domingo, 16 de outubro de 2016

O doce cheiro do título

Quando Márquez chegou ao Japão, primeira parte da insana sequência de três corridas consecutivas no Oriente do Mundial de Motovelocidade, o espanhol declarou que dificilmente seria campeão na pista da Honda. Para se sagrar campeão em Motegi, Márquez precisaria de muita sorte, pois teria que contar com o abandono de Rossi e Lorenzo chegar fora do pódio. Cautela era o mantra de Márquez para esse final de semana. Porém, todo campeão é bem dotado de sorte e Márquez foi bafejado pelas quedas de Rossi e Márquez para conquistar seu terceiro título na MotoGP e quinto no geral, com uma vitória sem contestações em Motegi.

Foi uma corrida sem maiores emoções, onde a largada foi o momento mais intenso da prova, com Rossi perdendo a pole para um sempre eficiente Lorenzo no apagar das luzes vermelhas, enquanto Márquez se metia entre as duas Yamahas. Lorenzo tinha sofrido um acidente muito forte no sábado e corria sob efeito de analgésicos. Muito provavelmente o espanhol da Yamaha não conseguiria manter um ritmo muito forte a corrida toda e em poucas voltas, Lorenzo já era ultrapassado por Márquez e Rossi. Para os arautos das teorias da conspiração, Lorenzo não deu tanto trabalho para Márquez, mas não teve a mesma cortesia com o seu companheiro de equipe, tanto que quando Rossi ultrapassou Lorenzo, Márquez já tinha ido embora. A configuração do campeonato naquele momento levava a crer que Márquez teria totais chances de garantir o título na próxima etapa, mas Rossi ainda queria estar na briga. O italiano forçou o que podia para tentar acompanhar Márquez, contudo, Rossi deve ter forçado o que não podia, caindo sozinho ainda no primeiro terço da corrida. O título ainda não estava garantido, mas estava nas mãos de Márquez.

Por meros quatro pontos, o título não se decidiria em Motegi, com o segundo lugar de Lorenzo. No entanto, o espanhol da Yamaha vinha perdendo rendimento e era alcançado pelo terceiro colocado Andrea Doviziozo. Cansado e sentindo dores, Lorenzo também caiu sozinho e já nas voltas finais da corrida e Márquez garantia, matematicamente, o seu título.

O ano de 2016 começou com amplo favoritismo da Yamaha, pois a montadora não apenas era a atual campeã, como a Honda não tinha se entendido muito bem com a nova eletrônica padrão que foi imposta pela Dorna esse ano. Nos testes de pré-temporada, Lorenzo voou, enquanto Márquez sofria. Porém, nunca é bom subestimar a força da Honda. A equipe trabalhou incessantemente para voltar ao nível de sua histórica rival e já na primeira etapa, a Honda estava andando junto com a Yamaha. Ano passado Márquez era o piloto mais rápido do pelotão, mas as constantes quedas fizeram com que o espanhol da Honda sequer brigasse pelo título, mesmo tendo várias vitórias em 2015. Márquez teria que domar seu ímpeto e, principalmente, seu ego para poder lutar com as raposas felpudas da Yamaha. O estilo 'vai ou racha' de Márquez foi embora, dando lugar ao tático Marc Márquez. Mesmo na impressionante sequência de oito pilotos diferentes vencendo na MotoGP, Márquez não deixou de estar marcando muitos pontos, até mesmo quando a vitória estava nas suas mãos, como foi em Assen, quando abdicou de uma luta com o franco atirador Jack Miller.

Já os pilotos da Yamaha tiveram um ano para esquecer. Mesmo a Honda voltando a andar bem, a impressão geral era que a Yamaha ainda era a melhor moto do grid, mas seus dois pilotos pareciam sofrer com seus próprios demônios. Rossi ainda estava chateado pela perca do título de 2015, talvez por saber que dificilmente ele conquistará seu sonhado décimo título. O italiano lutou como sempre, mas caiu como nunca. Foram várias quedas quando corria sozinho e ao longo do ano, Rossi ainda mostrava um certo ranço pelo o que aconteceu ano passado. Alçado, mais uma vez, a vilão da companhia, Jorge Lorenzo não parecia totalmente focado como em outros anos. Reclamando de tudo e de todos, Lorenzo só mostrava serviço quando tudo estava 100% a favor dele e suas atuações ridículas na chuva deram razão aos (muitos) críticos do espanhol, que dizem que Jorge não é um piloto completo. De saída para a Ducati, Lorenzo cometeu o mesmo erro de Rossi: não foi constante. Rossi e Lorenzo caíram várias vezes, abrindo espaço para Márquez e outras surpresas. A Suzuki voltou a vencer em pista seca após dezesseis anos, mas sua reserva técnica, o talentoso Maverick Viñales, está de malas prontas para substituir Lorenzo na Yamaha. As escolhas da Suzuki são duvidosas para 2017. O novato Alex Rins e o inconstante Andrea Iannone vestirão azul em 2017. Iannone mostrou sua incrível velocidade na maior parte do tempo, mas o problema é que o italiano continuou mostrando sua chama pelo asfalto e pela brita, caindo inúmeras vezes. Por isso a Ducati preferiu Doviziozo, um piloto que não tem a mesma velocidade de Iannone, mas é muito mais confiável. Dani Pedrosa, mais uma vez machucado em Motegi, teve seu pior ano na MotoGP e saiu da lista dos grandes pilotos da MotoGP, ficando longe de Lorenzo, Márquez e Rossi. Ainda assim, de forma até mesmo inexplicável, a Honda apostou mais uma vez no já veterano espanhol, que voltará em 2017 mais uma vez para apanhar de Márquez. Algo que Pedrosa já se conformou.

2016 será um ano marcante para a MotoGP. A chegada da nova eletrônica padrão e os novos pneus da Michelin mexeram no status quo da categoria, com duas marcas votando a vencer (Suzuki e Ducati), além de pilotos de equipes satélites triunfando após dez anos (Miller e Cruthlow), mas no fim, foi um piloto oficial da Honda que conquistou o campeonato com três provas de antecedência. Márquez usou a cabeça para se livrar dos vários problemas que lhe apareceram na frente e como em 2013, soube aproveitar os problemas dos seus adversários diretos. Com seu talento impressionante, Marc Márquez vai fazendo história. Aos 23 anos, Márquez tem cinco títulos mundias e toda uma carreira pela frente para entrar no panteão dos grandes do Mundial de Motovelocidade.

4 comentários:

  1. finalmente assinei uma tv e comecei a assistir as motos.
    Acho que devo ter dado azar, porque da emoção que eu via todo mundo falando que tinha eu não vi nada.

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Mas mesmo quando estava focado e com tudo 100% a seu favor,Lorenzo já vivia reclamando e choramingando e nesse ano não foi nada diferente de tudo que ele já fez em outras épocas quando as coisas não corriam 100% a favor dele.

    ( E ai da Ducati se a GP17 não nascer um canhão de outro planeta...)

    Rossi mostrou muita velocidade,mas não mostrou a mesma constância e regularidade de 2015,foram uma penca de erros e quedas bobas que lhe custaram muito caro em 2016.


    Se mantiver a velocidade que mostrou nesse ano e recuperar a consistência de 2015,Rossi tem tudo pra enfim,conquistar o tão sonhado e almejado décimo título,mesmo com Marquez amadurecido e com Viñales na crista da onda.

    Agora,Rossi precisa enterrar definitivamente os acontecimentos de 2015 e fazer o seu relógio andar pra frente novamente. Se continuar amarrado aos fatos do passado,Rossi vai continuar cometendo erros e mais erros,mas se colocar um ponto final nisso,ai poderá guiar da forma que só Rossi é capaz de fazer.

    ResponderExcluir