acabou jogando o espanhol para a últimas posições, mas Sainz ainda conseguiu marcar pontos. Max Verstappen, que entrou para a história da F1 ao largar com 17 anos e meio, fazia uma corrida ok, quando teve problemas em seu carro logo após o seu pit-stop. O básico, Max já fez, mas se será o fenômeno que todos dizem que ele é, ainda não foi possível constatar. A Force India foi outra equipe discretíssima. Com problemas financeiros, o time hindu testou muito pouco na pré-temporada e usou a corrida para ganhar quilometragem, mas com poucos carros no fim, ainda foi capaz de marcar pontos com seus dois pilotos, porém, já de para perceber que a Force India é a pior equipe Mercedes, pois mesmo abandonando na primeira volta, a Lotus dá pinta de estar melhor do que o time de Vijay Mallya. Se Grosjean abandonou devidos à problemas em seu carro, adivinhem como Maldonado abandonou? Batendo e trazendo o primeiro safety-car do ano! Maduro terá que usar muito de sua grana bolivariana para gastar em funilaria...

E por último, literalmente, a McLaren. Foi uma corrida totalmente vexatória de duas marcas que, quando juntas, entraram na história da F1. Quando a Honda fez seu primeiro retorno em meados dos anos 80, o time utilizou uma equipe pequena como cobaia e só então foi para a Williams, com quem tinha contrato. Começando desse jeito, a Honda se expõe sobremaneira negativamente, pois por mais que a McLaren não faça algo de bom na F1 desde 2012, os ingleses não desaprenderam a construir carros, além de que Jenson Button, que foi um herói ao levar o seu problemático carro até o fim, tem a garantia de um campeão mundial, Enquanto isso, Alonso deve estar louco, ou se fazendo de um, para não ter que voltar a correr em tamanha cadeira elétrica.

A F1 começou sua 66º temporada com a sensação de que 2014 ainda não acabou. A Mercedes já tem o título praticamente assegurado nas mãos e com Hamilton numa fase esplendorosa, 2015 começa com o cheirinho de 2002, quando a Ferrari tinha um carro infinitamente melhor do que o resto e Michael Schumacher no seu auge. Contudo, para tristeza de todos, aquele ano foi considerado um dos mais chato e enfadonhos da história da F1.

2 comentários: